Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 1 de Setembro de 2003, aworldtowinns.co.uk

Nepal: Governo bloqueia negociações, maoistas golpeiam taco-a-taco

Uma vez mais, tempestuosos acontecimentos políticos e militares fizeram tremer o Nepal quando o cessar-fogo de sete meses chegou ao fim.

O governo real tinha violado o cessar-fogo ao prender maoistas e assassinar pessoas a sangue frio. Recusou honrar o seu compromisso de manter o Exército Real a menos de cinco quilómetros dos seus quartéis. Usou o período de cessar-fogo para importar armas, enquanto os conselheiros militares dos EUA treinavam os soldados do Exército Real para serem lançados contra os revolucionários.

Segundo qualquer padrão objectivo, o Partido Comunista do Nepal (Maoista) seguiu o “espírito e letra” do cessar-fogo e o código de conduta que ambos os lados tinham acordado, como disse o Presidente Prachanda do PCN(M), enquanto o governo real violou repetidamente esse acordo.

O velho regime acabou por declarar que nunca aceitaria o fim da monarquia através de uma assembleia constituinte e do estabelecimento de uma república. Isto significou que o cessar-fogo e as negociações se tornaram, nas palavras do Camarada Prachanda, “irrelevantes”.

O Exército Popular de Libertação, sob a liderança do partido, deu um golpe de resposta contra a retirada, na prática, do velho estado nepalês do processo de paz, lançando uma vaga de acções militares contra o Exército Real e as instituições reaccionárias em diferentes partes do país.

O PCN (Maoista) também anunciou uma greve geral nacional de três dias (Nepal bandh) durante os dias 18, 19 e 20 de Setembro. A greve geral nacional foi convocada pelo PCN (Maoista), pelo Exército Popular de Libertação e pelo Conselho Popular Revolucionário Unido, sob as palavras de ordem “Avançar no caminho da luta pela mudança completa”.

Na essência, o governo real e os seus apoiantes estrangeiros não estão dispostos a ver o povo a tomar o poder político, qualquer que seja a forma. O rei e o seu círculo ficaram bloqueados na defesa do sistema feudal. De facto, como pode ser visto no desdém do rei pelo parlamento, ele quer regressar ao ainda mais retrógrado sistema autocrático panchayat que vigorou até 1990.

Rajeshwor Devkota, presidente do Partido Rastriya Prajatantra (Nacionalista) disse que as exigências maoistas não poderiam ser aceites, mesmo que o rei quisesse. Se ele quisesse, por que não poderia o chefe do velho estado aceder ao pedido de ou abandonar o trono ou deixar o povo decidir o destino da monarquia feudal através de uma assembleia constituinte? Quem está a manter as forças feudais nepalesas? O comentário de Devkota mostra que o sistema reaccionário do Nepal nem sequer está inteiramente nas mãos dos reaccionários nepaleses, mas que está a ser dirigido de algum lugar exterior.

Entretanto, os EUA têm-se agitado dia sim, dia não. A Embaixada dos EUA em Katmandu emitiu uma declaração contra os ataques ao Exército Real e outras acções. Dizia: “Estes ataques mostram a rejeição pelos maoistas do grande apelo do povo nepalês à paz e a vontade continuada dos maoistas em recorrer a crimes brutais para alcançar os seus objectivos.” Com palavras como estas, o imperialismo dos EUA pode tentar posicionar-se como um juiz neutro, mas as suas próprias palavras revelam que é uma importante força por trás da actual situação do Nepal.

A declaração dos EUA também dizia: “actos terroristas como estes são exactamente o que fez os maoistas conquistarem um lugar na Lista de Vigilância Terrorista dos EUA.” Também estas palavras são reveladoras. Se milhões e milhões de camponeses e outros que procuram a emancipação de mais de dois séculos de feudalismo, de exploração imperialista e de repressão são etiquetados de “terroristas”, então esta é outra indicação de que “guerra ao terrorismo” dos EUA é uma ofensiva global contra os povos do mundo.

O velho estado está a preparar-se sorrateiramente para declarar o estado de emergência, de acordo com relatos noticiosos. Mas jornalistas, intelectuais e figuras políticas proeminentes do Nepal acreditam que esta não é a solução. Para eles, falharam os anteriores “estados de emergência” e as operações do exército antes de ter começado o processo de negociações. E essa foi a principal razão por que o governo real declarou um cessar-fogo. As palavras de ordem “Imperialistas dos EUA, tirem as mãos do Nepal!” são muito mais relevantes agora porque essas mãos estão a ficar cada vez mais essenciais para a salvação do velho sistema.

Se o velho regime não permitir uma solução política, o assunto será resolvido pela força das armas. O povo já pagou um preço muito elevado em sangue na luta pela sua emancipação enquanto seres humanos. Infligiu sérias derrotas ao exército do velho estado e libertou a maioria das zonas rurais através da sua guerra revolucionária. Não serão intimidados nem recuarão.