Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 19 de Setembro de 2005, aworldtowinns.co.uk

Nepal: O cessar-fogo e as suas repercussões

A comunicação social nepalesa noticiou recentemente que a polícia de segurança da fronteira indiana, a Sashastra Seema Bal (SSB), fechou indeterminadamente a fronteira Nepal-Índia perto do distrito de Bardiya, com excepção do posto fronteiriço que liga Rajapur a Katharaniyaghat, na Índia. O distrito de Bardiya, no Nepal ocidental, é um dos acessos às zonas libertadas.

A razão declarada para encerrar a fronteira foi que isso impediria o contrabando de exportações e importações ilegais. Tendo em conta que acaba de ser divulgado o recente envolvimento de três ministros do governo do Rei Gyanendra Shah numa fraude envolvendo fertilizantes, utilizar o pretexto de procedimentos comerciais ilegais para fechar a fronteira não faz sentido nenhum. O que faz sentido é que este encerramento da fronteira indiana visa criar um pretexto para uma intervenção militar contra o Nepal.

O governo indiano fechou unilateralmente a fronteira, sem sequer informar as autoridades nepalesas. Os relatos da comunicação social nepalesa citam o Superintendente Adjunto da Polícia do distrito, Bharat Pradhan: “As autoridades indianas não nos deram qualquer informação sobre isso.” Esta é mais uma violação pelo estado indiano do chamado Tratado de Paz e Amizade Indo-Nepalês de 1950. Uma vez mais, ficou demonstrado que esse tratado não tem nada a ver com paz e amizade mas apenas com os interesses do reaccionário estado indiano. Mas este acto faz-nos interrogar se a Índia estará a engendrar o argumento de que a revolução dirigida pelos maoistas transformou o Nepal num “estado falhado”.

O cessar-fogo unilateral declarado pelo Partido Comunista do Nepal (Maoista) colocou os imperialistas e os expansionistas indianos numa situação extremamente difícil em que eles podem estar a examinar a opção de uma intervenção militar para salvar a agonizante monarquia feudal do Nepal. Claro que os reaccionários nunca se preocuparam em saber se o Nepal monárquico foi um estado falhado durante as muitas décadas de domínio semifeudal e semicolonial. Mas a comunicação social nepalesa noticiou agora que a ONU tem vindo a trabalhar secretamente com os EUA e a Índia para “resolver” a guerra civil revolucionária no Nepal. “Numa entrevista exclusiva dada na quarta-feira ao Serviço Nepalês da BBC, o director executivo adjunto da UNICEF [Kul Chandra] Gautam revelou que Lakhder Brahimi, um conselheiro especial do Secretário-Geral da ONU Kofi Annan, mantém actualmente negociações com a Índia e os EUA com vista a mobilizar o seu apoio para resolver o conflito no Nepal”, escreveu o Nepalnews a 15 de Setembro.

A posição oficial dos EUA é de que se deve impedir a todo o custo que os revolucionários maoistas tomem o poder político. A linha oficial do regime indiano é de que a monarquia constitucional e o sistema parlamentar do Nepal são dois pilares da democracia. Esses dois pilares que as forças imperialistas e expansionistas procuram reforçar são o que o movimento revolucionário procura derrubar, com o apoio de milhões de nepaleses.

Contrariando os desejos dos reaccionários nacionais e estrangeiros, o Partido Comunista do Nepal (Maoista) tem mobilizado as massas nepalesas não só para defender os direitos soberanos do povo como também para assegurar a vitória da revolução. O Exército Real, que tem sofrido várias grandes derrotas, continua a cometer atrocidades nas zonas rurais. Dez dias depois do início do cessar-fogo, o Exército Real prendeu e matou ou fez “desaparecer” mais de três dezenas de pessoas, incluindo quadros maoistas locais, um dirigente sindical maoista e várias crianças em idade escolar.

Tirando partido do cessar-fogo proclamado pelo PCN(M), o Exército Real do Nepal [ERN] começou também a tentar chegar a zonas sob domínio revolucionário popular no ocidente, centro e leste do Nepal, zonas onde há muito tempo não podem entrar. Por exemplo, o Exército Real atacou a aldeia de Dhuseni, no distrito de Ilam, no leste do Nepal. Como o ERN não acatou o aviso do Exército Popular de Libertação [EPL] de que recuasse, o EPL contra-atacou. O ERN recuou. Um incidente semelhante teve lugar em Atlampa, também no distrito de Ilam. A 10 de Setembro, o Presidente Prachanda do PCN(M) repetiu uma anterior advertência de que os maoistas estavam preparados para interromper o cessar-fogo e regressar à ofensiva “a qualquer momento” se a isso forem obrigados pelos ataques do Exército Real.

Numa outra táctica reaccionária, o Exército Real mobilizou alguns arruaceiros e mandou-os assaltar as massas dizendo que eram doações para os maoistas. A 9 de Setembro, os revolucionários prenderam em Katmandu dois jovens que tinham extorquido às massas uma grande quantidade de dinheiro, falsamente em nome dos maoistas. O próprio Exército Real saqueou os passageiros de 14 autocarros em Sagarnagchock, no distrito de Sarlahi, no leste do Nepal, invocando o nome dos maoistas.

Num outro desenvolvimento, a 14 de Setembro, o Exército Popular de Libertação libertou 60 soldados do Exército Real capturados como prisioneiros de guerra durante o ataque do mês passado à base de Pili do ERN, em Kalikot. Os membros do ERN foram entregues a representantes da Cruz Vermelha Internacional, numa sessão organizada pelo partido no distrito de Jajarkot, no Nepal ocidental.