O seguinte artigo foi publicado na edição online do jornal Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (a 4 de maio de 2020 em inglês em revcom.us/a/646/from-vise-grip-to-death-grip-en.html e a 7 de maio de 2020 em castelhano em revcom.us/a/646/de-apreton-de-clavijas-a-apreton-de-muerte-es.html).

De aperto com grampos a aperto de morte

A dominação imperialista, a covid-19
e o abandono dos pobres do mundo

Por Raymond Lotta

À medida que a pandemia da covid-19 se ia espalhando por todo o mundo, a economia global contraía-se. À medida que o sofrimento e as mortes causadas pelo vírus aumentavam em todo o planeta, o sistema imperialista mundial, e em particular o imperialismo norte-americano, respondeu como sempre fez: agindo para manter o funcionamento rentável e os interesses do império... com um efeito ainda mais horrendo, especialmente nos países oprimidos.

Quatro exemplos de diferentes pontos do “sul global” onde vive e trabalha a grande maioria da humanidade oprimida:

Exemplo n.º 1.
O embaixador norte-americano faz um ultimato ao governo mexicano: ou as fábricas geridas por empresas manufatureiras norte-americanas se mantêm abertas ou nós levamos os nossos empregos para outro lado.

Perto da fronteira dos Estados Unidos com o México, as fábricas de propriedade ou de subcontratação norte-americana empregam centenas de milhares de trabalhadores mexicanos. Produzem computadores, aviões e componentes para automóveis, televisores e outros aparelhos elétricos, na sua esmagadora maioria para o mercado norte-americano. Os salários dos trabalhadores são em média um nono dos salários na indústria manufatureira nos Estados Unidos; e as proteções laborais e ambientais são mínimas.

Com surtos de coronavírus a irromperem nessas e outras fábricas, com os trabalhadores a ficar doentes e a morrer no trabalho e com escassos testes ao vírus, a Secretaria da Saúde do México ordenou o encerramento de várias fábricas. Foi uma elementar medida de segurança. Mas para os imperialistas norte-americanos isso foi um intolerável ato criminoso. Como relatou o jornal norte-americano New York Times, não foi por essas fábricas estarem a produzir bens ou serviços essenciais para o bem-estar da população mexicana. Uma vez mais, a maior parte da produção é exportada. Mas o governo norte-americano considerou essa produção “essencial”... para os Estados Unidos! Reparem: os televisores, as canetas, os motores de aviões para uma indústria aeronáutica norte-americana que está a reduzir severamente as suas operações?

Um pequeno segredo sórdido: a rentabilidade das cadeias imperialistas de abastecimento* depende do contínuo zumbido das linhas globais de montagem... as capacidades estratégicas da máquina de morte das forças armadas e das forças de segurança dos Estados Unidos requerem um influxo garantido de componentes... e a força competitiva do capital norte-americano depende de uma produção fiável, eficiente e de baixo custo — e isto é ainda mais verdade com a economia da China a recomeçar a todo o vapor, o que dá à China imperialista uma certa vantagem competitiva numa economia imperialista mundial duramente atingida.

E daí esta ameaça do embaixador norte-americano em resposta às preocupações declaradas pelo governo mexicano sobre o facto de a covid-19 se estar a propagar entre os trabalhadores dessas fábricas: “Vocês deixarão de ter ‘trabalhadores’ se todas as empresas encerrarem e forem deslocadas para outro lugar.” Por outras palavras, ou vocês (o México) reabrem, ou nós (os Estados Unidos com as suas empresas transnacionais) podemos simplesmente içar a âncora e deixar a vossa economia numa cratera ainda maior. O que, de facto, faz parte da lógica operacional e da extorsão das cadeias imperialistas de abastecimento. As fábricas mexicanas continuaram a funcionar.

O New York Times descreveu este ultimato como um exemplo da “relação desigual” entre os Estados Unidos e o México. Nós podemos ser mais precisos: um brutal neocolonialismo. E mantenham em mente o seguinte facto: a grande maioria dos infetados com covid-19 no México são trabalhadores fabris.1

Exemplo n.º 2.
A moda rápida, as fábricas de exploração extrema e a covid-19 no Bangladesh.

Cerca de 4,1 milhões de trabalhadores, 85% dos quais mulheres, vivem e trabalham em condições sobrelotadas na indústria de vestuário do Bangladesh. Produzem camisetas, vestidos e calças para empresas como a Walmart, a Target, a H&M e outros retalhistas ocidentais. Os acidentes industriais, os incêndios, os desmoronamentos de edifícios (mais de mil pessoas morreram num só desses colapsos em 2013) e os abusos sexuais são comuns nessas fábricas que reduzem os custos e drenam vidas. Tudo isto faz parte da “moda rápida sazonal” dos consumidores.2

A economia do Bangladesh foi deformada e distorcida para servir os interesses do imperialismo: 80% dos rendimentos das exportações derivam da indústria de vestuário; é o motor do “crescimento” económico do Bangladesh; e o país é altamente vulnerável a choques económicos provenientes dos países imperialistas (como a recessão de 2008-9). Uma espada paira sobre a indústria de vestuário: se essas fábricas de roupa não cumprirem os custos de produção estabelecidos ou se não os continuarem a reduzir, então os retalhistas ocidentais podem subcontratar outros fornecedores noutros países pobres. É esse o modus operandi das cadeias imperialistas de abastecimento em que competem umas com as outras. Reduzir os custos, aumentar a rentabilidade... e tudo isto baseia-se numa selvagem sobre-exploração. É essa a norma, e já o era antes do início da covid-19.

Com a pandemia a atingi-las duramente e com o encerramento das lojas de retalho nos Estados Unidos, as empresas ocidentais cancelaram abruptamente encomendas de milhares de milhões de dólares. Grande parte da indústria de vestuário e outras indústrias fecharam no Bangladesh. Milhões de trabalhadores, na sua maioria mulheres vindas das zonas rurais, foram enviados para casa. Quase todos os retalhistas mais conhecidos se recusaram a contribuir para os custos dos salários parciais dos trabalhadores dispensados, como estipula a lei do Bangladesh. Setenta por cento desses trabalhadores foram mandados para casa sem salário.3 Muitos deles, sem o saberem, levaram o coronavírus para as suas aldeias.

Mas os encerramentos foram temporários. Os grupos rivais de proprietários e de fábricas de vestuário no Camboja, na China, no Sri Lanca e no Vietname (operações que também fazem parte das cadeias ocidentais de abastecimento) tinham reaberto. E se as fábricas no Bangladesh não encontrassem as suas próprias formas de voltarem a abrir, as encomendas podiam estar permanentemente perdidas. E assim surgiu o espectro de centenas de milhares de trabalhadores do vestuário a se deslocarem para a frente e para trás entre as suas aldeias e Daca (a capital do Bangladesh onde está concentrada a indústria de vestuário) — muitos dos quais viajando a pé. E surgiu o horror, para citar a revista The Economist, dos trabalhadores “abandonados pelas fábricas de vestuário a sofrer nas favelas — agora convertidas nos epicentros do surto de coronavírus no Bangladesh”.

Já mencionei que num dos bairros mais pobres de Daca onde estão concentradas as fábricas de vestuário, 150 dos 160 testes à covid-19 feitos num só dia deram resultados positivos? Já mencionei que o Bangladesh tem uma população de 170 milhões, mas apenas cerca de mil camas de cuidados intensivos?4

Exemplo n.º 3.
As favelas criadas pelo imperialismo... como centros de transmissão da covid-19.

À medida que as curvas de novos casos de covid-19 se começam a achatar nos países ricos, as nações pobres constituem agora todos os países onde os casos de covid-19 estão a aumentar mais rapidamente.

Uma das principais razões é aquilo a que Bob Avakian chamou a “favelização do terceiro mundo”, uma expressão que se refere à vertiginosa urbanização dos países oprimidos e ao crescimento explosivo de cidades e favelas densamente povoadas e empobrecidas onde as doenças se propagam facilmente.

O que contribui para este crescimento sem precedentes de cidades e “megacidades” no terceiro mundo? Os investimentos imperialistas no agronegócio e nas matérias-primas e a apropriação forçada de terras nas zonas rurais que têm devastado a agricultura camponesa de subsistência. As zonas de produção imperialista de mercadorias de exportação para os países ricos que atraem migrantes para as cidades. O aquecimento global, esmagadoramente causado pela utilização de combustíveis fósseis pelos países ricos, que converteu em desertos as terras que antes eram cultivadas e pastoreadas. Estes e outros fatores têm empurrado e atraído dezenas de milhões de pessoas das zonas rurais para as cidades. Mas as economias dos países oprimidos estão tão distorcidas pelo imperialismo... que não conseguem absorver as pessoas em empregos regulares.

À medida que nos abrigamos, reflitamos sobre a seguinte passagem de um estudo académico: “Há 1200 milhões de pessoas a viver em favelas informais em todo o mundo, que por definição estão sobrelotadas e não têm acesso suficiente a água e saneamento — o que significa que qualquer tentativa de isolamento ou quarentena é impossível. Em algumas favelas, a densidade é tão elevada quanto 300 mil pessoas por quilómetro quadrado — em comparação, na cidade de Nova Iorque é 10 mil.”5 Isto suscita a questão: como se pratica o distanciamento social nestas terríveis condições?

Mas não é apenas a maneira como as pessoas são forçadas a viver nos países oprimidos. É também a maneira como são forçadas a trabalhar. A grande maioria das pessoas no “sul global” trabalha, quando encontram trabalho, na chamada “economia informal”. Trata-se de trabalhos irregulares que oferecem pouca segurança, com pagamento maioritariamente em dinheiro vivo, em empregos onde não è aplicada a legislação laboral nem têm benefícios sociais. A maioria dos que trabalham na economia informal não têm poupanças e precisam dos seus rendimentos diários ou semanais para alimentarem as famílias. Isto suscita a questão: acatam o confinamento e morrem à fome — ou desafiam-no para alimentarem as famílias?

E os governos dos países mais pobres têm orçamentos limitados para apoiar as populações que deixaram de trabalhar ou estão confinadas. Como observou um jornalista: “[É] o pior dos mundos — pobreza em massa devido aos encerramentos e doenças e mortes em massa devido à contínua propagação do vírus”.6 É esta a atual realidade para grande parte da população mundial.

Exemplo n.º 4.
De mal a pior... o estrangulamento imperialista da saúde pública nos países pobres.

Em 2019, 64 países, quase metade deles na África subsaariana, gastaram mais no serviço da dívida externa que em saúde.7 O serviço da dívida é o dinheiro gasto — em juros e na redução da dívida — durante um determinado período para pagar os empréstimos de bancos, governos e outras instituições de empréstimo imperialistas como o Fundo Monetário Internacional.**

Mais dinheiro para pagar a dívida do que para a saúde pública interna é uma estatística terrível. Isto tem significado que, devido aos cortes nos orçamentos, na formação e na investigação em saúde nos países pobres ao longo dos anos (como parte de satisfazerem as condições para obterem mais empréstimos das instituições financeiras imperialistas), muitos médicos formados em África têm emigrado para o Ocidente. Isto significa, nestes tempos de pandemia, que os recursos financeiros que poderiam ir para aliviar alguns aspectos desta crise são destinados a reembolsar os empréstimos que reforçam toda a estrutura da dominação imperialista dos países oprimidos: uma produção orientada para a exportação, a extração de matérias-primas e o desenvolvimento de infraestruturas que servem as necessidades da acumulação imperialista de lucro e mais lucro. E com as economias das nações pobres agora a passar por íngremes declínios, e quando são necessários mais milhares de milhões de dólares para lidar com esta crise de saúde, este reembolso da dívida irá tornar-se um peso ainda maior para esses países.

Consideremos os seguintes factos:

* África tem o maior fardo de doenças do mundo, mas apenas 3% dos trabalhadores de saúde do mundo.8

* No auge do surto de ébola na África ocidental, havia uma média de dois médicos por 100 mil habitantes na Serra Leoa e 45 por 100 mil na Nigéria (o país mais populoso de África) — em comparação com cerca de 250 médicos por 100 mil habitantes nos Estados Unidos atualmente.9

* Em meados de Abril deste ano, a Nigéria, com uma população de 200 milhões, tinha apenas 100 ventiladores!10

CONCLUSÃO

Tudo o que aqui foi descrito reflete o desequilíbrio do mundo: a concentração de forças produtivas e tecnologias avançadas nos países capitalistas-imperialistas. Todas as “condições preexistentes” da dominação imperialista no “sul global” — as fábricas de exploração extrema das cadeias de abastecimento, os empréstimos que reforçam o controlo sobre as economias dos países pobres e as distorcem, as favelas densamente povoadas de pobreza e doenças — têm sido um horror sem tréguas. Tudo isto está embutido e è basilar na natureza fundamental e no funcionamento do sistema capitalista-imperialista. Com a pandemia da covid-19, todo este sofrimento se intensificou e se irá intensificar ainda mais.

Como disse Bob Avakian: “[...] temos duas escolhas: ou viver com tudo isto — e condenar as gerações futuras ao mesmo, ou a coisas piores, se é que sequer tiverem um futuro — ou, fazer a revolução!”

Notas Explicativas

*.   Uma cadeia de abastecimento é uma rede integrada de unidades de produção, transporte e distribuição que constituem o processo de produção de um bem final, como os Nikes, os iPhones ou os carros. O capital imperialista estabelece cadeias globais de abastecimento para externalizar e subcontratar segmentos interligados da produção (a mineração de materiais, o fabrico de peças e componentes, a montagem) a fornecedores que pagam baixos salários nas nações oprimidas do “sul global” — e exerce uma pressão contínua sobre esses fornecedores para reduzirem os custos, o que significa uma ainda mais selvagem exploração dos trabalhadores.

**.  Para pagarem a dívida, os países pobres têm que gerar ganhos e receitas, tipicamente produzindo e vendendo bens no mercado mundial, o que lhes fornece as divisas, como o dólar, que são requeridas para os reembolsos. Mas, muitas vezes, quando a dívida não pode ser paga devido aos elevados juros e empréstimos de curto prazo, os países pobres têm que pedir e voltar a pedir emprestado para poderem pagar os empréstimos, o que leva a uma situação chamada “armadilha da dívida”.


1.  Natalie Kitroeff, “As Workers Fall Ill, U.S. Presses Mexico to Keep American-Owned Plants Open” [“À medida que os trabalhadores vão ficando doentes, os Estados Unidos pressionam o México para que mantenha abertas as fábricas norte-americanas”], New York Times, 30 de abril de 2020.

2.  Ver Dana Thomas, Fashionopolis: The Price of Fast Fashion and the Future of Clothes [Cidade da Moda: O Preço da Moda Rápida e o Futuro do Vestuário] (New York: Penguin, 2019).

3.  Elizabeth Paton, “‘Our Situation is Apocalyptic’: Bangladesh Garment Workers Face Ruin” [“‘A nossa situação é apocalíptica’: Os trabalhadores do vestuário no Bangladesh enfrentam a ruína”], New York Times, 31 de março de 2020.

4.  “Suffering from a stitch—Bangladesh cannot afford to close its garment factories” [“Sofrendo com a sutura — O Bangladesh não se pode dar ao luxo de fechar as suas fábricas de vestuário”], The Economist, 30 de abril de 2020.

5.  Asif Saleh e Richard A. Cash, “Masks and Handwashing vs. Physical Distancing: Do We Really Have Evidence-based Answers for Policymakers in Resource-limited Settings?” [“Máscaras e lavagem das mãos vs. distanciamento físico: Teremos realmente respostas baseadas em evidências a dar aos decisores em situações de recursos limitados?”], Center for Global Development [Centro para o Desenvolvimento Global], 3 de abril de 2020.

6.  Kelsey Piper, “The devastating consequences of coronavirus lockdowns in poor countries” [“As devastadoras consequências dos confinamentos do coronavírus nos países pobres”], Vox, 18 de abril de 2020.

7.  Jubilee Debt Campaign, “Sixty-four countries spend more on debt payments than health” [“Sessenta e quatro países gastam mais no pagamento da dívida que em cuidados de saúde”], 12 de abril de 2020.

8.  Robert Nash, et al., “Reflections on family medicine and primary healthcare in sub-Saharan Africa” [“Reflexões sobre a medicina familiar e os cuidados primários de saúde na África subsaariana”], BMG Global Health, 12 de maio de 2018.

9.  Statista Research Department, “Physician density in West African countries suffering from the 2014 Ebola outbreak” [“A densidade de médicos nos países da África ocidental que estão a sofrer com o surto do ébola de 2014”], 16 de agosto de 2014.

10.  Max Bearak e Danielle Paquette, “Africa’s most vulnerable countries have few ventilators—or none at all” [“Os países mais vulneráveis de África têm poucos ventiladores — ou mesmo nenhum”], Washington Post, 18 de abril de 2020.