Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 1 de julho de 2018, aworldtowinns.co.uk

Ao som de portas a fechar:
A cimeira europeia sobre a migração marca um perigoso ponto de viragem

A reunião de finais de junho dos dirigentes dos países da União Europeia [UE] pode muito bem marcar um perigoso ponto de viragem. O caráter vago e a ausência de detalhes sobre o acordo por eles assinado, e o sigilo que rodeou a agitada sessão que durou toda a noite, não são apenas reflexos de confrontos não resolvidos sobre como o acordo pode vir a ser implementado. Também são uma tentativa de encobrir a radical e ameaçadora mudança que representa aquilo em que eles parecem ter chegado a acordo. Esse ruído cada vez mais intenso, como se um futuro cataclismo estivesse a aumentar cada vez mais perto, é o do estrepitoso fechar das fronteiras, é o barulho do fecho das portas da prisão e do cravar dos pregos nos caixões.

Uma das duas principais medidas concretas adotadas é a criação de prisões especiais (“centros controlados” para “assegurar o processamento”) para conter a maioria das pessoas que chegam à Europa sem um visto e para garantir que as poucas pessoas aí retidas que não sejam consideradas “dignas de proteção internacional” possam ser expulsas. A outra medida é a criação de “plataformas regionais de desembarque” em África que só podem ser descritas corretamente como campos de concentração ou de morte para despejarem aqueles que forem capturados antes de chegarem à Europa ou para serem depois deportados.

O que estava inicialmente previsto ser uma “míni-cimeira” não tinha como objetivo centrar-se na questão da imigração. Isso mudou quando os representantes da nova coligação governamental fascista italiana anunciaram que iriam bloquear qualquer acordo sobre qualquer outro assunto, a menos que os chefes de governo presentes concordassem em satisfazer a exigência deles: que, em vez de os migrantes serem considerados um problema do país onde eles chegam inicialmente à Europa, todos os países da UE deveriam concordar com uma “solução” comum.

O presidente italiano saiu a meio de uma reunião individual com a chanceler alemã Angela Merkel, vista como a principal resistência a alterações fundamentais nas políticas de migração da UE. A insubordinação dele resulta de mais que a arrogância do novo governo de coligação em que o partido fascista, embora representando apenas um quarto dos eleitores, obteve uma posição predominante. Merkel, antes a figura mais poderosa da UE, estava (e continua a estar) numa posição vulnerável porque o próprio Ministro do Interior dela, Horst Seehofer, tem ameaçado fazer cair o governo dela devido à questão da imigração. Ele avisou especificamente que faria cair a casa sobre eles próprios, se essa cimeira não terminasse com um acordo de que ele gostasse. Os resultados têm sido anunciados como uma vitória do “Eixo dos Empenhados”, um agrupamento desconexo e informal de países da Europa Central, da Itália e de forças políticas como Seehofer no resto da UE. Este nome deliberadamente provocador e auto-escolhido não significa que eles queiram repor o passado (o “Eixo” é uma referência à aliança da II Guerra Mundial entre a Alemanha nazi, a Itália fascista e o Japão imperial). Ele assinala que os seus dirigentes não se importam de serem chamados nazis e fascistas. O presidente francês Emmanuel Macron e, especialmente, a chanceler alemã Merkel podem ter ficado menos entusiastas e contentes com alguns dos aspetos do desfecho da cimeira, mas não se mostraram relutantes a alinhar com isso.

O que torna isto ainda mais notável é que não há uma “crise de imigração” na Europa. O número de migrantes que chegam tem caído acentuadamente e é agora apenas uma pequena fração do que foi no seu pico há alguns anos. Mas há uma crise política. Nos últimos anos, chegaram rapidamente ao poder governos do tipo fascista na Hungria, na Eslovénia, na Polónia, na República Checa, na Áustria e em Itália. E os resultados da cimeira demonstram que eles estão agora a ganhar predominância na Europa no seu conjunto, estabelecendo a agenda e os termos do debate político, pelo menos na questão crítica da migração. Esta situação surgiu não só devido à crescente força dos fascistas mais ou menos declarados, mas também porque os partidos governamentais do “centro-direita”, na Alemanha, em França, na Holanda e noutros países, aceitaram esses termos: de que a questão do momento é a de como manter afastados os migrantes. Isto é descrito como algo que é imposto a esses governos pelas preocupações dos seus cidadãos, mas, muito mais importante, é o que esses governos, a comunicação social e outros fazedores de opinião pública estão a dizer aos cidadãos que eles devem pensar.

A derrota dos partidos fascistas nas eleições do ano passado é uma das razões-chave para Merkel e sobretudo Macron estarem no poder. No entanto, de uma maneira irónica, a profundamente cínica Merkel nomeou Seehofer para supervisionar a imigração, não apesar das bem conhecidas simpatias fascistas dele, mas devido a elas, numa tentativa de apaziguar os apoiantes do partido neonazi AfD e para estabilizar o seu governo de coligação. O governo francês de Macron tem promulgado legislação anti-imigração e levado a cabo um tratamento desumano dos migrantes, apesar de outras leis dizerem o contrário, também em nome de impedir que a extrema-direita beneficie com a “crise da imigração”. O principal resultado, na maioria dos lugares, tem sido uma ainda maior legitimação e encorajamento das forças fascistas. Isso está a acontecer a nível europeu e, em certa medida, a nível global, com Trump a incitar o ataque a Merkel e a liderar e a ser impulsionado pelo processo no seu conjunto.

Há outros fatores que também estão a trabalhar para moldar os resultados desta cimeira de última hora da UE. Uma das razões pelas quais a UE não podia apresentar um plano concreto, ou sequer um roteiro, para a criação de centros de detenção de imigrantes na própria Europa é que a história e o sentimento público tornariam politicamente arriscado trazer de volta os campos de concentração no continente europeu. Até agora, cada país quer que seja outro país a se voluntariar para acolher as prisões de migrantes. O modelo em que há alguma unidade é o dos campos de migrantes na Líbia – o comunicado final da cimeira declarava piamente que esse modelo provou ser o caminho para “romper com o modelo de negócio dos traficantes, evitando assim a trágica perda de vidas”.

Na realidade, a UE simplesmente reduziu o fluxo do tráfico e aumentou o número de mortos. Em vez de ganharem dinheiro através da extorsão e do transporte de vítimas para a Europa, as milícias e os criminosos líbios, armados, financiados e reconhecidos pela Europa como governo “legítimo” do país, mantêm milhares de imigrantes em prisões oficiais e não oficiais. Muitos deles têm sido estuprados e torturados até as famílias deles – contactadas através dos telefones das vítimas e, por vezes, forçadas a ouvir os gritos delas – paguem um resgate. Outros têm sido vendidos como escravos. Este comércio é tão lucrativo e funciona tão bem do ponto de vista europeu que a chamada “Guarda Costeira Líbia”, criada e liderada pela Itália, mantém afastados os barcos de salvamento das ONG sob a ameaça de armas e por vezes aborda mesmo esses navios para poder sequestrar os migrantes. A cimeira especificamente saudou e prometeu aumentar o apoio a essa “Guarda Costeira Líbia”. Começam agora a surgir ameaças de que qualquer navio das ONG que, a partir de agora, vá ajudar os migrantes será acusado de um crime.

A cimeira também endossou o que a França tem feito na sua colónia Níger, que é totalmente sua propriedade. A França está a usar uma combinação entre o seu dinheiro e as suas forças armadas para transformar o que até recentemente era um ponto de trânsito para os migrantes globais com destino à Europa, num gigantesco campo de detenção. Os migrantes vindos de toda a África são aí entregues, sobretudo pela vizinha Argélia, uma possessão não oficial francesa que é, juntamente com a Líbia, um dos dois principais pontos de saída para os imigrantes globais que tentam atravessar o Mediterrâneo. Dezenas de milhares de pessoas têm sido oficialmente expulsas para o Níger, e muitas mais têm sido simplesmente despejadas na profundidade do deserto para aí morrerem. Isso também está a acontecer no Mali. O Gabinete Internacional Para a Migração estima que morreu e desapareceu o dobro das pessoas nas vastas areias do deserto em comparação com as que se afogaram no Mediterrâneo.

É isto o que as “plataformas offshore” da Europa para “processamento de requerentes de asilo” têm parecido ser até agora. A que distância disto está o extermínio organizado?