Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 12 de Julho de 2004, aworldtowinns.co.uk

Nepal: “A vingança pela minha violação e pelo assassinato do meu pai só chegará com o derrube do velho estado”

O que se segue é uma entrevista (ligeiramente editada) feita a uma mulher combatente do Exército Popular de Libertação (EPL) dirigido pelo Partido Comunista do Nepal (Maoista). Esta entrevista apareceu originalmente no semanário maoista Janadesh de 25 de Maio de 2004.

Importa-se de dizer o seu nome verdadeiro, idade e morada?

O meu nome é Himali Goley (Sangrami) e tenho 23 anos. Habito o Comité Popular de Aldeia (CPA) de Gourimudi, Bairro n.º 1, em Dolakha.

Em que sector do Exército Popular de Libertação está a trabalhar agora?

Estou agora a trabalhar como vice-comandante da Companhia B do 4º Batalhão do Exército Popular de Libertação do Nepal.

Como se envolveu inicialmente na Guerra Popular?

Estou organizada desde 1991, tendo trabalhado durante alguns anos com o grupo estudantil Akhil, próximo da UML [um partido parlamentar pseudo-marxista, defensor da monarquia], quando estudava na Escola Putalikath em Gourimudi. Depois de fazer o exame final do ensino secundário em 1997, cheguei à conclusão que a linha da UML era incorrecta. Nesse momento, comecei a sentir que devia participar na Guerra Popular. Depois da tomada do Banco Khimti em 2000, alguns camaradas do partido maoista vieram falar comigo. Depois da conversa, decidi juntar-me a eles.

A 10 e 11 de Maio de 2000, polícias do posto de Maina Pokhari vieram à nossa aldeia. Bateram no meu pai, na minha mãe, na minha irmã mais velha e no meu tio, deixando-os inconscientes. Também me bateram e tentaram violar-me na casa do meu tio. A princípio gritei e lutei, mas eles bateram-me na cara e na cabeça até eu perder a consciência. Quando a recuperei, descobri que tinha sido violada e gritei. Eles não me deixaram sair de casa. Nessa noite, fugi para a selva e refugiei-me numa caverna. A polícia ficou na casa durante dois dias. Mataram e comeram as cabras, roubaram bens e finalmente partiram. Depois disso voltei para casa. No dia seguinte, a polícia prendeu-me bem como ao meu pai e levaram-nos para a sua sede distrital. Contei tudo o que os polícias me tinham feito ao Superintendente Policial do Distrito que me interrogou e exigi que tomasse medidas contra eles. Depois disso, denunciei publicamente todo o incidente a jornalistas e a activistas dos direitos humanos. A forte pressão que se seguiu levou as autoridades a deterem um subinspector adjunto chamado Rakesh. Levei o caso ao Supremo Tribunal, que decidiu que Rakesh cumpriria sete anos de prisão.

Falei com o camarada Rit Bahadur Khadka em Novembro de 2000. Desde então, sou uma activista da Guerra Popular a tempo inteiro.

Como é que se inspirou para seguir um caminho tão difícil, sobretudo na complexa situação desse ano, em que o velho estado levou a cabo massacres cruéis?

Fomos influenciados pelo comunismo desde a nossa infância. Enfrentámos a injustiça, as atrocidades e a opressão e sentíamos que nos devíamos opor a isso. O que me aconteceu também tinha acontecido a outras mulheres, como Devi Khadka. Sentia que, para nos vingarmos e acabarmos com essas coisas, a classe proletária oprimida precisava do poder político e que devíamos levantar-nos para erguer esse poder. A violação também me incitou a aderir ao movimento.

Como entrou para o EPL?

Exprimi o meu desejo de aderir ao EPL depois de me tornar uma activista a tempo inteiro. Depois disso, trabalhei num pelotão e como membro de um comité distrital de mulheres. Algum tempo depois, trabalhei num comité de zona do partido e num pelotão. Juntei-me a uma companhia quando o partido formou essas unidades e é aí que estou a trabalhar agora.

Em que batalhas esteve presente?

Tive oportunidade de combater em várias frentes, incluindo Kiratechhap, Thokarpa, Jarayotar, Mainapokhari, Khanibhanjyang, Dhobi, Bhakundebeshi, Chainpur, Bhiman, Lahan, Bhojpur, etc.

Como se sentiu da primeira vez que esteve em combate?

Antes de ir para a frente de combate, interrogava-me sobre como seria, mas a coragem veio no momento em que a minha primeira batalha começou. Orgulhava-me que nós, as mulheres oprimidas, tivéssemos uma oportunidade de lutar.

Algumas pessoas dizem que as mulheres não podem lutar como os homens.

Não sinto que, na guerra, sejamos mais fracas que os homens. Fomos oprimidas durante centenas de anos e acho que conseguimos fazer tudo o que seja preciso desde que tenhamos uma oportunidade de lutar. A ideologia da Via Prachanda fortaleceu-nos ainda mais e isso mostra que com uma ideologia correcta podemos conseguir tudo. O partido deu-nos indicações para não nos envolvermos demasiado nas alturas de problemas físicos, mas as camaradas mulheres também combatem nessas alturas. Não temos nenhum problema. Agora já nem acho que sejamos nada mais fracas que os homens.

Quantas mulheres estão no EPL?

O número de homens e mulheres no EPL é quase igual. O partido adoptou uma política clara, de modo que não há nenhum problema de favorecimento dos homens em relação às mulheres.

Embora o número de mulheres seja sensivelmente igual ao de homens, os dirigentes do exército são essencialmente homens?

As mulheres já estão a assumir responsabilidades de comandantes e comissárias de batalhão no EPL, de modo que há certamente mulheres na liderança do exército. Por outro lado, entre o início da Guerra Popular em 1996 e 2001, o número de mulheres no EPL foi muito limitado. Considerando que os camaradas homens estiveram muito mais tempo no exército, obviamente que adquiriram mais capacidades. Mas, ao evoluírem, as mulheres estão a igualá-los num curto espaço de tempo. O poder reaccionário considera as mulheres como cidadãs de segunda classe e diz que somos tímidas e apreensivas. Mas estamos a progredir rapidamente e agora fazemos da guerra contra eles uma prática de vida e estamos a aprender do sofrimento do povo e de todas as lutas nas frentes de guerra. Estamos orgulhosas disso.

Como é a rotina diária do EPL?

No nosso exército, há exercício físico de manhã cedo. Treinamos regularmente. Estudamos guias militares, obras militares, jornais e livros políticos. Os que não sabem ler e escrever são ensinados. Muitos camaradas aprenderam a ler e escrever depois de estarem aqui. As tarefas rotineiras incluem cozinhar, comer, turnos de sentinela, etc. Também participamos nas tarefas da guerra, no trabalho de desenvolvimento económico, serviços ao povo, mobilização das massas e outras campanhas.

Como é que as outras mulheres reagem quando vocês visitam as zonas rurais?

As mães e as irmãs gostam muito de nós quando visitamos o campo com os nossos uniformes do EPL. A princípio, quando nos viam fardadas, achavam estranho que as mulheres estivessem no EPL. Vinham falar connosco, faziam-nos muitas perguntas. Mas agora, alguns dos rapazes e raparigas dizem que gostariam de vir connosco e algumas das mães dizem: “Se fôssemos jovens, também poderíamos lutar como vocês”. Às vezes, contam-nos as suas histórias de opressão, repressão e exploração e pedem uma oportunidade para lutar.

Algumas pessoas dizem que as mulheres do EPL são exploradas sexualmente.

Isso não é verdade. São acusações falsas de quem quer caluniar o EPL. O EPL funciona de acordo com o sistema marxista. Aqui o amor e o casamento acontecem na base da igualdade e dos interesses do povo. Os abusos contra as mulheres são severamente castigados.

Sabemos que o velho estado assassinou o seu pai. Como é que aconteceu?

O meu pai, Ram Bahadur Lama Gole, de 52 anos, foi preso em nossa casa a 7 de Setembro de 2003 e assassinado na aldeia de Namdu. Ele esteve preso durante quatro anos desde 1995. Era dirigente do comité de aldeia e participava na Guerra Popular.

Como se sentiu quando soube do assassinato do seu pai?

Todo a gente sofre quando ouve falar da morte do seu próprio pai. Estamos em guerra e o sangue não só da minha família como de muitas outras pessoas tem sido derramado pela revolução. Hoje, graças aos grandes sacrifícios dos dirigentes, dos militantes e das massas, fizemos grandes progressos. Essa é uma lei da guerra. Devo estar orgulhosa pela morte grandiosa do meu pai e tenho que continuar a lutar mais resolutamente. A vingança pela minha violação e pelo assassinato do meu pai só chegará com o derrube do velho estado.

O que sente agora que está no EPL?

Sinto que foi uma decisão correcta a de juntar-me ao EPL. Mas acho que foi uma decisão tardia. Devia tê-lo feito antes.

Confia na vitória da guerra contra o velho estado?

Podemos ganhar, não há dúvida disso. Antes fazíamos a guerra com pedras e paus. Agora temos força suficiente para derrotar o Exército Real Norte-Americano [é assim que os camaradas nepaleses se referem ao Exército Real do Nepal porque luta pelos interesses dos EUA contra os do Nepal], que tem bunkers, armas, planos e treino fornecidos pelo imperialismo norte-americano. O velho estado está agora limitado às cidades sede de distrito e à capital. Durante este período de oito anos, obtivemos a nova ideologia da via Prachanda; esta é a arma mais forte que pode impulsionar a revolução para o século XXI. O nosso combate vindouro será o último e decisivo. Numa altura em que o inimigo está à beira do colapso, a nossa ofensiva continuará até ao fim e os proletários desfraldarão a bandeira da vitória.

Quer dizer mais alguma coisa?

Como mulher integrante do EPL, gostaria de apelar às massas populares, entre as quais todas as mulheres, para que participem nesta guerra final.