Do jornal Público de 6 de Outubro de 2001:

Mas quem são realmente os nossos aliados no Afeganistão?

Por Robert Fisk

“A nova guerra da América”, é como lhe chamam na CNN. E claro, como de costume, perceberam tudo mal. Porque no nosso desejo de “levar à justiça” - é bom lembrarmo-nos dessas palavras nos dias que se avizinham - os criminosos que planearam os crimes contra a humanidade em Nova Iorque e Washington, estamos a contratar para trabalhar connosco alguns bem conhecidos violadores e assassinos.

Sim, é uma velha guerra, uma rotina cansativa que temos visto aplicada à volta do mundo inteiro nas últimas três décadas. No Vietname, os norte-americanos queriam evitar mais baixas, por isso rearmaram e voltaram a treinar o exército sul-vietnamita para funcionar como peões seus. No Sul do Líbano, os israelitas usaram rufiões das milícias libanesas para combater os palestinianos e o Hezbollah.

A Falange e o chamado Exército do Sul do Líbano deviam funcionar como os peões de Israel. Falharam, mas isso faz parte da natureza das guerras por procuração. No Kosovo, mantivemos os nossos bem armados soldados na NATO fora de perigo, enquanto os homens do Exército de Libertação do Kosovo (UÇK) funcionavam como os nossos peões.

E agora, sem corar, sem engolir em seco de embaraço, estamos prontos a contratar a chamada Aliança do Norte no Afeganistão. Os jornais norte-americanos andam a escrever - sem ponta de ironia - que também eles serão os nossos peões na nossa guerra para perseguir/levar à justiça/eliminar/erradicar/liquidar Osama bin Laden e os taliban.

Funcionários norte-americanos - que conhecem muito bem o cadastro de sangue e de rapina dos assassinos da Aliança - estão a sugerir de boa-fé que são estes os homens que nos ajudarão a levar a democracia ao Afeganistão e a correr do país com os taliban e os terroristas. Na verdade, estamos prontos a contratar um bando de terroristas - os nossos terroristas - para nos livrarmos de outro bando de terroristas. Pergunto: o que pensariam disto os mortos de Nova Iorque e Washington.

Mas, primeiro, vamos esclarecer umas coisas. As atrocidades de 11 de Setembro foram um crime contra a humanidade. Os homens malignos que planearam este assassínio em massa devem (repito: devem) ser levados à justiça. E se isso significar o fim dos taliban - com as suas amputações e execuções de mulheres e a sua “justiça” repressiva e obscurantista ao estilo saudita -, muito bem.

A Aliança do Norte, a confederação de senhores da guerra, patriotas, violadores e torcionários que controla uma pequena fatia do Afeganistão, não (repito: não) massacraram mais de sete mil civis inocentes nos Estados Unidos. Não, os assassinos entre eles fizeram os seus massacres em casa, no Afeganistão. Tal como os taliban.

Quando o World Trade Center se desmoronava em sangue e pó, o mundo lamentava o assassínio de Ahmed Shah Massoud, o corajoso e patriótico leão do Panshir, cuja liderança da Aliança do Norte era o único obstáculo ao controlo total dos taliban. Talvez ele tenha sido assassinado em antecipação da carnificina na América, para enfraquecer os potenciais aliados dos Estados Unidos na previsão de uma retaliação norte-americana. De qualquer forma, o seu pró-consulado permitia-nos esquecer os “gangs” que liderava.

Permitia-nos, por exemplo, ignorar Abdul Rashid Dostam, um dos mais poderosos “gangsters” da Aliança, cujos homens abriram caminho à força de saques e violações pelos subúrbios de Cabul nos anos 90. Escolhiam raparigas para casamentos forçados, assassinavam-lhes as famílias, tudo sob o olhar de Massoud. Dostam tinha o hábito de mudar de lado, juntando-se aos taliban para receber subornos e permitindo-se participar em massacres ao lado dos “gangsters” wahabitas que formavam o governo do Afeganistão, para regressar semanas depois à Aliança.

E depois há Rasoul Sayaff, um pachtun que inicialmente liderava a União Islâmica para a Liberdade do Afeganistão, mas cujos homens torturaram famílias xiitas e usavam as suas mulheres como escravas sexuais numa série de abusos de direitos humanos cometidos entre 1992 e 1996. Sim, é verdade que ele é apenas um entre os 15 líderes da Aliança, mas a população aterrorizada de Cabul está gelada até aos ossos pelo pensamento de que estes criminosos estão entre os novos peões da América.

Instados pelos norte-americanos, os rapazes da Aliança têm estado a encontrar-se com o velho e doente ex-rei Mohamed Zahir Shah, cuja afirmação de que não tem interesse algum na monarquia é certamente respeitável - mas cujo ambicioso neto pode ter outros planos para o Afeganistão.

Dizem-nos que uma “loya jirga” (assembleia) reunirá todos os grupos tribais para eleger um governo de transição, após a formação de um Conselho Supremo para a Unidade Nacional do Afeganistão. E o velho rei será exibido como um símbolo da unidade nacional, uma memória dos bons velhos tempos antes do colapso da democracia e de o comunismo ter destruído o país. E teremos de esquecer que o rei Zahir Shah - embora pessoalmente amável, e um santo em comparação com os taliban - não foi um democrata por aí além.

Do que o Afeganistão precisa é de uma força internacional - e não de um grupo de “gangs” étnicos manchados de sangue - para restabelecer algum tipo de ordem. Não tem de ser uma força da ONU, mas pode ter soldados ocidentais e deve ser apoiada por nações muçulmanas vizinhas - mas, por amor de Deus, não sauditas - e ser capaz de reconstruir estradas, assegurar a distribuição de alimentos e restabelecer as telecomunicações.

Ainda há académicos e funcionários públicos educados no Afeganistão que podem ajudar a restabelecer a infra-estrutura do Governo. Neste contexto, o velho rei pode ser apenas um símbolo temporário de unidade, antes de poder ser criado um governo genuinamente inter-étnico.

Mas não é isso que estamos a planear. Mais de sete mil inocentes foram assassinados nos Estados Unidos e os dois milhões de afegãos que foram mortos desde 1980 não valem propriamente zero ao lado deles. Estando ou não a enviar ajuda humanitária, estamos a despejar mais armas para esta terra esfomeada, para armar um bando de “gangsters”, na esperança de que destruam os taliban e nos deixem deitar a mão, de borla, a Bin Laden.

Sinto em relação a tudo isto uma premonição negra. A Aliança do Norte trabalhará para nós. Morrerá por nós. E, enquanto estiverem a fazer isso, tentaremos dividir os taliban e chegar a um acordo com os seus elementos menos assassinos, oferecendo-lhes um lugar num futuro governo, ao lado dos seus inimigos da Aliança. Os outros taliban - os tipos que não aceitarem os xelins da rainha ou os dólares de Bush - hão-de estar postados nas montanhas a disparar sobre os nossos homens e sobre os nossos aviões e a ameaçar mais ataques ao Ocidente, com ou sem Bin Laden.

E a certa altura - supondo sempre que instalámos em Cabul um governo fantoche de que gostamos -, a Aliança desmoronar-se-á e voltar-se-á contra os seus inimigos étnicos ou, se ainda andarmos por lá, contra nós. Porque a Aliança sabe que não lhes damos dinheiro e armas por amarmos o Afeganistão, ou porque queremos levar a paz àquela terra, ou por estarmos particularmente interessados em estabelecer a democracia na Ásia do Sudoeste. O Ocidente está a mostrar generosidade porque quer destruir os inimigos da América.

Lembrem-se só do que aconteceu em 1980, quando apoiámos os corajosos e cruéis mujahedines contra a União Soviética. Demos-lhes dinheiro e armas e prometemos-lhes apoio político logo que os russos se fossem embora. Falou-se muito, lembro-me, de “loya jirgas”, e até houve uma proposta para levar de volta ao Afeganistão o velho rei. E é precisamente isso que estamos a oferecer de novo.

E, ouso perguntar, quantos Bin Ladens estão a servir agora entre os nossos novos e disponíveis peões?

É, realmente, a “nova guerra” da América.

Exclusivo PÚBLICO/“The Independent”
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