O seguinte artigo sobre a morte de Albert Woodfox, provavelmente o preso norte-americano que mais tempo esteve em prisão solitária, foi publicado originalmente na edição online do jornal Revolution/Revolución, a 8 de agosto de 2022 em inglês em revcom.us/en/member-angola-3-dies-age-75-long-live-spirit-albert-woodfox-inspiring-political-prisoner e a 17 de agosto de 2022 em castelhano em revcom.us/es/miembro-de-los-3-de-angola-muere-los-75-viva-el-espiritu-de-albert-woodfox-prisionero-politico.

Membro dos “3 de Angola” morre aos 75 anos

Viva o espírito de vida de Albert Woodfox, preso político inspirador!

Albert Woodfox (Foto da equipa de advogados, por Max Becherer)
Albert Woodfox (Foto da equipa de advogados, por Max Becherer)

Pensava que a minha causa, então e agora, era nobre. E que, portanto, eles nunca me poderiam quebrar. Podem fazer-me vergar um pouco. Podem causar-me muita dor. Podem até tirar-me a vida. Mas nunca me poderão quebrar.

Albert Woodfox, 2010 (durante o seu 36º ano em confinamento solitário)

A 4 de agosto de 2022, Albert Woodfox, um dos presos políticos conhecidos como os “3 de Angola”,1 morreu em consequência da covid-19. A família de Albert emitiu o seguinte comunicado:

Com os corações pesados, escrevemos para partilhar que o nosso companheiro, irmão, pai, avô, camarada e amigo, Albert Woodfox, faleceu esta manhã. Quer o tenham conhecido como Fox, Shaka, Cinque ou Albert, ele conhecia-vos como família. Por favor, fiquem a saber que os vossos cuidados, compaixão, amizade, amor e apoio ajudaram Albert a aguentar, e o reconfortaram.

Mesmo na longa e imunda história da opressão dos negros nos Estados Unidos, a tortura e tormentos deliberados infligidos aos “3 de Angola” destacam-se pela sua barbaridade. Cada um deles passou décadas em confinamento solitário em celas de 1,8 ×2,7 metros, durante 23 horas por dia, sujeitos a humilhações e espancamentos caso se queixassem. Durante anos, até lhes foram negados livros e revistas ou ouvir rádio, num esforço deliberado por parte das autoridades para quebrarem os estados de espírito e a sanidade deles.

Woodfox passou 44 anos em prisão solitária. Quando a mãe dele morreu em 1994, negaram-lhe permissão para participar no funeral dela, e o mesmo aconteceu de novo quando morreu a irmã dele. As autoridades prisionais admitiram que este sepultamento em vida se destinava a eliminar ou a conter a influência política radical dos “3 de Angola” e do Partido Pantera Negra a que eles estavam ligados.

Contudo, o que sobressai ainda mais vincadamente é a maneira como estes homens — para usar a expressão de Bob Avakian — “se elevaram acima da imundície e do lamaçal”, acima da mera luta pela sobrevivência para si mesmos, acima da mentalidade de “todos contra todos” do capitalismo, e ascenderam a grandes alturas como abnegados combatentes contra a opressão dos negros e contra a opressão e a degradação da humanidade como um todo.

Albert Woodfox nasceu em Nova Orleães a 19 de fevereiro de 1947, e aí foi maioritariamente criado. Desesperadamente pobre, na sua adolescência Albert roubou pão e comida enlatada para a família. Quando tinha 18 anos, alguns pequenos crimes atiraram-no para o enorme complexo prisional de Angola, no estado norte-americano do Luisiana.2 A prisão de Angola não só foi construída no local de uma antiga plantação escravista, funcionava como se fosse uma plantação escravista. Os prisioneiros negros trabalhavam nos campos ao mesmo tempo que guardas prisionais brancos a cavalo e armados com espingardas agiam como supervisores. Qualquer infração poderia significar serem entregues a uma rede de estupro por outros presos, algo que era incentivado pelos guardas.

Woodfox foi libertado ao fim de oito meses, mas depois foi novamente preso por assalto à mão armada e condenado a 50 anos de prisão. Fugiu para o bairro de Harlem, em Nova Iorque, mas foi apanhado e atirado durante mais de um ano para as Tumbas3 — o infernal buraco prisional da própria Cidade de Nova Iorque.

Mas durante esse período toda a vida dele se transformou! Albert esteve detido com membros dos “21 Panteras de Nova Iorque”, dirigentes e ativistas do Partido Pantera Negra que tinham sido vítimas de uma trama com falsas acusações de estarem a conspirar ataques terroristas (todos os 21 foram absolvidos). Os Panteras tiveram uma grande influência nas Tumbas, não através do medo, mas por tratarem as pessoas com respeito e as educarem a ver o racismo sistémico do sistema capitalista norte-americano que tinha levado as pessoas para o crime e a prisão, e que isso fazia parte de um sistema mais vasto de opressão que era preciso eliminar. Os presos eram vivamente desafiados a se envolverem nessa luta em vez de em pequenos crimes.

Woodfox escreveria mais tarde:

Foi como se uma luz se tivesse acendido num espaço dentro de mim que eu nem sequer sabia que existia. Passei a ter princípios e valores morais que nunca tivera antes. Nunca mais voltaria a ser um criminoso.

Albert levou esse espírito de volta para a prisão de Angola. Juntou-se a Herman Wallace (e mais tarde Robert King iria juntar-se-lhes) para formarem uma célula local do Partido Pantera Negra. Uma das primeiras coisas que fizeram foi insistir no fim da violência sexual entre os presos. Lutaram por materiais de leitura, por uma alimentação decente e por outros melhoramentos. Eles usaram como guia o Programa em 10 Pontos dos Panteras, tanto para o estudo como para a ação, e trabalharam para se manterem ligados aos movimentos radicais a nível nacional.

E Woodfox também mergulhou no estudo de pensadores radicais e revolucionários, de George Jackson e Frantz Fanon aos dirigentes comunistas Karl Marx, Vladimir Lenine e Mao Tsétung . Albert desenvolveu uma disciplina, que manteve ao longo da vida, de se levantar em silêncio todos os dias às 3h da manhã para ler durante duas horas.

Woodfox comentou que a atitude dele para com as pessoas mudou quando assumiu esse papel, o qual lhe deu força para lutar:

Sabes, ao longo de tudo isto, desenvolvi um inacreditável amor pela humanidade e dediquei-me a fazer tudo o que posso para melhorar a humanidade. [...] E pensei que o que estávamos a fazer era uma causa nobre. Portanto, estávamos preparados. E assim os espancamentos e as humilhações e as décadas de confinamento solitário, sabes, embora tenham sido realmente dolorosos e difíceis, nunca chegaram ao ponto de eles nos conseguirem quebrar.

Albert esteve do lado de fora de uma prisão durante apenas seis anos em toda a vida adulta dele, mas usou até mesmo esses poucos anos preciosos para continuar a lutar contra a injustiça e lutar para compreender melhor o mundo. O exemplo dele — e o de todos os “3 de Angola” — precisa de ser homenageado, celebrado e, mais importante, continuado. O potencial para que milhares e milhões de pessoas, que hoje estão presas a todos os tipos de coisas negativas, deem o salto para se tornarem emancipadores da humanidade é a esperança e o futuro da humanidade, um desafio a todos pelo qual temos de lutar afincadamente, especialmente neste momento em que a possibilidade da revolução aumenta cada vez mais (ver em inglês/castelhano).

Seis graus de separação: Uma reflexão de um membro da equipa Revcom

O tributo a Albert Woodfox é muito comovente e inspirador. Eu tenho uma ligação com 6 graus de separação. No outono e inverno de 1969 fiz o meu estágio numa organização pela reforma prisional a trabalhar a tempo inteiro nas Tumbas, indo de cela em cela a entrevistar os presos para ver se eram elegíveis para um “desvio pré-julgamento” daquela prisão de escravos dos “tempos modernos” onde estavam em julgamento os 21 membros do Partido Pantera Negra (PPN). Eu conheci-os aí, eles recrutaram-me para ler e distribuir o jornal deles, e esse foi o meu primeiro contacto sério com revolucionários. Eles e a realidade que encontrei convenceram-me a desistir de reformar o sistema e, quando regressei à universidade, eles encorajaram-me a criar aí um comité de solidariedade com o PPN (já havia um e eu juntei-me a ele) [...] e isso pôs-me num caminho sinuoso que me levou à revista Red Papers (inglês/castelhano) e a Bob Avakian...


NOTAS:

1.  Os “3 de Angola” — Robert King, Albert Woodfox e Herman Wallace — foram perseguidos pelas autoridades prisionais depois de formarem uma célula do Partido Pantera Negra em 1971 e liderarem os outros a lutar pelos direitos dos presos. O procurador-geral do Luisiana Buddy Caldwell declarou Woodfox como “a pessoa mais perigosa do planeta”. Woodfox e Wallace foram vítimas de uma trama, acusados da morte de um guarda da prisão; King nem sequer estava na prisão de Angola quando a morte ocorreu, mas mesmo assim foi de certa forma “implicado” pelas autoridades. No total, eles passaram mais de 100 anos em prisão solitária. Para mais informações sobre a trama urdida contra os “3 de Angola”, ver “Herman Wallace: Unrepentant Political Prisoner and Fighter for Justice” [“Herman Wallace: Impenitente preso político e lutador pela justiça”], revcom.us, 5 de outubro de 2013 (inglês/castelhano).

2.  Oficialmente, Penitenciária Estadual do Luisiana.

3.  Oficialmente, Complexo de Detenção de Manhattan.

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