Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 22 de Maio de 2006, aworldtowinns.co.uk

Apoio à luta no Chhatthisgarh: Apelo internacional da Frente Democrática Revolucionária da Índia

O texto que se segue é uma versão ligeiramente editada de um comunicado emitido pela Frente Democrática Revolucionária da Índia (e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.). Chhatthisgarh é um estado recentemente criado na Índia central que faz parte de uma longa faixa de áreas florestadas orientadas de norte para sul no interior do país e onde o Partido Comunista da Índia (Maoista) é muito activo. A maior parte dos seus habitantes são povos tribais (adivasis) que trabalham à jorna e subsistem sobretudo à custa das florestas – por exemplo, juntando e vendendo as folhas usadas para fazer cigarros bidi ou colhendo flores para fazer bebidas alcoólicas. Para impedir o seu apoio à insurreição, as milícias organizadas pelo Estado e outras forças de segurança têm vindo a “realojar” 50 000 membros desses povos para esquálidos campos mais parecidos com prisões, próximos das estradas onde o exército os pode vigiar.

Na acção governamental que decorre sob o nome de Salva Judum (“campanha de pacificação”) na região de Bastar, no Chhatthisgarh, não só centenas de pessoas têm sido presas, torturadas, assassinadas e violadas em grupo, como todo o seu modo de vida foi destruído. Através de um terror brutal, o objectivo do governo é extinguir as faíscas da revolução que ocorre no próprio coração da Índia.

Durante os últimos 25 anos de luta, os naxalitas, como são conhecidos os maoistas na Índia, despertaram esses povos tribais para uma vida de auto-respeito, esmagando a cruel e brutal autoridade do aparelho de estado e estabelecendo uma forma rudimentar do novo poder popular. Tem sido uma luta épica de sacrifício e determinação onde centenas de maoistas e seus apoiantes nesta região deram as suas vidas pelo nascimento da nova sociedade. Antes da chegada dos naxalitas, os 30 anos de suposta independência nada tinham feito pelos povos tribais; de facto, as suas condições de vida apenas tinham piorado. Perderam a sua terra para projectos mineiros e foram regularmente perseguidos e pilhados por agentes governamentais da floresta e outros em conluio com os elementos feudais locais.

Agora, devido a estes 25 anos de luta armada contra as forças governamentais, eles têm educação básica, medicamentos, conhecimentos agrícolas, etc. – claro que de uma forma rudimentar – através da organização do novo poder erguida sob a direcção dos maoistas que vivem e morrem com eles. A comunicação social proclama de longe que os naxalitas estão a impedir o desenvolvimento; mas a realidade é que o único desenvolvimento que os povos tribais alguma vez tiveram foi depois de os naxalitas terem chegado à região. E agora procuram arrebatar-lhes os frutos dessas pequenas vitórias com uma brutalidade extrema.

Milhares de pessoas foram violentamente desalojadas, mais de cem foram brutalmente assassinadas, 70 aldeias foram incendiadas, 40 mulheres foram violadas em grupo, colheitas foram destruídas, gado e aves de capoeira foram pilhados — tudo em nome da Salva Judum. Isto tem sido assim desde Junho de 2005 mas, devido a um bloqueio sistemático e consciente, nada disto tem sido relatado nos principais órgãos de comunicação social. Com excepção de alguns relatos de investigação, tudo o que chegou à imprensa [indiana] tem sido apenas a propaganda governamental.

As brutalidades têm sido horrorosas. Rapazes decapitados. As suas cabeças cortadas penduradas em postes nas suas próprias casas. Mulheres violadas em grupo, torturadas e os seus peitos cortados. Mulheres grávidas com os fetos arrancados... e depois deixadas a sangrar até à morte, uma morte agonizante no meio da floresta. Aldeias inteiras incendiadas, colheitas destruídas e todo o gado e aves de capoeira roubados ou mortos. As pessoas empurradas como animais para campos de concentração – ao estilo das “aldeias estratégicas” usadas pelas forças norte-americanas no Vietname e noutras contra-insurreições [e por Portugal na guerra colonial em África – NT]. Vivendo como escravos nesses campos de concentração altamente anti-higiénicos e obrigados a trabalhos forçados pela polícia e pelos paramilitares a troco de uma ninharia.

Numa tentativa de obter através da fome a rendição das massas revolucionárias face ao Estado, começaram por encerrar todos os mercados semanais locais e depois deixaram de fornecer bens essenciais como arroz às lojas de rações. Como é bem sabido, os mercados semanais são o único modo de vida dos camponeses adivasis, dado que é nesses mercados que eles vendem os seus produtos e compram tudo o que necessitam diariamente. Assim, a intenção do Estado é muito clara – obrigá-los a renderem-se ou a sofrer a fome até à morte. Além disso, as suas colheitas foram destruídas, o seu gado pilhado e as suas casas e todos os utensílios e reservas de grão de semente foram destruídos. Uma grande parte da população que já vivia uma existência de subsistência enfrenta agora a fome. E com a continuação das operações da Salva Judum, a situação está a transformar-se num inferno.

Toda a campanha foi iniciada pelo Partido do Congresso, na oposição na assembleia estatal, com todo o apoio do governo local do BJP. Ambos os partidos estão de mãos dadas nesta campanha de brutalidade e terror onde as forças paramilitares, os assassinos lúmpen, os elementos feudais, os agentes governamentais e a polícia se têm todos aliado numa campanha sistemática e bem planeada. Por trás de si têm os sacos de dinheiro do grande capital e dos imperialistas. Esta região é muito rica em minérios de ferro e os Tata (uma das maiores famílias capitalistas monopolistas da Índia, proprietária de fábricas de aço, entre outras coisas) já assinaram um memorando de entendimento sobre terras nessa área. Os naxalitas têm-se oposto veementemente aos desalojamentos que têm ocorrido devido a tais projectos que se realizam a pretexto do “desenvolvimento”.

A única ajuda do povo é o apoio que obtém dos naxalitas nas florestas, que partilham a sua pouca comida com os povos tribais desalojados. É nestas condições que apelamos a que nos dêem a vossa mão, ajudando os povos tribais famintos que enfrentam brutalidades desumanas, pela única razão de que “se levantaram” e se recusaram a submeter-se à autoridade corrupta, exploradora e opressiva do actual sistema.

Apelamos a que nos ajudem nesta luta histórica que ocorre no próprio coração da Índia. Isso pode ser feito de várias formas e mesmo pequenas contribuições serão bem-vindas. Podem vir e emprestar-nos os vossos conhecimentos, ficando na região durante alguns meses, ou contribuir com dinheiro, medicamentos e qualquer outro artigo que possa ser útil aos povos tribais e às forças que aí lutam. Também vos pedimos que divulguem a mensagem sobre o que está a acontecer na chamada maior democracia do mundo e que está a ser conscientemente mantido escondido do público. É importante que a verdadeira realidade chegue às pessoas de todo o país e de todo o mundo.