Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 2 de Abril de 2007, aworldtowinns.co.uk

A pirataria britânica e a ameaça de um ataque ao Irão

Onde estavam os dois barcos britânicos quando foram capturados pelas forças armadas iranianas e o que estavam a fazer?

A posição exacta deles, indicada pelos sistemas GPS (de localização por satélite), é disputada. A Grã-Bretanha alega que estavam num local, com base no que diz serem os dados transmitidos por um dos barcos ao navio-mãe, enquanto o governo iraniano alega que estavam num local diferente, com base nos dados registados pela mesma unidade GPS recuperada depois da captura.

Mas isso está muito longe de ser o essencial da questão. O argumento da Grã-Bretanha de que estavam nas “nossas” águas é uma mentira – e uma auto-exposição – em toda uma série de níveis.

Falsos mapas e uma provocação real

Antes do mais, não há nenhuma linha de demarcação mutuamente aceite entre o Iraque e o Irão no Shatt al-Arab (a via fluvial interior que divide os dois países) e nas águas do Golfo para onde se dirige e onde o incidente ocorreu. Não há nenhum tratado entre os dois países que defina a fronteira porque nunca conseguiram chegar a um acordo sobre esse assunto, embora a Grã-Bretanha tenha tentado impor uma linha de demarcação em 1917, quando controlava os dois países. Os mapas que o governo da Grã-Bretanha foi buscar para provar que os seus barcos de comandos estavam em águas iraquianas foram desenhados pelos próprios britânicos e não têm nenhum valor legal. O antigo Lorde do Mar (chefe da Marinha Real), Almirante Alan West, admitiu isso mesmo implicitamente numa entrevista à BBC (29 de Março). Quando lhe perguntaram como é que se poderia determinar a fronteira marítima, respondeu: “É altamente complexo. Está previsto que [no futuro] uma comissão defina a linha média do Shatt al-Arab e chegue a acordo sobre onde se situam as várias linhas. Por isso, temos a linha que achamos ser a correcta.” Craig Murray, antigo embaixador da Grã-Bretanha no Uzbequistão, apelidou os mapas britânicos de “fraude sem força legal” e concluiu no seu blogue: “A Grã-Bretanha não teve qualquer razão ao ser ultra-provocadora em relação às águas disputadas” (craigmurray.co.uk).

Mesmo que os dois barcos tivessem sido apresados exactamente onde alegam os responsáveis militares da Grã-Bretanha, essa localização situa-se a menos de uma dúzia de quilómetros da costa iraniana. Por isso, qualquer missão britânica nessas águas arriscava-se inerentemente a ser considerada um acto hostil pelas autoridades iranianas. A Grã-Bretanha sabe isso muito bem porque já antes, em 2004, tinha feito exactamente a mesma coisa e com os mesmos resultados, a apreensão e detenção da tripulação britânica envolvida. Por isso, há todas as razoes para acreditar que os britânicos estavam, no mínimo, a arriscar deliberadamente um incidente.

As próprias declarações da Grã-Bretanha sobre o que seus barcos estavam a fazer apenas intensificam essas suspeitas legítimas. Segundo as autoridades britânicas, eles tinham acabado de subir a bordo de um navio de registo indiano que tinha descarregado uma carga de automóveis no Iraque. Por que é que eles interceptaram um navio supostamente suspeito de contrabando depois de ter deixado a sua carga é uma questão a que a Grã-Bretanha ainda não respondeu.

A questão de fundo, claro, é esta: além da questão da fronteira marítima Irão-Iraque, que raio estão a fazer os navios britânicos em qualquer ponto do Golfo, a 8000 quilómetros de casa? Não há nenhuma resposta inocente a esta pergunta. De novo, no mínimo e obviamente, estavam a participar na ilegal, imoral e completamente imperialista ocupação liderada pelos EUA do Iraque, uma antiga colónia britânica numa região onde a Grã-Bretanha espera vir a recuperar algum do seu antigo poder para ditar o curso dos acontecimentos, agindo como parceiro menor dos Estados Unidos de George Bush.

O Almirante West, chefe da Marinha Real quando ocorreu o incidente de 2004, admitiu quase abertamente as ambições neocoloniais da Grã-Bretanha quando, depois do incidente mais recente, se referiu publicamente ao Golfo como as “nossas águas”. Além disso, até agora a Grã-Bretanha tem feito questão de rejeitar a exigência de prometer não entrar novamente em mares iranianos. Relembremos que os serviços secretos (MI6) da Grã-Bretanha representaram um papel chave na preparação do derrube do governo nacionalista iraniano de Mossadegh em 1953, depois de ele ter nacionalizado os interesses petrolíferos britânicos, embora os EUA se tenham acabado por tornar os principais apoiantes do Xá, o odiado monarca que a Grã-Bretanha e os EUA colocaram no poder depois desse golpe e que deteve o poder até ter sido varrido pela revolução de 1979. O povo do Irão tem um ódio particularmente amargo ao imperialismo britânico, bem como aos EUA.

O contexto que dá significado a este incidente

Este incidente naval é evidência de que uma vez mais a Grã-Bretanha está a trabalhar lado a lado com os EUA, desta vez para preparar uma nova guerra que poderá ser tão horrenda ou ainda pior, em termos do número de vidas humanas perdidas, que a invasão e ocupação do Iraque: uma guerra contra o Irão.

Os dois pequenos barcos rígidos insufláveis não estavam a agir sozinhos. Tinham por base e eram comandados a partir da fragata britânica HMS Cornwall, a qual enviou um helicóptero para os acompanhar. Nem a tripulação era constituída por simples marinheiros. Cerca de metade eram fuzileiros navais (marines) e eram comandados por um capitão e um tenente.

O Cornwall é o principal navio de um grupo de combate anti-submarinos e de detecção de minas que envolve vários outros navios de guerra britânicos. Esse grupo, por sua vez, está a trabalhar com dois “grupos de combate” dos EUA (navios de guerra e outros vasos de guerra encabeçados por um porta-aviões). Sob as ordens do USS Stennis, todos esses navios estão actualmente em manobras no Golfo. Trata-se da maior concentração de navios de guerra em qualquer ponto do mundo desde a invasão norte-americana do Iraque em 2003 e a concentração muito invulgar de dois grupos de porta-aviões norte-americanos num só lugar torna tudo ainda mais ameaçador. Só o governo dos EUA empenhou mais de 100 aviões e 10 000 soldados, numa altura em que é forçado a escavar profundamente as suas forças reservistas para enviar mais soldados para o Iraque.

Não há mistério nenhum na natureza dessas manobras navais. Os navios de guerra norte-americanos são descritos oficialmente como “forças de combate” enviadas para “fazer uma guerra aérea simulada nas sobrelotadas pistas de transporte do Golfo, (...) fazendo ataques simulados aos navios inimigos com aviões e navios, caçando submarinos inimigos e encontrando minas.” (Washington Post, 27 de Março). O papel do Cornwall e de outros navios britânicos seria ajudar a proteger a força de ataque norte-americana e impedir o governo iraniano de retaliar contra navios de outros países no Golfo quando os navios que se dirijam ao Irão forem atacados. Estes supostos “jogos de guerra” são um ensaio para um embargo naval e um possível ataque combinado naval e aéreo ao Irão. Eles ocorrem em paralelo com os esforços dos EUA para cercarem e isolarem economicamente o Irão, tanto através do Conselho de Segurança da ONU como ainda mais através do assédio unilateral norte-americano ao sistema bancário internacional. Eles também revelam os objectivos dos EUA desde o início da “crise” fabricada pelo Ocidente sobre o programa de enriquecimento de urânio da República Islâmica: o derrube do regime.

Uma provocação naval na véspera desses “exercícios” poderia ter procurado transformá-los de acto obviamente ofensivo em algo mais justificável em termos de propaganda. O governo Blair precisa desesperadamente de ultrapassar o ódio dos britânicos à guerra do Iraque e a aversão a um primeiro-ministro que mentiu sobre as “armas de destruição em massa” do Iraque e a capacidade de Saddam de enviar mísseis para destruir Londres “em 45 minutos”. Esta “crise dos reféns” teve algum efeito: mesmo o jornal Guardian, esse autodenominado ícone do movimento britânico dominante contra a guerra, caiu na armadilha de denunciar o “comportamento inaceitável” do regime iraniano ao “apresentar” os prisioneiros na televisão e ignorou o verdadeiro “comportamento inaceitável” do governo Blair ao enviá-los para o Golfo em primeiro lugar e a verdadeiramente inaceitável guerra para que a Grã-Bretanha está a avançar através deste incidente.

Alguns exemplos históricos

É útil ir buscar lições ao infame incidente do Golfo de Tonquim, o confronto naval de 1964 que os EUA usaram como justificação política para a sua invasão alargada do Vietname. Em desafio de um tratado internacional para a realização de eleições com vista à unificação do Vietname, depois dos colonialistas franceses terem sido expulsos, os EUA tomaram o Vietname do Sul e transformaram-no num trampolim para atacar o resto do país. No início dos anos 60, os EUA lançaram um programa encoberto de ataques navais contra o Vietname do Norte, usando barcos pequenos e rápidos obtidos secretamente da Noruega. As tripulações desses barcos vinham das chamadas forças armadas sul-vietnamitas, as quais tinham sido estabelecidas, treinadas e lideradas pelos EUA. O comando dessa operação estava completamente nas mãos da Marinha norte-americana. Quando Hanói fez uma reclamação contra os EUA nas instituições internacionais, os EUA mentiram e negaram o seu envolvimento.

Em finais de Julho e início de 1964, esses barcos “Sórdidos” (“Nasty”, como os norte-americanos os chamavam) atacaram uma instalação naval no litoral norte-vietnamita e uma ilha perto da praia. Um navio contratorpedeiro norte-americano, o USS Maddox, observou esses ataques mesmo em cima da linha das águas internacionais. Alguns historiadores militares alegam que a operação era o tipo de sonda frequentemente usada em tempo de guerra ou para preparar uma guerra, com o objectivo de provocar e levar os norte-vietnamitas a deslocar as suas forças navais enquanto o Maddox usava o seu radar, receptores de rádio e outro equipamento para medir a resposta e as capacidades navais norte-vietnamitas em geral, em preparação para uma futura guerra mais alargada. Os barcos patrulha norte-vietnamitas ignoraram os barcos pequenos e, em vez disso, atacaram o navio-mãe, disparando-lhe dois torpedos sem êxito. Dois dias depois, os EUA relataram um segundo “ataque”, desta vez aparentemente não provocado, ao Maddox e a outro navio de guerra norte-americano, o Turner Joy. O governo do Presidente Lyndon Johnson usou-o como pretexto para obter aprovação do Congresso para a guerra e iniciou um bombardeamento aéreo do Vietname do Norte. A maioria dos historiadores acredita que o segundo incidente nunca realmente ocorreu.

Claro que esta analogia não prova nada sobre o que acaba de acontecer no Golfo. Mas, tendo em conta a situação militar global no Golfo – a concentração de navios de guerra norte-americanos e britânicos a ameaçar o Irão – e uma situação política em que os EUA são bastante abertos sobre estarem focados numa “mudança de regime” no Irão e admitem estar a planear uma importante campanha militar para a provocar, embora aleguem que, nesta altura, estes são apenas planos de “contingência” – então há muito boas razoes para suspeitar, como disse um dos 15 prisioneiros britânicos à televisão iraniana, que o governo Blair procura deliberadamente “sacrificá-los” de forma a preparar-se militar e politicamente para outra guerra.

Afinal, a Grã-Bretanha tem um historial de tentar mandar os seus soldados e marinheiros para a morte para ajudar deliberadamente a inflamar a opinião pública interna e tornar politicamente mais fácil de justificar a agressão britânica e o assassinato em massa. Veja-se a invasão das Falkland/Malvinas há exactamente 25 anos. Num laudatório artigo de aniversário com o objectivo de ser uma alegoria da actual “crise dos reféns do Irão”, o jornal Daily Telegraph (31 de Março) chamou-lhe um “brilhante feito militar” que pusera fim à “auto-dúvida” britânica pós-colonialista e à “opinião pública dominante [que] era antimilitarista e antitradição”, porque a sua popularidade se baseou na simpatia pública pelos homens das forças armadas britânicas e não necessariamente no governo Thatcher. Essa guerra “limpa”, “uma guerra melhor que a maior parte delas”, “mudou a forma como nos sentíamos sobre nós próprios” e gerou um regresso à respeitabilidade do patriotismo britânico a um preço que o Telegraph considera barato e bem merecido – 900 vidas argentinas e britânicas.

Uma propaganda revoltante

A lição que, em manchete, o Telegraph retirou da actual “crise dos reféns” foi a seguinte: “Se os iranianos nos odeiam, deixemos que eles também nos temam”. Raramente o clichê “rufar os tambores da guerra” foi uma descrição tão objectiva do estado de espírito de muita da comunicação social britânica.

Os apelos à simpatia para com os prisioneiros por causa da sua juventude são particularmente hipócritas. A Grã-Bretanha, que um grande número de outras nações acusa de usar “soldados-crianças”, recruta jovens para as suas forças armadas com 16 anos de idade. A Marinheira Principal Faye Turney foi descrita na imprensa da Grã-Bretanha como tendo 25 ou 26 anos, nove dos quais nas forças armadas.

Falando em Cabul – capital da República Islâmica do Afeganistão imposta pelos EUA e pelo Ocidente e uma antiga colónia britânica tornada neocolónia dos EUA e seus aliados, onde agora domina a Xariá e está cheia de chadores –, o Chanceler britânico Gordon Brown teve uma postura de defensor das mulheres contra a imoralidade islâmica do Irão. Falando separadamente da mulher entre os prisioneiros britânicos, proclamou: “O tratamento de Faye Turney é cruel, insensível, desumano e inaceitável”. Será que Brown e os outros pensam realmente que ninguém se lembra das imagens de morte, tortura e humilhação sexual extrema infligidos em Abu Ghraib e das imagens televisivas dos soldados britânicos a espancar crianças iraquianas no Campo Bread Basket? Se Brown está tão preocupado com o tratamento “desumano”, por que é que o seu governo aceitou a tortura e o abuso de cidadãos britânicos e de centenas de outras crianças e homens de outras nacionalidades em Guantânamo? De facto, como ousa o governo britânico acusar o Irão de ignorar as Convenções de Genebra quando o chefe de Blair, o próprio Bush, pôs um dos seus lacaios a descrever as convenções como “peculiares” e “obsoletas”?

Embora gente como a ministra britânica dos negócios estrangeiros Margaret Beckett possa etiquetar o aparecimento dos prisioneiros britânicos na televisão iraniana como “totalmente aterrador” e “propaganda descarada”, há uma coisa que não pode ser negada: as palavras de Turney “Não será altura de retirarmos as nossas forças do Iraque e deixá-los determinar o seu próprio futuro?” exprimem os sentimentos da grande maioria das pessoas na Grã-Bretanha, independentemente das circunstâncias em que ela as disse.

Também não se pode negar que o regime iraniano acolheu bem este incidente, usando-o para os seus próprios objectivos reaccionários. Os maoistas iranianos têm dito que o regime no seu todo está unido na convicção de que é inevitável um confronto com os EUA, e que por isso seria mais favorável que isso acontecesse agora que os EUA estão debilitados pela sua desastrosa ocupação do Iraque. A liderança da República Islâmica talvez acredite que a guerra, ou pelo menos a ameaça da guerra, os possa salvar da crescente fúria do povo iraniano contra os mulás medievais cujo domínio tornou as suas vidas num inferno. Mas eles podem estar enganados ao pensar que o atoleiro dos EUA no Iraque os pode salvar.

Bush, Blair e a maioria dos principais políticos de ambos os países, com pouca oposição activa das outras potências imperialistas, estão a preparar-se para colocarem a sua agressão num nível ainda mais elevado. Eles estão a tentar resolver aquilo que vêem como sendo toda a “confusão” do Médio Oriente, do ponto de vista dos seus interesses imperialistas, enfraquecendo e talvez atacando directamente o regime que consideram ser o principal obstáculo aos seus planos regionais do Iraque ao Líbano e para além dele, a República Islâmica do Irão. Usaram esta “crise dos reféns” para avançarem activa e rapidamente na criação das condições para a guerra nas esferas política, ideológica e militar. Mesmo que este incidente particular acabe através de negociações, isso não significa necessariamente que a rota de colisão tenha sido invertida. É provável que haja mais diplomacia, pelo menos porque, para se prepararem para a guerra os governos têm que convencer as pessoas que tentaram evitá-la.

O seu enorme custo humano potencial não significa nada para eles, mas significa tudo para os povos do mundo. Nunca a oposição a esta possível guerra foi mais urgente.