Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 28 de Março de 2005, aworldtowinns.co.uk

Maoistas do Nepal anunciam greve geral de 11 dias

O Camarada Prachanda, presidente do Partido Comunista do Nepal (Maoista), convocou uma Nepal bandh (paralisação geral a nível nacional) de 11 dias, de 2 a 12 de Abril, de modo a gerar um vendaval de luta para derrubar o regime feudal de Gyanendra Shah. Os planos do partido, publicamente anunciados num comunicado de 13 de Março, implicam uma larga mobilização de massas e acções militares de preparação de 14 Março a 1 de Abril. O Camarada Prachanda também apelou aos partidos políticos parlamentares para que se unissem contra o autocrata feudal Gyanendra Shah e forjassem um entendimento concreto para a luta, de modo a dirigir as massas nepalesas de um modo unificado.

A 1 de Fevereiro de 2005, Gyanendra Shah dissolveu o parlamento e tomou todo o poder nas suas próprias mãos, com o apoio do seu Exército Real e de uma minúscula clique feudal. As publicações nepalesas ainda não proibidas estão a ser estritamente censuradas. As estações de rádio estão proibidas de difundir notícias. Os activistas de direitos humanos estão impedidos de visitar as zonas onde o Exército Real e os arruaceiros patrocinados pelo governo estão a incendiar casas. Inicialmente, os líderes de todos os partidos parlamentares foram presos. Numa tentativa de os dividir, o rei manteve alguns sob prisão domiciliária e libertou outros.

Gyanendra Shah tem protagonizado verdadeiras encenações no teatro político nepalês, organizando reuniões sob controlo do Exército Real. No chamado dia nacional Phalgun 7 (a 1 de Março, segundo o calendário solar), os partidos parlamentares organizaram um protesto em Katmandu. Nesse dia, Gyanendra Shah cortou linhas telefónicas em todo o país e interrompeu todo o trânsito, incluindo o movimento interurbano de veículos. Algumas centenas de crianças foram trazidas das escolas para uma cerimónia em Tudikhel, sob escolta de soldados do Exército Real, e todos os funcionários foram obrigados a assistir. Encenações semelhantes estão a decorrer por todo o país sob os auspícios do Exército Real. Diariamente, algumas dezenas de pessoas saem para a rua e gritam palavras de ordem em defesa do golpe de 1 de Fevereiro.

O pai de Gyanendra, o rei Mahendra, fez o mesmo em 1962. Ele tinha dissolvido o parlamento, encarcerado os líderes parlamentares e imposto o sistema fascista do Panchayat, no qual as pessoas não tinham nenhum direito político. Os partidos foram proibidos e substituídos por conselhos monárquicos. Mahendra organizou pequenos grupos de pessoas com instruções para gritarem palavras de ordem favoráveis ao seu golpe de estado. Dividiu os partidos políticos e as lutas populares foram barbaramente reprimidas. Muitos camponeses e estudantes, a força lutadora desse período, foram mortos ou encarcerados. Esse sistema fascista foi imposto durante 30 anos, até 1990.

Gyanendra Shah tem antecedentes criminais no Nepal, por contrabando de ídolos e esculturas antigas para venda no estrangeiro, antes de se tornar rei e já não ter necessidade desses esquemas privados de lucro. Ele possui uma enorme parte do capital comprador (dependente do imperialismo) do Nepal e ficou com a vasta riqueza do seu irmão, o então rei Birendra, quando a maior parte da família real foi massacrada em Junho de 2001. Muitos nepaleses acreditam que foi Gyanendra que organizou o massacre. Agora, está perdido na ilusão de impor o seu domínio bárbaro e sem limites sobre as massas nepalesas, como o fez o seu pai.

Imediatamente após o golpe de estado, o PCN(M) convocou uma greve geral de dois dias. Depois, a 12 de Fevereiro, o partido declarou uma greve e bloqueio indefinidos em muitas sedes distritais do estado reaccionário. O partido exigiu que o tirano feudal acabasse com as suas medidas de regressão. Mas em vez de entregar o poder político ao povo, Gyanendra Shah continuou a cometer crimes, matando diariamente nepaleses, enviando os seus lacaios para incendiarem centenas de casas (no distrito de Kapilbastu, por exemplo) e tentando apertar o seu cerco reaccionário aos partidos parlamentares. Agindo, como disse o Presidente Prachanda, “com o sentido da nossa total responsabilidade para com as massas populares”, para quem uma tal situação se traduz num grande sofrimento, os maoistas suspenderam o bloqueio ao fim de 15 dias e avisaram que elevariam o nível da luta se Gyanendra não entregasse o poder ao povo.

Gyanendra Shah está completamente isolado das massas populares. No vale de Katmandu, as massas apoiaram manifestações espontâneas de estudantes. Ajudaram os manifestantes dando-lhes informações sobre os movimentos da polícia de choque. Nos campos, há muitas zonas onde estão penduradas faixas e tabuletas a dizer “Zona Libertada”. A pequena nobreza reaccionária e os senhores feudais abandonaram os campos ou refugiaram-se em quartéis militares.

O Presidente Prachanda do PCN(M) apelou aos partidos parlamentares para que construam um consenso de luta sob a bandeira da defesa de uma “República Popular de Nova Democracia Multipartidária do Nepal”. Em ocasiões anteriores, por várias vezes os partidos parlamentares perderam oportunidades de representar um papel importante no processo de transformação da história política nepalesa. Em 2001, imediatamente após o massacre no palácio, o PCN(M) apelou a que lutassem pelo estabelecimento da República Popular do Nepal. Houve o muito popular “Diálogo de Siliguri” entre os partidos parlamentares e a direcção maoista, que tirou o seu nome da cidade indiana onde decorreu. Mas o carácter de classe reaccionário e as políticas capitulacionistas desses partidos não lhes permitiram representar um papel positivo, mesmo enquanto democratas burgueses, de defesa dos interesses do povo e abandono dos laços com a monarquia feudal. Continuaram a apoiar Gyanendra Shah e a brutalidade do Exército Real. O seu desejo de poder pessoal e dos centavos que arrecadam pelos serviços prestados ao imperialismo, bem como aos senhores feudais e aos burocratas nepaleses, levaram os líderes parlamentares a uma luta sem quartel entre si. Mexendo um peão a seguir ao outro, Gyanendra dividiu gradualmente os parlamentares e fortaleceu a sua posição no palácio e no Exército Real.

Uma situação semelhante ocorreu em Outubro de 2002 quando Gyanendra demitiu o governo parlamentar e aboliu os direitos constitucionais. Também então o partido maoista apelou a que os parlamentares se passassem para o lado do povo. Uma vez mais, os líderes parlamentares não perceberam as necessidades da História. Em vez de confiarem nas massas nepalesas, no poder político revolucionário popular e no Exército Popular de Libertação, os parlamentares continuaram a prestar serviços ao rei feudal e aos seus amos imperialistas. Perderam então uma oportunidade de tomar uma posição ao serviço do povo nepalês.

Quanto mais os parlamentares lambem as botas dos imperialistas e dos senhores feudais reaccionários, mais o palácio os descarta. Muitos desses líderes parlamentares estão agora sob prisão domiciliária; centenas dos seus apoiantes foram atirados para a prisão. O seu destino político na arena política nepalesa está a encolher e eles apostam a sua sobrevivência pessoal na generosidade de Gyanendra Shah e dos seus amos imperialistas. Mas até agora, não conseguiram recuperar a sua graça política.

A monarquia feudal do Nepal – confinada aos quartéis, isolada das massas e odiada pelo povo nepalês e pelos povos de todo o mundo – está tão podre nas suas fundações quanto um dente podre. Os desafios à nossa frente são grandes, mas a possibilidade de um futuro luminoso pode ser vislumbrada no horizonte.