Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 22 de Janeiro de 2007, aworldtowinns.co.uk

A visita de Rice a Israel: Um roteiro para o cemitério

Durante a recém-terminada viagem da Secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice a Israel, ela recusou encontrar-se com o primeiro-ministro da Autoridade Palestiniana, Ismail Haniyeh. Quem acreditasse nas repetidas alegações dos EUA de que o principal objectivo de toda a sua acção na região é encorajar a democracia eleitoral acharia isto particularmente surpreendente, uma vez que o seu governo é o único governo no mundo árabe verdadeiramente eleito pelo povo.

Os EUA consideram o partido de Haniyeh, o Hamas, uma organização “terrorista”. O nome completo do Hamas é Movimento de Resistência Islâmica, mas o seu carácter islâmico não é o que o desqualifica aos olhos dos norte-americanos. Afinal de contas, os EUA têm-se associado de perto aos partidos fundamentalistas islâmicos xiitas do Iraque e ao reino fundamentalista islâmico sunita da Arábia Saudita, talvez a sociedade oficialmente mais antimulher do mundo, só para dar alguns exemplos de que uma perspectiva religiosa medieval não é considerada repelente pelos EUA.

O problema do Hamas para os EUA nem sequer é, como é muitas vezes injustamente dito, que ele “visa a destruição de Israel”. O Hamas tem mantido uma trégua há bastante tempo e exprimiu muitas vezes a sua vontade de aceitar a existência do estado sionista, pelo menos como um “facto”, se não como uma coisa boa, em troca de concessões israelitas aos palestinianos. O problema dos EUA com o Hamas é que ele, pelo menos em palavras, não se curva completamente perante o sionismo e que, por isso, ainda não atirou suficiente água fria sobre as esperanças nacionais do povo palestiniano. Isto é muito importante para o governo Bush que tem tomado desavergonhadamente o partido de Israel porque vê o sionismo como o seu aliado mais fiel para atingir os objectivos de Washington de um Médio Oriente reconfigurado e mais directamente dominado pelos EUA.

Rice reuniu-se, claro, com o primeiro-ministro israelita Ehud Olmert que, segundo qualquer padrão objectivo, deveria ser julgado como criminoso de guerra pela sua invasão do Líbano e por Israel ter matado provavelmente mil civis nessa agressão ilegítima. Na Cisjordânia e em Gaza, as forças de segurança de Olmert mataram 660 palestinianos em 2006, segundo o grupo pacifista israelita B'Tselem. Segundo esse grupo, cerca de metade não tinha “participado em nenhuma acção hostil” e entre eles estavam 141 crianças. Isso também é completamente ilegal para qualquer pessoa que se preocupe com a lei internacional, já para não falar no direito e na justiça.

Rice também se reuniu com o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, um dirigente do partido Fatah agora considerado favorável aos objectivos israelitas e norte-americanos. Recentemente, as autoridades israelitas devolveram a Abbas o dinheiro que deviam à Autoridade Palestiniana, em vez de o entregarem ao governo da Autoridade Palestiniana, o seu recipiente legal, numa clara jogada de apoio a Abbas e de humilhação do Hamas. Um alto responsável do exército israelita disse em Dezembro que Israel tinha dado a Abbas uma remessa de milhares de espingardas automáticas e munições para serem usadas contra o Hamas. Sendo isso verdade ou uma provocação, como afirma a Fatah, de qualquer forma traz à luz do dia as incessantes tentativas de Israel de encorajar uma guerra civil entre os partidos palestinianos.

Estas reuniões eram previsíveis. O que surpreendeu algumas pessoas foi o encontro de Rice com Avigdor Lieberman. Não parece ter sido uma necessidade do protocolo diplomático e ela não deu nenhuma explicação para isso.

Lieberman é dirigente de um partido de extrema-direita recém-chegado ao governo de coligação de Israel. Mesmo o diário israelita Ha'aretz mostrou-se chocado por, numa visita que dizia ter por objectivo “‘fortalecer as forças moderadas’, ela ter dado a sua mão ao fortalecimento dos extremistas, pelo menos no lado israelita”. (17 de Janeiro)

Lieberman é conhecido pelas suas declarações abertamente racistas contra os palestinianos e pelas políticas de limpeza étnica que vigorosamente defende. Ele sugeriu que Israel pegasse nos mais de 900 presos políticos palestinianos que tem detidos e que “os afogasse no Mar Vermelho”. Ele pediu a pena de morte para os membros palestinianos do Parlamento israelita que celebrem o Nakba (“dia da catástrofe”), um dia que Israel chama de seu Dia da Independência. Mais notoriamente, ele avançou com vários planos para remover violentamente os 1,4 milhões de cidadãos palestinianos de Israel (cerca de um quinto da sua população, não contando com a Cisjordânia e Gaza) para fora das suas fronteiras, incluindo aldeias inteiras, para que o estado sionista passasse a ser integralmente judeu. “Eles não têm lugar aqui”, disse ele. “Eles podem pegar nos seus haveres e desaparecer.” Para começar, foi assim que Israel foi criado, mas o país hoje alega que está diferente.

A outra coisa notável a respeito de Lieberman é a sua posição. Além de ser vice-primeiro-ministro, também é Ministro das Questões Estratégicas, um lugar recém-criado. Ele tem uma e uma única tarefa: fazer os preparativos para uma guerra contra o Irão.

Muito poderia ser dito sobre as ambições de Israel e dos EUA no Médio Oriente e sobre como o objectivo declarado de Rice de reavivar o agora morto “roteiro” para um mini-estado palestiniano ao lado de um estado de Israel em expansão se ajusta a isso, mas os meros factos sobre com quem ela se reuniu durante a sua visita dizem bastante por si próprios.