A brutal repressão policial no Chiado

Por C. Silva

No passado dia 25 de Abril, suposto Dia da Liberdade, centenas de manifestantes radicais e transeuntes anónimos foram brutalmente agredidos pelas forças da repressão do Estado, na zona do Chiado em Lisboa. Não se tratou apenas de mais um episódio de brutalidade policial. Esse dia marca uma escalada sem precedentes na perseguição a activistas e na preparação da opinião pública para a repressão. Devemos preparar-nos para dias ainda piores.

A repressão foi minuciosamente planeada e muito bem preparada desde o início. A manifestação, convocada por um colectivo alargado, contou com a participação de meio milhar de pessoas, entre várias tendências anarquistas e outros revolucionários. A sua realização não havia sido comunicada ao Governo Civil, como é exigido pelo Estado burguês, mas essa não foi a causa da repressão, pois se tivesse sido o problema, deveriam ter tentado impedi-la por ser "ilegal". No entanto, a manifestação decorreu sem qualquer obstáculo, desde o seu início às 18h na Praça da Figueira até terminar no Largo Camões, ao Chiado.

Apesar de fortemente vigiada, acompanhada à frente e na retaguarda por viaturas da polícia, complementada por provocadores infiltrados na própria manifestação (alguns foram identificados e fotografados), o ambiente era de muita combatividade e festa. O mote era o combate ao fascismo e ao autoritarismo e esse dia foi muito bem escolhido para o fazer. Pelo caminho, alguns manifestantes deixaram marcas da sua profunda aversão ao Capital e aos seus símbolos mais emblemáticos, uma aversão cada vez mais sentida pelos explorados deste país, e a que eles se limitaram a dar corpo. Mas também uma aversão profundamente odiada e temida pela burguesia e pelos seus esbirros.

De qualquer forma, não foi em defesa de nenhuma "legalidade" formal que as forças da "ordem" intervieram, pois para isso bastava-lhes apanhar os autores desses pequenos incidentes, que eles acompanharam e viram agir de muito perto (e podemos interrogarmo-nos se não participaram mesmo neles). Foi já algum tempo depois de a manifestação ter terminado, quando já se tinha dissolvido em pequenos grupos dispersos, que os esbirros cobardemente atacaram.

Não houve nenhuma provocação, não houve nenhum aviso. Foi pura demonstração do poder repressivo do Estado. Quiseram dizer-nos muito claramente: se levantam a cabeça, é isto que vos vai acontecer; se põem em causa os fundamentos desta sociedade ou sequer de qualquer política que estejamos a aplicar, sofrerão todo o nosso peso esmagador. Toda a intervenção foi planeada e executada ao pormenor e encaixa perfeitamente num crescente padrão de repressão, que tem incluído a vigilância e intimidação de activistas (sindicalistas, por exemplo) e a violenta repressão de trabalhadores em luta (que têm sido brutalmente espancados mesmo em frente à comunicação social).

Num momento em que se intensificam as medidas de exploração do povo português, enquadradas numa intensificação da exploração a nível mundial, em que se retiram direitos duramente conquistados ao longo de décadas, é natural que o Estado protector dos beneficiários dessa exploração se prepare para esmagar toda e qualquer forma de resistência. E os primeiros alvos são sempre os resistentes mais activos e radicais.

A repressão foi complementada por uma hábil campanha de intoxicação da opinião pública, lançando a confusão noticiosa e propagando várias versões dos acontecimentos, incluindo falsas notícias sobre os locais da repressão e tentando envolver outras organizações. E fizeram-no com sucesso, uma vez que ninguém na comunicação social amordaçada se atreveu a desconfiar das múltiplas inconsistências das notícias e nenhuma organização se deu ao trabalho de as investigar e repor a verdade, nem mesmo organizações supostamente de esquerda e cujo nome chegou a ser envolvido. Algo para reflectirmos sobre como respondermos também nesta frente.

É também neste contexto que surgem as tentativas de ressuscitar Salazar e de promover os seus herdeiros actuais, e se assiste ao aumento do racismo e da xenofobia. Não é por acaso que na mesma altura em que o aparelho repressivo do estado se mobilizava para perseguir antifascistas, também mobilizava dezenas de agentes para proteger a sede e os cartazes de uma organização fascista. Queria assim mostrar claramente de que lado estava.

Refira-se que, por "coincidência", nos dias a seguir à repressão foi quase impossível aceder-se ao sítio alternativo Indymedia Portugal, pt.indymedia.org, normalmente utilizado para divulgar e denunciar este tipo de situações e onde haviam sido introduzidas as primeiras notícias e fotos sobre os acontecimentos.

Não é pois o momento de nos calarmos. Não pensem os nossos "democratas" e defensores dos direitos humanos que lhes basta ignorarem e fingirem que não é nada com eles (é vergonhosa esta ausência de clamor público contra a repressão, onde estão os defensores das liberdades?). Como nos ensina a História, uma vez afastados (intimidados, presos, ou mesmo assassinados) os mais activos, está aberto o caminho à repressão de todos os direitos e liberdades, mesmo as mais elementares.

30 de Abril de 2007

 

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Dois aspectos da manifestação que saiu da Praça da Figueira

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Os polícias acompanharam a manifestação de muito perto

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Outros dois aspectos da manifestação que terminou no Largo Camões

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No Largo Camões

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Vários aspectos da repressão policial na Rua do Carmo

Fontes das fotos: António Borges (galerias.escritacomluz.com/ajlborges/album06/aaa), Associação Cívica República e Laicidade (www.laicidade.org), MIC Coimbra (micporcoimbra.blogspot.com/2007/04/aconteceu-ontem-dia-25-de-abril-de-2007.html), Sílvia Hable/Movimento Gaia (no Expresso) e outras contribuições de amigos da Página Vermelha. Uma grande colecção de fotos está disponível no Cravado no Carmo.