O seguinte comunicado foi publicado no sítio internet do Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista), cpimlm.org.

Mapa do norte da Síria
Mapa do norte da Síria, indicando os vários intervenientes: as forças curdas (a cinzento), as forças do governo sírio (a vermelho), os rebeldes sírios apoiados pela Turquia juntamente com as forças turcas (a laranja) e a chamada “zona de segurança” turca (às riscas). (Imagem: revcom.us)

A ofensiva militar do exército fascista da Turquia em Rojava

Comunicado do Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista)

A ofensiva militar do estado fascista da Turquia contra Rojava (o Curdistão da Síria) e a região autónoma controlada pelas Unidades de Defesa Popular (YPG) é verdadeiramente um ato de genocídio para erradicar o povo curdo da região. A república fascista da Turquia, para cumprir o seu principal objetivo contra a nação curda, estendeu esta guerra também para além das suas fronteiras, contra os curdos da Síria. Estes são os crimes que emergem da “Primavera de Paz” de Erdogan.

Várias cidades e vilas no norte da Síria foram atingidas pelos ataques aéreos e pela artilharia da Turquia e muitos alvos foram bombardeados, incluindo Syrikani (Ras al-Ayn) e Gary Espy (Tell Abyad). O governo turco diz que está a tentar criar uma “zona de segurança” ao longo da fronteira e tem por objetivo expulsar as forças curdas ligadas ao Partido da União Democrática (DYP), rotuladas como “grupos terroristas”. Erdogan e o governo turco transformaram mais de quatro milhões de refugiados sírios residentes na Turquia num instrumento da sua política fascista.

Esta ocupação violenta não é apenas contra os curdos da Síria. Com esta guerra, Erdogan está a tentar responder ao extremo descontentamento do povo turco contra si e o seu partido, o AKP, lançando ataques cada vez mais agressivos contra os seus adversários, curdos e não-curdos, sob o falso pretexto da “segurança nacional”. Desde o início destes ataques, vários opositores de Erdogan, entre os quais forças políticas da oposição, intelectuais, sindicatos, etc., declararam a oposição deles a esta guerra. O Partido Democrático Popular (HDP), um partido que está dentro da estrutura do poder na Turquia, apelou a uma coligação alargada de unidade contra Erdogan; ao mesmo tempo, Erdogan também apelou aos seus apoiantes para saírem às ruas em defesa das políticas do seu partido.

Este ataque foi levado a cabo com a luz verde de Trump e a bênção do Irão e da Rússia, com alguns ses e mas, apesar de tacitamente terem alinhado com ele — mas posicionando-se para retiraram a maior vantagem possível da situação. O Exército Nacional Sírio — antes chamado Exército Livre da Síria e constituído por ex-oficiais de Bashar Al-Assad, mercenários das forças de segurança e do Exército da Turquia (MIT) — saudou a decisão de Ancara de invadir a Síria. Numa declaração emitida na quarta-feira, este grupo afirmou que “Os curdos não nos deixaram outra escolha” e emitiu um decreto para que as forças sob o seu comando “atacassem [os curdos] com toda a força dos seus punhos e lhes ateassem fogo, fazendo-os provar o inferno.”

O que estamos a ver hoje na região é a expressão das contradições provenientes do centro do sistema capitalista global e da reação dos governantes imperialistas, especialmente do imperialismo norte-americano, a estas contradições. Estas guerras (do império) que têm massacrado e deslocado várias gerações de curdos, árabes e outros povos no Iraque, na Síria, no Afeganistão e no Iémen, e inundado as vidas delas de horror e medo, são de facto características de todas as contradições dos tempos que vivemos. O governo norte-americano, qualquer que fosse a fação que estivesse na Casa Branca, nunca apoiou o povo curdo, independentemente dos seus conflitos e desacordos intermitentes com o governo turco. A razão para isto é que a República da Turquia faz parte da estrutura do domínio e da hegemonia do imperialismo norte-americano, e em geral dos imperialistas ocidentais, no Médio Oriente.

Erdogan adora o Daesh

Trump escreveu desavergonhadamente no Twitter que “Agora os curdos estão a lutar pela sua própria terra, só para que vocês compreendam, (...) eles não lutaram por nós na II Guerra Mundial e não nos ajudaram na Normandia.” A história da relação do imperialismo norte-americano com os curdos está cheia de mentiras e traições. O objetivo dos Estados Unidos nunca teve nada a ver com a vitória dos curdos nem com o direito deles à autodeterminação. Os Estados Unidos traíram repetidas vezes o povo curdo e as forças políticas burguesas curdas e usaram-nas como instrumento para reforçarem as suas próprias relações, como espinha dorsal e fonte de pressão sobre os governos do Irão, do Iraque, da Turquia e da Síria. A cooperação entre o governo sírio do partido Ba'ath da época de Hafiz al-Assad, a CIA, a Mossad israelita e o MIT (a agência de segurança da Turquia) para prenderem Abdullah Ocalan foi um desses acordos. Na atual situação, as sinistras sombras desses acordos sangrentos são novamente visíveis.

No Médio Oriente de hoje, qualquer movimento político que queira ser um movimento do povo, e servir o povo que afirma representar, tem de fazer o seu máximo para evitar o vórtice de coligações e acordos com as potências imperialistas (os Estados Unidos, a Rússia, a China e a União Europeia) e, consequentemente, evitar acordos com os governos regionais (Irão, Turquia, Arábia Saudita, Israel, Síria, Iraque, etc.) e assim levar o seu povo rapidamente para longe desse atoleiro. Mas o partido dominante em Rojava, o PDD, e os seus ramos militares, YPG e YPJ, têm andado em sentido contrário a este princípio. Juntamente com outros partidos nacionalistas do Curdistão, eles integraram na sua estratégia, e fizeram com que isso fosse uma coisa demasiado comum, a sua transformação em instrumentos das potências imperialistas e dos governos da região. Esta tem sido uma política que desde sempre causou ao povo curdo massacres e deslocações.

Desde há muitos anos que o Médio Oriente tem sido cenário da guerra e do derramamento de sangue levados a cabo pelas forças imperialistas e pelos governos reacionários da região. Estas traições, atrocidades, genocídios e guerras sem fim irão continuar a menos que haja na região, em uma ou mais zonas, um poderoso movimento comunista baseado no verdadeiro comunismo, o novo comunismo, que lidere as massas populares “por um outro caminho”, com uma liderança qualitativamente diferente da que tem dominado na região, há demasiados anos. Os povos da região devem começar por se unir na teoria e depois na prática contra todos os imperialistas e reacionários da região e contra as guerras deles.

Como salientou o Partido Comunista do Irão (MLM) no projeto de constituição para a nova República Socialista do Irão, nos devemos empenhar por uma revolução comunista e pela edificação de uma sociedade que:

“sirva de base para o avanço da revolução mundial e mostre aos povos do mundo, através da divulgação e como modelo, que a pobreza e as privações que resultam das antigas relações de propriedade, das antigas maneiras de pensar, das antigas relações sociais de opressão — como a opressão das mulheres, a dominação económica, a dominação política e cultural, o racismo e a hegemonia de uma nação sobre outra nação, a destruição do meio ambiente, a monopolização do acesso à ciência e à arte por um punhado de pessoas na sociedade, forçando a arte e a ciência a servirem o sistema capitalista, proibindo o pensamento e transformando os seres humanos em seres submissos que são peças da engrenagem do sistema capitalista —, irão todas diminuir com o derrube do sistema capitalista, com o estabelecimento do socialismo e com a mudança para o estabelecimento de um sistema social comunista no mundo.”

10 de outubro de 2019