Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 13 de Julho de 2009, aworldtowinns.co.uk

Irão: Corajosos manifestantes comemoram o 10º aniversário da insurreição estudantil

Centenas de milhares de iranianos manifestam-se no centro de Teerão
Centenas de milhares de iranianos manifestam-se no centro de Teerão. (Foto: FARS/EPA)

A 9 de Julho, no 10º aniversário da insurreição estudantil que marcou uma nova vaga da luta do povo iraniano, milhares de manifestantes saíram às ruas de Teerão e de muitas outras cidades para comemorarem esse aniversário e continuarem os seus protestos contra o regime. Várias autoridades, incluindo o governador de Teerão, os chefes das forças de segurança e o Ministério do Interior, todas tinham jurado “esmagar” todas as acções desse tipo. Mas, apesar do claro perigo de espancamento, tortura e morte, as pessoas saíram à rua e aí se mantiveram, enfrentando polícias que esgrimiam bastões, milicianos da Basij em motocicletas, gás lacrimogéneo e tiros de aviso. Em alguns casos, combateram as forças de segurança e ocasionalmente chegaram a derrotá-las.

As pessoas que decidiram manifestar-se estavam conscientes de que o regime não estava apenas a fazer ameaças ocas. No dia anterior, as autoridades tinham anunciado que 500 das 2000 pessoas que elas anunciaram estar presas, ainda estavam detidas e serão levadas a tribunal. Como os presos não estão autorizados a ter nenhum contacto com as famílias ou os advogados, muita gente no Irão – e a Amnistia Internacional – teme que eles estejam a ser torturados para confessarem que há potências estrangeiras por trás dos protestos e que isso possa ser usado como pretexto para justificar execuções (Comunicado à Imprensa da AI, 29 de Junho). Muita gente parece estar “desaparecida”. Há boas razões para crer que o número de mortes tenha sido muito mais elevado que as várias dezenas reportadas pelo governo. (Ver texto anexo)

Fumo negro sobre Teerão devido aos pneus e outros materiais queimados pelos manifestantes a 13 Junho
Fumo negro sobre Teerão devido aos pneus e outros materiais queimados pelos manifestantes a 13 Junho. (Foto: AP/Ben Curtis)

As notícias mais recentes de brutalidade são a morte de um jovem de 19 anos chamado Sohrab Araabi. Ele desapareceu a 15 de Junho e a sua família esteve impossibilitada de obter qualquer informação sobre ele. A sua mãe tinha andado de prisão em prisão a perguntar por ele. Depois, a 11 de Julho, a sua família foi chamada para identificar o corpo dele. A princípio, disseram-lhes que ele tinha morrido na prisão. Depois, eles descobriram que ele tinha sido abatido a 25 de Junho, mas que o regime tinha mantido isso em segredo. No seu funeral em Teerão, a 13 de Julho, houve uma grande presença de visitantes não convidados – forças de segurança à paisana preparadas para impedir as pessoas de se juntarem à família e para garantirem que ninguém gritava palavras de ordem.

Nos protestos do décimo aniversário, pessoas corajosas, e sobretudo rapazes e raparigas, estavam decididos a manter a sua luta e a por fim a qualquer ilusão que os reaccionários no poder pudessem ter de que essa repressão os tinha intimidado a não se erguerem. Eles viram essas ameaças como sendo um uivar numa posição de fraqueza.

Desta vez, as pessoas tomaram várias ruas de Teerão. As notícias indicam que se manifestaram em mais de 10 locais da capital, gritando “Abaixo o ditador”, “Morte a Khamenei” (o Aiatola Ali Khamenei, “Líder Supremo” do regime) e palavras de ordem contra o seu filho Mojtaba. Há relatos de que Mojtaba está por trás do golpe de estado, que controla por completo as forças da Basij e que está a fazer um esforço para vir a substituir o seu pai quando este morrer. As pessoas gritaram: “Mojtaba, queremos-te morto para que nunca te possas tornar líder” e outras palavras de ordem que indicam que o movimento se tornou mais radicalizado. A utilização da cor verde e as palavras de ordem em defesa de Mir Hossein Mousavi estão a tornar se cada vez menos comuns.

Manifestantes perseguidos por milicianos com bastões frente à Universidade de Teerão, a 14 de Junho de 2009
Manifestantes perseguidos por milicianos com bastões frente à Universidade de Teerão, a 14 de Junho 2009. (Foto: AP)

A importância da manifestação de 9 de Julho (18 Tir no calendário persa) foi a sua mensagem de que o regime não se vai safar com o tipo de repressão e actos assassinos que desencadeou há dez anos, mas que, pelo contrário, a repressão dará lugar a uma crescente resistência até este regime deixar de existir. Desde 1999 que têm crescido as manifestações pelo aniversário da insurreição estudantil desse ano, graças ao impacto dessa insurreição popular que saiu das paredes das universidades e que se propagou a todo o Irão. Com a sua corajosa presença nas ruas de Teerão e de outras cidades, as pessoas declararam que estão decididas a continuar a sua luta, independentemente do que isso possa implicar. Gritaram: “Canhões de água, tanques e tortura já não funcionam” e “Morreremos mas não toleraremos ser tratados com desprezo”.

Após 12 dias em que parecia que o regime e as suas forças militares tinham conseguido conter os protestos e as lutas, as acções de 9 de Julho foram um alto pronunciamento de que isto não vai ser apenas uma batalha, mas uma guerra que se irá manter. Há indícios de que muita gente não tinha saído à rua para apoiar figuras da oposição eleitoral como Mousavi ou o ex-presidente Mohammad Khatami ou qualquer outro. Na realidade, Mousavi não convocou esta manifestação. Mais que isso, ele parece ter recuado para evitar o confronto. Mousavi apelou às pessoas para que deixem de se manifestar nas ruas e que, em vez disso, formem um partido político que trabalhe num “quadro legal”. Ele anunciou claramente que todas as diferenças dentro do regime são diferenças dentro da família. Isso não foi uma surpresa, uma vez que ele não está menos assustado com o aparecimento de um movimento radical que as outras facções do regime. A intensa contradição entre o povo e um brutal regime religioso e 30 anos de opressão sob várias formas abriu caminho a uma poderosa luta que apenas conseguiu chegar onde chegou devido à iniciativa popular.

Brigadas da Basij em motorizadas e armados de paus e bastões percorrem as ruas de Teerão à procura de manifestantes no centro de Teerão, a 14 de Junho de 2009
Brigadas da Basij em motorizadas e armados de paus e bastões percorrem as ruas de Teerão à procura de manifestantes no centro de Teerão, a 14 Junho 2009. (Foto: REUTERS/Stringer)

A radicalização da luta e a determinação em continuá-la é uma expressão da intensa, profunda e fundamental contradição entre o povo e o poder dominante que se tem acumulado há mais de 30 anos. É uma reacção, não só aos votos roubados mas a uma revolução roubada, pelo que não é de esperar que se extinga tão cedo quanto o regime esperava. Porém, o regime está armado até aos dentes. Mas ficou maciçamente debilitado pelas suas próprias contradições e diferenças internas e é difícil imaginar que possa restabelecer facilmente a sua força até aos níveis anteriores. O regime islâmico já sofreu um golpe muito lesivo. A legitimidade do seu presidente, do seu líder e de todo o sistema sofreu um duro golpe.

Porém, há dois perigos que ameaçam realmente a luta popular e que podem levar ao restabelecimento do regime islâmico tal como estava antes.

Um deles é a ausência de uma forte liderança comunista e revolucionária capaz de organizar e dirigir as actuais lutas populares. Uma das primeiras medidas do regime islâmico quando chegou ao poder foi encarcerar e depois massacrar os comunistas e esmagar as organizações comunistas e radicais. Em parte devido aos seus próprios erros, mas também devido a essa brutalidade, os comunistas sofreram um enorme golpe e toda uma geração de comunistas foi aniquilada. Porém, os que sobreviveram estão a fazer tudo o que podem e a lutar arduamente pela construção de uma forte vanguarda comunista capaz de liderar a luta popular.

Em segundo lugar, e relacionada com a questão da liderança, há a possibilidade de os imperialistas e as grandes potências poderem ajudar o regime a sobreviver à sua crise. A Rússia e a China já aí estão. A administração do Presidente Barack Obama tem dado sinais contraditórios, mas em geral tem tentado chegar a acordo com o governo do Presidente Mahmoud Ahmadinejad. No início, a pretexto da “não-ingerência”, Obama manteve-se silencioso. Depois, sob pressão da opinião pública mundial e da oposição do Partido Republicano para tomar uma posição, Obama fechou os olhos ao golpe de estado da clique de Khamenei-Ahmadinejad e à luta popular e teve o cuidado de não questionar umas eleições que uma clara maioria das pessoas do mundo tinha questionado.

Membros da milícia Basij agridem um homem na Rua Zartusht, perto do Ministério do Interior em Teerão, a 13 de Junho
Membros da milícia Basij agridem um homem na Rua Zartusht, perto do Ministério do Interior em Teerão, a 13 de Junho, um dos primeiros dias de protestos. (Foto: AP/STR)

Tendo em conta a actual situação política no Irão, isso pode ser interpretado como um apoio a Ahmadinejad. Pode haver várias razões para os imperialistas norte-americanos tomarem uma posição tão “inesperada”. Em primeiro lugar, embora possam ter contradições com o regime iraniano, os imperialistas norte-americanos não são a favor da luta revolucionária no país. Eles podem vir a apoiar alguma da oposição e alguns dos protestos para aumentarem a pressão sobre o regime, mas certamente que odeiam qualquer coisa que seja ingovernável, sobretudo quando há a hipótese de a situação poder ficar totalmente fora de controlo.

A segunda razão pode ser que os EUA prefiram a facção Khamenei-Ahmadinejad às outras facções. A razão para Obama querer falar com o Irão não é apenas a “questão nuclear” mas também o papel do Irão no Médio Oriente – Iraque, Afeganistão, Líbano e até certo ponto a Palestina e por aí adiante. Se os reformadores chegassem ao poder, não seriam capazes de mudar a posição do Irão sobre esses temas, nem em relação à disputa nuclear. Os EUA podem estar a pensar que só a facção Khamenei-Ahmadinejad pode de facto fazer as mudanças que pretende.

Por fim, há razões para suspeitar que a clique Ahmadinejad-Khamenei é favorável a negociações directas apenas com os EUA, sem qualquer verdadeiro envolvimento europeu. Outro indício disso é o facto de a União Europeia ter usado palavras mais fortes que os EUA na condenação da utilização pelo regime de violência contra os manifestantes. De facto, alguns países da UE foram muito mais longe que os EUA ao porem em causa as eleições e a legitimidade do regime.

Milicianos Basij vestidos à civil disparam tiros de aviso para dispersar os manifestantes no centro da cidade. Teerão, 14 de Junho de 2009
Milicianos Basij vestidos à civil disparam tiros de aviso para dispersar os manifestantes no centro da cidade. Teerão, 14 de Junho de 2009.
(Foto: Olivier Laban-Mattei/AFP/Getty Images)

Quanto ao G8, embora esta cimeira tenha emitido uma forte advertência de mais sanções contra o Irão devido à questão nuclear, o seu comunicado conjunto ignorou completamente a actual crise política. Nesta situação crítica, isto pode ser considerado um reconhecimento da legitimidade do governo de Ahmadinejad e mesmo uma aprovação tácita. Isto era de esperar, dado o carácter do G8 como bando de potências reaccionárias não menos contrária aos interesses do povo que o regime iraniano, e até mesmo mais perigoso. Se e quando eles se referem à luta popular, isso apenas serve para tirarem partido a favor dos seus interesses à mesa das negociações.

Porém, neste momento, muitos iranianos estão com um ânimo elevado e muito entusiasmados com o facto de puderem romper o mito da “invencibilidade” do regime islâmico. Muita gente está positiva e optimista e acredita que a luta se manterá. A dimensão do apoio entre os diferentes sectores do povo está a aumentar. E embora o regime e sobretudo a sua facção dominante tenham até agora conseguido manter um controlo apertado sobre os órgãos do poder, eles estão cada vez mais isolados. Mesmo entre as autoridades religiosas xiitas reaccionárias que têm sido uma importante fonte de influência e legitimidade do regime, muita gente vê-as como muito debilitadas e talvez já não mais capazes de conter e reprimir a luta popular. Mesmo com a ajuda dos imperialistas, isso pode acabar por ser inexequível. Estas condições criam uma situação favorável para as forças revolucionárias trabalharem arduamente, organizarem os jovens e o povo e elevarem a sua consciência e conhecimento da revolução e do caminho para a vitória. Caso contrário, outras forças de classe apoderar-se-ão uma vez mais da luta popular.