Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 5 de Janeiro de 2004, aworldtowinns.co.uk

Seguem-se excertos de um comunicado do Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista) de 27 de Dezembro, o dia seguinte ao terramoto que destruiu a cidade de Bam, no sudeste do Irão.

Não foi apenas o terramoto que matou os habitantes de Bam;
mãos humanas também estiveram envolvidas

A dolorosa perda de dezenas de milhares de vidas em Bam deixou as massas do Irão numa profunda tristeza. Gente de todos os cantos do país, independentemente do regime islâmico e dos seus corruptos órgãos estatais, prontamente se decidiu a organizar a ajuda à área atingida. O mentiroso Presidente Khatami nem sequer se atreveu a pôr o pé em Bam (até três dias depois do terramoto, depois de terem sido difundidas críticas). O “Líder”, Aiatola Khamenei, que aproveita todas as oportunidades de abrir a sua grande boca para falar sobre o chamado “poder e vontade da comunidade islâmica”, rastejou como um rato para um buraco, porque os últimos pedaços microscópicos que ainda restavam da reputação social e espiritual do seu Islão ficaram enterrados sob os destroços. O ex-Presidente Rafsanjani (o homem mais poderoso da República Islâmica) nem sequer mostrou preocupação em lá ir contar o número dos seus escravos mortalmente esmagados. Mas, durante esse horrível desastre, o povo juntou-se e trouxe à liça o seu desejo de um tipo de sociedade em que pudesse cooperar e trabalhar em conjunto para reduzir o sofrimento de cada um e lidar colectivamente com tais situações.

Morreram ou ficaram feridos cerca de 70 por cento dos 200 mil habitantes de Bam. Já lá não existe uma cidade chamada Bam. Já não há hospitais nem enfermeiros. Já não há avenidas nem escolas. Os estudantes ficaram esmagados sob as vigas de metal. Porquê?

Estamos no século XXI e os terramotos já não são nenhum mistério. Os seres humanos adquiriram conhecimentos sobre este fenómeno e conseguem limitar os seus poderes destrutivos. Apenas quatro dias antes do terramoto de Bam, um terramoto com a mesma potência (6,5 na escala de Richter) abalou o estado da Califórnia nos EUA. Mas resultou em apenas três mortos. Uma diferença verdadeiramente chocante. Porquê?

Os terramotos no Irão não são uma surpresa. O Irão é um dos países do mundo mais propensos a terramotos. Na parte oriental do Irão, há terramotos regularmente mais ou menos a cada dúzia de anos. A falha telúrica está identificada e são bem conhecidas quais as cidades em perigo. Apesar disso, as pessoas continuam a morar em casas inseguras. A ajuda básica em caso de desastre, como medicamentos e tendas, não existe. As autoridades não fizeram nenhum esforço para educar as pessoas sobre como se prepararem para lidar com terramotos. Pelo contrário, encorajaram as pessoas a “elevar as suas mãos para deus e rezar”. Porquê, porquê e porquê?

Os habitantes de Bam não foram mortos apenas pelo terramoto. Mãos humanas prepararam as condições para as suas mortes. Este crime deve ser exposto ao mundo inteiro...

Bam não é uma cidade desconhecida e os estadistas da República Islâmica certamente que lhe dedicaram a sua atenção. A atenção e a generosidade desses saqueadores certamente que se estenderam a Bam. O clã da sanguessuga Rafsanjani transformou Bam num centro das suas “actividades” agrícolas e industriais. O investimento local e estrangeiro em Bam atraiu muita gente à procura de trabalho, vindas das cidades meridionais e do interior do Irão. Rafsanjani estabeleceu aqui uma “zona agrícola especial” e uma fábrica de assentos para carros Daewoo. (A companhia coreana Daewoo é o principal parceiro financeiro estrangeiro da família Rafsanjani). Os Rafsanjanis até deram a devida atenção aos locais históricos que viam como uma fonte de rendimentos para a indústria turística. A construção de hotéis e de um aeroporto tinham feito de Bam um “modelo de uma cidade em desenvolvimento”.

Mas o papel dos trabalhadores e camponeses que enchem os grandes e longos bolsos do clã Rafsanjani não significa que essas sanguessugas estejam preocupadas com o facto de Bam estar assente no centro de uma zona de terramotos. Pelo contrário, a invasão de Bam por capitalistas sanguessugas fez disparar os preços da terra. A escassez de habitação significou que as pessoas comuns não tiveram outra escolha senão acrescentar andares por cima das suas tradicionais casas de terra batida. No Irão, os construtores de escritórios e torres de apartamentos monopolizam o cimento, e assim as pessoas tiveram que construir as suas paredes com tijolos locais de terra batida e os seus telhados com pesadas vigas de metal potencialmente assassinas. E esta é uma cidade que se situa sobre uma falha telúrica!

Durante este desastre, uma vez mais ficou claro como a água que as vidas das pessoas não valem nada para os governantes deste país. Eles apenas estão preocupados em reforçar e preservar o seu regime de opressão e exploração... Os governantes reaccionários fazem gastos assombrosos em equipamento militar e policial, constroem prisões e ampliam o seu aparelho de agentes secretos e informadores utilizados contra o povo, tudo para salvaguardar o seu próprio domínio corrupto... Mas quando se trata das vidas dos trabalhadores e dos camponeses, nunca abrem os cordões às suas bolsas.

Os habitantes de Bam não morreram por causa da particularidade geográfica da sua cidade. De facto, eles foram assassinados pelo poder político reaccionário, pelo sistema económico explorador e pela cobiça das classes governantes, enquanto a Natureza apenas deu uma mão a esses reaccionários.

Ninguém acreditou nas lágrimas de crocodilo de Khatami... O reaccionário “Líder” (Khamenei) pediu “orações” para as vítimas e as suas famílias. Os criminosos mulás chamaram ao terramoto um “teste divino”... O estúpido presidente enviou tão tarde para o local a sua minúscula operação de salvamento, que esta foi inútil para salvar pessoas. Nunca devemos esquecer que quando este regime quis reprimir o povo do Curdistão, os seus helicópteros e aviões encheram imediatamente os céus. Helicópteros voaram numa questão de minutos das suas bases para metralharem as insurreições das massas em Eslamshahr, Ghazvin e Mashad...

A única verdadeira ajuda e salvamento e os esforços de recuperação apenas podem vir do próprio povo. O povo dos quatro cantos do país e de todos os estratos, extremamente desconfiado do regime da República Islâmica, tomou para si próprio a tarefa de mobilizar e organizar os esforços de ajuda. Eles estão claramente atentos ao facto que não podem deixar as gentes de Bam às mãos desses criminosos. Na história recente do Irão, o melhor trabalho de ajuda durante desastres naturais veio sempre da organização espontânea e independente das próprias massas do povo. Tanto sob o regime do Xá como do regime islâmico, os governantes sabotaram os esforços populares de entreajuda, porque os reaccionários sempre temeram que, no calor da acção colectiva face aos desastres, as pessoas teçam fortes laços de solidariedade e amizade. Nestas condições, os militantes estudantis avançados devem avançar, usar a rede estudantil de âmbito nacional para ajudar a edificar instituições e estruturas completamente independentes do regime e dos seus organismos (incluindo as Associações Islâmicas de Estudantes) para auxiliar as pessoas das áreas afectadas...

O povo do Irão não é o único no mundo a sofrer este tipo de acontecimentos. Todos os anos, centenas de milhar de massas labutando ao redor do mundo - especialmente nos países recuados dominados pelo imperialismo - tornam-se vítimas de terramotos, inundações e fome. Não há dúvida que os seres humanos travam uma espécie de batalha contínua com a Natureza. Mas numa sociedade de classes, os principais obstáculos dessa batalha são as classes exploradoras e os seus estados. A dimensão da perda de vidas humanas e de destruição material durante esses desastres naturais está directamente relacionada com o facto de que uma minoria de pessoas, globalmente e localmente nesses países, monopoliza os recursos, os frutos da ciência e a riqueza material produzida pelo povo...

Por outras palavras, mesmo para lidar com estes desastres e limitar a dimensão da sua destruição, nós precisamos de fazer a Revolução. O povo precisa de derrubar os seus inimigos de classe de modo a emancipar a sua energia, o seu poder criativo, as suas capacidades e o seu talento das garras dos exploradores, e poder servir os seus próprios interesses. O povo pode limitar o poder destrutivo dos terramotos, pode derrotar a fome e conter as inundações, se tomar o poder político e edificar o seu próprio poder, um regime que represente a vontade e os interesses das massas populares.