Publicado no sítio do Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (em inglês a 19 de janeiro de 2026 e em castelhano a 21 de janeiro de 2026)

A República Islâmica do Irão massacra milhares de pessoas que legitimamente se ergueram

não é tempo de escolher entre opressores

Os cadáveres estão a amontoar-se. E aqueles que sobreviveram estão à procura de sinais dos seus entes queridos entre montanhas de cadáveres. Isto já não é uma metáfora. Isto não é uma história. Isto não é um filme. Isto é uma realidade flagelada por balas dia após dia.

— Jafar Panahi, cineasta de renome mundial

Iranianos num protesto antigovernamental em Teerão
Iranianos num protesto antigovernamental em Teerão, Irão, 9 de janeiro de 2026 (Foto: AP/UGC)

A 28 de dezembro, o povo iraniano iniciou uma poderosa sublevação contra os odiados governantes, os fascistas teocratas da República Islâmica do Iráo (RII). Ela propagou-se rapidamente a todo o país, chegando a cerca de 180 localidades em todas as 31 províncias do Irão, envolvendo muitas dezenas de milhares, talvez milhões, de iranianos.

Para esmagar este maremoto de protestos das massas populares, a RII desencadeou uma campanha de assassinatos em massa, prisões e terror em todo o país. Rios de sangue correm pelas ruas do Irão, em cada cidade e região.

Por volta de 8 de janeiro, quando os protestos aumentaram em dimensão e alcance, as forças repressivas do regime começaram a disparar diretamente contra as multidões com munições reais, por vezes a curta distância. Francoatiradores nos telhados assassinaram manifestantes, na sua esmagadora maioria desarmados. Segundo alguns relatos, foram usadas metralhadoras contra os manifestantes. As forças de segurança foram vistas a eliminar manifestantes feridos, por vezes até em hospitais.

Ao mesmo tempo que os governantes fundamentalistas islâmicos desencadeavam este banho de sangue, também impuseram um bloqueio quase total do acesso à internet e aos telefones móveis para evitar que os protestos se propagassem ainda mais e impedir que o mundo testemunhasse os seus gigantescos crimes.

No entanto, e apesar disso, conseguiram emergir do Irão vislumbres da carnificina e das histórias da depravação do regime.

Os números de mortos são pouco seguros. Alguns dizem que pelo menos 3400 manifestantes foram massacrados pelo regime, além dos milhares de feridos. O Sunday Times of London escreveu este fim de semana que tinha recebido um relato de médicos no Irão a documentar o assassinato de 16 500 manifestantes e indicando que 330 000 pessoas tinham sido feridas. O fascista teocrata-mor, o próprio Khamenei, admitiu o assassinato de “vários milhares” de manifestantes. Pelo menos 10 000 manifestantes, e talvez o dobro desse número, terão sido detidos e encarcerados, com cerca de 800 deles ameaçados de execução. É provável que a maioria dos mortos tenha menos de 30 anos.

A depravada matança e a vaga de terror por parte da República Islâmica estenderam-se aos hospitais, às casas das famílias e até aos funerais das pessoas assassinadas. Um médico relatou [ler em inglês/castelhano] que o seu hospital estava sobrecarregado: “Isto foi uma situação de vítimas massivas. (...) As nossas instalações, o espaço e o pessoal eram muito abaixo do necessário para o número de feridos que chegavam. Os casos de trauma que vi eram brutais, eles dispararam para matar.” Um oftalmologista de Teerão disse ao jornal The Guardian que um só hospital documentou mais de 400 lesões oculares devidas aos disparos.

Os esbirros armados da RII estão a ocupar e a procurar feridos nos hospitais, detendo-os no local e, por vezes, levando-os antes de serem tratados. As famílias que iam às morgues ou aos hospitais para recuperarem os cadáveres dos seus entes queridos foram forçadas a declarar que os seus familiares eram membros das odiadas milícias Basij do regime, ou que tinham sido mortos por “terroristas” (ou seja, por manifestantes) a fim de conseguirem receber os corpos. Também foram obrigadas a pagar para que libertassem os cadáveres, às vezes segundo o número de balas usadas.

Uma justa sublevação, uma contundente acusação contra a República Islâmica

Cadáveres dentro de mortalhas espalhados pelo chão
Cadáveres dentro de mortalhas espalhadas pelo chão frente ao Centro de Medicina Legal de Kahrizak, em Teerão, Irão, 11 de janeiro de 2026 (Foto: Middle East Online)

Esta revolta começou a 28 de dezembro de 2025, com uma greve e protestos de comerciantes de Teerão devido à crise económica. Mas a sublevação rapidamente se propagou a todo o Irão, em grande parte impulsionada por estudantes que exigiam: “Abaixo o ditador!”, “Abaixo [o aiatola] Khamenei!” e “Liberdade, liberdade, liberdade!”.

Mas esta sublevação não é meramente económica. Como afirma uma publicação de Arash Seyfi na conta Instagram da organização Osyan: “Ainda que a centelha inicial desta sublevação tenham sido as reivindicações económicas, (...) o que logo se tornou claro foi que ia para além das limitadas reivindicações a rendimentos dignos e a um qualquer tipo de negociação com o sistema. A atual sublevação revolucionária visa a totalidade do regime fascista islâmico, um sistema que é incapaz de proporcionar uma subsistência mínima e de oferecer um futuro digno à sociedade.”

A República Islâmica está a justificar os seus assassinatos em massa com a mentira de os manifestantes serem “terroristas”, inspirados ou dirigidos pelos EUA ou Israel. Embora existam muitas forças diferentes envolvidas nos protestos no Irão, incluindo reacionários pró-EUA, no seu âmago está uma sede — e uma corajosa determinação — pela liberdade e a emancipação.

Entretanto, o fascista comandante-chefe do imperialismo norte-americano Donald Trump, ameaçou intervir, dizendo que “a ajuda está a caminho” e pedindo aos manifestantes que “tomem as vossas instituições se puderem”.

Qualquer que seja o ataque que Trump ameace não será de nenhuma “ajuda” ao povo iraniano, mas sim destinado a tentar solidificar a dominação dos EUA no Médio Oriente. (Os EUA, entre outras coisas, querem assestar um golpe ao seu principal rival imperialista, a China, o maior parceiro comercial do Irão e comprador de 90% do petróleo desse país.)

Um editorial de 7 de janeiro de 2026 do Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista), um partido que se baseia no novo comunismo desenvolvido pelo líder revolucionário Bob Avakian, apela às pessoas a não escolherem entre opressores deste mesmo sistema do capitalismo-imperialismo, e antes a lutarem por uma revolução libertadora que se oponha tanto ao regime fascista islâmico do Irão como aos imperialistas norte-americanos:

Enterraremos o assassino Khamenei e todo o sistema teocrático, saqueador, misógino e assassino da liberdade na República Islâmica do Irão!

Arrombaremos as portas das prisões! As prisões não são lugar para as massas populares. Em vez disso, colocaremos na prisão o Líder Supremo, os líderes políticos, militares e de segurança e os saqueadores económicos da República Islâmica!

Destruiremos o projeto que o fascista Trump, o genocida Netanyahu e os seus lacaios iranianos têm para o futuro do Irão!

Juntamente com os outros povos do mundo, lutaremos pela emancipação da humanidade de todos esses inimigos da humanidade e da natureza!

Esta é uma sublevação contra a tirania fascista e as câmaras de tortura, a amarga opressão e pobreza, a opressão medieval das mulheres, a discriminação sistemática das minorias religiosas, étnicas e nacionais, e a supressão da expressão, do pensamento e da arte.

Para se ter uma dimensão disto, milhões de iranianos anseiam por um país onde as mulheres deixem de ser escravizadas pelo sistema de apartheid de género da RII, submetidas aos ditames do sistema patriarcal, tanto na vida pública como familiar. Os vídeos dos protestos têm estado repletos de mulheres a arrancarem os seus hijabes (véus) obrigatórios e a acenderem os seus cigarros por cima de imagens de Khamenei em chamas (as mulheres que fumam em público são altamente estigmatizadas). No Irão, a misoginia é a lei do país: o testemunho das mulheres tem menos peso que o dos homens; os homens podem impedir as esposas de terem empregos ou de viajarem para o estrangeiro; as mulheres não podem cantar sozinhas em público nem assistir a muitos eventos desportivos masculinos; e a violência contra as mulheres muitas vezes fica impune. Além disso, ser LGBT é ilegal, e as sentenças para as relações entre pessoas do mesmo género incluem a flagelação e até a morte.

Trump parece ter recuado na ameaça de ataque, mas o perigo persiste

Como relatámos a semana passada, após o início da revolta no Irão, Trump ameaçou os governantes iranianos de que, se matassem manifestantes, os EUA iriam atacar: “Estamos armados e prontos a atuar.”

Depois, após a República Islâmica ter anunciado que não iria executar nenhum manifestante (pelo menos por agora), Trump parece estar a mudar de rumo. Na sequência do massacre em massa de manifestantes pela República Islâmica, Trump elogiou o regime por ter suspendido as execuções públicas que tinha ameaçado fazer, basicamente alegando que isso teria sido uma “vitória” do seu ato de intimidação. “O Irão cancelou o enforcamento de mais de 800 pessoas. Eles iam enforcar mais de 800 pessoas ontem”, disse Trump. “E eu respeito muito o facto de o terem cancelado”. Chegou mesmo a repetir algumas das frases de propaganda da RII, dizendo que os manifestantes tinham disparado contra membros das forças do regime e matado centenas deles, ou seja, que eram “terroristas”, pelo que a RII tinha uma justificação para tomar medidas repressivas.

Mas é extremamente incerto se Trump está realmente a recuar nessas ameaças ou não. A 15 de janeiro, a porta-voz de Trump para a imprensa disse que “todas as opções” continuam na mesa em relação ao Irão. Entretanto, o porta-aviões USS Abraham Lincoln e o seu grupo de ataque estão a caminho do Golfo Pérsico e mais de uma dezena de caças norte-americanos chegaram à Jordânia ao longo das últimas 24 horas. Em resposta às ameaças de Trump, o presidente iraniano Masoud Pezeshkian publicou na rede X um aviso de que um ataque contra Khamenei equivaleria a uma guerra em grande escala com o Irão.

Se Trump avançar com um ataque contra o Irão, isso não só trará um extremo sofrimento ao povo do Irão, como também criará um perigo ainda maior para toda a região do Médio Oriente. Há uma outra dimensão geral em que o Irão é um potencial prémio-chave no conflito global em gestação entre as principais potências nucleares: EUA, China e Rússia. Uma ou outra destas potências pode acabar por ver interesses vitais em jogo ao não recuar. Dessa forma, um tal ataque poderia começar como uma coisa e, intencionalmente ou não, passar a ser um conflito muito mais vasto, mais destrutivo e mais devastador.

Uma guerra assim não só seria contra os interesses da humanidade, como representaria uma verdadeira ameaça de extinção da humanidade. Trump, este lunático fascista e egomaníaco, anda por aí com o dedo no gatilho nuclear.

Os protestos continuam a partir dos telhados... ainda que o futuro seja incerto

É muito difícil saber precisamente o que está a acontecer no Irão atualmente devido ao bloqueio dos meios de comunicação, comunicações móveis e internet por parte do regime carniceiro. O jornal New York Times informou que não houve protestos em grande escala desde 11 de janeiro. Portanto, é possível que a revolta tenha sido suprimida por agora. Mas, mesmo na escuridão, parece haver explosões de protesto durante a noite. Um vídeo de 15 de janeiro publicado no Instagram da organização Queimar as Cadeias, um movimento pela libertação dos presos políticos no Irão, mostra um protesto noturno com apelos e respostas a partir dos telhados: “Morte ao ditador. Khamenei é um carniceiro. Vamos enterrá-lo e arrastá-lo para baixo. Como as pessoas fizeram durante o Xá.” (O Xá do Irão foi um tirano apoiado pelos EUA que foi derrubado em 1979.)

As pessoas nos Estados Unidos têm uma responsabilidade especial de se manterem alerta: de se oporem à agressão fascista de Trump contra o Irão e o mundo e de apoiarem o povo do Irão que se está a levantar corajosamente. E as pessoas nos EUA, e em todo o mundo, têm a responsabilidade de lidar com as questões levantadas pelos apoiantes do novo comunismo no Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista):

Irá um outro regime opressor cavalgá-lo para substituir este sobre os corpos maltratados do povo? Ou, através de uma ampla divulgação da compreensão social do que é uma verdadeira revolução, irá o derrube da RII abrir caminho a uma verdadeira revolução que a substitua, não por outro regime opressor e explorador, mas por uma nova república socialista? Neste momento, o derrube da RII está na agenda imediata — mas o desafio ainda mais vital é a maneira como esta questão irá ser respondida.

Abaixo a República Islâmica do Irão!
Não a um ataque dos EUA e Israel contra o Irão!
Em nome da humanidade, recusamo-nos a aceitar uns Estados Unidos fascistas!
Todo este sistema está putrefacto e é ilegítimo! Precisamos e exigimos: uma nova forma de viver, um sistema fundamentalmente diferente!
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