Do jornal 24 Horas, Sábado, 1 de Junho de 2002

Robert King viveu como um escravo numa cadeia chamada Angola

Inocente passa metade da vida preso

Por Rute Coelho

Robert King passou 31 anos na prisão por um crime que não cometeu. Foi libertado em Fevereiro do ano passado, está a escrever uma biografia e anda a correr mundo com o seu testemunho de resistência.

Robert King, norte-americano, completou 60 anos na quinta-feira passada. Metade da sua vida foi passada na prisão, em condições deploráveis. Cumpriu 3l anos de cadeia por um crime que não cometeu, 29 deles em regime de solitária, encarcerado 23 horas por dia, numa das prisões mais abjectas dos Estados Unidos, chamada “Angola”, no estado do Louisiana.

Vai estar em Portugal até terça-feira, seguindo depois para a Holanda, onde prosseguirá o seu périplo europeu, contando a quem o quiser ouvir, o seu impressionante testemunho de resistência. Está também a escrever uma biografia.

Robert King nasceu em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, em New Orleans, no sul da América, onde o racismo era lei. Em 1970, Robert King estava casado, tinha um filho com quatro anos – que mais tarde acabou por morrer com um tumor cerebral – quando é preso durante uma investigação a um assalto à mão armada.

O facto de já ter cadastro e ainda por cima ser negro ditou a sua sorte. “A descrição que a vítima fez do autor do assalto era de uma pessoa que nada tinha a ver comigo”, afirmou ao “24 horas”. “Um advogado aconselhou-me a considerar-me culpado porque assim só apanhava 15 anos. Recusei. Acabei por ser condenado a 35 anos de prisão”.

“Fugi e 25 vieram comigo”

King foi colocado numa prisão de segurança máxima em New Orleans, a sua terra natal, onde ficaria a aguardar a transferência para a terrífica “Angola”, prisão do Louisiana onde a maioria dos presos eram negros e que é na realidade uma plantação – em tempos trabalhada por escravos oriundos na sua maioria de Angola.

“Fugi da prisão de New Orleans e 25 pessoas vieram comigo”, conta, soltando uma gargalhada. A liberdade durou poucas semanas. Foi apanhado e condenado a mais oito anos de prisão por ter tentado fugir. A pena já ia em 43 anos de cárcere.

Na cadeia, aderiu ao Partido dos Panteras Negras, para combater a opressão e lutar por presos que “são tratados como escravos”. Passou 29 anos na solitária. “Quando tinha uma visita, ia algemado nas mãos e nos pés”, conta. “Fiz muita meditação. Era como um desafio, tinha de sobreviver”.

E conseguiu. Em Fevereiro de 2001, Robert King foi libertado. A justiça americana rendeu-se: King não poderia ter cometido o assalto porque nem sequer estava no local, à hora do crime.

Soltem os prisioneiros

Robert King anda a fazer campanha pela libertação de dois outros “panteras negras”, Herman Wallace e Albert Woodfox, seus companheiros na prisão de New Orleans em “Angola”. Os dois homens já vão em mais de 30 anos de cativeiro. “As pessoas que lutaram por nós e leram os casos perceberam que fomos presos por motivos políticos”, disse King. Dois dos interessados no caso de Robert King são portugueses: o artista plástico Rigo, que nos últimos anos tem trabalhado nos Estados Unidos e o seu amigo Rui Zink, escritor, que custeou a viagem do activista norte-americano ao nosso país.