Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 11 de junho de 2018, aworldtowinns.co.uk

Novo governo fascista de Itália abre fogo sobre os imigrantes

A salva de abertura do novo governo italiano foi ordenar que as portas do país fossem fechadas a um navio de uma ONG que transportava 629 pessoas resgatadas do Mediterrâneo, cerca de 100 delas crianças. Isto demonstrou exatamente o que realmente significa a expressão “os italianos primeiro”.

Este foi o primeiro, mas certamente não o último, resultado das eleições parlamentares de março passado, a que se seguiram três meses de negociações. O que muitas pessoas pensavam (ou esperavam) que nunca pudesse vir a acontecer acabou por acontecer: o Movimento 5 Estrelas, um jovem partido que se autoproclama de “ver longe” e que defende a substituição de todos os partidos políticos pela “democracia direta”, juntou-se aos rufiões neofascistas de velha linha da Liga num programa conjunto e formou um governo de coligação. O que torna vergonhosa esta aliança não é que o 5 Estrelas, em grande parte baseado nas zonas mais pobres do sul de Itália, tenha formado uma parceria com aquela que antes se chamava a Liga do Norte, um partido que foi fundado na ideia de que os habitantes do sul do país são italianos de menor estatuto. É que ambas as forças se uniram em torno da posição potencialmente genocida de que alguns não-italianos são menos que seres humanos.

A primeira tentativa de formar um governo de coligação fracassou quando, numa ação inédita, o presidente do país, que normalmente é uma mera figura de proa não eleita diretamente, vetou um governo que incluía num ministério -chave uma personagem anti-União Europeia. A segunda tentativa foi bem-sucedida quando ambas as partes reiteraram o seu compromisso em relação à permanência de Itália na UE e na zona euro. O dirigente da Liga, Matteo Salvini, e o líder do 5 Estrelas, Luigi Di Maio, tornaram-se vice-ministros sob um primeiro-ministro supostamente neutro. Mas, apesar de o 5 Estrelas ter ficado muito à frente da Liga nas eleições, a Liga e as políticas dela tomaram a dianteira.

Salvini foi nomeado Ministro do Interior, responsável pela repressão estatal, e tem sido de longe a voz que fala mais alto no governo. Nos seus discursos de tomada de posse, ferozmente anti-imigrantes, expandiu o alvo para incluir os Roma (“ciganos”) e a prática do Islão. A nova Ministra da Família, uma fundamentalista católica, declarou a forte oposição dela ao divórcio e ao aborto e definiu como seu objetivo imediato o fim do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Isso é necessário, disse ela, para evitar a “extinção” do “nosso povo”. O facto de isso ter horrorizado os apoiantes mais laicos do 5 Estrelas pareceu não ter importância. Di Maio passou a ser Ministro do Trabalho e do Desenvolvimento Económico. A Liga concordou em abandonar a sua proposta de um imposto “uniforme” que visava favorecer a sua base social mais abastada, enquanto o 5 Estrelas fez o mesmo com as suas políticas mais simbólicas de rendimento garantido para todos os cidadãos italianos e de aposentação antecipada, medidas que dizia servir para aliviar as dores do desemprego. As duas forças acabaram por se unir em torno de uma prioridade: afastar, assim que possível, meio milhão de pessoas – praticamente todas as que restam em Itália das que atravessaram o Mediterrâneo nos últimos anos.

O resultado foi o programa e o governo que as poderosas forças da classe dominante nos bastidores e os partidos tradicionais de Itália podiam aceitar e aceitaram. O mesmo foi feito por muitas dessas forças no estrangeiro, entre as quais o Fundo Monetário Internacional (FMI), cuja principal preocupação durante as negociações foi a ameaça à estabilidade do vampírico sistema financeiro internacional. Esta ameaça foi alegremente evitada quando os dois partidos, anteriormente situados nas margens do sistema, recuaram em relação aos seus anteriores pronunciamentos quanto a orçamentos equilibrados e ao euro.

Mas a ameaça à estabilidade da Europa não foi evitada. Ainda que as mesmas forças de classe de sempre estejam essencialmente no comando, o novo governo italiano representa uma mudança dramática. Em Itália, tal como tem acontecido em país atrás de país em toda a Europa, o colapso da confiança nos amplamente odiados partidos do “sistema”, do “centro-direita” e do “centro-esquerda” que têm alternado no governo desde a II Guerra Mundial, foi apropriado por um “populismo” em que a “vontade do povo” – ou pelo menos as expressões cuidadosamente selecionadas dos sentimentos mais retrógrados e reacionários de vários setores da população – está a ser usada para justificar os ataques aos direitos democráticos estabelecidos. Isto é acompanhado por um gritante chauvinismo nacional sem pretensões humanistas e por uma intensificação da violência racista e misógina.

Este “populismo”, com o seu slogan de “o meu povo primeiro” só pode significar “o meu país primeiro” – juntando os exploradores no poder aos explorados e oprimidos. O “povo” deixou de ser definido como sendo todos os habitantes de um território, a marca dos modernos estados-nação que emergiram de revoluções contra o feudalismo, passando a estar em conformidade com uma visão mística de “um povo” unido pelo seu “sangue” (o que exclui até as crianças emigrantes). Isto foi exemplificado na ideologia nazi como sendo os “alemães genuínos” contra os “não-alemães”, entre os quais os judeus, os Roma, as pessoas que não são conformes ao género, os deficientes e por aí adiante, todos eles deveriam ser exterminados. Agora, uma vez mais, vemos políticas baseadas em apelos aos ressentimentos de um miticamente definido “volk” (“povo” em alemão, a palavra favorita dos nazis, aplicada não ao povo em geral, mas a uma etnia específica, que deveria ser “defendida” em oposição a todos os outros), a quem supostamente foi negado o seu “legítimo” lugar no topo da cadeia alimentar imperialista global. Claro que o principal exemplo de hoje é o slogan e o programa supremacistas brancos de “Tornar os Estados Unidos novamente grandiosos”. Nem todos os movimentos populistas foram até ao fim desse caminho, mas é para aí que esse caminho leva.

O Movimento 5 Estrelas acrescentou a sua própria ideia definidora a esta mistura: mudar a política das ruas para a internet, destilando a vontade do povo através de frequentes referendos feitos na internet. A alegação subjacente é de que o que é justo e correto é o que é expresso pela maioria das pessoas em qualquer lugar ou em qualquer momento. A falência desta filosofia foi revelada na maneira como o 5 Estrelas definiu o debate em torno da imigração nas suas próprias fileiras na véspera da formação do novo governo de coligação. Cerca de 94 por cento das pessoas que optaram por votar no sítio internet do Movimento (que não tem membros formais) exprimiram a opinião que a sociedade, a comunicação social e mesmo os próprios órgãos do Movimento lhes tinha ensinado. E, desta maneira, deram a sua bênção aos maníacos homicidas fascistas prestes a iniciar uma ofensiva violenta.

O ideólogo fascista norte-americano Steve Bannon, recentemente entrevistado pela CNN no seu novo campo de batalha em Roma, disse que o novo governo de Itália demonstra a possibilidade e a necessidade de alianças em muitos países entre as forças do tipo de Trump e partidos daquilo a que ele chamou a “esquerda”. Falando a partir dos EUA, ele apelou a uma união entre os “trumpistas” e alguns apoiantes do candidato presidencial norte-americano Bernie Sanders, com base naquilo a que ele chamou de “nacionalismo económico”, uma expressão usada para descrever alguns aspetos do Movimento 5 Estrelas em Itália. Também se poderia aplicar a forças nacionalistas similares de “esquerda” e “socialistas” noutros países, como o movimento liderado por Jean-Luc Mélenchon em França e mesmo ao Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn na Grã-Bretanha.

O que está primeiro, o “meu povo”, o “meu país” – ou os interesses dos povos do mundo, da humanidade? O que nenhum dos principais partidos em Itália, os fascistas ou os outros grandes partidos, está disposto a reconhecer é a verdade por trás do que em primeiro lugar tem vindo a levar milhões de migrantes a saírem das suas próprias terras: o facto de as desesperadas condições nas terras natais deles estarem ligadas à divisão feita há muitas gerações entre os países opressores do Ocidente e os países oprimidos em África, na Ásia e na América Latina. Ou como dizia uma palavra de ordem popular nos protestos a favor dos refugiados: “Eles estão aqui porque nós estamos lá”.

O que está a acontecer em Itália mostra a verdade e o poder desta linha divisória e a necessidade de levar a cabo a luta política e ideológica contra a mentalidade retrograda das pessoas quanto a esta questão, ao mesmo tempo que é necessário intensificar vigorosa e urgentemente a oposição aos movimentos e regimes fascistas e aos seus colaboradores, conscientes ou renitentes.