Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 12 de Março de 2007, aworldtowinns.co.uk

O petróleo, o gás e o reaparecimento da Rússia como potência mundial:

III – Os esforços de Putin nos últimos anos

Para chegar a esta fase e poder passar à ofensiva, a Rússia tem trabalhado para construir uma infra-estrutura, incluindo a criação e o fortalecimento de monopólios de gás e petróleo e a construção de uma enorme rede de gasodutos e oleodutos que ligam a Rússia a outros países, sobretudo na Europa.

Como resultado, a companhia de gás Gazprom e a Rosneft, a companhia petrolífera, emergiram como dois dos mais poderosos monopólios de energia do mundo, com o poder de controlarem uma grande parte do mercado. A Gazprom evoluiu para principal “gerador do mercado” de gás da Europa – por outras palavras, embora não o controle, é capaz de definir o ritmo que os outros têm de seguir.

No ano passado, a Gazprom vendeu 45 pcm de gás à Europa (dois terços deles transportados através da Bielorrússia), um quarto do total das importações de gás da Europa. Estima-se que este número suba para um terço em 2010. Prevê-se que em 20 anos a UE dependerá da Rússia para 70 por cento da sua energia. A Alemanha, com a economia mais poderosa da Europa, é o principal cliente da energia russa. A Alemanha já compra mais de um terço do seu gás e um quinto do seu petróleo à Rússia.

Tal como os monopólios e cartéis ocidentais, a Gazprom e as outras companhias russas de energia não conseguem atingir e manter a sua posição sem apoio estatal. Todos os principais monopólios de energia usaram a diplomacia, a manipulação, as ameaças e a intervenção militar patrocinadas pelo estado para facilitarem a sua expansão. A cooperação entre a Gazprom e as outras companhias russas de energia e a sua expansão não foi motivada somente pelo lucro no sentido mais estreito e imediato. O principal objectivo da sua estratégia económica é servir os interesses de longo prazo do capital russo: ressuscitar a Rússia como potência influente. A coordenação de planos económicos e políticos foi bastante acelerada durante a presidência de Putin.

Como disse Chris Weafer, um analista de energia do Banco Alfa em Moscovo: “[H]ouve três fases na transição planeada por Putin. A primeira foi criar os campeões nacionais, os maiores dos quais são a Gazprom e a Rosneft, a companhia petrolífera cujas acções oscilaram cerca de 12 por cento em Londres no verão passado, valorizando a companhia em 80 mil milhões de dólares. A segunda fase foi estender o controlo estatal aos recursos energéticos russos – em grande parte usando essas companhias que listam aliados e ministros de Putin nas suas administrações. Foi assim que o ano passado a Shell e a Total receberam ‘abraços de urso’ [ou seja, o governo de Putin forçou-os a vender a maior parte dos seus activos russos]. A terceira fase foi a Rússia expandir-se ‘tanto quanto podia’ e aumentar a capacidade dos oleodutos e das refinarias e arranjar clientes nos seus mercados da Europa Ocidental através da compra de acções das empresas fornecedoras.” (The Observer, 7 de Janeiro de 2007)

Ao mesmo tempo, a Gazprom e outras companhias russas de gás e petróleo têm feito um esforço para integrar ainda mais a Rússia na economia da Europa Ocidental através da cooperação e de sociedades com companhias europeias. Para isso, as companhias russas, bem como o estado russo, têm procurado desenvolver boas relações com alguns países, sobretudo a Alemanha. “As ‘parcerias’ da Gazprom com companhias de energia e bancos alemães também ajudaram a persuadir Berlim a colaborar a favor da Gazprom e dos objectivos russos”, disse Robert R. Amsterdam, um conselheiro internacional de defesa do antigo oligarca da energia Mikhail Khodorkovsky (International Herald Tribune [IHT], 9 de Janeiro de 2007).

Para controlar sobretudo o mercado europeu, a Rússia e a Gazprom empenharam-se em tácticas duais em relação a outros produtores de gás. Por um lado, a Rússia fez todo o possível para impedir o Irão de estabelecer uma infra-estrutura que lhe permitiria competir como fornecedor de gás ao Cáucaso, à Ásia Central e à Europa. Além disso, a Rússia comprou efectivamente todo o sector de energia da Arménia para bloquear as exportações iranianas de gás. Ao mesmo tempo, a Rússia também procurou obter o controlo das exportações de gás no resto do mundo, estabelecendo parcerias e cartéis com outros importantes produtores de gás como o Irão e a Argélia.

Entre os dois, a Rússia e o Irão têm cerca de metade das reservas mundiais de gás actualmente conhecidas, como comentou recentemente o Aiatola Khamenei durante as conversações em Teerão do Secretário do Conselho Russo de Segurança, Igor Ivanov, com o líder supremo iraniano. Ele sugeriu que os dois países formassem uma organização tipo OPEC de controlo da produção e distribuição global do gás (IHT, 30 de Janeiro de 2007). Significativamente, porém, seguindo o mesmo padrão das relações russo-bielorrussas, a Rússia tanto procura a cooperação com os mulás na prossecução dos seus interesses políticos e económicos de longo prazo, como também torna claro que não está disposta a perder dinheiro, nem sequer a curto prazo, em projectos como o reactor nuclear que está a fornecer ao Irão.

Segundo o mesmo relatório, “a União Europeia, que depende da Rússia para cerca de um quarto das suas importações de gás, expressou a semana passada a preocupação de que a Rússia e a Argélia, outro importante fornecedor de gás da UE, pudessem criar um cartel do gás que poderia ferir os consumidores da UE”. Noutros casos, a Gazprom usou o seu controlo do mercado para ter impacto em mercados como a Espanha e a Itália, buscando acordos no gás com países como a Argélia que os fornece, em troca de vantajosas vendas de armas e de condições preferenciais de dívida.

Em termos de investimento doméstico, os governantes da Rússia mostraram a sua firme intenção de assegurarem que os monopólios que estão a construir permanecerão solidamente sob controlo russo. Um exemplo disso foi a disputa o ano passado entre a companhia anglo-holandesa Royal Dutch Shell e a Gazprom. A Shell pode ser a segunda maior companhia do mundo, mas isso não impediu o governo russo de a tratar duramente. No final de 2006, a Shell e os seus parceiros foram forçados a vender à Gazprom a sua posição maioritária no projecto de 20 mil milhões de dólares Sakhalin-2, estabelecido há uma década atrás num acordo com o governo russo. A Shell e os seus parceiros já tinham enterrado mais de 10 mil milhões de dólares nesse empreendimento de exploração do gás siberiano. Muitos analistas pensam que a Exxon Mobile, com sede nos EUA (a maior companhia do mundo) e a BP (Grã-Bretanha) enfrentarão este ano uma pressão semelhante. A BP investiu mil milhões de dólares na Rosneft, através de acordos ou de empreendimentos com essa companhia; a empresa norte-americana Conoco também investiu 3 mil milhões de dólares na Lukoil e tem um membro na sua administração.

Durante as duas últimas décadas, as multinacionais ocidentais desfrutaram de uma liberdade quase completa para devorarem os recursos das matérias-primas russas com poucas restrições ou sérios desafios do país anfitrião. Quase do dia para a noite, Putin pôs um fim dramático a essa situação. Os analistas económicos ocidentais também pensam que “os novos centros do poder da Rússia – a Gazprom, o monopólio dos oleodutos Transneft e a gigante petrolífera nacional Rosneft – continuarão quase seguramente a avançar, a comprar cada vez mais activos no país e no estrangeiro e a ampliar a rede de energia do país.” (IHT, 12 de Janeiro de 2007)

Esta política de endurecimento não é um processo num só sentido. As potências ocidentais também têm colocado restrições económicas à Rússia. De facto, a disputa na esfera económica já começou a aparecer abertamente e pode levar a formas mais abertamente políticas.

A analista de energia Weafer escreveu: “Espero que em 2007 haja conversações de alto nível entre a Rússia e a Europa... A Rússia pode dizer: ‘Nós estamos agora em posição de desenvolver os nossos recursos petrolíferos e de gás e em princípio não temos nenhuma objecção a fazê-lo em conjunto com companhias europeias. Mas, em troca, queremos ter acesso irrestrito a investimento na Europa.’ A janela de oportunidade está aberta enquanto Putin lá estiver e a Alemanha estiver a liderar a UE (no Outono passado, a Chanceler Angela Merkel manteve conversações com Putin sobre cooperação). Até agora, as movimentações russas para ocidente têm encontrado resistência. Uma tentativa de um banco estatal russo para comprar a empresa aeroespacial Eads teve forte resistência e a indicação do seu interesse na Centrica foi aí recebida com ambiguidade.” (Observer, 7 de Janeiro de 2007). A Eads é a holding por trás da Airbus, uma das duas únicas empresas que fabricam jactos gigantes do mundo, uma questão de importância militar estratégica, além de económica. A Centrica é uma importante companhia europeia de gás.

(Continua em: IV - O gasoduto do Norte da Europa e o seu papel)

Série: O petróleo, o gás e o reaparecimento da Rússia como potência mundial
I – Um olhar mais alargado sobre a disputa Rússia-Bielorrússia
II – A nova estratégia económica da Rússia
III – Os esforços de Putin nos últimos anos
IV - O gasoduto do Norte da Europa e o seu papel
V – Conclusão