Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 11 de Junho de 2007, aworldtowinns.co.uk

Alemanha: A semana de acções contra o G8 foi um grande sucesso


Contingente Um Mundo A Ganhar nos protestos anti-G8

A semana de manifestações e outras acções entre 2 e 8 de Junho, antes e durante a cimeira do G8, foi marcada por um espírito radical e aberto e por um desejo apaixonado de agir que, graças à unidade e à criatividade despertadas por esse espírito, produziram bons resultados.

À excepção das manifestações na véspera da invasão do Iraque em 2003, este foi o maior e certamente o mais significativo acontecimento deste tipo na Alemanha desde a unificação do país em 1989. Não foi tão grande como a manifestação de Agosto de 2001 contra o G8 em Génova, Itália, mas essa foi a última vez que o G8 ousou reunir-se perto de um importante centro populacional. Este ano, a cimeira decorreu na aldeia-estância de Heiligendamm, no leste do país, cercada pelo Mar Báltico e por campos agrícolas.

O maior evento foi a manifestação de sábado, 2 de Junho, no centro de Rostock, a 30 quilómetros do local do G8. A vasta mistura de manifestantes – cerca de 80 000 pessoas, segundo a modesta estimativa fornecida pelos organizadores – incluía contingentes da organização antiglobalização Attac, diferentes tipos de ONGs, a Greenpeace, partidos da esquerda parlamentar e todo o espectro de grupos políticos de esquerda, várias coligações radicais anti-G8, organizações feministas, organizações multinacionais de defesa dos imigrantes, palestinianos e apoiantes da sua causa, grupos religiosos, sindicatos e muitos outros – e companhias de artistas de teatro, bandas e brigadas de tambores, grandes balões, bonecos gigantes e flutuadores fantásticos que satirizavam o G8 e os seus principais políticos. Um dos contingentes era liderado pelo Comité Iraniano de Organização Contra o G8 que salientou a ameaça de guerra contra o Irão e a necessidade de oposição aos EUA e ao regime islâmico.

Um grande número de pessoas não estava ligado a qualquer organização ou coligação. De facto, a única grande força organizada parece ter sido o Bloco Negro, onde muitos dos seus membros vestidos de negro se consideram a si próprios anarquistas e são conhecidos pela sua disposição para a luta. Apesar do seu nome, são tudo menos um bloco monolítico, politicamente ou de qualquer outra forma. Com toda a sua variedade, a maioria dos manifestantes parecia ter vindo porque acredita que o mundo em que vivemos, com a sua miséria, pobreza, opressão e exploração, é insuportável e está a piorar rapidamente.

A situação nos acampamentos, onde a maioria das pessoas tinha bem menos de 30 anos, era ainda mais diversa. Foram montados três acampamentos no campo, com cerca de 15 000 pessoas no seu ponto máximo e provavelmente várias vezes esse número no total. Uma coisa que foi diferente da última mobilização de massas contra o G8, em Gleneagles, Escócia, em 2005, foi a elevada percentagem de pessoas que vieram com a intenção de confrontar a cimeira e as autoridades de uma forma ou de outra. Com uma colorida mistura de historiais, códigos de roupa e ideias contraditórias – e uma variedade multicolor e desordenada de mini-tendas, tendas de vários exércitos, tendas de circo e estruturas improvisadas – veio um estimulante nível de unidade contra “o sistema”, apesar de todo o tipo de percepções do que é esse sistema. Também havia uma ampla – embora de forma nenhuma universal – abertura à ideia de que é necessária uma mudança radical. As palavras de ordem “Fazer o capitalismo passar à história” eram imensamente populares, de novo com vários graus de dúvida sobre se isso era possível e com ideias contraditórias sobre o que isso significa.

Durante o dia, os manifestantes espalhavam-se pela cidade para se manifestarem ou preparavam os bloqueios seguintes. Alguns dos bloqueios de protesto acabaram por ser mais centralizados do que o que os manifestantes tinham previsto porque a polícia reteve os comboios e os autocarros longe da zona de Heiligendamm, forçando-os a caminharem pelos bosques para chegarem perto da cerca. Mas também houve inúmeros grupos pequenos e descentralizados que fizeram bloqueios em muitos locais diferentes. À noite, pequenos grupos de jovens nos diferentes “barrios” de acampamentos precipitavam-se para cima de mapas altamente detalhados da zona para definirem a sua rota para o próximo local de protesto. Deixavam o acampamento na escuridão, passando por vezes uma grande parte da noite sob as estrelas nas florestas ou nos campos para estarem tão próximos quanto pudessem do seu verdadeiro objectivo, maximizando as hipóteses de terem um impacto sobre os trabalhos do G8.

Uma indicação da seriedade com que os governantes os encararam foram as rusgas policiais às casas e escritórios de activistas durante as semanas anteriores e a maior mobilização de forças de segurança alemãs desde a II Guerra Mundial – 16 000 polícias altamente treinados, organizados, armados e almofadados, mais tarde reforçados por 1100 soldados, com cães, cavalos, blindados de transporte de pessoal e escavadoras, canhões de água, helicópteros de estilo militar (por vezes uma meia dúzia voava alinhada em fila indiana), uma frota de navios de guerra e aviões de combate.

Apesar disso, os principais bloqueios foram um pouco mais eficazes do que em geral era esperado de ambos os lados. Na quarta-feira, 6 de Junho, dia de abertura da cimeira, os manifestantes marcharam durante horas por ondulantes campos de aveia salpicados de papoilas vermelhas em flor e de grupos dispersos de árvores. Abandonaram o seu plano inicial de uma “manifestação em estrela” com colunas a convergirem para um único ponto. Em vez disso, depois de os manifestantes vindos dos três acampamentos se terem agrupado, dividiram-se em muitos grupos pequenos e por vezes coordenados (“os dedos de uma mão”) para forçarem a polícia que guardava a linha de 12 quilómetros a esticar-se num cordão muito delgado. Tiveram que evitar e por vezes confrontar brigadas policiais igualmente móveis que empunhavam bastões e gás pimenta. Polícias montados a cavalo e cães perseguiam as pessoas enquanto helicópteros voavam num ângulo cortante imediatamente acima das suas cabeças, tentando derrubá-las com o sopro das hélices. Em contraste com os dias anteriores, a polícia estava agora a tentar agrupar as pessoas em vez de dispersar as suas fileiras. A falta de uma cobertura que protegesse as pessoas dos olhos da polícia e dos seus ataques aéreos foi um problema. Mas a táctica dos “dedos” funcionou.

Cerca de 10 000 pessoas conseguiram entrar na zona interdita definida pela polícia que se estendia por várias centenas de metros à frente da alta vedação encimada por arame farpado que cercava Heiligendamm, e algumas conseguiram atravessar a própria barreira. Outros milhares de pessoas levaram a cabo ruidosas acções nas estradas e ruas no exterior dessa zona. Os manifestantes repararam que os aldeões, que inicialmente pareciam hostis aos bloqueios, passaram a apoiar os jovens contra a polícia e a fornecer-lhes água e encorajamento.

Durante algum tempo nessa noite, todas as três entradas por terra para o local da cimeira do G8 estiveram bloqueadas e a polícia foi obrigada a fechá-las com medo de ser submersa. Os manifestantes também se sentaram na principal estrada e nas linhas do comboio. Os chefes de estado foram transportados por via aérea e alguns jornalistas foram levados por mar, mas os autocarros que levavam o pessoal do G8 não conseguiram passar. Embora muita gente tenha ficado encharcada pelos canhões de água e a polícia tenha cortado o abastecimento de comida e água potável, vários milhares de pessoas conseguiram manter bloqueado um dos portões durante toda a noite fria até à tarde seguinte, altura em que a polícia conseguiu afastar a maior parte delas. Houve quase 500 prisões durante esses dois dias e muitos ferimentos, incluindo cinco pessoas feridas devido à força dos canhões de água. Até essa quinta-feira, sessões judiciais de emergência já tinham condenado meia dúzia de pessoas a penas que foram até 10 meses de prisão.

A única batalha campal ocorreu no final da manifestação de abertura, no sábado anterior. Previsivelmente, o violento confronto entre os Bloquistas Negros e a polícia gerou controvérsia. A polícia alegou que 433 polícias ficaram feridos, 30 deles hospitalizados. Os organizadores disseram que 520 manifestantes ficaram feridos, 20 deles com gravidade. O confronto teve início quando, no que muitos consideraram uma provocação, os polícias tentaram separar pela força um dos contingentes do Bloco Negro do resto da multidão. Isso foi mais ou menos admitido posteriormente pela polícia: “Nós conseguimos separar os manifestantes violentos da manifestação pacífica”, disse uma porta-voz da polícia. As autoridades (as decisões foram sem dúvida tomadas ao mais alto nível em Berlim) pareciam estar à procura de uma batalha. Enviaram quase todas as suas forças, 13 mil polícias. Posteriormente, pedras, grandes pedaços do pavimento, garrafas e alguns carros incendiados cobriam de lixo a zona onde os confrontos se haviam concentrado, perto do porto de Rostock. Uma brisa oceânica depressa dispersou o gás lacrimogéneo, mas um helicóptero da polícia pairou a baixa altitude por cima da parte da frente da manifestação, frustrando durante algum tempo as tentativas de realização de um comício no porto.

O tablóide reaccionário de grande circulação Bild chamou ao tumulto “A Vergonha do G8 da Alemanha” e considerou entusiasmadamente que a polícia devia disparar sobre as pessoas. A comunicação social citou amplamente a declaração de um porta-voz da Attac-Alemanha que considerava o Bloco Negro responsável pela interrupção da manifestação. Mas nas discussões nos acampamentos, a maioria das pessoas concordava com um apelo para que não se deixasse que as autoridades dividissem as pessoas em “bons” e “maus” manifestantes. Para muita gente, o tratamento dado pela polícia e pela comunicação social ao Exército de Palhaços foi emblemático da forma como as autoridades estavam a tentar caluniar todas as formas de protesto como sendo “terrorismo”. Pequenos grupos de falsos palhaços munidos de espanadores de penas e borrifadores de água fizeram teatro de rua. Assediaram a polícia com humor, imitando os seus gestos ameaçadores e dando escarnecedores passos de ganso atrás deles. O ridículo dificultou os esforços policiais para criarem um clima de medo e obediência. Em vingança, as autoridades afirmaram que os palhaços estavam a borrifar os agentes com veneno. Em vez de ignorarem essa alegação obviamente absurda, ou de a investigarem por si próprios, não só o Bild como toda a comunicação social alemã e estrangeira em geral papaguearam-na.

A polícia atacou uma reunião num centro governamental de imigração, na segunda-feira, 4 de Junho, sem que tivesse havido qualquer provocação. Havia um sentimento generalizado de que a polícia tinha tido um revés na grande manifestação de sábado e procurava vingar-se. Nessa tarde, muitos milhares de pessoas tentaram manifestar-se a partir de um dos acampamentos no centro de Rostock, para reivindicar direitos para os imigrantes e os refugiados. À sua cabeça estava um grupo de estrangeiros que segurava uma faixa onde se lia: “Nós estamos aqui porque vocês estão lá” – proclamando que tinham sido forçados a vir para a Europa devido ao completo caos que as potências imperialistas criaram nas suas pátrias. Quando os manifestantes se dirigiam para uma zona arborizada, foram cercados por milhares de polícias de choque que dividiram a manifestação em pequenos grupos, forçando alguns contingentes a abandonar a rota e mantendo outros durante várias horas à chuva para os identificar e fotografar. A polícia cercou e imobilizou um grande grupo que levava uma faixa que reivindicava “Liberdade de Movimentos” global para todos. As autoridades justificaram os seus actos alegando que algumas pessoas escondiam as caras, o que é ilegal na Alemanha. A polícia autuou algumas pessoas por usarem óculos de sol considerados “demasiado grandes”. Disse-se que prenderam uma rapariga por estar a segurar um lenço no nariz. Em resposta, alguns jovens despiram a maior parte das suas roupas. Esse “Bloco Nu” escarneceu e desafiou repetidamente a polícia durante os dias seguintes, incluindo ridicularizar a polícia durante os bloqueios na vedação de Heiligendamm.

No decurso da semana de batalhas para trás e para a frente, o comportamento da polícia e a experiência de uma resistência por vezes efectiva ajudaram as pessoas a ficarem mais unidas. Ainda mais que anteriormente, muitas pessoas viram as tentativas de reprimir violentamente o protesto como uma expressão concentrada de toda a injustiça e opressão que elas odeiam e da forma como as potências do G8 e o sistema em geral governam brutalmente o mundo. Havia diferentes atitudes sobre a violência em geral e sobre a eficácia do tipo de batalhas de rua que tinham tido lugar. Seja por razões tácticas, seja filosóficas, muita gente, talvez a maioria das pessoas, queria levar a cabo uma confrontação não violenta “sem uma escalada”. Alguns abordavam a polícia cantando “Nós não somos violentos, e vocês?” Mas a luta não foi a principal linha divisória que as autoridades tentaram traçar. Havia um sentimento partilhado de que atirar alguns paus e pedras não podia ser comparado a invadir e bombardear países inteiros ou mesmo à violência quotidiana que o G8 inflige à maioria das pessoas do mundo. Numa reunião plenária num dos acampamentos, os membros da Attac foram veementemente criticados devido ao comunicado à imprensa dessa organização contra o Bloco Negro. Um activista da Attac explicou que na Alemanha a Attac tinha vindo a desfrutar do estatuto de oposição oficial ao G8 e que, embora alguns líderes se tenham distanciado do Bloco Negro num esforço para salvaguardarem a sua recém-adquirida legitimidade, a maior partes das suas bases, segundo ele, discordava disso.

Outro ponto que havia sido debatido nas reuniões de organização durante todo o ano anterior à cimeira do G8 – a questão de tentar de alguma forma bloquear o G8 em oposição à realização de fóruns e actividades educativas – também mostrou que criava menos divisões que o esperado. A Contra-Cimeira (também chamada Cimeira Alternativa) organizada pela Attac, por ONGs e por organizações religiosas estava marcada para quarta e quinta-feira no centro da cidade de Rostock, para a mesma altura que os protestos passivos e os bloqueios. As diferentes ideias sobre o que devia ser feito reflectiam diferentes entendimentos do problema. Embora muitos defensores dos bloqueios sentissem que o G8 era ilegítimo, alguns organizadores da Contra-Cimeira alegavam que os líderes da cimeira “são as pessoas que podem fazer a diferença”, como disse a porta-voz da Oxfam, pelo que as acções deviam tentar influenciá-los e não afastá-los. Mas milhares de pessoas tentaram assistir aos dois tipos de eventos. Para a maioria, não havia nenhum muro entre lutar de várias formas por um “outro mundo” e as vivas discussões sobre os dois mundos em seminários, cursos, nas esquinas das ruas e nas fogueiras dos acampamentos.

Uma das maiores questões era saber se as pessoas se deveriam concentrar em mudanças locais, tentando chegar aos “seus vizinhos” nas questões práticas imediatas e fazer a diferença gradualmente e a uma pequena escala. Isto foi muitas vezes afirmado em oposição explícita à mudança revolucionária, frequentemente com a explicação de que as pessoas que defendem esta perspectiva podem desejar algo mais radical, mas não conseguem conquistar outras pessoas para essa ideia. Em oposição a isso, um autónomo (jovem anarquista) suíço disse: “Eu não quero um mundo que seja apenas um pouco melhor, eu quero o melhor mundo para toda a gente.” Até certo ponto havia uma separação por idades, mas não inteiramente. Num seminário no centro da cidade sobre o aquecimento global, uma mulher dos seus 60 anos disse a um maoista: “Fui uma reformista toda a minha vida, mas agora percebi que uma verdadeira mudança só pode vir de pessoas como vocês.”

Em comparação com outros eventos antiglobalização, por exemplo os recentes Fóruns Sociais Europeu e Mundial e as acções contra o G8 de Gleneagles em 2005, os acampamentos dependeram menos do financiamento das autoridades e das instituições locais para concretizarem as coisas. Foram em grande parte auto-suficientes, baseando-se no trabalho voluntário rotativo e confiando no sentido de justiça, na solidariedade e no empenho das pessoas, em vez da cobrança de taxas fixas. A composição social dos acampamentos tornou-se cada vez mais multinacional com o aproximar dos dias do bloqueio, à medida que chegava muita gente da Grã-Bretanha, de Espanha e de outros países, muitos em longas jornadas de autocarro ou à boleia. Embora tenha sido consumida muita cerveja com a comida vegetariana e havido divergências profundas sobre questões importantes, houve poucas brigas ou mesmo gritos, embora equilibrar o direito a tocar música toda a noite com o direito a dormir tenha sido uma contradição complicada. As pessoas em geral procuraram a unidade e tentaram concentrar-se na sua luta contra o G8. Também houve um forte sentimento de que as mulheres não deviam estar sujeitas ao intolerável comportamento habitual. Embora inicialmente tenha havido uma proibição de distribuição de panfletos políticos, reuniões políticas e outras formas de “propaganda” nos acampamentos, isso foi abandonado rapidamente e de bom grado. Os campistas exprimiram o seu agrado com as discussões, os discursos, as exibições de vídeos e a literatura das diferentes organizações anti-imperialistas, revolucionárias e comunistas maoistas porque estavam genuinamente interessados em ouvir algo de radicalmente novo.

Havia um sentimento de tentar viver agora da forma como gostariam de viver numa nova sociedade. Só algumas pessoas o declararam conscientemente, mas era tão generalizado que mesmo a comunicação social relatou aquilo a que chamou de “espírito de Woodstock”. Esta comparação com o emblemático festival de rock dos anos 60 é enganadora, porque as pessoas nos acampamentos não estavam aí sobretudo para se divertirem. Embora considerassem que o acampamento e as acções eram divertidos, estavam unidas e lutaram e sacrificaram-se ao frio e à chuva para combater a injustiça e “o sistema” e procurar um conhecimento mais claro do problema e da solução.

Os jovens tinham muitas ideias sobre como mudar o mundo, mas não uma “ideia”. Quando se lhes perguntava ao que vinham, respondiam que achavam o estado do mundo intolerável e que era urgentemente necessária uma oposição a isso. Achavam que se tinha que fazer algo sobre isso, mas quando se lhe perguntava o quê, diziam, bem, talvez pudéssemos fazer isto ou aquilo – talvez pudéssemos ter uma democracia mais global (uma ideia bastante comum era a de que era errado e injusto que o G8 estivesse a tomar decisões que afectam toda a humanidade, quando no máximo representam apenas os países do G8 e, nas mentes dos numerosos jovens mais radicais, as multinacionais ou a classe capitalista). Mas se pressionados e questionados sobre como isso iria acontecer, reconheciam que realmente não sabiam ou que não tinham realmente a certeza de que iria funcionar. Eram cépticos em relação ao comunismo, levantando em particular objecções sobre ter falhado e sido muito repressivo, normalmente ligando isso a uma oposição aos líderes em geral e sobretudo a um partido de vanguarda.

Várias pessoas alegaram que o comunismo é um belo ideal, com as pessoas a deterem a riqueza do planeta no seu conjunto, sem ser dividida por nações ou religiões, mas que esse conceito de partido de vanguarda não funcionava, pelo que o melhor que podíamos fazer era tentar encarnar os princípios comunistas na forma como agimos e vivemos agora. Contudo, quando a isso se contrapunha a ideia de que enquanto os capitalistas continuarem a deter o poder de estado, usarão esse poder para cercar, minar e destruir qualquer forma comunista de organização que seja implementada, reconheciam que isso também era um grande problema para o qual ainda não tinham encontrado solução. Um estudante universitário fez um comentário que era muitas vezes repetido: “Estou à procura de um movimento de mudança radical – e isso não é fácil encontrar.”

Rostock situa-se na antiga Alemanha de Leste e muita gente trouxe as particularidades dessa experiência, tanto para os concertos onde a juventude local entrava em rebanho para dar uma olhada, como para os acampamentos e os bloqueios. Pessoas que viveram sob o falso comunismo, sobretudo enquanto crianças, ou que ouviram falar dele aos seus pais e que agora enfrentam os efeitos do capitalismo descarado nas suas vidas, não estavam menos ansiosos que os alemães ocidentais por uma mudança radical ou abertos sobre o que isso podia significar. Embora em Rostock após a unificação tenha jorrado dinheiro federal e muitos edifícios e casas parecessem ter sido recentemente reabilitados e pintados, muita gente queixava-se que o desemprego e os baixos salários os impediam de viajar livremente pelo mundo, como antes o muro o fazia.

A dinâmica entre a diversidade e a unidade dos manifestantes era impressionante e muita gente estava aberta a uma perspectiva maoista que possa unir as pessoas ainda mais profunda e efectivamente com essa mesma dinâmica e gerar um mundo radicalmente diferente.

(Ver imagens dos protestos aqui)