Da edição n.º 537, de 2 de abril de 2018, do jornal Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (http://revcom.us/a/537/michael-slate-interviews-author-activist-miko-peled-en.html, em inglês).

 

Michael Slate entrevista o autor e ativista Miko Peled

“Os palestinos estão a sofrer um regime de apartheid, uma campanha de limpeza étnica e um genocídio, tudo ao mesmo tempo”

O seguinte texto é extraído de uma entrevista a Miko Peled que foi radiodifundida a 16 de março de 2018 no programa The Michael Slate Show da rádio KPFK da Rede Pacifica. A entrevista completa está disponível em inglês em themichaelslateshow.com.

Miko Peled é filho de um general israelita e ele próprio serviu no exército israelita. Depois de a sobrinha dele ter sido morta por palestinos num atentado suicida, em vez de responder com ódio cego e vingança, Peled foi impelido a aprender por si mesmo por que o povo palestino estava tão cheio de ultraje. Hoje vive nos EUA, onde corajosamente toma a palavra contra o sionismo e os crimes de Israel contra os palestinos. É autor do livro The General’s Son: Journey of an Israeli in Palestine [O Filho do General: A Jornada de um Israelita na Palestina] e do livro Injustice: The Story of the Holy Land Foundation Five [Injustiça: A História dos Cinco Fundadores na Terra Santa].

O The Michael Slate Show vai para o ar todas as sextas-feiras às 10h (hora da costa oeste dos EUA) na rádio KPFK 90.7 FM em Los Angeles. O programa pode ser ouvido aqui em streaming e os programas arquivados podem ser ouvidos e descarregados aqui (em inglês).

O Revolution/Revolución/revcom.us reproduz algumas das entrevistas do The Michael Slate Show para familiarizar os nossos leitores com os pontos de vista de importantes figuras das artes, do teatro, da música e da literatura, da ciência, do desporto e da política. Os pontos de vista expressos por esses entrevistados são, claro, deles mesmos; e eles não são responsáveis pelos pontos de vista publicados noutros lugares do Revolution/Revolución/revcom.us.

Michael Slate: Está a decorrer neste momento um ataque total contra o povo palestino e ele tem sido mantido silenciado e secreto do resto do mundo. Só em fevereiro, pelo menos 1319 palestinos foram detidos pelas forças de ocupação israelitas e há outros ataques que continuam sem mitigação. Ainda assim, muito pouco é conhecido no resto do mundo. Qual é a tua avaliação da atual situação?

Miko Peled: É curioso, sabes, porque as pessoas perguntam-me sempre: “Então, como é que estão as coisas na Palestina? Parece que agora está tudo bem e sossegado, nada está a acontecer.” Eu estou a pensar como é que uma pessoa faz para chegar a essa conclusão? O que faz com que as pessoas pensem que tudo está bem? A Palestina está a sangrar como um ser humano ferido, a sangrar até à morte. A sangrar até à morte a uma velocidade incrível, a uma velocidade incrível. É um milagre que ainda haja qualquer parte da Palestina que ainda esteja viva. Será necessário um enorme esforço, uma ajuda enorme, só para fazer com que a Palestina volte a pôr-se de pé e essa ajuda não está à vista em lado nenhum. E assim o paciente está a morrer muito rapidamente, a hemorragia é grave e, como disseste, as pessoas em todo o mundo pensam que tudo está bem porque não veem isso nas notícias.

Michael Slate: Há muitos ataques ao povo palestino, mas realmente parece que o que estamos a ver é uma limpeza étnica. Isto eleva as coisas a todo um outro nível. A expulsão dos palestinos de Jerusalém, mas também do país no seu todo.

Miko Peled: Sim, sabes que também é interessante, porque quando se usa expressões como limpeza étnica, como genocídio, como descrever o regime de Israel como um regime de apartheid, as pessoas do outro lado levantam sempre os braços e ficam indignadas: “Como é que ousam dizer que os judeus seriam possivelmente capazes de cometer genocídio? Os judeus nunca concordariam em impor um apartheid a outro povo.” Acho que Nancy Pelosi disse uma vez que é absurdo pensar que alguma vez os judeus pudessem usar o apartheid contra outro povo. Em primeiro lugar, os judeus são como qualquer outro povo; eles podem fazer o que os outros povos fazem, coisas tão más ou tão boas. Mas na questão da Palestina, é muito fácil mostrar isso porque a comunidade internacional definiu essas situações.

O que está a acontecer na Palestina é tudo isto que referi antes. É um regime de apartheid e, uma vez mais, o direito internacional descreve exatamente o que é o apartheid. É uma limpeza étnica: uma vez mais, podemos ir ver a definição de limpeza étnica. E é um genocídio: veja-se a Convenção de Genebra e a descrição do crime de genocídio. E depois compare-se estas três definições com o que tem acontecido na Palestina durante as últimas sete décadas e então que venha aqui alguém e me diga que não é um ajuste perfeito. É genocídio, é limpeza étnica e é um regime de apartheid, tudo ao mesmo tempo. Uma vez mais, as definições são muito claras. Portanto, vir dizer, por alguma razão, oh não, não é isto e não é aquilo, não é uma outra coisa qualquer – isto é um completo absurdo. Tudo o que vocês têm de fazer é olhar para definição que o direito internacional deu a estas situações, a estes crimes, e é um ajuste perfeito.

Michael Slate: Vejamos alguns exemplos concretos do que está de facto a acontecer agora na Palestina.

Miko Peled: Temos dois milhões de pessoas na Faixa de Gaza sem acesso a água potável, sem acesso a cuidados médicos adequados. Elas têm sido sujeitas a bombardeamentos para além do impensável e os feridos desses bombardeamentos não conseguem obter ajuda médica. Estamos a falar de dezenas de milhares de pessoas sem acesso a ajuda. Se alguém quiser matar uma pessoa sem a matar a tiro, pode feri-la e depois deixá-la morrer lentamente, ou pode negar-lhe água ou negar-lhe água potável e ela irá morrer de doença. Portanto, há aqui claramente uma intenção, uma intenção muito clara: ver os habitantes de Gaza a morrer de uma morte lenta – e estamos a falar de dois milhões de pessoas.

Nós sabemos muito bem, devido às organizações de ajuda que ainda conseguem lá fazer algum trabalho, que uma criança com uma doença curável – um cancro curável – dentro da Faixa de Gaza irá morrer. Uma criança judaico-israelita a um quilómetro do outro lado da fronteira irá viver com a mesma doença exata, e isto é assim só porque Israel nega cuidados de saúde, cuidados médicos adequados, a essa criança palestina. E isto acontece a dois milhões de pessoas na Faixa de Gaza.

Há centenas de milhares de palestinos no Deserto do Negev a quem é negada água potável, com taxas de mortalidade infantil que saem fora das tabelas e que não têm qualquer comparação com as taxas de mortalidade entre os judeus israelitas. Estou a falar dos beduínos no Deserto de Negev, palestinos que são cidadãos israelitas. As crianças estão a morrer porque não têm acesso a água potável, pelo que elas são admitidas nos hospitais com doenças com as quais nunca se vê ser admitidas as crianças israelitas, as crianças judias. Elas não têm esses problemas, têm acesso a água potável, têm acesso imediato a cuidados de saúde.

Os palestinos em Jerusalém estão a perder as casas deles a uma taxa alarmante, perdendo o direito a lá viverem... Sabes, eu nasci e cresci em Jerusalém – eu podia entrar e sair quando me apetecia. Saí de lá há 20 anos – eu posso regressar, eu sou cidadão. Os palestinos em Jerusalém... acima de tudo, não são cidadãos, são “residentes estrangeiros”, embora algumas das famílias lá estejam há muito tempo. E se partirem, então perdem a capacidade de regressar, perdem o seu estatuto de residentes estrangeiros e o património deles é-lhes retirado. Isto está a acontecer a uma taxa alarmante, mais as demolições de casas, mais as comunidades inteiras na periferia de Jerusalém, que antes estava ligada a Jerusalém, as comunidades palestinas, as cidades palestinas que se tornaram cidades totalmente fantasmas. Vê-se edifícios novíssimos – lojas, casas – completamente abandonados porque as pessoas têm sido sujeitas a uma limpeza étnica.

E a lista continua sem fim – na Galileia, em todo o país –, os palestinos estão a sofrer um regime de apartheid, uma campanha de limpeza étnica e um genocídio, tudo ao mesmo tempo.

Michael Slate: Isto é empurrado para debaixo de tudo o resto, pelo que muitas pessoas não sabem nada sobre isto. Gaza em particular faz-me realmente lembrar o Gueto de Varsóvia. Há aqui uma certa ironia, dado quem está de facto a controlar o que está a ocorrer neste preciso momento em Gaza. Mas o facto de se parecer e fazer lembrar o Gueto de Varsóvia é uma coisa muito pesada.

Miko Peled: Sim, é horrendo, é para além de horrendo. O facto de o mundo estar a permitir que isto aconteça e, uma vez mais, não estamos a falar de nenhum cume de uma montanha longínqua no meio do Afeganistão a que não haja acesso. Estamos a falar da Palestina, estamos a falar de um país a que há bastante acesso – ou a que poderia haver bastante acesso à água potável, aos melhores cuidados de saúde, ao ensino. É um voo de três horas de Paris. Quero dizer, por amor de Deus, sabes, é a meia hora de Telavive, de Jerusalém – cidades onde não se sonharia ver os judeus israelitas a viver assim, e ninguém se preocupa. Não há nenhum protesto, não há nenhuma exigência de acabar com o cerco a Gaza.

Se isto fosse qualquer outro lugar, teríamos a 6ª Esquadra [norte-americana] a impor que o cerco fosse levantado e a fornecer ajuda humanitária básica às pessoas, mas eles não farão isso porque é Israel. Eventualmente, o que é necessário acontecer é que a 6ª Esquadra precisa de impor que o cerco seja levantado em vez de colaborar com o estado de Israel que é o que as forças armadas norte-americanas estão a fazer agora a uma enorme escala, e que alguma ajuda básica chegue aos dois milhões de habitantes de Gaza.

A propósito, o crime de genocídio, tal como é definido pela Convenção de Genebra, fala em cumplicidade com o genocídio, e é aí que há a esperança de que o governo dos Estados Unidos e os governos europeus se venham a encontrar um dia – num tribunal – porque eles são cúmplices do genocídio dos palestinos.

Michael Slate: Miko, há aqui um papel específico do imperialismo norte-americano, e isso tem-se mantido. Mas deu um salto desde a ascensão de Trump ao topo do regime. Veja-se, por exemplo, só a recente situação em relação a Jerusalém e à embaixada norte-americana que vai ser transferida para Jerusalém, que é uma declaração de que os EUA se posicionam solidamente atrás do genocídio que a administração e o governo israelita estão a fazer cair sobre o povo palestino.

Miko Peled: Sim, sem dúvida que Trump encorajou Israel de uma maneira que é difícil de imaginar, porque todos nós pensamos que isto já era tão mau quanto poderia ser. Esta decisão – de colocar a embaixada norte-americana em Jerusalém – foi, em primeiro lugar, imprudente. Mas também foi uma decisão que foi planeada como uma bofetada na cara de todo o mundo árabe e muçulmano. Foi uma prenda pessoal e política a Benjamim Netanyahu, porque Netanyahu e Trump se tornaram BFFs [melhores amigos para sempre – NT]. E agora eles introduziram na equação o novo príncipe da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, que é um criminoso que está a levar a cabo uma horrenda campanha de morte e chacina no Iémen e a quem acabam de ser entregues milhares de milhões de dólares em armas pelo britânicos e uma licença total dos norte-americanos para continuarem a fazer isso. E o preço que ele tem de pagar, claro, é normalizar relações com Israel, e há todas as razões para pensar que em breve venha a haver relações diplomáticas normais entre os dois países.

Portanto, isto é um tempo muito perigoso, muito perigoso. Penso que é mais perigoso que qualquer outra coisa que alguma vez tenha visto na minha vida. E as pessoas que sofrem mais em resultado disto são os palestinos, porque Israel foi encorajado – e eles estão ainda mais violentos e mais brutais em relação aos palestinos e às crianças palestinas que alguma vez estiveram antes.