O seguinte artigo foi publicado originalmente na Medium (medium.com/@coco_das/admit-that-the-waters-around-you-have-grown-6883eb6b50d3), republicado pela Recusar o Fascismo (refusefascism.org/2019/12/19/admit-that-the-waters-around-you-have-grown/) e reproduzido na edição online do jornal Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (em inglês a 20 de dezembro de 2019, revcom.us/a/626/admit-that-the-waters-around-you-have-grown-en.html, e em castelhano a 26 de dezembro de 2019, revcom.us/a/627/admitan-que-han-subido-las-aguas-a-su-alrededor-es.html). Todas as ligações do texto estão em inglês.

Admitam que as águas do fascismo à vossa volta subiram

Por Coco Das

Protesto contra a Lei de Correção da Cidadania, Deli, Índia
Protesto contra a Lei de Correção da Cidadania, Deli, Índia

As águas do fascismo subiram no país onde nasci e no país onde sou cidadão. Ambos os países precisam de protestos sustentados, não-violentos e massivos para exigir a remoção de regimes fascistas.

Por mais estúpido que pareça, às vezes penso em para onde seria enviado se fosse deportado. Sou um cidadão naturalizado norte-americano, sem garantia de um país permanente num momento em que o regime Trump e Pence testa formas de desnaturalizar os cidadãos.

Saí da Índia quando tinha dois anos de idade, e não sou cidadão desse país desde que tinha dezasseis anos. Uma vez, alguém bem intencionado disse-me que se as coisas corressem mal para mim aqui, eu poderia regressar à Índia e continuar a ter um país. Até um certo momento, eu provavelmente teria aceitado isso, mas agora sinto que para as pessoas que se preocupam profundamente com a humanidade, não há países nem espaços seguros.

Em novembro, regressei à Índia pela primeira vez em quinze anos para participar em dois casamentos. Eu tinha medo de lá ir, e especialmente da perspetiva de descobrir o quanto a minha família se alinhou com o primeiro-ministro Narendra Modi e com o Partido Bharatiya Janata (BJP), a ala política do movimento fascista hindu que ascendeu aos mais altos níveis do poder na Índia. Após a reeleição de Modi no início de 2019, o BJP acelerou o processo de consolidação do fascismo de maneiras horripilantes. Assim como o ataque aos imigrantes por parte do regime de Trump e Pence tem sido o centro e o aríete de todo um programa fascista de supremacia branca, misoginia e xenofobia, a guerra de Modi e do BJP contra os muçulmanos escalou para uma limpeza étnica genocida e um refazer da Índia como “Hindu Rashtra”, um estado teocrático para proteção e benefício dos hindus. Quando Modi revogou o estatuto especial do estado de Caxemira e colocou a região sob bloqueio militar, um primo meu ficou feliz por finalmente a Caxemira ir ser “integrada” no resto da Índia. Uma prima de quem eu antes era próximo está casada com um político do BJP. Estas são conversas que eu não queria ter pessoalmente, especialmente durante uma celebração familiar.

Mas visitar a Índia, especialmente a relativamente progressista cidade de Kolkata [ex-Calcutá], talvez pareça semelhante a andar em Berlim em 1935. À superfície, as coisas podem parecer normais, até agradáveis. A temporada de casamentos hindus tinha acabado de começar, e eu vi nas ruas de Kolkata muita alegria, diversidade e vitalidade. No entanto, lê-se o jornal, ou entra-se numa discussão sobre política, mesmo que superficial, e pode-se começar a entender o quão longe a Índia caiu no fascismo. Alguns acolhem isso com uma mistura de medo, desespero e dor pelo sonho perdido de uma Índia laica. Alguns pensam poder apoiar o BJP por limpar as ruas de Benares (onde vive parte da minha família) e rejeitar o linchamento dos muçulmanos. Num país de mais de mil milhões de pessoas, com uma história de protestos e desobediência civil, qualquer oposição organizada nas ruas à visão fascista da Índia do partido hindu BJP empalidece em comparação com a que é necessária e a que é possível.

O mais recente terror do BJP está a espalhar-se pela Índia, o Projeto de Lei de Correção da Cidadania (agora chamado Lei de Correção da Cidadania [LCC]), em combinação com o Registo Nacional de Cidadãos [RNC], tem desencadeado finalmente vigorosos protestos massivos em todo o país, particularmente nas universidades, após a polícia de Deli ter invadido a Universidade Jamia Millia Islamia e brutalizado os estudantes. O RNC foi o mecanismo através do qual, praticamente da noite para o dia, quase dois milhões de pessoas, muitas delas refugiadas da guerra de libertação do Bangladesh em 1971 que tinham fugido para o estado do Assam, no nordeste da Índia, perderam a sua cidadania. Porque algumas destas pessoas que ficaram de fora do registo de cidadãos eram hindus, foi introduzida a Lei de Correção da Cidadania de 2019 para separar os que procuravam cidadania ou residência dos refugiados não-muçulmanos e dos “infiltrados” muçulmanos. A Lei de Correção da Cidadania acabou de ser aprovada no Lok Sabha, o que significa que este terror se tornou lei, e pode vir a ser o precursor que ameaça os direitos de cidadania e residência de 20 milhões de muçulmanos indianos. Ao mesmo tempo, o governo está sinistramente a ameaçar construir massivos campos de concentração, testando e fortificando um mais brutal aparelho de vigilância e repressão, e desencadeando uma base fascista hindu fanaticamente violenta. Durante a última década, 90% da violência religiosa, esmagadoramente contra os muçulmanos, ocorreu desde que Modi e o BJP chegaram ao poder em 2014.

O regime de Modi está a cometer enormes crimes contra a humanidade a cada dia que passa e deve ser afastado do poder através de massivos protestos não-violentos. Os protestos estudantis contra a LCC propagaram-se, e alguns líderes do partido da oposição têm apelado a que as pessoas saíam às ruas, mas isso não será suficiente para impedir que os fascistas hindus cimentem a sua visão da Índia, enquanto Modi e o BJP continuarem no poder. Todos estes regimes fascistas, os Trumps e os Modis, devem ser afastados de imediato, e apenas milhões de pessoas nas ruas podem criar o tipo de crise política que os pode expulsar.

Foi surreal experimentar o colapso fascista do país onde moro e do meu país de nascimento de dois pontos de vista diferentes. Nos Estados Unidos, a supremacia branca do regime de Trump coloca-me constantemente no limite, enquanto na Índia, a minha família da casta superior hindu, ainda que não goste de Modi, não é um alvo e pode fingir que não está a acontecer nada. E depois há familiares meus que saltaram para a maré fascista hindu, alinhando atrás de monstros numa marcha para o genocídio.

Não, em nome da humanidade

A Recusar o Fascismo (RefuseFascism.org) é um movimento de pessoas provenientes de diversas perspetivas, unidas no nosso reconhecimento de que o regime de Trump e Pence representa um perigo catastrófico para a humanidade e o planeta, e de que é nossa responsabilidade afastá-lo do poder através de protestos não-violentos que cresçam todos os dias até que a nossa exigência seja satisfeita. Isto significa trabalhar e organizar com toda a nossa criatividade e determinação para trazer milhares, e por fim milhões de pessoas, para as ruas das cidades e vilas, para exigir:

Este pesadelo tem que acabar:
O regime de Trump e Pence tem que se ir embora!

A RefuseFascism.org dá as boas-vindas a indivíduos e organizações de muitos pontos de vista diferentes que partilhem a nossa determinação em nos recusarmos a aceitar uns Estados Unidos fascistas, para que se juntem a nós e/ou sejam nossos parceiros nesta grande causa.

Lê, partilha e endossa o Apelo à Ação da Recusar o Fascismo (em inglês), aqui.

Mais informações sobre a Recusar o Fascismo (em inglês), aqui.

No avião de regresso a casa, encontrei por acaso uma lista de músicas de Bob Dylan. No clima atual, a letra de “The Times They Are A-Changin’” [“Os tempos estão a mudar”] soaram amargamente irónicas:

Juntem-se à minha volta
De onde quer que venham
E admitam que as águas
À vossa volta subiram
E aceitem que em breve
Estarão encharcados até aos ossos
Se achas que vale a pena poupar o teu tempo
Então é melhor começares a nadar, ou afundar-te-ás como uma pedra.
Porque os tempos estão a mudar

A subida das águas da justiça e da revolução sobre as quais Dylan escreveu recuaram e abriu caminho à subida das águas do fascismo. Hoje, são as pessoas do lado da humanidade que precisam de começar a nadar, e é a própria humanidade que se afundará como uma pedra se não despertar os milhões de pessoas que podem ser a única força para parar esta catástrofe global. O fascismo é sedutor para alguns, destruidora para outros. Não é compreendido com uma profundidade suficiente, nem odiado com paixão suficiente, nem resistido com determinação suficiente.

As pessoas na Índia, e no mundo, merecem melhor — vidas livres da opressão e da tentação de oprimir. A partir daqui, vou continuar a pontapear a barragem até que as pessoas inundem as ruas em resistência não-violenta para forçar o recuo da maré fascista, e até que as águas que podem limpar o mundo do fascismo possam correr e subir novamente. Temos que fazer isto, porque na luta contra o fascismo, pode tornar-se demasiado tarde num momento em que o destino da humanidade e do planeta está em risco. Os tempos mudaram, mas o futuro ainda não está escrito.

Coco Das é membro do comité editorial da refusefascism.org, a qual iniciou recentemente o movimento TrumpPence #OutNow [Trump e Pence Fora Já]. Sigam a conta Twitter @coco_das.