Prisões indianas:
Maoistas libertam-se em massa e levam a cabo protestos

Por N. Redol

No passado dia 16 de Dezembro, numa ousada acção, 303 presos de uma prisão nos arredores da cidade indiana de Dantewada, 40 dos quais dirigentes maoistas, conseguiram libertar-se dos seus algozes. Na altura, estavam na prisão 377 prisioneiros, todos presos políticos acusados de simpatia pela guerrilha maoista que, com esta acção, foram libertados na sua quase totalidade. A acção foi reivindicada pelo Comité da Área Especial de Bihar-Jharkhand-Chhattisgarh do Norte e pela Comissão Militar das Áreas Especiais do Partido Comunista da Índia (Maoista) e considerada uma importante vitória dos revolucionários indianos.

Segundo fontes policiais, à hora da refeição, e sem qualquer apoio do exterior, alguns presos conseguiram dominar os guardas de serviço e retirar-lhes as armas, passando a assumir o controlo das instalações, abrindo as portas da cadeia e libertando os restantes prisioneiros. Após uma troca de tiros que durou cerca de 15 a 20 minutos, de que resultaram alguns feridos, um total de 303 prisioneiros conseguiu escapar. Reforços policiais têm participado nas operações de busca que se seguiram à fuga.

A cidade de Dantewada situa-se no estado do Chhattisgarh, no leste da Índia, a sul da sua capital, Raipur. O estado do Chhattisgarh é um dos estados indianos onde tem estado mais activa a guerrilha do Partido Comunista da Índia (Maoista). Os maoistas têm levado a cabo outras acções de grande envergadura nesse estado. Entre as mais recentes, saliente-se uma batalha em Julho de que resultaram 24 soldados e polícias mortos e um ataque a um posto de segurança em Março de que resultaram 55 polícias mortos, a maior acção da guerrilha até agora.

Entretanto, diversas acções têm ocorrido noutras prisões no distrito de Patna, estado do Bihar. A 19 de Dezembro, mais de 200 presos maoistas na prisão de alta segurança Aadarsh Kara, em Beur, atacaram os guardas e assumiram o controlo de grande parte da prisão, pondo em fuga guardas e funcionários. Segundo a imprensa, os maoistas já tinham levado a cabo várias acções de protesto contra o governo dentro da prisão, tendo obtido o apoio de um grande número dos outros cerca de 2400 presos. Foram deslocados centenas de polícias para as imediações da prisão e diversas organizações populares mobilizaram-se para evitar um final sangrento do motim e pedir que sejam satisfeitas as reivindicações dos presos.

Na prisão de Jehanabad, com um total de 775 presos, mais de 300 maoistas iniciaram uma greve a 17 de Dezembro. Foi desta prisão que, numa espectacular acção em Novembro de 2005, durante as eleições locais, foram libertados cerca de 200 prisioneiros após uma intensa batalha de artilharia com a polícia que durou cerca de duas horas. Entre os presos estavam importantes dirigentes maoistas, incluindo Ajay Kanu.

Também há relatos de que os presos maoistas nas sobrelotadas prisões centrais de Gaya e Bhagalpur entraram em greve da fome em solidariedade com os seus camaradas da prisão de Beur.

A Guerra Popular maoista na Índia, que teve a sua origem numa insurreição camponesa na Índia oriental em 1967, tem crescido nos últimos anos nos estados do centro, leste e sul da de Índia, tendo-se expandido a metade dos 29 estados indianos. A guerrilha tem o controlo efectivo de algumas regiões dos estados de Jharkhand e Andhra Pradesh, bem como uma grande presença no estado do Bihar e nas zonas tribais dos estados de Chhattisgarh, Maharashtra, Bengala Ocidental e Orissa e foi recentemente considerada pelo primeiro-ministro indiano Manmohan Singh como a maior ameaça à segurança interna da Índia.

Um vídeo com as notícias do canal IBN sobre a fuga, incluindo imagens de arquivo da guerrilha, está disponível em: ibnlive.com/videos/54316/299-inmates-break-out-of-chhattisgarh-prison.html.

28 de Dezembro de 2007


(Fonte: Le Monde diplomatique, edição portuguesa, Dezembro de 2007)