Da edição n.º 416, de 12 de fevereiro de 2018, atualizada online a 16 de fevereiro de 2018, do jornal Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA, http://revcom.us/a/416/gun-violence-as-american-as-apple-pie-en.html (em inglês) ou http://revcom.us/a/417/violencia-armada-el-pan-de-todos-los-dias-en-estados-unidos-es.html (em castelhano).

Violência com armas: O pão nosso de cada dia nos Estados Unidos

All Played Out
All Played Out
(uma gravação de spoken word com palavras ditas por Bob Avakian e música de William Parker), Centeringmusic BMI, 2011. Disponível em inglês em soundcloud.com/allplayedout.

Nota dos editores norte-americanos: A 14 de fevereiro de 2018, foram assassinadas 17 pessoas na Escola Secundária Marjory Stoneman Douglas em Parkland, Florida, por um atirador que usou uma espingarda semiautomática. As vítimas foram estudantes e um professor, um treinador de futebol e um diretor desportivo. É horrendo ver as vidas destes jovens, e de outras pessoas, serem encurtadas desta maneira – isto não deveria estar a acontecer! Há um generalizado choque e indignação com mais um massacre nos EUA, incluindo uma raiva em relação a Trump e outros políticos, em grande parte centrada na necessidade do controlo das armas. Tendo em conta isto, republicamos esta carta de um leitor escrita logo após o massacre em San Bernardino, Califórnia, em dezembro de 2015. Como explica esta carta, há um sistema que é a fonte do problema, e não podemos confiar nesse sistema para o resolver. O que é necessário é um mundo radicalmente novo e melhor em que as pessoas não estejam a atirar violência umas às outras mas a conhecerem o mundo e a transformá-lo coletivamente, para benefício de toda a humanidade. Esse futuro é possível e o líder revolucionário Bob Avakian traçou o caminho. Apelamos a todas as pessoas que se estão a debater com as grandes questões levantadas por mais este recente massacre e por outros horrores que assolam o mundo atual a conhecerem a obra e a liderança de Bob Avakian em http://revcom.us/avakian/index.html (em inglês) ou http://revcom.us/avakian-es/index.html (em castelhano).

 

De um leitor:

Façam uma busca na internet sobre tiroteios em massa nos Estados Unidos e verão, imagem após imagem, pessoas de diferentes nacionalidades a apoiarem-se umas às outras, de olhos molhados com lágrimas pela perda de entes queridos e uma dolorosa perda de vidas. Os norte-americanos disparam uns contra os outros muito mais que em qualquer outro país “avançado”. Embora o recente e horrendo tiroteio em San Bernardino – que deixou 14 pessoas mortas e 21 feridas – também esteja a levantar grandes questões sobre a ascensão do fundamentalismo islâmico no mundo (quer ele tenha ou não representado um papel nisto, como motivação), isto está a dar lugar a que muitas pessoas se interroguem por que estes tiroteios em massa continuam a acontecer em solo norte-americano e por que há um tão elevado nível de violência com armas nos EUA.

Mas para realmente entendermos isto, não podemos olhar apenas para a questão das armas; temos de olhar mais profundamente para o caráter da sociedade que está a moldar as pessoas que estão a virar essas armas umas contra as outras.

Os massacres norte-americanos fundaram a sociedade norte-americana

A relação particular dos EUA com a violência no seu “território nacional” tem tudo a ver com a escravatura, o genocídio e o roubo de terras ao México. A ideia do “indivíduo norte-americano duro” ou do “self-made man” é construída sobre tudo isto – armada com a ideologia do “meu direito a prosperar acima de todos os outros” (e a lucrar com tudo sobre o qual isto assenta) e com o armamento que o apoia.

A mitologia norte-americana do pequeno fazendeiro individual que vence sozinho baseia-se de facto na riqueza criada pela escravização de pessoas negras e no genocídio e no ataque para roubar terras aos nativos norte-americanos.1 Isto não poderia ter acontecido sem que os homens brancos possuíssem e usassem armas numa escala massiva, ao mesmo tempo que usavam as armas deles uns contra os outros para resolverem disputas. Tudo isso foi religiosamente conservado na cultura e moldou o “ideal norte-americano da liberdade individual”. (Os filmes típicos do Oeste são uma celebração do norte-americano, leia-se, do individualismo do homem branco.)

Ao mesmo tempo, a violência supremacista branca tem-se baseado, e é alimentada, pelo poder governamental para conquistar terras e controlar os setores oprimidos do povo desde a fundação dos EUA até hoje: desde as milícias dos proprietários de escravos, aos caçadores de escravos e outros fugitivos que foram usados para esmagar as revoltas de escravos e capturar os que fugiam; aos homesteaders (os pequenos fazendeiros a quem o governo norte-americano atribuiu terras) do pós-guerra civil que participaram no massacre genocida dos povos nativos para controlarem as terras; aos linchamentos em massa e à violência contra o povo mexicano no Sudoeste dos EUA; à violência racista e aos ataques aos chineses mineiros e trabalhadores dos caminhos-de-ferro que representaram um papel chave na construção da infraestrutura dos EUA após a abolição da escravatura; às turbas de linchamento que tinham como objetivo aterrorizar os negros, contendo-os e subjugando-os à segregação imposta desde os finais dos anos 1800 aos anos 1960... Esta violência – e o direito a se cometer este tipo de violência – faz parte integral da supremacia branca masculina como grude ideológico deste sistema, e a fervilhante, e mesmo fanática, cultura da posse de armas está ligada a tudo isto.

A sociedade norte-americana está saturada numa violência brutal e desenfreada

Neste preciso momento: os Estados Unidos são uma sociedade que está saturada numa cultura de violência brutal e desenfreada que afeta e infeta tudo: da brutalidade e tortura que este sistema usa nas suas guerras no mundo; à cultura de estupro que é endémica na vida quotidiana, incluindo nas forças armadas e policiais deste sistema; à celebração dos linchamentos na história dos EUA e apoio às forças policiais do sistema que brutalizam e assassinam jovens negros, latino-americanos e outros. Do Afeganistão a Baltimore, de Ferguson à Palestina, dos navios de escravos às reservas nativas, esta violência – que tem como objetivo aterrorizar, aqui e em todo o mundo, pessoas inocentes que estão a tentar avançar nas vidas delas – isto SÃO os Estados Unidos.

Uma grande característica desta violência é a supremacia masculina e a tentativa violenta de controlar e dominar as mulheres. Um concentrado disto está no recente ataque a uma clínica de planeamento familiar no Colorado em que três pessoas foram assassinadas e nove ficaram feridas. O assassino foi, pelo menos em parte, inspirado pela diabolização do planeamento familiar feita pelos fascistas cristãos, a qual só tem a ver com uma coisa: a escravização da mulher através da retirada da capacidade das mulheres escolherem se e quando têm filhos. Há uma mentalidade de vingança contra as mulheres por se recusarem a ser controladas pelos seus parceiros ou ex-parceiros masculinos, em que os homens disparam contra uma mulher e os filhos dela com a ideia de que, “se eu não a posso ter, ninguém pode”. Ou a fúria contra as mulheres que se concentrou nos tiroteios de Elliot Rodger na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, em grande parte instigada por querer punir as mulheres por estas não quererem estar com ele, como se, por virtude de alguém ser homem, lhe fosse devida uma mulher – a qual, em tudo isto, nunca é vista como um ser humano pleno mas como algo a ser possuído e dominado. Isto também se vê na cultura masculina da pornografia ou em muitos videojogos que festejam e recompensam a violência reacionária, a vingança e a degradação.

Tudo isto acontece sobre a mais cruel consagração das relações capitalistas abertas e do individualismo solitário que isto promove – uma vez mais, entre todas as pessoas, quer elas estejam sentadas no topo deste sistema capitalista, possuindo ou não meios de produção – e, uma vez mais, coincide com o constante fortalecimento e afirmação de várias formas de privilégio (supremacia masculina, supremacia branca, nativismo, etc.). Esta é a cultura que é promovida e celebrada e a que é dado apoio oficial nos Estados Unidos – seja no Shark Tank na televisão, um programa sobre o empreendedorismo brutal, seja em grande parte do hip-hop que é promovido pelo poder, em que uma música celebra brutalmente a degradação das mulheres e a seguinte fala em ir atrás de dinheiro, abater todos os que se metam no caminho e usando armamento massivo para conseguir isso (o que é apenas papaguear as regras e a dinâmica gerais deste sistema).

Depois, há o desgaste global do tecido social: as “relações tradicionais” e as normas sociais estão a desfazer-se devido ao próprio funcionamento deste sistema, mesmo que estejam a ser violentamente impostas. Há grandes mudanças no mundo, uma crescente disparidade económica nos EUA, uma grande ansiedade sobre o futuro, e isto está a criar muita agitação, um suposto direito masculino branco frustrado e uma imensa quantidade de alienação. (Pensem apenas no desconcertante número de pessoas que se entorpecem com drogas só para passarem os dias.) Isto está a contribuir para muita da loucura, imprevisibilidade e volatilidade da nossa sociedade.

Tão dolorosos e horrendos quanto possam ser, estes tiroteios em massa – ainda que diferentes eventos tenham diferentes particularidades – resultam de tudo isto.

A luta interna no poder

A acrescentar à muita luta sobre o papel dos EUA a nível internacional e em particular sobre como lidarem com a ascensão do fundamentalismo islâmico (na qual não vou entrar nesta correspondência), tem aumentado a luta interna entre a burguesia sobre as armas e o controlo das armas – em particular na sequência do tiroteio em San Bernardino. O jornal New York Daily News (um jornal imperialista mais ligado à ideologia dominante) publicou na última semana várias capas a apelar ao controlo das armas, chegando mesmo a chamar terrorista ao dirigente da NRA (a Associação Norte-Americana de Espingardas). O jornal New York Times, uma das principais vozes da ala imperialista liberal da burguesia, publicou um editorial na sua primeira página a apelar ao controlo das armas. Publicar um editorial na primeira página é algo que o Times não fazia desde os anos 1920! Há grandes interrogações entre as forças dominantes – não sobre se este sistema se deve manter, mas sobre quais serão as normas de coesão deste sistema à medida que reforça o seu sistema imperialista de supremacia masculina e supremacia branca que luta por manter a sua posição de topo no mundo. Há muita coisa que se está a desfazer e eles estão a disputar-se em torno de como manterem tudo isto unido.

Seria importante pensar mais sobre por que os principais imperialistas sentem a necessidade e a liberdade de avançar para a ofensiva neste momento. Há uma questão fundamental de as pessoas estarem a começar a sentir a ilegitimidade de um sistema que não pode “manter-nos em segurança” quando isso é algo que os norte-americanos esperam de maneiras que a maioria das pessoas no mundo não espera. Depois, há a necessidade, da perspetiva dos principais imperialistas, de lançarem as forças fascistas. Os Democratas não têm uma base social que queiram armar da mesma maneira que os fascistas... portanto, como é que, da perspetiva deles, se mantém tudo isto unido? Estou aqui a pensar alto, mas acho que isto seria algo sobre o qual valeria a pena debater mais para se entender de uma maneira mais profunda o aguçamento e a volatilidade do terreno.

Qual é o caminho de saída?

Dito isto: o controlo das armas não é a solução. Não podemos, e não devemos, basear-nos na fonte do problema para o resolver. Este é um sistema que usa as suas armas nas mãos da polícia para assassinar pessoas nas ruas de uma maneira indiscriminada, em particular negros e latino-americanos. Este é um sistema que usa as suas armas e as suas bombas em todo o mundo para massacrar pessoas em hospitais e festas de casamento como doutrina de combate.2 E quando eles falam em “controlo” das armas – não estão a falar em acabar com isto tudo!

O que é necessário – e o que é possível – é uma profunda luta para criar uma sociedade onde sejam eliminados os destrutivos antagonismos sociais entre o povo e em que haja um etos de cooperação, de reconhecimento mútuo da humanidade das pessoas, uma abertura de espírito e uma curiosidade que procedam do mundo exterior; mas a ÚNICA maneira de chegar a uma tal sociedade é escavar as raízes da sociedade que nos dá as relações diárias de um “mundo cão” e do sistema de opressão e privilégio que requer as psiques distorcidas e desequilibradas a que isso dá origem, o individualismo tacanho e estreito e a consequente loucura e caos que andam à solta. Isto requer uma revolução e o comunismo, e um movimento que hoje promova, viva e lute por essas relações emancipadoras que, tanto quanto possa fazê-lo no momento atual, lute urgentemente pelo futuro.

 


1.  Lê Bob Avakian, Communism and Jeffersonian Democracy [O comunismo e a democracia jeffersoniana[ para conheceres uma poderosa dissecação da mentalidade “yeoman”, a mentalidade do fazendeiro individual que Thomas Jefferson defendeu ser o ideal norte-americano, um ideal que se baseava na escravatura e no genocídio, http://revcom.us/Comm_JeffDem/Jeffersonian_Democracy.html (em inglês) ou http://revcom.us/avakian-es/ba-comunismo-y-la-democracia-jeffersoniana.html (algumas passagens em castelhano).

2.  Isto tem contribuído para o crescimento geométrico do fundamentalismo islâmico. Para saber mais, ler “In the Wake of San Bernardino: NO Pogroms, Paranoia & Persecution! NO More Unjust Wars!” [“Na sequência das atrocidades em San Bernardino: Não aos pogroms, à paranoia e à perseguição! Nem mais uma guerra injusta!”], http://revcom.us/a/416/no-pogroms-paranoia-persecution-no-more-unjust-war-en.html (em inglês) ou http://revcom.us/a/416/a-raiz-de-la-atrocidad-en-san-bernardino-es.html (em castelhano).