Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 27 de Novembro de 2006, aworldtowinns.co.uk

As causas da guerra civil no Iraque – II:

Terão os EUA fomentado deliberadamente esta guerra civil?

A existência de situações semelhantes em países vitimados pelo imperialismo levou alguns jornalistas e organizações políticas e um largo sector das massas, sobretudo nos países oprimidos, a acreditarem que os EUA incentivaram deliberadamente a guerra civil no Iraque. Há razões e perguntas sem resposta que dão crédito a essas teorias.

Apesar dos seus actuais protestos piedosos em contrário, os EUA e outros imperialistas envolvidos na ocupação do Iraque não foram apanhados de surpresa pelo início da guerra civil. Eles não estavam completamente desprevenidos em relação às consequências das suas políticas. Alguns estrategas imperialistas tinham previsto esse resultado muito antes da invasão. Como documenta Stephen Zunes (antiwar.com), “Alguns dos arquitectos intelectuais da guerra reconheceram-no em grande parte: Num artigo de 1997, antes de se terem tornado importantes figuras da equipa de política externa de Bush, David Wurmser, Richard Perle e Douglas Feith previram que um Iraque pós-Saddam seria provavelmente ‘dilacerado’ pelo sectarismo e por outras divisões, mas apelavam a que, mesmo assim, os Estados Unidos ‘acelerassem’ esse colapso.”

Como é que eles esperavam acelerá-lo?

O conhecido jornalista baseado em Londres, John Pilger, escreveu: “As verdadeiras notícias, que não são divulgadas pela ‘convencional’ CNN, são as de que a Opção El Salvador foi invocada para o Iraque. Trata-se de uma campanha de terror com esquadrões da morte armados e treinados pelos EUA que atacam tanto sunitas como xiitas. O objectivo é incitar uma verdadeira guerra civil e a desagregação do Iraque, o objectivo inicial da guerra para a administração Bush. O Ministério do Interior em Bagdad, que é controlado pela CIA, dirige os principais esquadrões da morte. Os seus membros não são exclusivamente xiitas, como indica o mito. Os mais brutais são os Comandos Especiais da Polícia liderados por sunitas e encabeçados por antigos altos responsáveis do Partido Baath de Saddam. Esta unidade foi formada e treinada por peritos da CIA em ‘contra-insurreição’, entre os quais veteranos das operações de terror da CIA na América Central durante os anos 80, nomeadamente em El Salvador.” (The New Statesman, 8 de Maio de 2006).

Entre os conselheiros permanentes dos Comandos Especiais da Polícia está James Steele. Numa entrevista, ele revelou ser “um dos peritos militares de topo dos Estados Unidos em contra-insurreição. Steele afinou as suas tácticas quando liderava uma missão das Forças Especiais em El Salvador, durante a brutal guerra civil desse país nos anos 80. A presença de Steele não só é um sinal do papel crucial dos Comandos na estratégia norte-americana de contra-insurreição, mas também da sua relação íntima com Adnan. Steele admirava o general.” Esta referência é ao chefe dos Comandos Especiais, Adnan Thabit, um sunita e antigo quadro baathista – e, segundo o entrevistador, um homem que não se importa de admitir o seu gosto pela tortura e pelos assassinatos. (“The Way of the Commandos” [“O Modo dos Comandos”], de Peter Maass, The New York Times Magazine, 1 de Maio de 2005.)

Referindo-se à guerra civil no Iraque, o jornalista britânico Robert Fisk cita um funcionário da segurança de Damasco que, diz Fisk, “conheço há 15 anos”. O homem relatou-lhe que “um jovem iraquiano disse-nos que tinha sido treinado em Bagdad para a polícia por norte-americanos e passou 70 por cento do seu tempo a aprender a conduzir e 30 por cento em treino de armas. Disseram-lhe: ‘Volta daqui a uma semana’. Quando regressou, deram-lhe um telemóvel e disseram-lhe para se dirigir para uma zona apinhada de gente perto de uma mesquita e para lhes telefonar. Ele esperou no carro mas não conseguia obter sinal no telemóvel. Por isso, saiu do carro para conseguir obter um sinal melhor. Nessa altura, o seu carro explodiu.” (The Independent, 26 de Abril de 2006).

Fisk continua: “Quem seriam esses ‘americanos’, a minha fonte não me disse. No mundo anárquico e apavorado do Iraque, há muitos grupos dos EUA – incluindo inúmeros grupos que supostamente trabalham para o exército norte-americano e para o novo Ministério iraquiano do Interior apoiado pelo Ocidente – e que operam fora de qualquer lei ou regras. Ninguém consegue responder pelo assassinato de 191 professores, universitários e outros, desde a invasão em 2003.”

Isto pode estar relacionado com a controvérsia de há cerca de dois anos atrás sobre as tácticas de contra-insurreição, quando alguns estrategas norte-americanos começaram a sugerir que a ocupação adoptasse a “Opção El Salvador”. Um “alto responsável militar” disse à Newsweek: “Temos que encontrar uma forma de passar à ofensiva contra os insurrectos. Neste momento, estamos a jogar à defensiva.” Isto mostra muito claramente o desespero de Washington face a uma guerra que ficava cada vez pior. A revista norte-americana continuava: “O Pentágono está a debater intensamente uma opção que data da ainda secreta estratégia do combate da administração Reagan contra a insurreição da guerrilha esquerdista em El Salvador, no início dos anos 80.” (14 de Janeiro de 2005)

Segundo a Newsweek, se seguir o modelo de El Salvador, o Pentágono “enviará uma equipa das Forças Especiais para aconselhar, apoiar e possivelmente treinar esquadrões iraquianos, muito provavelmente escolhidos a dedo entre os combatentes peshmergas curdos e os milicianos xiitas, que visem os insurrectos sunitas e os seus simpatizantes, mesmo para além da fronteira com a Síria.” Em Maio de 2005, foram revelados detalhes semelhantes numa revista de Nova Iorque, num artigo intitulado “A Salvadorização do Iraque?”

O congressista norte-americano Denis Kucinich levou esses relatos suficientemente a sério para escrever uma carta ao Secretário da Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld: “Este programa em El Salvador foi altamente controverso e teve uma grande reacção pública negativa nos EUA, quando dezenas de milhares de civis inocentes foram assassinados e ‘desaparecidos’... Segundo o relato da Newsweek, os conservadores do Pentágono quiseram ressuscitar o programa salvadorenho no Iraque porque acreditavam que, apesar do custo incrível em vidas humanas e direitos humanos, teve êxito na erradicação da guerrilha.” A carta também se refere a um artigo da revista Prospect (1 de Janeiro de 2004) que, segundo Kucinich, diz: “3 dos 87 milhares de milhões de dólares dos fundos para operações no Iraque foram destinados à criação de uma unidade paramilitar constituída por milicianos associados aos antigos grupos iraquianos no exílio. Segundo o artigo da Prospect, os peritos previram que a criação dessa unidade paramilitar iria ‘levar a uma onda de assassinatos extrajudiciais, não só de rebeldes armados mas de nacionalistas, de outros opositores à ocupação norte-americana e de milhares de civis baathistas’. O artigo descrevia mais à frente como o essencial do programa de 3 milhares de milhões de dólares, disfarçado de programa classificado da força aérea, seria usado para ‘apoiar os esforços dos EUA de criação de uma força iraquiana de segurança letal e orientada para a vingança’. Segundo uma das fontes do artigo, John Pike, um perito em orçamentos militares classificados da www.globalsecurity.org, ‘o essencial do dinheiro seria para a instalação de uma polícia secreta iraquiana para liquidar a resistência’.” (Extraído de “Civil War in Iraq: The Salvador Option and US/UK Policy” [“Guerra Civil no Iraque: A Opção El Salvador e a Política dos EUA/GB”], de Craig Murray, antigo embaixador britânico no Uzbequistão e agora proeminente crítico das políticas externas britânica e norte-americana, 18 de Outubro de 2006, disponível em www.craigmurray.co.uk.)

Aqui vale a pena salientar um facto perturbador: no início e meados dos anos 80, quando o governo dos EUA financiou e organizou os esquadrões da morte chamados “Contras” que mataram civis numa campanha pelo derrube de um governo reformista e pró-soviético na Nicarágua, bem como esquadrões da morte semelhantes que levaram a cabo horrendos assassinatos em massa em El Salvador, John Negroponte era o embaixador dos EUA nas Honduras. Este país, vizinho de El Salvador e da Nicarágua, foi onde os Contras foram armados, treinados e financiados. Numa investigação posterior do Congresso dos EUA, ele foi acusado de dirigir pessoalmente a operação dos Contras. Em Junho de 2004, John Negroponte tornou-se embaixador dos EUA no Iraque. Aí esteve até ao ano seguinte, quando se tornou Director dos Serviços Secretos Centrais de Bush (o que incluí encabeçar a CIA), onde ainda hoje está.

A base para a guerra civil do Iraque vem do tempo da formação do país, ainda como colónia britânica, quando a Grã-Bretanha instituiu a política de confiar na elite sunita minoritária para governar os curdos e os xiitas. Saddam Hussein simplesmente assumiu essa estrutura de poder. Isso não pode ser atribuído aos EUA. O que os EUA fizeram foi, na década anterior à invasão liderada pelos EUA, exacerbar deliberadamente as condições materiais da sociedade iraquiana que tornaram possível esta guerra civil e, depois, montar uma estrutura política que deu o poder a nacionalistas tacanhos (as organizações curdas) e a líderes religiosos xiitas reaccionários de base estreita. Reatribuíram o poder às forças tradicionais de base étnica e religiosa e encorajaram uma luta pelo poder de vida e morte entre eles. Criaram uma situação onde muita gente viu poucas hipóteses de sobrevivência a não ser abraçando as “suas” respectivas milícias étnico-religiosas.

Em qualquer tipo de situação caótica onde haja uma feroz competição pelo poder em larga escala, é inevitavelmente desencadeado todo o tipo de violência entre as pessoas, mesmo nas melhores das circunstâncias. Nas condições do Iraque de hoje, onde a política de identidade predomina e nenhuma das principais forças políticas procura sequer unir as massas contra os seus verdadeiros inimigos e onde as ideias mais reaccionárias são as que estão mais bem organizadas, armadas e promovidas pelos ocupantes, directa e indirectamente, então a situação está destinada a ser particularmente horrorosa. Seria uma ilusão acreditar que esta guerra civil não tem nenhuma base e nenhuma lógica ou vida própria, independentemente da ocupação. O que está a levar a esta loucura não são os impulsos espontâneos das massas mas os objectivos políticos e a natureza das forças que combatem pelo poder. Pode ser que os EUA se encontrem numa posição de terem libertado forças para além do seu controlo. Mas os EUA agiram consciente e deliberadamente ao fomentarem esta situação.

Pode não ser possível vir a verificar até que ponto esses relatos reflectem a realidade ou quanto do esquema da “Opção El Salvador” se materializou, mas podemos ter a certeza que esse padrão de operações foi levado a cabo pelo imperialismo norte-americano em muitos países onde teve dificuldade em derrotar as insurreições.

1ª Parte: As causas da guerra civil no Iraque – I
2ª Parte: Terão os EUA fomentado deliberadamente esta guerra civil?
3ª Parte: As consequências para o Iraque e para a região
4ª Parte: Os interesses dos EUA – e os interesses do povo