Porque é que Israel está a atacar Gaza?

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 20 de Novembro de 2012, aworldtowinns.co.uk

Uma vez mais, o fortemente armado estado de Israel fez chover mísseis e artilharia sobre a população palestiniana de Gaza e ameaçou fazer avançar o seu exército israelita. Ao sétimo dia, havia 130 mortos e, apesar dos rumores de um cessar-fogo, os aviões militares israelitas despejavam panfletos sobre a Cidade de Gaza a avisar cinicamente os residentes para evacuarem as suas casas. Nenhum lugar de Gaza está seguro, e Israel não os deixará sair de lá. As famílias palestinianas enterram os seus entes queridos, incluindo muitas mulheres e crianças, nos intervalos entre os repetidos bombardeamentos.

A máquina de comunicação social internacional pró-Israel tenta restringir o debate a como Israel foi provocado por foguetes do Hamas disparados sobre o seu território e que portanto tem direito à autodefesa. Embora os foguetes tenham sido lançados de Gaza no início de Novembro, tal como tem acontecido periodicamente durante os últimos anos, não tinha havido nenhuma vítima antes de Israel assassinar Ahmad Jabari, o principal chefe militar do Hamas. É geralmente aceite que o Hamas não estava directamente envolvido no lançamento dos foguetes, e Jabari, segundo alguns comentadores, estava encarregue de impedir os grupos islâmicos rivais de o fazerem. Matá-lo parece ter sido uma provocação deliberada que visou forçar o Hamas a responder e a depois usar isso como desculpa para desencadear uma operação.

Se o argumento é quem atirou a primeira pedra, teríamos de voltar atrás à expulsão forçada dos palestinianos da terra deles com a criação do estado de Israel em 1948, ao sempre em expansão roubo da terra deles desde essa altura e às ininterruptas tentativas de esmagar a resistência palestiniana e mesmo o espírito deles, dentro das fronteiras do que é agora Israel, quer na Cisjordânia quer em Gaza.

Israel é rápido a apontar para os foguetes que vêm de Gaza mas mantém-se silencioso quanto ao que dispara sobre Gaza e quanto aos sempre presentes métodos deles de controlo da vida quotidiana dos palestinianos e aos horríveis efeitos que isto tem sobre as pessoas, física e psicologicamente. O artigo “Bodies for Ballots” [“Cadáveres por Votos”] (The Daily Beast, 15 de Novembro de 2012, de Yousef Munayyer) relata que em 2011 o exército israelita matou 108 palestinianos e feriu outros 468 em Gaza, cerca de metade com mísseis e metade com disparos de espingardas, tanques e morteiros. Até Setembro de 2012, houve 55 mortes e 257 feridos, a maioria destas vítimas causadas por mísseis disparados por Israel. Após quatro anos de um bloqueio israelita que impede que os materiais de construção e as necessidades básicas cheguem ao povo de Gaza, a Operação israelita Golpe de Chumbo do final de 2008-início de 2009 matou cerca de 1400 palestinianos.

Tentando evitar que as notícias sobre a morte e a destruição se espalhassem pelo mundo, um dos primeiros alvos de Israel foi um centro de comunicação social em Gaza, que foi atingido pela segunda vez alguns dias depois. Mas o maior problema é a autocensura da comunicação social, com o falso argumento de que criticar o regime sionista é ser anti-semita. Em 2006, uma investigação independente por parte de um membro sénior do Ministério do interior [Home Office] britânico criticou a BBC pelo seu preconceito pró-israelita, e o mesmo continua a ser verdade para a maioria dos meios noticiosos ocidentais. É suposto que ninguém noticie o simples facto de que a situação é a de um David que atira pedras contra um Golias que não só está armado com armas nucleares mas que também é apoiado por uma superpotência.

Segundo um outro artigo na mesma edição do The Daily Beast escrito por Gershon Baskin, um académico israelita e fundador do Centro Israel-Palestina para a Investigação e a Informação (IPCRI) que negociou o acordo entre o Hamas e o governo israelita para a libertação do soldado israelita Gilad Shalit, havia um cessar-fogo entre o Hamas e Israel que tinha estado na mesa de negociações mas que foi rejeitado pelos líderes militares de Israel, os quais em vez disso mataram Jabari.

O exército israelita diz que só está a fazer mortes selectivas para evitar atingir a população civil. Isto é uma alegação absurda na faixa de terra que é Gaza, sobrepovoada com 1,7 milhões de pessoas. A maioria da sua população é constituída por refugiados ou descendentes de refugiados expulsos do que é agora o estado de Israel e a quem é negado o direito de regressarem porque não são judeus. Isto enquanto os judeus do mundo inteiro são convidados a mudarem-se para a pátria sionista.

Quem atirou a primeira pedra? A história da fundação e de 64 anos do estado sionista de Israel está repleta de histórias de horror, a começar com a expulsão de vastos números de pessoas que então viviam na Palestina. O livro The Ethnic Cleansing of Palestine [A Limpeza Étnica da Palestina] do historiador e activista israelita Ilan Pappé detalha o início de Israel – a brutal campanha planeada sob a direcção de David Ben-Gurion, mesmo antes de o estado de Israel ter sido fundado, para aterrorizar e expulsar a população palestiniana. Embora, originalmente criado pelos britânicos para servir os seus próprios interesses imperiais, Israel tornou-se num instrumento do domínio norte-americano do Médio Oriente. Independentemente das diferenças que possa haver entre os líderes sionistas desse posto avançado armado e as preocupações mais globais do imperialismo norte-americano, os governantes dos EUA sabem que não podem passar sem Israel – eles podem confiar em Israel porque a existência do estado sionista depende totalmente dos EUA.

A situação e a região são extremamente complexas e voláteis. Muitas questões se colocam sobre porque é que Israel escolheu esta altura para atacar, e quais os seus verdadeiros objectivos. Porquê a guerra em Gaza quando os últimos meses de brandir de sabres pelos israelitas se tem centrado no Irão? Será algum tipo de ensaio disfarçado? Alguns comentadores, sobretudo em Israel, defendem que o ataque a Gaza representa a aposta do primeiro-ministro israelita Benjamim Netanyahu em salvar a carreira política dele, antecipando as próximas eleições. Se isto é verdade, tornaria a perda de vidas que daí resultou ainda mais monstruosa.

Muitos palestinianos acreditam que Israel está muito preocupado com o plano do Presidente da Autoridade Palestiniana Mahmoud Abbas para elevar o estatuto da Palestina na ONU ao de um estado observador não-membro. Os líderes israelitas ameaçaram “punir” a população da Cisjordânia com severas medidas económicas, mais roubos de terras e ainda pior se ele fosse em frente com essa iniciativa. Eles querem que os governos europeus que prestam ajuda financeira à Autoridade Palestiniana o pressionem a abandonar essa ideia. Se não for retirado, é provável que o pedido palestiniano seja aprovado por cerca de 150 dos 193 estados membros da ONU.

Vários responsáveis israelitas declararam que, se isto chegar a acontecer, seriam dados passos extremos, incluindo a possibilidade de “derrube” do governo de Abbas. E o que é que querem dizer com “derrube”? Os apoiantes de Abbas tomaram isto como uma ameaça à vida dele, e depois da morte de Jabari esta ameaça tornou-se ainda mais real.

Ao contrário do Conselho de Segurança da ONU, os EUA não tem nenhum poder de veto na Assembleia Geral. Claro que a Assembleia Geral tem pouco poder, mas se a Palestina obtiver esse estatuto, então, em teoria, esse estado terá o direito de fazer acusações de crimes de guerra contra os líderes israelitas no Tribunal Penal Internacional de Haia. Netanyahu e outros membros do governo israelita alegam que isso seria “uma declaração de guerra” e que exigiria que Israel respondesse ainda mais brutalmente.

Supostamente a ONU representa o predomínio da lei. Se os palestinianos se manifestam e atiram pedras e são espancados, são chamados de terroristas. Se exigem o direito à terra deles, são chamados de terroristas. E agora Israel está a dizer que ir para os tribunais internacionais é uma declaração de guerra! O Departamento de Estado dos EUA reafirmou recentemente o seu apoio à posição israelita contra a ameaça de Abbas de entrar na ONU.

O que é assim tão assustador na iniciativa de Abbas? Pode muito bem ser, como defendem alguns activistas palestinianos, que seja apenas um esquema político de recuperação de credibilidade entre os palestinianos depois de ele ter abandonado as principais reivindicações do povo palestiniano, tais como o direito a regressarem às suas antigas casas e terras. Mas mesmo assim, a liderança israelita está preocupada em perder a autoridade moral que eles reivindicam ao usarem um crime contra humanidade – o massacre de seis milhões de judeus pela Alemanha nazi – para justificarem os seus próprios crimes contra o povo palestiniano. Além disso, os EUA não querem que as pessoas se recordem que ao apoiarem Israel estão a apoiar actos e toda uma situação que viola o direito internacional e os princípios da justiça que fingem defender.

Por trás dos acontecimentos de primeira página dos bombardeamentos de Gaza, Israel continua o seu plano para manter os palestinianos num arquipélago de cidades e aldeias isoladas e para roubar mais da terra deles. O governo de Netanyahu duplicou sorrateiramente a parte do orçamento nacional de Israel destinada aos colonatos judeus na Cisjordânia. Segundo o jornal britânico The Guardian (26 de Julho de 2012), o número de colonos judeus aumentou em 15 000 no último ano, para um total de mais de 350 000. Com mais 300 000 colonos em Jerusalém Oriental, um político israelita previu que o número de colonos chegará a um milhão nos próximos quatro anos.

Israel concentra a hipocrisia e a real brutalidade da democracia imperialista ocidental. Este sistema fala em liberdade, justiça e direitos humanos, mas quando se trata dos palestinianos, eles não têm nenhuma liberdade nem direitos que Israel tenha de respeitar, e qualquer reivindicação de justiça, pacífica ou não, é tratada como “terrorismo”. Os sionistas não se preocupam com o facto de a OLP na Cisjordânia e o Hamas em Gaza ganharem eleições; o facto de esses grupos e os seus líderes serem assassinados e “derrubados” ou não depende apenas da forma como Israel e os EUA vejam os seus interesses. Embora aleguem que têm o direito de matar os líderes do Hamas porque o Hamas não reconhece a legitimidade do estado judaico, eles também perseguem e ameaçam Abbas que o faz. Eles usam a chamada autodefesa para justificarem o seu cruel ataque a Gaza, mas também mataram dois jovens palestinianos desarmados na Cisjordânia que se manifestavam contra esse ataque. E muito mais gente ficou ferida ou muito maltratada em Hebron e Ramallah a 18 e 19 de Novembro.

Não há nenhuma resistência palestiniana que Israel, ou os EUA, tolerem, e apesar disso, ao fim de 64 anos a tentarem esmagá-la, não o conseguiram. A questão crítica é saber qual a forma e quais os objectivos que a resistência irá adoptar.