Comunicado do Comité do Movimento Revolucionário Internacionalista (CoMRI) sobre o 11 de Setembro,

Após o 11 de Setembro:

Oponhamo-nos à cruzada “antiterrorista” de Bush contra os povos do mundo

A 11 de Setembro, milhares de pessoas inocentes morreram no território dos Estados Unidos. Nas águas turvas do terrorismo e dos serviços secretos, onde a intriga e a duplicidade são correntes, talvez nunca seja possível saber exactamente quem planeou o ataque e quais os seus motivos. Mas duas coisas são claras: primeiro, as vítimas de Nova Iorque juntam-se aos milhões de vítimas directas e indirectas da política e das acções da classe dominante dos EUA. Segundo, ainda maiores crimes estão em preparação.

Os EUA declararam uma "guerra contra o terrorismo". Com ela, estão a declarar o seu direito a atacar toda e qualquer força ou governo numa vasta área que vai do Médio Oriente à Ásia Meridional. Os alvos serão definidos segundo o quanto e quão depressa se curvem aos ditames dos EUA - a ausência de democracia ou o uso do terror por parte de um governo contra o seu próprio povo ou outros, não o excluirá de se tornar um honorável cúmplice dos EUA, como podemos ver pela súbita transformação do Paquistão de potencial vítima em campo de operações dos EUA. Esta guerra enfrentará um furacão de resistência, não apenas nos países designados como alvos, mas também em todo o resto do mundo, incluindo nos próprios EUA e noutros países agressores. Ela é um reflexo do conflito que opõe o mundo imperialista encabeçado pelos EUA contra os povos e as nações oprimidas, e que é a contradição principal do mundo de hoje.

Não surpreende que tanta gente, motivada pelo medo, pela ignorância ou pelo egoísmo, tenha sido seduzida pelas tentativas de marchar sob a bandeira da "civilização ocidental" para mais uma sanguinária cruzada. Mas mesmo neste momento, em que a situação ainda se começa a definir, um número crescente de pessoas sente que os governantes estão a tentar aproveitar-se dos sentimentos de perda de vidas inocentes, para ganhar apoio para uma guerra criminosa.

Porque não dizem os EUA às vítimas que aquele que designam como "suspeito número 1", Osama bin Laden, e o seu movimento foram apoiados pelo Governo dos EUA: financiados, armados e protegidos durante uma década pela CIA, pelo MI6 britânico e pelos seus congéneres dos serviços secretos da Arábia Saudita, ao serviço do bloco ocidental contra os seus rivais soviéticos? Porque não dizem também ao mundo que os EUA recrutaram e treinaram os extremamente reaccionários talibãs num Paquistão subserviente e mandaram as tropas paquistanesas para o Afeganistão para os colocarem no poder? E agora, as mesmas potências que impingiram os talibãs ao povo afegão querem impor-lhe ainda mais sofrimento!

Bush chamou inicialmente "Operação Justiça Infinita" à "nova guerra" dos EUA, mas ela é infinitamente injusta. Na realidade, ele representa um país que utilizou a primeira bomba atómica contra o povo do Japão, para poder consolidar o seu império no final da II Guerra Mundial, num monstruoso crime contra a Humanidade. Foram bombas e soldados dos EUA que mataram muito mais de um milhão de vietnamitas e 600.000 cambojanos e foi a CIA que esteve por trás do massacre de pelo menos um milhão de pessoas quando Sukarno foi derrubado na Indonésia em 1965. O próprio dia 11 de Setembro está bem gravado nos corações do povo do Chile e do mundo por causa daquele revoltante momento em 1973 em que a CIA derrubou Salvador Allende, aplaudindo enquanto Pinochet assassinava 30.000 opositores naquele pequeno país. O Governo dos EUA também apoiou os militares e os esquadrões da morte que mutilaram e fuzilaram 150.000 pessoas durante as últimas 4 décadas na Guatemala e forneceu apoio aos infames Contras na vizinha Nicarágua e aos esquadrões da morte do regime de El Salvador durante os anos 80. Durante a Guerra do Golfo foram os aviões dos EUA que fizeram chover a "morte vinda dos céus" sobre dezenas de milhares - talvez mesmo 200.000 - iraquianos, incluindo soldados já rendidos. O bloqueio encabeçado pelos EUA, bem como a destruição sistemática e meticulosa da economia iraquiana causou a morte de pelo menos meio milhão de crianças, de acordo com as estatísticas da ONU. Israel sendo o bem alimentado cão de guarda dos EUA no Médio Oriente; os EUA forneceram armas e apoio a cada um e a todos os crimes sionistas desde a fundação do estado de Israel em terra de outros, até à actual ceifa mortal da juventude palestina e ao bombardeamento "inteligente" dos seus líderes políticos. Bush representa um país cuja polícia trava uma luta sem piedade contra as suas próprias minorias nacionais, que manda helicópteros patrulhar os seus próprios guetos e que bombardeia o seu próprio povo (caso da comuna do Move em Filadélfia em 1985, matando 11 homens, mulheres e crianças). Tem 3.500 pessoas nos corredores da morte, incluindo alguns dos mais conhecidos presos políticos do mundo. A "democracia" dos EUA respondeu aos acontecimentos de 11 de Setembro propondo leis que permitem a detenção por tempo indeterminado de qualquer não-cidadão. Nesse país, os médicos que fazem abortos são assassinados e os mais fundamentalistas dos fanáticos religiosos são escutados pelo presidente.

Porque não nos dizem Bush, Blair, Chirac, Schroeder, Berlusconi e o resto deles que essa guerra não será pela justiça mas pelo império? O que se passa não é um "confronto de civilizações" mas os esforços destes bárbaros governantes para consolidar o seu controlo sob a bandeira da "civilização ocidental" e a luta entre eles próprios pelas regiões de importância estratégica e pela dominação do mundo. Outras potências imperialistas apoiam os preparativos de guerra dos EUA, ao mesmo tempo que apenas sussurram contra a mão pesada dos EUA contra os seus próprios cúmplices - estes são os dois lados do mesmo esforço para proteger o seu lugar à mesa do banquete imperialista, onde o trabalho e as vidas dos seres humanos são o primeiro, último e único prato, servido acompanhado pelos recursos naturais do planeta.

Na última década, as tendências básicas do sistema imperialista mundial intensificaram-se sob o nome de globalização. As potências estão a explorar cada canto do mundo ainda mais intensamente que nunca - e isso impôs em todo o lado uma violência insuportável, tanto através da força das armas como da destruição da vida quotidiana por causa do lucro. Se isso trouxe alguma prosperidade durante algum tempo a algumas pessoas nos países imperialistas, as vidas decentes e a felicidade que prometeram à sua própria classe média em troca do silêncio estão a mostrar ser uma ilusão. Nos países oprimidos, foram oferecidos equipamentos electrónicos e um cheirinho do pior da cultura ocidental a uma minoria na esperança de comprar o seu consentimento, enquanto as massas de operários e camponeses foram conduzidas a ainda mais miséria e a dignidade das nações foi espezinhada em poeira.

Os gigantescos crimes dos EUA e o seu fanfarrão domínio do mundo fizeram com que um grande golpe dado no coração do seu império tivesse agradado a muita gente em todo o mundo. Mas os que se querem libertar dos calcanhares das botas cardadas dos EUA e não apenas obter uma fugaz e degradante vingança, devem olhar para os momentos da história em que massas populares foram capazes de enfrentar e derrotar os mais poderosos inimigos. O mais importante a reter hoje é a heróica luta do povo vietnamita, que derrotou o exército americano no contexto de um levantamento revolucionário mundial cujo centro foi a China maoista, que agitou não apenas todas as potências coloniais e imperiais, como também viu um activismo militante sem precedentes e movimentos revolucionários de massas nos próprios países ricos, incluindo os EUA. Esta é a lição histórica de que hoje poucos se atrevem a falar. Mas não é apenas História. Guerras populares dirigidas por maoistas - guerras que se baseiam no povo e que incorporam toda uma nova forma de sociedade que visam fazer nascer, uma sociedade sem relações de opressão - estão a ser levadas a cabo actualmente no Peru, no Nepal e noutros países.

Embora o apoio ao ataque aos povos dos países oprimidos seja um dos objectivos da actual febre guerreira, o outro é a suspensão generalizada de muitos direitos e liberdades nas próprias democracias imperialistas, em conjunto com um alargado esmagamento de toda a oposição ao imperialismo nos países governados pelos seus lacaios - tudo sob a capa da supressão do terrorismo. Em alguns países as autoridades declaram que já não tolerarão o tipo de oposição que até agora têm sido incapazes de silenciar por meios mais indirectos. Ataques cobardes a muçulmanos e estrangeiros estão a ser lançados nos EUA e na Europa num esforço de criação de um clima de medo generalizado.

Que a resistência à anunciada "cruzada" avance integrada na batalha mundial para eliminar o imperialismo da face da Terra, ou que a luta seja desviada pelos reaccionários, só depende de qual o programa e qual a perspectiva que conduzirão a luta do povo. Não podemos permitir que seja apresentada ao povo a falsa escolha entre a exploração e a opressão na sua moderna forma imperialista, sob um embrulho de "democracia" tipo ocidental, ou o regresso impossível à opressiva forma medieval de existência sob a bandeira do Islão ou de outros movimentos religiosos. Nas duas últimas décadas, a História mostrou vezes sem conta, no Irão, na Argélia, no próprio Afeganistão e noutros locais, que os movimentos islâmicos nunca libertarão o povo nem derrotarão o imperialismo. Pelo contrário, a História mostrou que apenas quando as massas têm o poder político nas suas próprias mãos, em estados socialistas ou em repúblicas de nova democracia dirigidas pela classe operária e pela sua vanguarda comunista, que é verdadeiramente possível construir um novo futuro.

A necessidade de uma perspectiva comunista de uma sociedade mundial baseada na associação livre e voluntária de todos os seres humanos - não mais divididos em classes e em países oprimidos e opressores, não mais marcados pela subjugação das mulheres aos homens - é mais gritante que nunca. Ao mesmo tempo que nos unimos na luta com as massas que ainda abraçam outras ideologias, a nossa perspectiva científica fornece a espinha dorsal para permanecermos firmes num mundo em tumulto e dá-nos força e coragem para reunirmos o povo a enfrentar as actuais tribulações, a estar à altura da ocasião.

O Comité do Movimento Revolucionário Internacionalista, 24 de Setembro de 2001

(Para mais informações escreva para: BCM RIM / London WC1N 3XX / UK ou contacte uma organização participante no MRI)