Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 26 de Março de 2007, aworldtowinns.co.uk

O petróleo, o gás e o reaparecimento da Rússia como potência mundial:

V – Conclusão

A vasta extensão da sua rede de oleodutos e gasodutos confirma as prioridades económicas da Rússia. Além disso, também demonstra o papel estratégico que a energia desempenha não só na economia russa como no fortalecimento e na reconfiguração da nova classe dirigente capitalista da Rússia e na projecção dos seus interesses no estrangeiro. Como afirmou a especialista em temas russos, Margot Light: “As exportações energéticas são a nova força da Rússia, (...) a Rússia descobriu um poder suavizado. (...) A predecessora da Rússia, a União Soviética, recorreu precipitadamente ao poder rígido da força militar, na ausência de outras alavancas.” (Guardian, 30 de Junho de 2006) Também tem uma excelente localização geoestratégica para exportações energéticas, perto da Europa do norte, oriental e central e a pouca distância da China, Índia e Japão. Além disso, a Rússia ainda tem influência e em alguns casos o domínio de muita da Ásia Central e do Cáucaso. Essa posição geoestratégica dá às redes russas de oleodutos e gasodutos a oportunidade de se ligarem a uma vasta parte do mundo.

A Rússia perdeu a maior parte, se não toda, a sua influência no Médio Oriente depois do colapso da URSS, e tem-se empenhado em recuperar pelo menos parte dela. Não há dúvida nenhuma que uma séria influência no Médio Oriente colocaria a Rússia numa posição qualitativamente diferente da actual. As suas esperanças não foram completamente ofuscadas. Os EUA não gostariam de ter de fazer qualquer tipo de compromisso ou concessão nessa região, mas como estão aprisionados numa situação que eles próprios criaram no Iraque, podem não conseguir manter um controlo tão apertado como gostariam. Por outras palavras, a actual situação que está a correr tão mal para os EUA no Iraque também deve ser vista tendo em conta as esperanças da Rússia de agarrar essa oportunidade, utilizando todos os meios à sua disposição para progredir em diferentes esferas. A relutância da Rússia em cooperar com os EUA em relação ao Irão e as recentes movimentações para uma melhoria das relações diplomáticas e políticas entre Moscovo e Teerão também podem ser encaradas deste ponto de vista.

A ênfase nas exportações de gás e petróleo e no seu controlo monopolista é apenas um aspecto da economia russa, embora talvez seja o mais importante à escala internacional neste momento. A Rússia também continuará activa no sistema financeiro e bancário global. É provável que continuem os investimentos directos e os empréstimos da Rússia aos países oprimidos e sobretudo aos países da Ásia Central. Essa é outra via da manutenção e do alargamento do domínio russo, tal como o é para todos os países imperialistas. Da mesma forma, também há a questão da produção e das vendas internacionais de armas russas, em que é um líder ao lado dos EUA e da França. A Rússia é muito boa a projectar e fabricar toda a gama de armas modernas e isso também continuará a representar um importante papel, incluindo nos seus esforços para ganhar influência política, para além de lucro, nalgumas regiões do mundo em que a Rússia está particularmente interessada. Basicamente, em última instância, uma economia forte não consegue garantir o êxito no mundo ou mesmo o domínio regional, a menos que seja apoiada por uma poderosa força militar. Embora a Rússia e os EUA já não estejam na mesma rota de confronto militar em que estavam antes de a URSS ter sido obrigada a abandonar a corrida aos armamentos, as questões militares têm uma forma rápida de virem à superfície. Veja-se, por exemplo, as recentes tentativas dos EUA para instalarem sistemas de mísseis de intercepção na República Checa e na Polónia que poderiam ser um passo para bloquearem a retaliação nuclear russa no caso de os EUA atacarem primeiro.

Mas a decisão da Rússia de tirar proveito das suas vantagens energéticas e das dificuldades dos EUA no Médio Oriente, combinada com uma procura de relações mais próximas e de possíveis alianças com alguns países europeus, não é necessariamente uma estratégia de vitória. Tem limitações intrínsecas. É verdade que algumas potências europeias estão descontentes por se verem forçadas a actuar como parceiros menores dos EUA. Mas que isso signifique uma aliança com a Rússia está longe de ser claro neste momento. Além disso, os oleodutos e os fluxos energéticos com que a Rússia conta como vantagem podem vir a revelar-se um elo fraco e um ponto de disputa entre a Rússia e a Europa. Não há dúvida nenhuma que a Europa não está unida quanto à questão de uma cooperação mais próxima com a Rússia, e os EUA não vão ser espectadores neutros dos acontecimentos nessa parte do mundo. Os EUA tentarão certamente sabotar essa cooperação e a evolução nessa direcção.

Além disso, embora a Rússia tenha uma forte produção de aço e alumínio, um requisito básico no desenvolvimento e no fornecimento de petróleo e de gás, a sua economia não é tão diversificada como a das outras potências imperialistas. Em particular, falta-lhe alguma da alta tecnologia que pode ser necessária para esse desenvolvimento e que as potências ocidentais não partilharão a menos que isso sirva ao seu próprio investimento e interesses. A Rússia aposta em compensar as suas fraquezas aliando-se aos países europeus, em particular à Alemanha. No seu discurso do estado da união de 2006, Putin “mencionou os EUA como apenas um país numa lista de vários países e agrupamentos regionais que a Rússia deveria considerar importantes, que incluem a China, a Índia, a América Latina e o Pacífico asiático. Em contraste, ele descreveu a UE como o ‘maior parceiro’ da Rússia.” (Guardian, 30 de Junho de 2006)

Nesse discurso, Putin criticou o “unilateralismo” dos EUA. Sem citar nenhum nome, disse: “Nós vemos o que está a acontecer no mundo. Como diz o provérbio, o lobo sabe quem deve comer. Sabe quem deve comer e, ao que parece, não está disposto a ouvir ninguém.” No discurso de Putin na recente Conferência de Munique sobre Política de Segurança, ele chegou a atacar abertamente os EUA: “Os Estados Unidos ultrapassaram os seus limites em todas as esferas – económica, política e humanitária – e impuseram-se a outros estados”. (O texto completo do discurso dele está disponível em www.securityconference.de.) Estas palavras falam por si próprias em termos da crescente autoconfiança dos governantes da Rússia.

Uma análise da estratégia regional e mundial da Rússia do ponto de vista político e militar necessita de um exame e de uma discussão separadas. Mas como a Rússia está a edificar a sua base económica interna e como a dimensão internacional disso é um importante desenvolvimento que deve ser compreendido de forma a se perceberem os outros aspectos da estratégia russa. Isto também é importante para se perceber mais claramente os actos e as agressões que estão a ser levados a cabo por todas as potências imperialistas e a actual situação mundial global. Isso é indispensável para que as forças revolucionárias e os povos do mundo as combatam melhor.

Série: O petróleo, o gás e o reaparecimento da Rússia como potência mundial
I – Um olhar mais alargado sobre a disputa Rússia-Bielorrússia
II – A nova estratégia económica da Rússia
III – Os esforços de Putin nos últimos anos
IV - O gasoduto do Norte da Europa e o seu papel
V – Conclusão