Publicado no Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (em inglês a 21 de setembro de 2026)
Da Campanha Internacional de Emergência pela Libertação Imediata dos Presos Políticos no Irão
Osyan: De “Mulher, Vida, Liberdade” a “Guerra, Morte, Destruição”
Nota da redação do revcom.us: Osyan significa “Rebelião” em farsi [persa]. A Osyan/Rebelião é uma organização de mulheres iranianas e afegãs que representa a voz da revolta feminina para exprimir a determinação de servir a luta contra a República Islâmica do Irão e contra os talibãs no Afeganistão. O seguinte comunicado foi publicado em inglês e farsi nas redes sociais da Osyan a 16 de setembro de 2026. A introdução é da Campanha Internacional de Emergência pela Libertação Imediata dos Presos Políticos no Irão (CIE).
Introdução da CIE:
Partilhamos este oportuno e crucial comunicado da Osyan, publicado na sua conta de Instagram a 16 de setembro de 2026, dia do 4º aniversário da histórica revolta “Mulher, Vida, Liberdade” no Irão. Fazemo-lo em conjunto com os inúmeros eventos políticos e culturais progressistas que estão a recordar esta revolta dentro do Irão e em todo o mundo — a meio da brutal guerra dos EUA e Israel contra o Irão e, por parte do regime iraniano, da intensificação da repressão, incluindo um aumento das execuções.
A CIE concorda especialmente com a parte do comunicado da Osyan assinalada a negrito, a qual desejamos destacar, que termina com um ponto-chave: ”Qualquer ilusão de que algo positivo possa surgir dos planos dos EUA ou da ‘resistência’ reacionária da República Islâmica deve ser descartada. Hoje em dia, a construção de um movimento de caráter profundamente radical no Irão depende desta compreensão.”
Como pano de fundo, tal como a maternidade forçada constitui uma escravização da mulher, o mesmo acontece com o uso obrigatório do hijab [véu] que as mulheres no Irão têm de usar a partir dos 9 anos de idade, segundo a teocracia capitalista do país. Um hijab inadequado, ou ter o cabelo parcialmente descoberto, custou a Mahsa Jina Amini a sua jovem vida às mãos da polícia moral iraniana. Esse ultrajante assassinato pelo Estado desencadeou a revolta “Mulher, Vida, Liberdade” em meados de setembro de 2022. A furiosa rebelião durou quase meio ano. Multidões de mulheres, acompanhadas por multidões de homens, dançaram à volta de enormes fogueiras que queimavam o odiado hijab e muitas mulheres cortaram o cabelo em protesto. O movimento teve o apoio de pessoas em todo o mundo que o viam como um grito de guerra contra todas as cruéis formas com que as mulheres são atualmente oprimidas em todo o mundo. Mas mais do que isso, a revolta tornou-se um símbolo do clamor da humanidade oprimida, ainda mais relevante e urgente hoje do que quando eclodiu há quatro anos.
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Da OSYAN:
De “Mulher, Vida, Liberdade” a “Guerra, Morte, Destruição”

Quatro anos passaram desde o assassinato de Jina Mahsa Amini. Quatro anos desde o dia em que a morte dela abalou o Irão e expôs ao mundo uma ferida que existia há décadas. Quatro anos desde o dia em que as mulheres saíram à rua, retiraram os véus, cortaram o cabelo e fizeram recuar na frente ideológica a República Islâmica, num dos seus mais importantes campos de batalha: o hijab obrigatório. Fizeram-no através de um ato simples, mas radical e contínuo: Não iremos viver mais da maneira que vocês querem.
A revolta Jina teve tanto conquistas como falhas; esteve certamente repleta de contradições e longe de ser uniforme. Essas contradições tornaram-se cada vez mais acentuadas ao longo do caminho. Em 2023, parte da revolta posicionou-se ao lado da Palestina e contra o genocídio enquanto, em 2025–2026, uma outra parte saudou os bombardeamentos norte-americanos contra o Irão. A nossa sociedade tornou-se mais polarizada e o ”inimigo comum” deixou de ser apenas a República Islâmica:
da reacionária oposição de Pahlavi, que em Janeiro apelou às pessoas que se colocassem perante o fogo dos criminosos governantes, a Israel e aos EUA que, cavalgando sobre o sangue dos nossos jovens, legitimaram a sua ”guerra, morte e destruição”. Passámos do caso de Nika Shakarami, de 16 anos, assassinada pela República Islâmica, ao de Amirali, de 4 anos, assassinada por um bombardeamento norte-americano contra uma festa de casamento em Kuhestak: as sepulturas estão a ficar cada vez menores...
Apelamos a que todas as pessoas se oponham a este ataque organizado contra a vida e a liberdade, seja ele perpetrado através das bombas e sanções do maior criminoso do mundo — os EUA — ou através das execuções e prisões levadas a cabo pela República Islâmica anti-mulheres. Trata-se de instrumentos de punição coletiva que as potências estrangeiras e a classe dominante interna — ainda que em escalas diferentes — utilizam contra o povo e em defesa dos seus próprios interesses. Qualquer ilusão de que algo positivo possa surgir dos planos dos EUA ou da “resistência” reacionária da República Islâmica deve ser descartada. Hoje em dia, a construção de um movimento de caráter profundamente radical no Irão depende desta compreensão.
Recordamos as crianças de Minab, tal como recordamos Kian, Hadis, Sarina e Jina. Recordamos as 3500 pessoas assassinadas na guerra, tal como recordamos os milhares de pessoas assassinados em janeiro. Recordamos os 3,2 milhões de deslocados internos e os 2 milhões de pessoas que perderam os seus empregos em consequência da agressão dos EUA contra o Irão, tal como recordamos os milhares de detidos por terem erguido as suas vozes para protestarem;
cada balúchi que foi atingido a tiro, cada pessoa queer que foi torturada, cada curdo que foi executado, cada afegão que foi deportado, cada bahá’í ou não-crente que foi eliminado. Recordamos tudo isto, não para equiparar os crimes dos EUA aos da República Islâmica, mas porque sabemos que não são opostos e que todo o nosso sofrimento tem as suas raízes num único sistema.

Recordamos a história das nossas lutas desde os primeiros dias da República Islâmica contra o hijab obrigatório e a repressão política. Estamos ligadas às mulheres que, no 8 de Março de 1357 (1979), nos primeiros dias após a Revolução [Islâmica], saíram à rua e protestaram contra a imposição do hijab obrigatório. As mesmas mulheres que lutaram contra a monarquia e contra a dominação dos EUA sobre o Irão. Essa luta não terminou. Continua nas casas, locais de trabalho, universidades, prisões e ruas. De cada vez que uma mulher se recusa a submeter o seu corpo ao Estado, essa luta continua. De cada vez que um ser humano diz “não” à dominação, essa luta continua.
E continua hoje quando dizemos “não” à agressão e aos bombardeamentos; quando dizemos “não” às sanções e à pressão económica; quando dizemos “não” à destruição das vidas de 90 milhões de pessoas no Irão no campo de batalha da competição entre os EUA e a China; quando dizemos “não” às ameaças nucleares do fascista Trump; quando dizemos “não” a nos tornarmos “danos colaterais” de projetos de mudança de regime; quando dizemos “não” ao sistema capitalista imperialista que nada tem a oferecer à maioria da população do mundo a não ser guerra, morte e destruição;
quando dizemos “não” às execuções e às prisões; ao patriarcado/supremacia masculina, à opressão nacional, à supressão do pensamento e da expressão, e à totalidade da República Islâmica, incluindo a sua resistência reacionária destinada a obter concessões; quando dizemos “não” à sua propaganda “anti-imperialista”, ao mesmo tempo que ela própria faz parte deste mesmo sistema e mantém as nossas vidas reféns deste sistema e das crises dele.
No 4º aniversário da Jina, o nosso único “sim” é a uma luta que possa pôr fim a esta loucura, a um futuro determinado por nós mesmos — e não pelos interesses dos imperialistas, sejam eles a China, a Rússia ou os EUA, nem dos seus dependentes, sejam eles a República Islâmica ou Israel — pela vida, porque a vida em si mesma vale a pena ser vivida e lutar por ela.