Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 16 de Abril de 2007, aworldtowinns.co.uk

Arundhati Roy e a “ONGização da política”

Tal como o fez um artigo da Oito de Março, a revista da Organização 8 de Março de Mulheres Iranianas e Afegãs (transcrito noutro lado), reproduzimos aqui um excerto da intervenção proferida pela activista, crítica social e escritora indiana Arundhati Roy em São Francisco, Califórnia, a 16 de Agosto de 2004, intitulada “Maré? Ou Neve de Marfim?” Enquanto haja importantes diferenças entre a perspectiva dela no resto desta intervenção e a nossa, sobretudo no que diz respeito ao que seria preciso para concretizar um mundo radicalmente diferente do inferno dominado pelo imperialismo em que hoje vivemos, e ao que essa sociedade poderia e deveria ser, consideramos que estas suas reflexões são um incentivo a uma reflexão muito útil para todos os que procuram essa mudança.

Será fácil distorcer o que estou a ponto de dizer numa acusação a todas as ONGs. Isso seria uma falsificação. Nas águas obscuras das falsas ONGs, constituídas quer para receberem o dinheiro dos subsídios, quer como evasão aos impostos (em estados como o Bihar, eles são oferecidos como dote), é claro que há ONGs que fazem um trabalho válido. Mas é importante considerar o fenómeno das ONGs num contexto político mais vasto.

Na Índia, por exemplo, a explosão de ONGs financiadas começou no final dos anos 80 e nos anos 90. Coincidiu com a abertura dos mercados da Índia ao neoliberalismo. Nessa altura, o estado indiano, em conformidade com as exigências do ajuste estrutural, estava a reduzir o financiamento ao desenvolvimento rural, à agricultura, à energia, aos transportes e à saúde pública. À medida que o estado abdicava do seu papel tradicional, as ONGs surgiram para trabalhar nessas mesmas áreas. A diferença, claro, é que os capitais disponíveis para elas são uma minúscula fracção do próprio corte nos gastos públicos. A maior parte das grandes ONGs financiadas obtêm os seus fundos e são patrocinadas pelas agências de ajuda e desenvolvimento que, por sua vez, são financiadas pelos governos ocidentais, pelo Banco Mundial, pela ONU e por algumas multinacionais. Embora possam não ser as próprias agências, fazem certamente parte da mesma formação política pouco definida que orienta o projecto neoliberal e que, em primeiro lugar, exige o corte dos gastos governamentais.

Porque é que essas agências financiam as ONGs? Será que é apenas um zelo missionário fora de moda? Culpa? É um pouco mais que isso. As ONGs dão a impressão de estarem a preencher o vazio criado por um estado que se retira. E estão-no, mas de uma forma materialmente inconsequente. A sua verdadeira contribuição é que elas neutralizam a ira política e distribuem como ajuda ou benevolência aquilo que as pessoas deveriam ter por direito.

Elas alteram a psique pública. Transformam as pessoas em vítimas dependentes e atenuam os limites da resistência política. As ONGs formam uma espécie de almofada entre o sarkar (estado) e o público. Entre o Império e os seus subordinados. Tornaram-se árbitros, intérpretes, catalisadores.

A longo prazo, as ONGs respondem perante os seus financiadores, não perante as pessoas entre as quais trabalham. São aquilo a que os botânicos chamariam de espécie indicadora. É quase como se quanto maior é a devastação causada pelo neoliberalismo, maior é a erupção de ONGs. Nada ilustra isto de uma forma mais pungente que o fenómeno de os EUA estarem a preparar-se para invadir um país e simultaneamente a aprontarem as ONGs para entrarem e limparem a devastação.

Para terem a certeza de que o seu financiamento não é posto em risco e que os governos dos países em que trabalham os deixam operar, as ONGs têm que apresentar o seu trabalho num quadro superficial mais ou menos tosquiado do contexto político ou histórico. De qualquer modo, um contexto histórico ou político inconveniente.

As notícias apolíticas (e por isso, de facto, extremamente políticas) de angústia vindas dos países pobres e das zonas de guerra acabam por fazer os (sombrios) povos desses (sombrios) países parecerem vítimas patológicas. Mais um indiano malnutrido, mais um etíope faminto, mais um campo de refugiados afegãos, mais um mutilado sudanês... todos a necessitarem da ajuda do homem branco. Inadvertidamente, reforçam o estereótipo racista e reafirmam os feitos, o conforto e a compaixão (o amor robusto) da civilização ocidental. Eles são os missionários laicos do mundo moderno.

No final – a uma escala menor mas mais insidiosa – o capital disponível para as ONGs desempenha o mesmo papel na política alternativa que o capital especulativo que flui para dentro e fora das economias dos países pobres. Começa a impor as agendas. Transforma o confronto em negociação. Despolitiza a resistência. Interfere nos movimentos populares locais que tradicionalmente eram auto-suficientes. As ONGs têm fundos com que podem empregar habitantes locais que de outra forma poderiam ser activistas dos movimentos de resistência, mas que agora podem sentir que estão a fazer algum bem imediato e criativo (e a ganhar a vida enquanto o fazem). A verdadeira resistência política não tem estes atalhos.