Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 31 de Março de 2008, aworldtowinns.co.uk

A fracassada ofensiva contra o Exército do Mahdi de Sadr: os EUA, o Iraque e o Irão

Cada vez pior – são estas as palavras que nos vêm à cabeça sobre o que os EUA estão a conseguir no Iraque, à medida que a sua ocupação vai para o seu sexto ano. A ofensiva contra o Exército do Mahdi, de Moqtada al-Sadr, resultou, até agora, numa humilhante derrota do governo apoiado pelos EUA e é outro sinal do crescente desespero dos EUA – e da sua perigosidade.

O domínio norte-americano do Iraque tem-se baseado em dois pilares políticos, além dos 160 mil soldados norte-americanos actualmente no Iraque: os partidos curdos e as instituições clericais e políticas xiitas. Durante o último ano, como esse quadro não tem funcionado e confrontado com outras necessidades, os EUA começaram a sacudir esses dois pilares. As incursões da Turquia no Curdistão iraquiano, com o inequívoco apoio militar e político dos EUA, minaram e intimidaram os dois partidos nacionalistas curdos baseados nos clãs que têm sido os mais fidedignos aliados dos EUA. Ao mesmo tempo, os EUA têm muitas vezes simplesmente ignorado o governo do primeiro-ministro Maliki que é sustentado por esses dois pilares. Organizaram o chamado movimento “Despertar” com o qual os líderes tribais sunitas (que antes constituíam o apoio central a Saddam Hussein) e os antigos oficiais de Saddam foram comprados e trazidos directamente para a estrutura de comando dos EUA, como se o governo de Maliki e o exército iraquiano nem sequer existissem. Cerca de 80 mil desses homens foram colocados nas folhas de pagamento dos EUA em 2007. Agora, a essas movimentações seguiu-se o ataque às forças de Sadr.

De que o ataque foi apoiado pelos EUA não há realmente dúvida. O Presidente norte-americano Bush apoiou-a imediatamente, apelidando a ofensiva de Maliki de “corajosa”, “um momento definidor na história do Iraque livre” e “uma parte necessária do desenvolvimento de uma sociedade livre” (New York Times, 29 de Março). O vice-presidente dos EUA, Cheney, visitou o Iraque menos de uma semana antes da ofensiva, por volta da altura em que começaram os preparativos. Ele deve ter discutido o assunto com Maliki, uma vez que a relação entre o movimento de Sadr e o governo era considerada a questão do dia em Bagdad. Além disso, apesar de algumas tentativas de dar uma impressão contrária, parece que as forças aéreas e terrestres norte-americanas fizeram muitos dos combates contra o Exército do Mahdi. Embora as tropas do governo tenham ajudado a cercar a Cidade de Sadr, o bairro pobre xiita da capital assim chamado em homenagem ao famoso clérigo pai de Moqtada al-Sadr, os relatos em directo de Sudarsan Raghavan para o jornal The Observer (30 de Março) descrevem os combates rua a rua como sendo quase exclusivamente entre membros do Exército do Mahdi e soldados norte-americanos, com o frequente apoio do armamento pesado de helicópteros.

Em Baçorá, onde Maliki foi observar pessoalmente a invasão dos bairros favoráveis a Sadr, os combates rapidamente se tornaram num beco sem saída. Os aviões norte-americanos e a artilharia britânica mataram muitos, se não a maioria, dos civis e combatentes dados como mortos. Washington confirmou que as suas forças especiais operaram no terreno em Baçorá (Reuters, 30 de Março). Ocorreram combates em muitas outras cidades do sul, para onde fugiram milhares de membros do Exército do Mahdi de Bagdad ou para onde se deslocaram face à pressão do exército norte-americano.

Maliki pôs em causa o seu prestígio e o seu futuro nesta batalha. Pressionado de ambos os lados (as movimentações dos EUA para pelo menos o tornar menos pertinente, por um lado, e o crescente isolamento do governo e a força do Exército do Mahdi, por outro), esse jogo arriscado pode muito bem ter sido a sua jogada mais racional. Ao segundo dia da ofensiva, ele declarou o Exército do Mahdi “pior que a Al-Qaeda” e jurou que nunca assumiria compromissos com Sadr nem abandonaria Baçorá até as forças do Mahdi serem esmagadas (Al-Jazeera, 30 de Março). Exigiu aos combatentes do Mahdi que entregassem as suas armas em 72 horas. Não houve nenhuma rendição das forças de Sadr. Pelo contrário, alguns polícias do governo ofereceram as suas armas ao Exército do Mahdi e pelo menos uma unidade juntou-se-lhe em vez de o combater. Primeiro, Maliki mudou de ideias e prolongou o prazo final em mais 10 dias, oferecendo uma recompensa aos homens do Mahdi que entregassem as suas armas. Depois, o seu governo enviou emissários ao Irão, gritando por ajuda.

Um general dos Guardas Revolucionários Iranianos – responsável pela mesma brigada Pasdaran Qods que Bush e o seu chefe supremo David Petraeus acusaram de auxiliar os ataques contra as forças dos EUA no Iraque – negociou um acordo político, segundo um relato noticioso de 30 de Março de McClatchy. Sadr, actualmente a viver e a prosseguir estudos teológicos na cidade santa iraniana de Qom, concordou em retirar das ruas os seus homens armados. Em troca, segundo esse relato, os representantes de Maliki – um membro do Partido Dawa e o líder da Organização Badr, a ala militar do Conselho Supremo – concordaram em parar a ofensiva e em libertar as centenas de comandantes e soldados do Mahdi presos durante os últimos meses. Desde então, a rádio iraniana tem transmitido queixas de que o governo não tem cumprido esse acordo e que, pelo contrário, continua a prender membros do Mahdi. Apesar disso, há, por agora, um vencedor claro, embora a história esteja provavelmente longe de ter terminado. As forças de Sadr recusaram-se a desarmar, o que tinha sido a exigência central em que Maliki tinha apostado o seu futuro.

Pior, para os EUA, a aventura que visava debilitar aquilo a que autoridades norte-americanas chamam de milícia pró-iraniana terminou com o reconhecimento da autoridade e da influência da República Islâmica do Irão no Iraque. Se, como salientaram muitos observadores, as acções dos EUA desde o 11 de Setembro de 2001, tanto a cada vez mais atolada ocupação do Afeganistão, como a ainda mais desastrosa ocupação do Iraque, têm fortalecido a República Islâmica, esta mais recente aventura falhada em que os EUA investiram revela até que ponto os EUA estão dispostos a ir contra o Irão, tanto política como militarmente, e debilita ainda mais o lado do império.

Uma pergunta óbvia é porque é que os EUA fizeram esta movimentação, apesar dos avisos e dos perigos óbvios.

Atacar Sadr não era uma escolha óbvia. Em 2006, o Grupo Internacional de Crise (ICG), um grupo internacional de aconselhamento dos governos imperialistas, constituído por antigos políticos e líderes de topo, publicou um relatório cujo título perguntava: “Moqtada al-Sadr do Iraque: Destruidor ou Estabilizador?” (www.crisisgroup.org). O seu argumento era que a ocupação precisava muito do movimento de Sadr para ajudar a estabilizar o governo apoiado pelos norte-americanos, o qual teria dificuldade em sobreviver sem ele, e que os EUA e Maliki deveriam trabalhar cuidadosamente para fazer isso acontecer e não fazer nenhuma acção precipitada contra Sadr. Desde então, numa série de relatórios, o ICG tentou estabelecer um roteiro detalhado para a cooperação EUA-Sadr. É como se Bush e seus parceiros e o governo de Maliki que deles depende tivessem lido esse roteiro ao contrário e feito exactamente o oposto. Em vez de atraírem as forças de Sadr ainda mais profundamente para o governo estabelecido em 2005, actuaram com uma hostilidade inflexível para com elas. (Ver também outros relatórios do ICG: “Para Onde se Dirige o Iraque? As Lições de Baçorá”, Junho de 2007; “A Política Xiita no Iraque: O Papel do Conselho Supremo”, Novembro de 2007; e “A Guerra Civil no Iraque, os Sadristas e a Vaga Abrupta”, Fevereiro de 2008.)

Aqui, torna-se necessário alguma análise de fundo sobre as forças políticas envolvidas no Iraque. Ironicamente, todas as organizações iraquianas de que os EUA dependem têm profundas ligações à República Islâmica – à excepção das ligadas ao Partido Baath de Saddam, o que, aos olhos dos EUA, pode ser um dos seus dois grandes méritos (o outro é que conseguiram governar o Iraque, um truque a que os EUA e os seus aliados iraquianos ainda não chegaram). Os partidos curdos e sobretudo o Presidente curdo do Iraque, Jalal Talabani, apesar do seu muito proclamado laicismo, são há muito tempo amigos do regime dos mulás iranianos. O Partido islâmico Dawa do primeiro-ministro Maliki, a mais antiga organização política islâmica do Iraque, tinha o seu quartel-general no Irão. Trabalhou com as agências de segurança iranianas e diz-se que tem estado directamente envolvido nos ataques bombistas contra os soldados norte-americanos, um facto que o governo Bush nunca negligencia. Mas o Partido Dawa é muito pequeno e fraco; parece que ele foi escolhido para primeiro-ministro como compromisso entre os dois principais intervenientes xiitas: Sadr e o partido agora chamado Conselho Supremo Islâmico do Iraque.

Quando o Conselho Supremo foi fundado em 1982 no Irão, o Aiatola Khomeini enviou o seu sucessor, o Aiatola Ali Khamenei, para assistir como seu representante. Cresceu sob a protecção dos Guardas Revolucionários Iranianos, recrutando entre os soldados iraquianos capturados e detidos no Irão durante a guerra Irão-Iraque e combatendo ao lado do exército iraniano contra o exército de Saddam. Contudo, o Conselho Supremo, segundo a análise do ICG, afastou-se desde então do seu compromisso ideológico para com o conceito de Khomeini de regime clerical e da autoridade religiosa de Khomeini e mais recente de Khamenei. Tentou distanciar-se politicamente do regime iraniano, tornando-se bastante pró-americano (o seu líder Abdel Aziz al-Hakim foi “cortejado e festejado pela Casa Branca de Bush”, para citar o ICG), mesmo enquanto vacilava para cortar completamente os seus laços com o Irão.

O movimento de Sadr e o seu Exército do Mahdi, formado em nome da protecção dos interesses xiitas após a invasão norte-americana, também tem sido, ironicamente, crítico do regime iraniano persa numa base chauvinista e nacionalista árabe e não partilhou, pelo menos no passado, todas as suas ideias nem reconheceu a sua autoridade religiosa. Contudo, parece ter-se tornado mais próximo da República Islâmica devido a uma combinação entre razões ideológicas e o estreitamento do espaço político que tinha aberto na actual situação iraquiana. A sua relação com os EUA tem sido ambígua e longe de inflexível. Quando os seus homens se levantaram em armas na cidade santa iraquiana de Najaf em 2004, as suas reivindicações envolviam o reconhecimento e direitos para o movimento de Sadr, não o derrube do governo ou o fim da ocupação. Embora tenham acabado por combater duas rondas de batalhas com as forças armadas dos EUA nesse ano, eles tentaram evitar um confronto directo e lutaram sobretudo de uma forma defensiva contra as tentativas de os deterem e desarmarem.

O movimento de Sadr é geralmente definido como o único verdadeiro movimento com uma base de massas no Iraque (fora do Curdistão), sobretudo em comparação com o muito impopular Conselho Supremo, visto como um fantoche, primeiro do Irão e depois dos EUA. Enquanto o Conselho Supremo obtém apoio e legitimidade dos comerciantes de Bagdad e das cidades santas xiitas e das principais instituições religiosas, o movimento de Sadr baseia-se entre os jovens xiitas “urbanos desfavorecidos” de Bagdad, bem como de Baçorá e outras cidades do sul de onde essas famílias vieram. (Seria errado concluir, porém, que a classe a que um partido ou movimento vai buscar os seus membros significa necessariamente que representa os interesses dessa classe, ou a sua perspectiva “natural”. A intelligentsia xiita foi inicialmente o pilar do Partido Baathista, quando, muito antes de Saddam, ele era um movimento nacionalista laico e os xiitas “urbanos desfavorecidos” eram a principal base social do Partido Comunista Iraquiano.)

O principal argumento do ICG tem sido que um dos objectivos proclamados de Sadr – um governo da Xariá (i.e., baseado na lei islâmica) – já foi alcançado pela constituição iraquiana escrita em 2005 sob a supervisão dos EUA, e que o seu partido seria vital para a continuação da sobrevivência do governo instalado nessa altura. De facto, foi esse o caso durante vários anos. Os homens de Sadr foram membros do parlamento e ministros e deram a esse governo muita da pouca legitimidade de que desfrutava. Ele retirou os seus ministros em Setembro de 2007, no auge da escalada norte-americana eufemisticamente chamada de “Vaga Abrupta”, aparentemente acreditando que era dirigida sobretudo contra ele. Parece que pelo menos muita da fricção entre as forças armadas dos EUA e o Exército do Mahdi tem origem na intolerância norte-americana e na pressão sobre as forças de Sadr, incluindo repetidas rusgas e prisões. Quando, o ano passado, os membros do Mahdi combateram os homens do Conselho Supremo nas ruas de Najaf pelo controlo dos santuários xiitas, Sadr usou a oportunidade para pedir algo mais que uma trégua – o fim de todos os “aparecimentos armados” dos seus homens, seja em conflito com o governo e o Conselho Supremo, seja com os norte-americanos. Em Fevereiro deste ano, não muito antes de Maliki desencadear a sua ofensiva, Sadr renovou essa ordem.

A oposição de Sadr aos planos de Maliki para dividir o Iraque em três regiões autónomas (e eventualmente talvez em três países) tem um conteúdo político. Mas, além disso, muitos comentadores, incluindo o ICG, consideram a sua posição nacionalista e ocasionalmente antiamericana como mais flexível que a retórica poderia fazer parecer. A reivindicação de Sadr de um calendário para a retirada das tropas norte-americanas foi agora associada a uma aceitação tácita da ocupação, no que poderia ser uma estratégia de tentar evitar o conflito com os EUA, para se reforçar e esperar por uma situação diferente. Mesmo no auge da ofensiva norte-americana contra ele, um alto responsável de Sadr disse: “O Exército do Mahdi está a lutar pelo reconhecimento e não por objectivos inúteis” (por outras palavras, tentar derrubar o governo ou opor-se à ocupação) (The Observer, 30 de Março).

Sobretudo nos dois últimos anos, os confrontos directos do Exército do Mahdi com o Exército dos EUA e, a acreditar nas autoridades norte-americanas, o uso de explosivos contra veículos norte-americanos, ocorreram no contexto de uma campanha sadrista para tomar grandes áreas de Bagdad, nas duas margens do rio Tigre, expandindo a sua base para além do bairro pobre suburbano oriental original.

Esse esforço largamente vitorioso significou um processo de “defesa” bairro-a-bairro dos xiitas contra as tentativas (reais) de grupos sunitas de os intimidar ou expulsar, expulsando por seu lado os sunitas e, através desse processo, estabelecer o seu próprio poder militar, económico e político considerável. Apesar das alegações de Sadr de estar acima dos conflitos religiosos e ser pela nação, incluindo enviando comida e abastecimentos para os sunitas de Falluja durante o cerco norte-americano e, mais recentemente, durante a ofensiva contra ele, pedindo aos iraquianos para se unirem contra “os exércitos da escuridão”, o seu movimento tem estado indissoluvelmente ligado à “protecção” gângster dos xiitas, à limpeza étnica contra os sunitas e ao domínio religioso com todas as suas horríveis características, incluindo a supressão da livre movimentação das mulheres, que os visitantes dizem fazer o Irão parecer quase laico em comparação.

Da sua residência no Irão, Sadr ainda se esforça por distinguir os interesses políticos iranianos e iraquianos, uma posição que, qualquer que seja a sua motivação, está de acordo com a sua alegação de representar todos os muçulmanos, xiitas e sunitas, e a nação iraquiana. (Al-Jazeera, 30 de Março). Contudo, há elementos que o colocam ideologicamente próximo dos mulás que governam o Irão, incluindo o passado familiar que lhe permitiu ascender rapidamente à proeminência, uma famosa linhagem clerical conhecida pela sua defesa do Islão político, diferente das instituições xiitas iraquianas predominantes que mantiveram uma paz desconfortável com o regime de Saddam; os seus actuais estudos religiosos visam combinar a sua autoridade política com uma autoridade religiosa que, como erudito islâmico júnior, agora lhe falta (e que falta completamente aos outros dois principais partidos xiitas, sem uma liderança clerical própria); e a sua defesa não só da Xariá como base do governo mas de que a autoridade mundana mais alta seja atribuída a um erudito islâmico (wilayat al faqih, ou regra suprema de jurisprudência), uma doutrina associada a Khomeini e à República Islâmica do Irão. Os sadristas não são um movimento de base étnica como os partidos curdos ou simplesmente uma outra manifestação da “política de identidade”: a importância e o poder da ideologia islâmica na definição e na condução desse movimento não devem ser menosprezados.

Tudo isto não significa que haja alguma verdade nas afirmações de Maliki e Bush de que a sua guerra contra o Exército do Mahdi é dirigida contra o gangsterismo sectário. O Conselho Supremo já fez exactamente o mesmo tipo de coisas. A única diferença é que os seus massacres sectários, a tortura a uma escala industrial, a extorsão e outros actos repugnantes foram cometidos pelas instituições oficiais que eles controlam, sobretudo o Ministério do Interior. Como diz abertamente o ICG: “O Iraque está no meio de uma guerra civil. Mas antes e além disso, o Iraque tornou-se num estado falhado – um país cujas instituições, e com elas qualquer semelhança de coesão nacional, foram obliteradas.” Os EUA estilhaçaram militarmente o Iraque, mas o sistema de alianças de classe e de governo que o regerão no futuro está longe de estar estabelecido. Acabará por ter que ser estabelecido, uma vez que a ocupação não se pode manter ao mesmo nível para sempre, nem que seja porque os EUA têm outras guerras para combater. Por causa disso, e porque os EUA, para manterem a supremacia, premeiam e encorajam constantemente o sectarismo religioso e as fricções étnicas, o país está a ser fragmentado por organizações armadas religiosas e de base étnica que defendem os interesses da elite do poder da sua “identidade” particular. Mesmo o governo é uma coligação instável de grupos de interesses e as suas forças de segurança – e mesmo, até certo ponto, o exército – são apenas mais uma milícia de base estreita em uniforme, geridos pelo líder do Conselho Supremo, Hakim.

Cada um desses grupos baseia-se em interesses reais, ainda que tacanhos. A sua maioria não pode ser considerada fantoche, mesmo quando são levados pela mão dos ocupantes e os servem, mas a mesma tacanhez de interesses e de perspectivas torna-os todos altamente susceptíveis de manipulação pelos EUA e outros. Mesmo as forças fundamentalistas sunitas mais consistentemente antiamericanas, incluindo a chamada Al-Qaeda do Iraque, fazem parte dessa dinâmica de rivalidade auto-alimentada e reforçam mutuamente os interesses reaccionários e assim ajudam a fortalecer a ocupação, mesmo quando procuram acabar com ela.

Uma coisa que tem confundido muitos observadores é a luta entre os partidos apoiados pelo Irão. O Irão não se opõe a essa rivalidade armada? As próprias autoridades iranianas têm negado as alegações de que fazem tudo para debilitar o governo de Maliki ao qual, alegam eles, os EUA estão a dar um apoio menos que entusiástico e total. “Porque é que iríamos minar um governo no Iraque que apoiamos mais que quaisquer outros?”, perguntou um diplomata iraniano (“O Vencedor?”, Peter Galbraith, New York Review of Books, 11 de Outubro de 2007). O mesmo pode ser dito do ponto de vista dos EUA que certamente têm necessidade, se não mesmo afecto, dos dois partidos xiitas, se quiserem que o seu governo se mantenha sobre qualquer coisa que não apenas as baionetas norte-americanas.

Do ponto de vista do regime iraniano, a sua grande mão na manutenção de um regime dependente dos EUA é uma forma tanto de conluio como de contenda com os EUA. As classes dominantes iraniana e norte-americana têm alguns interesses comuns num regime reaccionário estável no Iraque e mesmo na utilização do fundamentalismo religioso xiita como suporte desse regime. Se o governo resultante for amigo do Irão, como o foi o governo de Maliki, tanto melhor; de qualquer forma, alivia o Irão da pressão em que estava durante o regime de Saddam (e os EUA também removeram convenientemente o regime hostil talibã do outro lado do Irão). Esta situação permite à República Islâmica fazer com que os EUA reconheçam, pelo menos de facto, que precisam do regime iraniano e que não se podem permitir pressioná-lo muito. Isto pode ser uma parte da razão por que o Conselho Supremo se conseguiu alistar sob a bandeira norte-americana apesar de não ter cortado completamente os laços com o Irão e por que os EUA o têm tolerado. (Segundo o ICG, o Conselho Supremo tem servido ocasionalmente de intermediário nas negociações EUA-Irão). Esta é também uma das razoes da antiga e persistente impaciência das forças de Sadr em relação ao Irão.

Ao mesmo tempo, o Irão não evita usar a força militar. Os EUA têm falado muito dos dispositivos explosivos avançados que o Irão supostamente forneceu ao Exército do Mahdi. O General Petraeus dos EUA acusou o Irão pelos morteiros e rockets de precisão e portanto presumivelmente avançados que começaram a chover do leste (do lado da Cidade de Sadr) para a Zona Verde, o antigo palácio de Saddam que é o centro da ocupação norte-americana e sede do seu governo iraquiano, na véspera do planeado assalto ao Exército do Mahdi. Depois de mais de uma semana de uma barragem “qualitativamente diferente” das do passado, o estado de espírito no complexo mais fortificado do planeta foi descrito como sendo “uma sensação de se ficar sentado nos calcanhares durante um longo período de tempo” (BBC, 24 de Março; Associated Press, 27 de Março). As autoridades militares e políticas norte-americanas disseram que o regime iraniano, ao mesmo tempo que apoia Maliki, também fornece armas a grupos como o Exército do Mahdi e seus derivados porque quer ver os EUA amarrados e debilitados militarmente. Embora os porta-vozes imperialistas nunca o admitam, isto é uma admissão implícita de que o Irão tem boas razões para temer que seja o próximo alvo dos EUA. Vários observadores têm salientado que, no caso de um ataque fronteiriço dos EUA ao Irão, o Exército do Mahdi poderia sentir chegado o momento para um confronto total com os ocupantes.

Se os EUA não se estivessem a preparar para um confronto com o Irão, então veriam o Exército do Mahdi de uma forma diferente. Muitas das coisas que os EUA estão a fazer na região, de Israel e do Líbano à Turquia e ao Iraque, fazem pouco sentido, excepto a esta luz. Isto inclui as várias alianças em que se envolve no próprio Iraque ocupado. Provavelmente não foi apenas a estupidez que fez com que o governo de Bush empurrasse o movimento de Sadr para uma cada vez maior hostilidade em vez de tentar atraí-lo com o resto dos seus parceiros menores do crime. Quanto mais os EUA se descobrem politicamente em dificuldades no Iraque e noutros lugares do Médio Oriente, para benefício do Irão, mais se podem sentir compelidos a saírem aos tiros de uma situação impossível, movimentando-se militarmente contra a República Islâmica. Ainda que este mais recente revés dos EUA na ofensiva contra o Exército do Mahdi possa alegrar as pessoas que em todo o mundo gostam da justiça, o resultado pode ser uma ainda maior negligência norte-americana.