Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 22 de Agosto de 2005, aworldtowinns.co.uk

Nepal: Pili – até agora, a mais bem-sucedida ofensiva contra o regime real

Na noite de 7 de Agosto, o Exército Popular de Libertação (EPL) dirigido pelo Partido Comunista do Nepal (Maoista) lançou um intenso ataque à base do Exército Real do Nepal (ERN) situada em Pili, uma aldeia do distrito de Kalikot no Nepal ocidental. O Exército Real divulgou versões contraditórias do número exacto dos seus membros presentes no local mas, segundo os relatos preliminares difundidos pela comunicação social maoista e por outras fontes noticiosas, na base estavam mais de 250 soldados bem-equipados do ERN. Cerca de 159 morreram na batalha e outros 52 foram capturados e feitos prisioneiros de guerra. Dois dias depois, outros oito soldados foram capturados; não é claro se estavam ligados à base ou a reforços enviados depois.

Esta foi a maior batalha travada desde o golpe de estado do rei a 1 de Fevereiro, do ponto de vista do número de vítimas do ERN e, segundo o semanário maoista Janadesh, a mais bem-sucedida batalha de guerra de posições ocorrida desde o início da guerra popular em 1996. Foram capturados cerca de 177 armas ligeiras e pesadas e mais de 7000 balas e outro tipo de munições. Esta ofensiva centralizada ocorreu num contexto de outras batalhas descentralizadas desencadeadas em todo o país pelas forças dirigidas pelos maoistas.

Tem havido importantes reacções e contra-reacções à derrota do ERN em Pili, tanto a nível internacional como a nível nacional, no Exército Real, no regime real e nos partidos parlamentares. Ainda duas semanas antes, Sachit Samsher JBR, um veterano do regime e braço-direito do rei Gyanendra Shah, tinha dito que os maoistas tinham sido derrotados e reduzidos a uma situação defensiva. Os autocratas feudais e os burocratas compradores alegaram que, uma vez que, nos recentes ataques em Khara (oeste do país) e no distrito de Siraha (leste), o EPL não tinha conseguido aniquilar as bases do Exército Real, os maoistas não tinham conseguido obter a supremacia militar sobre o Exército Real. Disseram sarcasticamente que o EPL nunca poderia cumprir a sua promessa de tomar o poder em Singhadarbar (o complexo onde está instalado o rei) e de transformar num museu o Palácio Narayanhiti do rei. Depois da vitória sem precedentes da ofensiva do EPL em Pili, estes comentários soam a ocos e instalou-se um ambiente de consternação nos círculos reaccionários.

Alguns importantes dirigentes dos partidos parlamentares revisionistas e burgueses, como Modanath Pashrit, do Partido Comunista União Marxista-Leninista (UML) e Mohan Bikram Singh do Partido Comunista do Nepal (Mashal – Centro de Unidade) exprimiram a sua dor pelos golpes infligidos ao Exército Real. Eles alegaram que os maoistas tinham cometido um grande crime ao atacar uma unidade do Exército Real que diziam estar numa missão de construção de estradas. O regime reaccionário do rei tem propagado a falsa notícia que as tropas do Exército Real em Kali estavam aí para construir uma estrada de 200 km que liga Jumla a Surkhet e a Nepalgunj. Mas muitos dos líderes parlamentares que Gyanendra afastou e colocou em prisão domiciliária durante um mês ou dois ficaram contentes com a derrota do ERN. Para eles, isso foi uma resposta taco a taco ao notoriamente corrupto autocrata que tem apresentado a dissolução que fez do parlamento como uma medida anticorrupção.

Por seu lado, Gyanendra Shah adquiriu um novo hábito: passar mais tempo nos quartéis para mais consultas com os generais do seu exército, em vez de se limitar às audiências com os seus esbirros mais chegados.

A nível internacional, depois da batalha de Pili, o embaixador dos EUA avisou imediatamente o rei de que ou se virava para os partidos parlamentares ou iria enfrentar uma grave situação de caos no país. Estes comentários estão de acordo com a política declarada dos EUA para o Nepal de que o rei e os partidos parlamentares se devem unir para isolar e destruir os maoistas. Há algum tempo atrás, o mesmo embaixador tinha avisado que se o rei não entregasse o poder ao parlamento, os maoistas se apressariam a entrar em Singhadarbar com facas. Algumas semanas antes da batalha, o autocrata feudal Gyanendra Shah tinha rejeitado a sugestão das Nações Unidas para procurar uma reconciliação com os partidos parlamentares. A derrota total em Pili provocou uma acesa disputa entre os reaccionários em Katmandu e Washington.

O Exército Real atirou a culpa da sua derrota às suas inadequadas espingardas INSAS (Sistema Indiano de Armas Ligeiras) fornecidas pela Índia. A Índia respondeu criticando severamente o regime real e mostrando que as armas não chegam para vencer uma batalha. A troca de insultos tornou-se intensa. Alguns reaccionários do Nepal temem que o debate das INSAS possa deteriorar as relações indo-nepalesas.

Neste momento, o autocrata feudal Gyanendra Shah está isolado da Índia, dos EUA e da Grã-Bretanha, os tradicionais amos do Nepal. Depois do golpe de estado de Fevereiro passado, esses principais fornecedores do país anunciaram a suspensão das entregas de armas letais. O rei enviou os seus ministros e agentes à China e a outros países em busca de ajuda.

O reaccionário Exército Real do Nepal recorreu a todo o tipo de falsas acusações contra os maoistas, algumas das quais encontraram eco sem comentários na comunicação social internacional e nalguns grupos de direitos humanos, embora os seus jornalistas soubessem a verdade (ou pudessem saber, se quisessem verificar os factos). Uma das mentiras do rei foi que o pessoal do Exército Real estacionado em Pili era constituído por não-combatentes enviados para construir uma estrada. Outra foi a de que os 40 soldados que foram inicialmente declarados mortos teriam, depois de se terem rendido, sido colocados em fila e atingidos na cabeça. Também foi dito que alguns dos soldados teriam sido brutalmente mortos, por exemplo, com a mutilação dos seus órgãos genitais. Eles declararam que os maoistas teriam escondido bombas dentro dos corpos dos soldados do exército mortos, de forma a explodirem na cerimónia de cremação.

Mesmo um porta-voz do Exército Real teve de admitir, quando apertado numa conferência de imprensa, que todos os membros do ERN estavam em uniforme e lhes tinham sido entregues armas. O Presidente Prachanda do PCN(M) emitiu um comunicado a 10 de Agosto dizendo que se o EPL tivesse realmente matado 40 soldados depois de os ter capturado, não haveria nenhuma razão para os revolucionários terem então feito mais 52 prisioneiros de guerra. Também anunciou que, de acordo com a habitual política do partido, os prisioneiros “estão a ser tratados com respeito e serão libertados numa altura adequada e através de um processo adequado”. Prachanda repetiu a autocrítica do partido em relação à explosão de uma mina terrestre em Junho, a qual resultou na morte de muitos civis num autocarro, e a sua determinação em, “no contexto de situações inesperadas e de incidentes contra a política definida que ocorrem ocasionalmente entre os nossos quadros no decurso da guerra, (...) prosseguir o processo de actuar mais firmemente contra os prevaricadores. (...)”

O presidente do PCN(M) também chamou a atenção para o facto de o ERN ter feito desaparecer milhares de pessoas, ter matado abertamente mais uns milhares, levar a cabo torturas e violações e pilhar e queimar totalmente aldeias inteiras. Salientou que o rei estava a negar todos os direitos ao povo, sobretudo desde o seu golpe de estado. Disse que o seu partido “saudava a decisão de nomeação de uma alta comissão das Nações Unidas para acompanhar e proteger os direitos humanos no Nepal” e que a essa comissão seria dada “toda a ajuda de que formos capazes”, permitindo-lhe “viajar a qualquer parte do país afectada pelo conflito, de modo a estudar e inspeccionar os pontos sensíveis dos incidentes, visitar os prisioneiros sob nosso controlo e ajudar a levar a cabo a discussão e a interacção com diferentes unidades do nosso partido, segundo as necessidades. Esta política do nosso partido também está a ser aplicada em relação à Cruz Vermelha Internacional.”

Numa entrevista que teve lugar no campo de batalha enquanto um helicóptero do Exército Real pairava por cima, o semanário Janadesh perguntou ao Comandante da Divisão do EPL, Camarada Pravakar, como é que tinha sido obtida a vitória em Pili. Depois de falar sobre a direcção do EPL, o seu ponto de vista e os interesses que ele representa, terminou dizendo: “Dado que a acção teve lugar numa zona de influência dos maoistas, a mobilização activa das massas fez com que muitas coisas jogassem a nosso favor. Nós fazemos constantemente exercícios de guerra de posições. Usamos totalmente a nossa experiência da guerra e da mentalidade do inimigo, desenvolvida através de constantes ataques contra ele. Não temos medo do fracasso, mas preocupamo-nos em tirar as lições adequadas das derrotas nalgumas batalhas. A nossa autoconfiança, conseguida ao vencermos batalhas após as derrotas e ao obtermos vitórias ainda maiores através da prática, e um planeamento concreto e científico do nosso ataque, foram a base da nossa vitória.”