O seguinte artigo foi publicado em farsi (persa) na revista Atash [Fogo] nº 171, fevereiro de 2026, do Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista). Traduzido para português a partir das traduções feitas por voluntários do Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (em inglês a 4 de fevereiro de 2026 e em castelhano a 11 de fevereiro de 2026).

Da revista Atash [Fogo] nº 171, fevereiro de 2026, do Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista)

Compreendamos melhor o padrão de repressão da República Islâmica do Irão!
A cumplicidade internacional nos crimes contra o povo iraniano durante o mês de janeiro de 2026

Por Jila Anousheh
Irão

Num artigo intitulado “A guerra faz vítimas?!” escrevemos: “A guerra do [monárquico pró-EUA-Israel] Reza Pahlevi contra a República Islâmica é uma guerra que tem sido levada a cabo há anos pelos organismos de segurança da Mossad, dos EUA e de outros países da região contra o aparelho de segurança da República Islâmica.” [Esse artigo está disponível em farsi na Atash/Fogo nº 171 e em português na Página Vermelha.]

Sabemos agora que a presença de forças lideradas pela Mossad no meio da insurreição popular1 não foi uma mera invenção dos meios de comunicação israelitas. Pelo contrário, ela foi real. Não foi um produto da imaginação da comunicação social israelita. Foi real. Não teve precedentes. Inúmeras testemunhas relataram que [as forças lideradas pela Mossad] agiram de forma organizada, ameaçando todos os que não gritavam “Pahlevi voltará”. O aparelho repressivo da RII [República Islâmica do Irão] estava ciente desta brecha e aproveitou-a como uma oportunidade “de ouro” para assassinar indiscriminadamente. Que a vergonha caia sobre estes fascistas religiosos por terem encharcado as suas mãos no sangue do povo, uma e outra vez. Desta vez, foi de uma dimensão sem paralelo na história do Irão contemporâneo. Que a vergonha e o ódio caiam sobre esse regime genocida [Israel] e o seu lacaio iraniano, Reza Pahlevi.

Mas o massacre do nosso povo também contou com outros parceiros internacionais. Neste massacre, os serviços de segurança da República Islâmica do Irão beneficiaram da óbvia e sem precedentes cooperação dos serviços de segurança russos e chineses. Estes factos devem ser destacados quando se preparam acusações pelo massacre perpetrado durante a insurreição de janeiro de 2026 pelas forças armadas da RII (entre as quais o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica [CGRI], a Basij [a sua milícia civil] e o seu ramo internacional, a Força Quds). É necessário denunciar e protestar à escala mundial a participação de Israel, da China e da Rússia neste massacre.

Com esta introdução, analisemos a repressão da insurreição de janeiro de 2026. O que sabemos até agora é o seguinte: milhares de pessoas foram assassinadas em todo o país, mais de 100 mil pessoas ficaram feridas, bairros residenciais foram destruídos, houve feridos sequestrados de hospitais e assassinados e houve centros médicos transformados em centros de assassinato.

Após o ataque militar de junho de 2025 contra o Irão por parte das forças dos EUA e Israel, a agência noticiosa Fars (próxima do CGRI) escreveu: “Por que razão não devemos repetir a experiência e as execuções de 1988? Não acham que chegou a hora de repetir essa experiência bem-sucedida (...) que nos ajudou a governar o país durante muitos anos sem quaisquer problemas e sem termos de lidar com o problema do terrorismo (...)? Se nos livrarmos dos nossos inimigos [agora] da mesma maneira que nos livrámos dos nossos inimigos em 1988, podemos sentir-nos seguros.”2

Isto mostra que a RII se tinha vindo a preparar para cometer este crime. As prisões e execuções que se seguiram [ao ataque militar de junho], bem como a lei de outubro de 2025 sobre “Punições Realizadas por Espionagem”, promulgada pelo [presidente iraniano Masoud] Pezeshkian, indicam que eles se estavam a preparar para cometer um crime grave.

A doutrina e a estrutura da repressão, em termos genéricos

Cadáveres dentro de mortalhas
Cadáveres dentro de mortalhas espalhadas pelo chão frente ao Centro de Medicina Legal de Kahrizak, em Teerão, Irão, 11 de janeiro de 2026 (Foto: Middle East Online)

Passemos agora à doutrina e à estrutura da repressão na RII. É sabido que na RII, a segurança e a sobrevivência deste regime determinam as suas políticas. Da perspetiva da RII, os protestos são uma característica permanente da sociedade iraniana, e não um fenómeno ocasional. Portanto, eles adotaram um modelo de repressão contínua. Este modelo é inerente à identidade da RII. É esta a característica geral da doutrina de segurança da RII. No entanto, ela foi especificamente concebida para reprimir a juventude urbana. As estatísticas sobre as vítimas das revoltas de janeiro de 2017 e novembro de 2019, da revolta Mahsa “Jina” Amini [de 2022] e da insurreição de janeiro de 2026 demonstram claramente esta realidade.

O modelo de repressão no Irão é um híbrido dos métodos dos [imperialistas] chineses e russos, combinado com estruturas e práticas locais. Claro que, dado que o aparelho repressivo da RII é herdeiro do aparelho de repressão organizada do regime do Xá [Mohamed Pahlevi], não está isento da influência de certos métodos [imperialistas] ocidentais de repressão. Mas o núcleo duro da atual doutrina de repressão da RII está em dívida para com os métodos de repressão chineses e russos.

A RII adotou a chamada doutrina chinesa de “Mão Pesada”. A “Mão Pesada” é uma política estrutural para exercer um controlo apertado sobre a sociedade. Funciona com base no medo, na rapidez e na intensidade da ação, e no controlo da narrativa. O princípio-chave da “Mão Pesada” em relação aos grandes protestos é parar os manifestantes aplicando um choque severo. A implementação da “Mão Pesada” inclui execuções em massa e, nas operações de rua, o uso de armas de calibre militar, assassinatos indiscriminados e coordenados em várias cidades, ataques a hospitais e detenções em massa.

O modelo de repressão da RII é inspirado no da Rússia e no seu uso de violência assimétrica, operações encobertas e táticas indutoras de terror. O padrão russo de repressão em África (especialmente por parte das forças privadas Wagner controladas pelo governo russo) é reconhecido como um dos modelos mais violentos e brutais de “controlo e repressão política da população”. A violência assimétrica reage a qualquer ato de violência, ou de autodefesa por parte do povo, com uma violência exponencialmente maior e operações indutoras de terror. Qasem Soleimani3 [o falecido Comandante do CGRI] aprendeu com o “modelo Wagner” e usou-o na sua repressão do povo sírio.

Este modelo inclui uma repressão severa e assassinatos em massa, alvejar seletivamente civis, operações de “limpeza” em áreas de protesto, o uso de armas pesadas de guerra, desaparecimentos, execuções a curta distância e a disseminação de narrativas inventadas para justificar a repressão. O objetivo é a “dissuasão através do medo”.

A RII manteve alguns dos métodos de repressão utilizados pela SAVAK [a polícia secreta do Xá] e, em 1979-1980, combinou-os com a ideia do [aiatola] Khomeini de formar um “exército de 20 milhões de homens”, o que resultou na criação de uma vasta rede de forças Basij nos bairros, escolas, fábricas e escritórios. É uma rede de forças de segurança locais, baratas e descentralizadas que impõe um controlo teocrático em todo o país. A Basij tem um enorme orçamento e está constantemente a recrutar, tanto nas cidades como nas aldeias rurais.

Conclusão

O nosso Partido sempre debateu a questão do “modelo de sobrevivência” da RII, e tem debatido a forma de desenvolver um método sistemático de o enfrentar, com base num conhecimento preciso do aparelho repressivo, da sua doutrina e métodos de operação, e de transferir esse entendimento aos jovens que entram na arena da luta contra o regime. Perante a repressão, a questão é sempre: que podemos fazer para que a repressão exercida contra nós se volte contra si mesma e para mobilizar as pessoas para levarem a cabo a luta a uma escala ainda maior. No seu núcleo, a resposta a esta questão é a linha política e ideológica. A atenção aos princípios técnicos e táticos está subordinada a ela. A este respeito, o documento intitulado “Acumular Forças e Organizar para a Revolução” [parte dos documentos do 11º Pleno do Comité Central do Partido Comunista do Irão (MLM)] diz:

Até agora temos encontrado grandes obstáculos ao longo do nosso caminho, e voltaremos a encontrá-los. (...) Neste caminho, devemos manter o nosso valor estratégico. Durante as tempestades, os golpes pesados e os contratempos, devemos manter as nossas cabeças à tona da água, não perder o rumo e não ceder ao “não pode ser feito”, “ficaremos isolados” e “por que razão não demos este ou aquele passo mais cedo”.

Podemos manter esta orientação de base, não através da pura força de vontade, mas usando o método científico de procurar entender os problemas e procurar soluções. Por outras palavras, a luta política com uma orientação correta é o fator decisivo para enfrentar o aparelho repressivo e transformar cada ato de repressão numa luta mais ampla e duradoura contra a RII. Mesmo agora, à luz da repressão da insurreição de janeiro de 2026, devemos voltar a examinar a estrutura do poder que estamos a enfrentar, e os fatores que a reforçam ou lhe conferem resiliência.

Desde a agressão militar dos EUA e Israel em junho de 2025, a RII tem vindo a vincular cada vez mais o seu destino à intensa rivalidade entre os imperialistas chineses e russos e o imperialismo norte-americano. Em troca desta lealdade, a China e a Rússia ajudaram a reconstruir os aparelhos militares e de segurança da RII. Ao mesmo tempo, em resposta ao descontentamento e às revoltas públicas, a RII adotou a postura de que “a insatisfação pública equivale à continuação da guerra de 12 dias”, e começou a preparar-se para o massacre. A infiltração das forças aliadas de Israel na insurreição popular deu à RII a oportunidade de declarar guerra à insurreição das pessoas desarmadas e, com o pretexto de que “estamos em guerra, e o inimigo infiltrou-se”, conseguiu unir as fações internas do governo e até mesmo incorporar vários intelectuais religiosos, reformistas e figuras religiosas nacionais.

Esta análise indica que nos devemos opor firmemente a qualquer política que vise arrastar as revoltas populares para a contenda imperialista. Quando as muitas mulheres e homens combatentes compreenderem as complexidades da cena política, e o caráter e os objetivos das várias forças envolvidas, então poderão impedir que outros sigam as ordens desprezíveis do fascista Trump, do aparelho de segurança da Mossad e do seu intermediário a soldo, Reza Pahlevi.

O significado de se ter a teoria e as políticas para enfrentar a repressão é tão importante como ter uma teoria e uma política para enfrentar a religiosidade teocrática do regime, a sua tentativa de esmagar a liberdade, o seu hijab obrigatório e a sua imposição da opressão nacional, as suas guerras regionais reacionárias, etc.

Agora, um importante e decisivo campo de batalha contra a República Islâmica do Irão é a transformação da repressão do regime de uma ferramenta da sua sobrevivência numa força motriz para a sua derrota.

O sucesso nesta difícil arena requer a criação e reforço de um poderoso movimento com duas características simultâneas: deve ter a capacidade de resistir ativa e eficazmente à severa asfixia por parte da extensiva máquina de repressão interna e, ao mesmo tempo, deve manter longe das pessoas os tentáculos dos abutres dependentes de Israel e dos EUA e impedir a polarização tóxica de que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.

O sucesso desta luta depende de que milhares de jovens — que se levantaram e arriscaram as suas vidas nestas revoltas — desenvolvam um método e uma abordagem revolucionários. Eles devem ter uma clara compreensão de quem são os amigos e os inimigos da revolução. Não se devem opor apenas à RII, mas também ao imperialismo norte-americano e aos imperialistas da China e da Rússia que apoiam a RII — e apoiar a luta dos povos desses países para derrubarem os seus governos.

O pré-requisito para voltar a repressão contra si mesma exige que um movimento mais amplo compreenda estas lições políticas e as generalize entre o povo. Este fator político é crucial para isolar ainda mais a RII, tanto a nível nacional como internacional. Sem esta orientação revolucionária, não conseguiremos criar uma mais ampla aliança popular dentro do país, nem obter o apoio das pessoas em todo o mundo. Esta política deve refletir-se nas palavras de ordem das pessoas. As palavras de ordem que devem ressoar e aparecer nas portas e paredes em todo o lado são: Abaixo a República Islâmica do Irão! Viva a Nova República Socialista do Irão!

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NOTAS:

1  A 28 de dezembro, o povo iraniano lançou uma poderosa insurreição contra os seus odiados governantes, os fascistas teocratas da República Islâmica do Irão (RII). Ela rapidamente se propagou a todo o país, chegando a cerca de 180 cidades em todas as 31 províncias do Irão e envolvendo muitas dezenas de milhares, talvez milhões, de iranianos. “Para esmagar este maremoto de protestos das massas populares, a RII desencadeou uma campanha de assassinatos em massa, prisões e terror em todo o país. Rios de sangue correm pelas ruas do Irão, em cada cidade e região.” (De “A República Islâmica do Irão massacra milhares de pessoas que legitimamente se ergueram — Já não é tempo de escolher entre opressores”, revcom.us)

2  “Em julho de 1988, a República Islâmica do Irão concordou em pôr fim à brutal guerra de oito anos com o Iraque. Durante os dois meses seguintes, sob ordens do Líder Supremo, o aiatola Khomeini, presos políticos de todo o país foram secretamente levados a um tribunal que seria mais tarde conhecido como a Comissão da Morte. Eles não foram informados sobre o que estava a acontecer e desconheciam que uma resposta ‘errada’ sobre a sua fé ou afiliação política os iria enviar diretamente para a forca. Milhares de homens e mulheres foram condenados à morte, muitos deles foram enterrados em valas comuns no Cemitério de Khavaran, nos arredores de Teerão.” (Do verso da capa de Voices of a Massacre: Untold Stories of Life and Death in Iran, 1988 [Vozes de um massacre: Histórias não contadas da vida e morte no Irão, 1988], de Nasser Mohajer.

3  Qassem Soleimani foi um general de alta patente do CGRI e comandante da Força Quds responsável pelas operações externas do CGRI. Os EUA assassinaram Soleimani em Bagdade, Iraque, a 3 de janeiro de 2020.

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