Da edição n.º 539, de 16 de abril de 2018, do jornal Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (http://revcom.us/a/539/michael-slate-interview-with-ann-wright-en.html, em inglês).

 

Michael Slate entrevista Ann Wright sobre a Flotilha Liberdade Para Gaza 2018:

“Vejo o que está a acontecer e a minha humanidade diz-me que tenho de falar”

O seguinte texto é extraído de uma entrevista à ativista pela paz Ann Wright, radiodifundida a 13 de março de 2018 no programa The Michael Slate Show da rádio KPFK Pacifica. A entrevista completa está disponível em inglês em themichaelslateshow.com. O The Michael Slate Show vai para o ar todas as sextas-feiras às 10h (hora da costa oeste dos EUA) na rádio KPFK 90.7 FM em Los Angeles. O programa pode ser ouvido aqui em streaming ao vivo e os programas arquivados podem ser ouvidos e descarregados aqui (em inglês).

O Revolution/Revolución/revcom.us reproduz algumas das entrevistas do The Michael Slate Show para familiarizar os nossos leitores com os pontos de vista de importantes figuras das artes, do teatro, da música e da literatura, da ciência, do desporto e da política. Os pontos de vista expressos por esses entrevistados são, claro, deles mesmos; e eles não são responsáveis pelos pontos de vista publicados noutros lugares do Revolution/Revolución/revcom.us.

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Michael Slate: Estou realmente contente por dar as boas-vindas ao programa a Ann Wright. Ann é uma coronel norte-americana aposentada do Exército e uma ex-diplomata norte-americana que se demitiu em 2003 do governo norte-americano em oposição à guerra norte-americana no Iraque. Ann é uma ativista pela paz profundamente empenhada e tornou-se ativa nas questões da solidariedade com os palestinos depois de visitar Gaza em 2009, após a guerra israelita de 27 dias contra Gaza. Ann navegou em três das mais de duas dúzias de Flotilhas Para Gaza, entre as quais no mais recente Barco das Mulheres de 2016 que levou ajuda humanitária e materiais de construção para desafiar o bloqueio de Israel a Gaza. Ann vai falar agora connosco sobre o que está a acontecer com a nova Flotilha Para Gaza programada para algures neste verão. Ann, bem-vinda ao programa.

Ann Wright: Obrigado, Michael! É um prazer estar contigo.

Michael Slate: Passemos ao tema. O que são a Coligação Flotilha Liberdade e a próxima Flotilha Para Gaza 2018?

Ann Wright: Bem, vamos ter uma flotilha. O ano passado tivemos dois barcos – um deles simplesmente deixou de funcionar quando estávamos a sair de Espanha, pelo que acabámos só com um barco, o Barco das Mulheres Para Gaza. Desta vez vamos ter quatro e dois deles vão partir da Escandinávia, porque parte disto é fazermos eventos educativos ao longo do caminho até Gaza, em toda a Europa, para que possamos continuar a falar às pessoas sobre as condições horrendas, horrendas em Gaza e para mobilizar apoio para os palestinos. No ano de 2020, a apenas dois anos de distância, a Organização Mundial de Saúde diz que Gaza vai ficar inabitável devido à falta de água, à falta de eletricidade, aos problemas de saneamento que lá estão a acontecer. O bloqueio a Gaza tem sido simplesmente horrendo para essas pessoas, para esses dois milhões de pessoas que lá vivem. Por isso, vamos navegar para educar as pessoas sobre o que está a acontecer e para fazer com que os palestinos em Gaza saibam que nós não os esquecemos, que vamos navegar em barcos e temos a esperança de que conseguiremos lá entrar.

Michael Slate: Ora parece que este ano estão a preparar um tipo maior de divulgação em que as pessoas e os barcos partirão de muitos locais diferentes a caminho de Gaza. E há mesmo um grupo de barcos que irá navegar em vários rios da Europa e depois sair e juntar-se a outras pessoas perto da costa de Gaza. Fala-nos sobre isso.

Ann Wright: Certo, esperamos ter quatro barcos. É o que estamos a planear, e dois deles vão descer de vias fluviais da Escandinávia e atravessar a Europa Central por vias fluviais, rios, canais. São barcos de baixo calado como seria de esperar, mas isso dá-nos realmente a oportunidade de chegar a mais pessoas que vivem ao longo das vias fluviais, dos rios e dos canais. E depois vamos ter dois barcos que irão à volta da Europa, entrando no Oceano Atlântico e depois fazendo visitas a portos atlânticos na Bélgica, na Holanda, em Portugal, em França, em Espanha, e então irão para o Mediterrâneo onde os dois barcos acabarão por se encontrar e depois se irão dirigir para Gaza.

Michael Slate: Podes dar às pessoas uma noção das horrendas condições que as pessoas em Gaza enfrentam? Muitas pessoas só sabem o que veem nos noticiários, mas de facto não sabem, por exemplo, que, como salientaste, vai ficar inabitável em menos de dois anos. As pessoas precisam realmente de conhecer a situação que os habitantes de Gaza enfrentam.

Ann Wright: Sim, desde 2007, já lá vão 11 anos, os israelitas impuseram um bloqueio, um bloqueio terrestre e marítimo à volta de Gaza – que tem apenas 40 km de comprimento e 8 km de largura. A sul faz fronteira com o Egito, mas as outras três fronteiras são totalmente controladas pelo estado de Israel como potência ocupante, pelo que são eles que têm autoridade para impedir tudo de lá entrar. Isto inclui comida. De facto, há vários anos, um dos ministros da saúde deles foi citado a dizer: “Pusemos as pessoas em Gaza em dieta. Só estamos a deixar entrar uma certa quantidade de calorias para cada pessoa e estamos a reduzir essa quantidade.” Neste momento, há menos de 4 horas de eletricidade por dia. Os israelitas controlam toda a eletricidade que entra em Gaza. Controlam toda a água. Controlam todos os telefones. Eles estão realmente a apertar Gaza.

E do lado naval, do lado do mar, do lado mediterrânico, há um porto na Cidade de Gaza e, há 40 anos, as pessoas em Gaza podiam exportar produtos e importar produtos, mas durante os últimos 40 anos os israelitas têm-se recusado a permitir que os barcos internacionais aí entrem. Embora em 2008 tenha havido dois pequenos barcos que aí entraram levando 44 pessoas internacionais e que depois retiraram alguns palestinos que precisavam de cuidados médicos e alguns estudantes que tinham bolsas de estudos e que não conseguiam sair. Mas, de facto, desde finais de 2008 que não houve nenhum navio internacional autorizado a entrar. A Marinha israelita tem sido muito brutal a parar esses barcos. Se te recordas, em 2010 eles pararam os nossos seis barcos. Eu estava num deles. O Mavi Marmara foi aquele onde eles usaram uma força letal e mataram nove pessoas, executaram-nos, civis desarmados num navio em águas internacionais, e eles executaram nove pessoas e mais tarde uma outra pessoa morreu devido aos ferimentos das balas. Eles feriram mais outras 50 pessoas no Mavi Marmara. Em cada um dos nossos barcos, que incluíam dois navios de carga, eles subiram a bordo violentamente. Atacaram as pessoas com tasers, espancaram-nas, fizeram explodir janelas com granadas de percussão. E depois todos nós fomos presos, levados contra a nossa vontade para um país para o qual nós não queríamos ir, Israel, e postos na prisão, e depois deportados com uma ordem de 10 anos de deportação pelo que agora nós não podemos entrar em Israel, e por isso não podemos entrar na Cisjordânia. Eles arrestam os barcos, eles roubam os barcos e isto é roubo em alto-mar. Isto é pirataria, o que eles têm feito é pirataria.

Apesar disso, nós navegamos para chamar a atenção para o que está a acontecer em Gaza. É esse o nosso objetivo. Não queremos que as pessoas esqueçam que eles (os habitantes de Gaza) estão a viver numa prisão ao ar livre!

Michael Slate: Há uma importante diferença entre o que está a acontecer este ano e o que tem acontecido no passado. Falemos sobre o tema deste ano, porque não é tanto que vocês estejam a tentar entrar em Gaza, mas sim que vocês de facto estão a fazer uma declaração com os barcos e com a maneira como eles lá chegam, e o que eles estão a destacar é a vida, ou o massacre do povo palestino em Gaza.

Ann Wright: Isso é verdade. Podes imaginar viver naquele pequeno lugar minúsculo? É um dos lugares mais densamente povoados do mundo. Dois milhões de pessoas a viver naquela pequena área minúscula, minúscula. Eles não têm nenhum verdadeiro controlo das vidas deles. Israel pode desligar sempre que quiser toda a eletricidade. Eles têm drones sobre Gaza 24 horas por dia. Sempre que quiserem, podem carregar num botão e fazer explodir um carro em que eles dizem que havia lá alguém que ia ameaçar o estado de Israel. Mas quando se olha para isto, os números de pessoas inocentes que são mortas em todos estes ataques são horrendos.

E neste momento, com a terceira sexta-feira da Grande Marcha Pelo Regresso em que os palestinos se aproximam de uma maneira não violenta de uma cerca que está instalada a 300 metros do próprio território deles e que os israelitas alegam ser uma zona tampão. Mas é território palestino em que deveria haver produtos agrícolas. Mas Israel tem dito: se vocês vierem aqui, nós dispararemos sobre vocês – em vez de colocarem a fronteira na própria terra deles – que usem a própria terra deles se querem ter uma zona fronteiriça.

Mas não, eles estabeleceram uma zona de tiro livre, uma zona de morte à vista, e eles têm metralhadoras de controlo remoto que planeiam vir a cobrir todo aquele território. De facto, há um par de anos, era uma unidade militar feminina que eram os assassinos das metralhadoras. Eles sentam-se em salas com ar condicionado e veem os vídeos da zona, como um piloto de drones, e depois veem alguém – e eles podem fazer reconhecimento facial. Eles conhecem cada uma das pessoas que há em Gaza, porque eles conhecem todos os edifícios. Eles conhecem todos os telefones que lá há porque a central telefónica é israelita. Por isso eles simplesmente matam à vontade.

É uma situação horrenda. As estatísticas são de que metade das crianças em Gaza têm problemas emocionais – eu diria que seria qualquer coisa como 95% das crianças em Gaza – devido à horrenda opressão em que a cada dia que passa as pessoas não sabem se as suas casas vão ser explodidas, ou se têm um carro que vai ser explodido, ou o que vai acontecer. Porque elas ouvem aqueles drones assassinos sobre elas. Eu estive lá várias vezes, cerca de oito vezes, e nós ouvíamos esse hum-mmm-mmm-mmm. E podemos nem sequer conseguir vê-lo sobre nós, mas podemos ouvir aquela coisa e depois, de repente, um flash, e aquele rocket Hellfire desce e destrói um edifício.

Michael Slate: Quando te estou a ouvir, isso realmente enfatiza que há algo genocida a acontecer contra o povo palestino. As pessoas estão simplesmente a ser mortas arbitrariamente. Os palestinos são seres humanos e exigem que o mundo reconheça isso. É isso uma grande parte do que está a motivar pessoas como tu a ir a Gaza neste navio?

Ann Wright: Realmente é. E de facto, as nossas campanhas ao longo dos anos, algumas deles foram chamadas “Sejam Seres Humanos”. Somos seres humanos enquanto algo internacional; eu vejo o que está a acontecer e a minha humanidade diz-me que tenho de falar. Tenho de fazer algo para chamar a atenção mundial para o que está a acontecer aos palestinos. E para que os palestinos se mantenham não violentos face à violência contra eles. Claro, há alguns grupos militantes que disparam rockets sobre Israel, sem dúvida. Mas vejam as gigantescas forças militares israelitas usadas contra essencialmente uma população civil desarmada, para a maneira como os israelitas matam à vontade e como estão a tentar, como disse o teu anterior convidado, fazer com que as condições sejam tão más que as pessoas sejam forçadas a partir porque não conseguem obter água potável, porque não conseguem ter ar limpo. A concentração de material fecal no ar de Gaza é uma das mais elevadas do mundo porque a estação de tratamento de esgotos é sempre a primeira instalação que Israel ataca e faz explodir. E depois eles não deixam entrar peças sobressalentes para a reparar. Por isso, os esgotos não tratados estão em todo o lado e secam, e assim o material fecal fica no ar. E depois as águas dentro das quais os pescadores são forçados a ficar, para tentarem obter algumas proteínas para as pessoas em Gaza, variam entre cinco e oito quilómetros da costa e eles têm de pescar nessas águas poluídas porque os israelitas têm barcos lá perto que os irão fazer explodir, matando os pescadores se eles saírem para mais longe para tentarem chegar a águas mais limpas.

É uma situação horrenda, terrível, sórdida. O governo israelita está de facto a gerir um genocídio lento contra as pessoas em Gaza.

Michael Slate: Podes dizer às pessoas como é que elas se podem envolver?

Ann Wright: Os barcos vão navegar em meados de maio, e depois vão atravessar a Europa ao longo de maio. Se forem à internet, temos uma página no Facebook, 2018 Gaza Freedom Flotilla, US Section [Flotilha Liberdade Para Gaza 2018, Secção Norte-Americana]. Aí temos informação. Ou se forem à página internet NationBuilder, 2018 Gaza Flotilla, aí temos muita informação. Assim, é grande a capacidade de as pessoas fazerem contribuições monetárias. É importante escreverem o que sentem em relação a Gaza. E se estiverem na Europa durante o verão e quiserem ajudar e participar numa tripulação terrestre e mesmo possivelmente num dos trajetos desta grande viagem, entrem em contacto connosco através da NationBuilder e nós iremos falar convosco sobre como talvez nos possam ajudar na Europa.