Violentas bastonadas policiais contra amigos do Grémio Lisbonense

Por C. Silva

No passado dia 8 de Fevereiro, a polícia investiu à bastonada contra os sócios e amigos do Grémio Lisbonense que tentavam defender as instalações dessa associação, perto do Rossio, em Lisboa. Este episódio foi mais um dos muitos episódios de violência policial que se têm verificado nos últimos tempos em Portugal.

O Grémio Lisbonense é uma das mais antigas associações do país e estava instalado há mais de 150 anos nessa sua sede histórica na baixa pombalina, com varandas voltadas para o Rossio. A localização privilegiada dessa sede tornou-a há muito um alvo da ganância dos proprietários e da cobiça dos especuladores imobiliários. Falava-se ultimamente em um grande hotel ou uma grande cadeia de vestuário aí se instalarem. A baixa lisboeta tem vindo a ser alvo dos predadores imobiliários que a têm esvaziado dos seus habitantes, expulsos para a periferia, como muitos outros habitantes da cidade que não têm possibilidade de pagar os escandalosos preços da habitação em Lisboa.

Usando como pretexto umas obras realizadas nessas instalações por uma anterior Direcção do Grémio, há vários anos que os proprietários desencadearam uma acção judicial de despejo, que até agora esteve suspensa por uma providência cautelar interposta pelo Grémio. A ordem de despejo chegou na 6ª feira passada.

Há muito que o Grémio se havia tornado num ponto de encontro de muitos jovens da cidade, portugueses e estrangeiros. Mas foi nos últimos meses que o Grémio passou a fervilhar de actividade, quando um grande movimento de solidariedade envolveu muitos lisboetas, indignados com o espectro de o perderem. Um activo grupo de activistas assumiu a coordenação das iniciativas e o Grémio passou a ser um centro de actividades musicais, de dança, encontros e debates, exposições, cursos, ateliês e muitas outras. Todas as noites se registava uma grande movimentação nas suas belas salas pombalinas. O número de associados aumentava diariamente, com muita gente atraída pelo seu ambiente de alternativa social e cultural, numa localização central. Muita gente das artes e do espectáculo contribuiu para a divulgação da causa da defesa do Grémio e subscreveu o abaixo-assinado contra a sua desocupação.

Mas dia 8 chegaram os enviados dos proprietários, com o apoio da máquina judicial e policial e conseguiram entrar nas instalações. De imediato surgiu um movimento espontâneo de resposta, com mensagens electrónicas e de telemóvel a multiplicarem-se a grande velocidade, gerando uma grande concentração de centenas de pessoas junto à entrada do edifício, próximo do Arco da Bandeira, ao Rossio. Gritando "O Grémio é Nosso!", os sócios e amigos do Grémio tentaram defender as suas instalações e em resposta receberam uma violenta investida policial. A brutalidade da polícia ficou bem visível nas imagens mostradas nos canais televisivos. Bastonadas distribuídas indiscriminadamente atingiram dezenas de pessoas, muitas das quais deram entrada em hospitais. Da carga policial resultou também a prisão de uma pessoa que viria a ser novamente espancada na esquadra da polícia.

As instalações estão agora desocupadas e encerradas. Apesar da corajosa resistência dos seus defensores, não foi possível impedir a acção de despejo. No entanto, os activistas do Grémio tentam manter o seu programa de actividades, contando com a solidariedade de muitas outras colectividades e associações de Lisboa que disponibilizaram as suas instalações para a continuação dessas iniciativas.

Este episódio mostra bem o carácter essencialmente injusto da sociedade capitalista em que vivemos. À medida que se intensifica a crise económica, em que os abutres do grande capital, sobretudo do grande capital financeiro, aumentam os seus já fabulosos lucros, à custa do aumento da exploração de quem trabalha, aumentam também as medidas de repressão. A classe média empobrece, os salários diminuem, o desemprego aumenta. Eliminam-se investimentos que não geram grandes lucros imediatos, como os da cultura. Encurralando quem está na base da pirâmide social, cada vez mais esmagada pelo peso da exploração, os nossos opressores sabem bem que isso gerará resistência, espontânea por agora, mas organizada mais tarde. Daí que aumentem os mecanismos de repressão.

Aumentam os orçamentos das forças de "segurança", aumentam os poderes de todo o aparelho do Estado e estamos a assistir a ensaios de futuras actividades repressivas. Se não respondermos agora, será muito mais difícil respondermos mais tarde, quando as investidas foram mais intensas. Se o poder sentir que pode fazer o que entender, terá força para avançar. Se for confrontado com resistência e derrotas, pensará duas vezes antes de avançar. É pois importante que nos unamos, que não deixemos que o grande capital leve avante todos os seus planos de exploração e repressão.

Alguns activistas do Grémio criaram o blogue BASTOUNADA para denunciar a situação e divulgar novas iniciativas.

ONDE HÁ REPRESSÃO, HÁ RESISTÊNCIA!
UNIDADE CONTRA O CAPITAL!

12 de Fevereiro de 2008

Outros sites e blogues que contém imagens da brutalidade policial: