Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 4 de fevereiro de 2018, aworldtowinns.co.uk

“Ode ao Mar” – Arte da prisão de Guantânamo

Esta foi, de muitas formas, uma invulgar exibição de arte.

Em primeiro lugar, as pinturas, esculturas e instalações feitas por prisioneiros de Guantânamo não estiveram expostas numa galeria nem num museu. Elas estavam penduradas num corredor da Faculdade de Justiça Criminal John Jay, em Nova Iorque, a qual, ao contrário de outros espaços de arte, não têm nem um preço de admissão exorbitante nem um código de vestuário implícito, mas exige aos visitantes que os detalhes da identidade deles sejam registados. À entrada da mostra estava colocado um polícia. (A exposição encerrou a 28 de janeiro, mas as imagens e os textos continuam acessíveis em www.artfromguantanamo.com e em www.postprintmagazine.com)

Por outro lado, como salienta no catálogo a curadora Erin Thompson: “Algumas das obras dos detidos parecem exercícios de arte produzidos por estudantes em qualquer lugar – mas elas foram feitas por homens algemados ao chão da sala das aulas de arte.”

Além disso, para os oito artistas incluídos nesta mostra, o mar significa algo muito diferente do tipo de local pitoresco que algumas pessoas procuram como tema apropriado para a pintura ao ar livre. Eles não procuraram de maneira nenhuma a sua posição à beira-mar. Eles foram levados para Guantânamo em grilhetas, alguns deles depois de meses e mesmo anos de tortura e prisão solitária, frequentemente espancados ao longo do trajeto e, quando lá chegaram, foram ameaçados de ser afogados. E, apesar do facto de desde então eles terem passado 10 a 16 anos em celas a apenas alguns metros da beira da água, não lhes é permitido ver o mar.

A sua vista da baía é deliberadamente obstruída por cercas cobertas com telas. Um prisioneiro citado nos textos da mostra diz que quando apareceram buracos e os homens tentaram ver através deles, viram mais linhas de cercas cobertas. Só uma vez, durante alguns dias quando se aproximou um furacão, as telas foram removidas. Na sua maioria, escreveu a curadora Thompson, estes prisioneiros pintam não o que veem mas o que desejariam poder ver.

Thompson discute porque é que o mar – as suas águas e costas, por vezes calmas e por vezes devoradoras, e os barcos, por vezes nostálgicos e por vezes aterradoramente vazios – é um tema tão importante aqui, embora não o único. Raramente há pessoas nestas obras. Vemos mãos e olhos, mas raramente há rostos completos representados.

Uma razão, claro, é que os retratos de seres humanos requerem uma maior aptidão e as imperfeições arruínam-nos. E ainda mais porque estes prisioneiros frequentemente trabalham com pincéis ou com as próprias mãos, não lhes sendo permitido usar lápis, facas de paleta nem nenhum outro objeto rígido. Thompson menciona que o pensamento islâmico – todos estes homens são de países de maioria muçulmana – frequentemente proíbe a representação humana. Ela também diz que muitos dos prisioneiros, particularmente os oriundos do Afeganistão, nunca viram um oceano e quiseram mostrar como é que ele é.

Mas as razões mais surpreendentes, conclui ela, têm a ver com as condições da prisão deles. O exército norte-americano escrutina e esquadrinha todos os pedaços de papel que saem de Guantânamo, supostamente para verificar mensagens escondidas. Todas as obras de arte que considerem ter um conteúdo político ou ideológico não são autorizadas a sair. Isto significa que é proibido descrever o sofrimento. Os prisioneiros sabem que a arte deles será examinada para determinar o estado de espírito deles. Qualquer exibição de raiva – ou qualquer expressão de emoção que as autoridades considerem um sinal de uma disposição perigosa – será usado contra eles. A maioria dos 41 homens que continuam em Guantânamo nunca foi acusada e cinco deles foram “declarados prontos para libertação” mas permanecem encarcerados, pelo que qualquer esperança de que não irão morrer lá depende da boa disposição das autoridades.

Independentemente de qual possa ser a posição destes homens em relação aos grupos jihadistas ou ao fundamentalismo islâmico em geral, às correntes em contenda com a dominação imperialista ocidental com o objetivo de estabelecerem estados e sociedades extremamente opressores, isso não é um tema aparente em nenhuma das 36 obras nesta mostra. O mote subjacente é a maneira como o tratamento criminoso infligido a estes prisioneiros moldou a maneira como eles veem o mundo. Para eles, o mar é um tema seguro – e pode servir como tela em que os sentimentos deles, por mais que deliberadamente mudos, podem ser projetados. Algumas das obras nesta mostra são emocionantes, mesmo que não se soubesse muito sobre o contexto em que elas foram produzidas. Algumas são memoráveis.

Uma delas é de Ammar Al-Baluchi, um cidadão paquistanês nascido no Kuwait e detido e torturado pela CIA durante três anos e meio antes de ser levado para Guantânamo, onde continua a ser torturado, segundo a Agência de Direitos Humanos da ONU (The Independent, 14 de dezembro de 2017). A obra dele, Vertigo at Guantanamo [Vertigem em Guantânamo], é um desenho abstrato que visa mostrar as sensações que o afligiram desde que sofreu danos cerebrais durante um “interrogatório reforçado”.

A obra não representacional de Ahmed Rabbani também é poderosamente evocativa. Rabbani, um motorista de táxi de Carachi, segundo ele, passou quase 13 anos em Guantânamo depois de ter sido detido e torturado pela CIA. Entrou em várias greves de fome para proclamar a sua inocência e suportou ser alimentado à força por tubos inseridos de uma maneira propositadamente muito dolorosa. Ele descreve a sua obra Untitled (Binoculars Pointed at the Moon) [Sem Título (Telescópios apontados à Lua)] como uma resposta à “enfatuação” dele com o “estranho acontecimento em que a lua esteve no seu ponto mais próximo da terra desde há 70 anos”, em novembro de 2016. O catálogo acrescenta: “Os incontáveis olhos que não estão a ver na ponta dos telescópios parecem representar as autoridades que têm escrutinado todos os aspectos da vida de Rabbani sem que, como ele alega, nada tenham compreendido.”

A mostra também inclui obras mais convencionais mas ainda assim efetivas. O farol de Ghaleb Al-Binhani ficou às escuras. Djamel Ameziane, um refugiado da Argélia, fez a aguarela Untitled (Shipwreck) [Sem Título (Naufrágio)] depois de ter ficado detido durante cinco anos adicionais, embora tenha sido “declarado pronto para libertação”, antes de ser mandado de volta para o país de onde tinha fugido. Ele disse aos advogados dele que, nessa altura, se sentiu como o navio vazio, desgastado e levado pela tempestade que descreve. Muhammad Ansi, o artista mais representado nesta mostra, também pinta o mar como um monstro que tudo consome em Untitled (Storm at Sea) [Sem Título (Tempestade no Mar)]. Em Untitled (Alan Kurdi) [Sem Título (Alan Kurdi)], inspirado nas famosas fotografias da criança refugiada síria afogada deitada morta numa praia, o mar agitado não é tanto uma força da natureza como o mundo atormentado onde ele e Alan e todos nós vivemos.

Uma última razão por que esta mostra foi única: a política de Obama em relação a Guantânamo (e à tortura) foi cuidadosamente ambígua, como se fosse um embaraço e fosse melhor que o público não pensasse nisto. Trump, o excluidor de muçulmanos e um defensor extremamente vocal da tortura, tem prometido “enchê-la” – tornando-a emblemático da maneira como ele pretende administrar o país e o mundo. Talvez seja para isso que esta poderosa exposição visou avisar-nos.

A mostra enfureceu tanto os militares norte-americanos que anunciaram que de agora em diante toda a arte produzida no seu inferno caribenho será considerada propriedade governamental. Nenhuma da arte que escapou pode ser vendida e mais nenhuma será autorizada a sair. Foi dito aos jornalistas que o governo norte-americano tem a intenção de a queimar toda. Alguns dias depois do encerramento da exposição, Trump anunciou que a prisão será mantida aberta para novas chegadas.