Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 27 de Fevereiro de 2006, aworldtowinns.co.uk

Violência sectária no Iraque: Quem é responsável?

Os EUA têm uma grande parte da responsabilidade pela violência entre muçulmanos xiitas e sunitas que tem matado tanta gente no Iraque durante a última semana e, na realidade, há muitos meses.

As notícias indicam que a explosão que destruiu a mesquita xiita de cúpula dourada de Askariya em Samarra, a 22 de Fevereiro, foi levada a cabo por homens com uniformes do Ministério do Interior. Cerca de uma dúzia de pistoleiros ocupou a mesquita durante cerca de uma hora antes de a fazer explodir, enquanto no exterior outros homens cercavam o edifício e mantinham afastadas as pessoas da vizinhança, aparentemente pouco preocupados em serem interrompidos.

É amplamente conhecido que o Ministério do Interior do Iraque é controlado pelo Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, um partido xiita pró-EUA que é central na aliança de forças que os EUA reuniram para formar o governo iraquiano. Os esquadrões da morte do Ministério do Interior têm perseguido e assassinado os líderes sunitas e as suas famílias. No ano passado, veio-se a saber que na própria sede do Ministério do Interior se localizava um centro não oficial de tortura e morte. Isso foi recentemente confirmado pelo demissionário responsável da ONU para os direitos humanos, John Pace, que falou em cerca de 900 corpos por mês que apareciam na morgue de Bagdad com buracos de balas na cabeça ou furos de broca e marcas de queimaduras. “Muitas das mortes, disse ele, foram levadas a cabo por grupos muçulmanos xiitas do Ministério do Interior.” (Independent, Grã-Bretanha, 26 de Fevereiro).

As tropas dos EUA entregam frequentemente prisioneiros para serem levados para aí e vários responsáveis norte-americanos visitaram o local. Isto tem sido repetidamente documentado na imprensa estrangeira desde meados do ano passado. As alegações do governo Bush na última semana de que não sabia nada sobre isso não são credíveis.

É possível que a Mesquita Dourada tenha sido destruída por fanáticos fundamentalistas sunitas cada vez mais inflamados por um clima de limpeza étnica anti-sunita. Eles parecem já ter feito muito pior – por exemplo, o assassinato o ano passado dos trabalhadores xiitas de jorna que faziam fila à espera de trabalho. Também é possível que os comandos do Ministério do Interior ou outros homens ligados às forças governamentais xiitas aliadas dos EUA tenham destruído o santuário para provocar uma retaliação xiita contra os sunitas. Essa retaliação ocorreu de facto – cerca de 100 mesquitas sunitas foram atacadas, aparentemente não por multidões xiitas desorganizadas mas por milícias xiitas organizadas.

Também deve ser relembrado que o ano passado dois soldados encobertos das SAS britânicas foram apanhados vestidos com roupas locais na cidade predominantemente xiita de Baçorá, com um carro cheio de bombas e detonadores. Veículos blindados e tropas britânicas fizeram sair esses dois homens da prisão onde as autoridades locais os mantinham detidos, antes que eles pudessem ser julgados e que a verdade viesse à luz do dia. Além disso, o atentado contra o santuário xiita não poderia ter vindo numa melhor altura para os ocupantes. Uma onda de furor contra a ocupação varria o Iraque e muitas partes do mundo depois de um canal australiano de televisão ter divulgado novas fotografias de Abu Ghraib que o regime Bush tinha antes suprimido e que mostravam não só abusos mas também cadáveres. A divulgação de um vídeo trazido por soldados britânicos que os mostravam a espancar severamente manifestantes adolescentes presos em Baçorá tinha forçado as autoridades xiitas locais a tomar medidas antibritânicas. (Salientado por Dahr Jamail em dahrjamailiraq.com.)

Não sabemos quem destruiu o santuário, mas sabemos quem beneficiou: os ocupantes. Também sabemos o seguinte: independentemente de quem tenha destruído a Mesquita Dourada, a verdade é que os EUA ajudaram a montar o palco da actual violência sectária, mesmo que as consequências possam estar fora do seu controlo.

Em primeiro lugar, a política norte-americana foi a de se aliar e colocar no poder as forças mais retrógradas da sociedade iraquiana: os religiosos xiitas, sunitas e curdos, os líderes feudais, tribais e de clã, entre os quais Ali Sistani, o Grande Aiatola xiita que alinhou com Saddam Hussein da mesma forma que o faz agora com os norte-americanos.

Em segundo lugar, os EUA fomentaram a mais descarada “política de identidade” em que esses homens combatem pelos despojos políticos e económicos da ocupação em nome dos grupos étnicos que tentam controlar, contra os interesses das massas em geral e para benefício dos invasores e da sua abordagem clássica de dividir para reinar.

Além disso, os EUA assumiram deliberadamente uma atitude de retirar as mãos durante o recente banho de sangue, tal como o fez durante os longos meses em que ele fermentava. Hoje alegam que defender civis não é a sua missão. Contraste-se isso com o que fazem quando a sua ocupação é desafiada ou atacada em lugares como Falluja onde despejaram a morte sobre a população civil em geral. Não estão autorizados a proteger civis mas estão autorizados a matá-los – esta é uma descrição precisa das forças armadas norte-americanas.

O Pentágono anunciou que, entre os pogroms anti-sunitas, o seu objectivo era “manter um papel de aconselhar e apoiar as forças iraquianas de segurança”, como o descreveu o jornal The New York Times de 25 de Fevereiro. Como as chamadas “forças iraquianas de segurança”, tanto a polícia como o exército, são controladas por milícias xiitas que têm levado a cabo assassinatos étnicos, essa política fala por si mesmo. Durante a última semana, os comandantes norte-americanos recuaram e ficaram a assistir a iraquianos a matarem iraquianos como espectadores a desfrutar uma luta por um prémio.

Esta é a essência da “iraquização” da ocupação de Bush: encontrar parceiros locais que ajudem a reprimir as massas iraquianas, homens que fiquem com as suas próprias recompensas no seu decurso e que lutem uns com os outros para que nunca possam ameaçar o verdadeiro poder do país, os exércitos de ocupação.

Isto vem já do império otomano e dos britânicos que controlaram o Iraque através do favorecimento de uma elite sunita contra a maioria xiita e os curdos. A política dos EUA foi fazer o mesmo, mas ao contrário, favorecendo forças retrógradas entre os xiitas e os curdos contra uma insurreição que consideram largamente baseada nos sunitas – uma vez mais em detrimento das largas massas populares do país.

Contudo, devemos recordar que quando a cidade predominantemente sunita de Falluja resistiu aos invasores, a resistência foi apoiada por gente de todo o Iraque. Os habitantes dos bairros xiitas de Bagdad arriscaram as suas vidas levando camiões carregados de abastecimentos até à cidade sitiada e acolhendo os refugiados depois de os EUA a terem arrasado. Mesmo uma brigada do exército fantoche iraquiano, enviada para ajudar os norte-americanos, amotinou-se. Os jornalistas de língua árabe e os bloguistas iraquianos têm salientado muitos incidentes de sentimentos contra os ocupantes que uniram iraquianos de diferentes etnias durante a última semana.

Os EUA não criaram tudo aquilo de que o povo iraquiano precisa de se libertar através de uma revolução total. As relações económicas e sociais retrógradas são o que tornou a sociedade iraquiana vulnerável ao domínio imperialista. Mas nada de bom pode acontecer no Iraque antes de os EUA serem expulsos – e é essa luta e apenas essa luta que pode unir o povo iraquiano.