Os mercenários norte-americanos no Afeganistão

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 1 de Novembro de 2010, aworldtowinns.co.uk

O burburinho sobre a ameaça do Presidente Hamid Karzai de restringir a utilização de mercenários no Afeganistão trás à luz do dia o que os EUA e os seus aliados aí estão a fazer.

Em Agosto, Karzai anunciou que as empresas estrangeiras de segurança iriam ser proibidas de operar no país, citando o facto inegável de que os homens que elas contratam têm sido responsáveis por todo o tipo de assassinatos e outras atrocidades. Também alegou que isso fazia parte da reafirmação da soberania afegã.

Os EUA, a Grã-Bretanha e outros aliados têm usado combatentes civis pagos como parte do seu esforço para fazerem esta guerra sem activarem uma mais vasta oposição nos seus países, sobretudo nos EUA onde, deve dizer-se, o governo Obama não tem sido constrangido pela opinião pública contra a guerra. O número exacto de mercenários e a sua localização são secretos, mas tem havido relatos fidedignos de que as forças de ocupação integram mais contratados privados que tropas oficiais (The New York Times, 25 de Outubro de 2010), as quais agora totalizam cerca de 170 mil soldados.

Esses homens executam tarefas que em guerras anteriores eram efectuadas por soldados, desde escoltar colunas e bases militares a participar em operações de comandos ao lado das forças especiais e das “brigadas de assassinato” da CIA que fazem incursões nocturnas em aldeias para assassinarem pessoas suspeitas de serem combatentes contra a ocupação e para aterrorizarem civis suspeitos de os abrigarem. Muitos desses mercenários são os piores dos piores ex-comandos das forças armadas dos EUA e da Grã-Bretanha, que agora combinam o seu gosto pelo assassinato com a avidez pelo dinheiro.

Além disso, é extremamente revelador que as autoridades norte-americanas tenham respondido à ameaça de Karzai dizendo que era “impossível” confiar nas forças do exército nacional e da polícia afegã para executarem sequer simples tarefas de defesa. Os EUA treinam os seus próprios soldados em poucos meses, mas dizem que essas instituições são “inexperientes e indisciplinadas” depois de Washington ter gasto nove anos e milhares de milhões de dólares a tentar construi-las. Alguns membros das forças armadas de Karzai têm matado vários dos seus “instrutores”. Pura e simplesmente não há muitos afegãos em que as forças de ocupação possam confiar o suficiente para lhes virarem as suas costas.

A ameaça de Karzai, tal como se verificou após a arenga inicial, quando ele a descreveu mais claramente, era limitada. Ele aceitou permitir que o exército e o Departamento de Estado dos EUA, os principais empregadores de mercenários em combate, continuassem como antes. Só as empresas de construção e desenvolvimento com fins lucrativos seriam forçadas a demitir os seus guardas e a usar a polícia e os soldados que trabalham para o governo de Karzai.

Mas mesmo isso era demasiado para os ocupantes. O Presidente norte-americano Barack Obama fez com que a sua Secretária de Estado Hillary Clinton telefonasse a Karzai para o fazer mudar de ideias. Obama também fez com que o General David Patraeus, o homem que comanda esta guerra em seu nome como comandante das forças dos EUA e da NATO, tivesse uma conversa “invulgarmente tensa” com Karzai.

Karzai desistiu no dia seguinte, bem antes do prazo de 17 de Dezembro que ele próprio tinha definido. Na realidade, o primeiro anúncio de que ele tinha mudado de ideias não veio do presidente afegão nem do seu gabinete, mas das autoridades norte-americanas. Estas disseram que Karzai tinha decidido adiar uma decisão, pelo que não haveria nenhuma restrição às empresas privadas de segurança antes de Fevereiro de 2011, se chegasse a haver.

Uma das razoes por que o governo de Obama se concentrou tanto nesta questão foi o seu entusiasmo pela utilização de mercenários, tanto no Iraque como no Afeganistão. Enquanto tenha sido o seu antecessor George W. Bush a iniciar essa política à sua escala actual, o governo de Obama tem-se destacado pela sua insistência na continuação da sua utilização face aos escândalos e mesmo a alguma oposição do Congresso norte-americano.

O tema passou para primeiro plano nos EUA depois do massacre não motivado na Praça Nisour em Bagdad em 2006, quando os mercenários contratados pela empresa Blackwater abateram pelo menos 17 iraquianos simplesmente para desimpedirem um engarrafamento de trânsito. Alguns desses assassinos foram acusados durante o governo Bush, mas o Procurador-Geral de Obama, Stephen Holder, que supostamente supervisiona a acusação, até agora tem conseguido com sucesso não fazer avançar os processos contra eles. A Blackwater, mais ideologicamente motivada que a maioria das empresas de segurança, no sentido em que é dirigida por fundamentalistas cristãos de extrema-direita, mudou o seu nome para Xe Services. No Afeganistão, não só fornece guardas mas também soldados para operações ofensivas e assassinatos. No Iraque, os EUA estão a aumentar enormemente a utilização de mercenários para substituírem algumas das forças regulares que de lá retiraram.

Fingimento político e contradições verdadeiras

Mas nesta questão também estiveram em jogo os assuntos que dizem respeito à relação entre os EUA e Karzai. Envolveram um fingimento político e verdadeiras contradições de ambos os lados.

Afinal de contas, Karzai foi posto na presidência do Afeganistão pelos EUA e seus aliados. Eles escolheram-no num conclave de nações imperialistas ocidentais em Bona em 2001, fizeram com que as suas tropas o instalassem no governo, organizaram eleições em 2004 para dar alguma legitimidade à sua nomeação e têm apoiado o seu regime, militar, económica e politicamente. O seu regime não poderia sobreviver sem eles, e toda a gente sabe isso.

Como vingança pelas ameaças de Karzai, pelo menos segundo ele, a comunicação social ocidental começou a fazer uma grande agitação sobre o facto de ele receber sacos de notas da República Islâmica do Irão. E ele nem sequer se incomodou a negá-lo: “Não é segredo. Nós estamos agradecidos aos iranianos por essa ajuda. Os Estados Unidos estão a fazer a mesma coisa. Eles estão a entregar dinheiro em notas a algumas das nossas instituições”, disse ele. Um anónimo “oficial sénior norte-americano em Cabul” comentou: “Toda a gente sabia disso, incluindo o governo dos EUA. Toda a gente falou abertamente sobre isso durante anos.” (Washington Post, 24 de Outubro de 2010). Karzai alega que o dinheiro não era só para ele, e isso é provavelmente verdade. Claro que os senhores da guerra, os líderes tribais e outros a que ele se aliou têm as suas próprias razões para apoiarem o regime, mas os sacos de dinheiro reforçaram essas frágeis relações.

É quase engraçado ouvir estes protestos de que Karzai e companhia recebem alguns milhões de dólares por ano do Irão quando os EUA admitem que gastam dezenas de milhares de milhões de dólares no Afeganistão que eles não podem – nem vão – justificar.

Parte do verdadeiro conteúdo dos protestos norte-americanos sobre a corrupção no governo Karzai é que ele é suficientemente ingrato para receber dinheiro de inimigos dos EUA. Porque é que, parecem lamentar os responsáveis norte-americanos e a sua comunicação social, sempre que compramos alguém, ele se revela tão corrupto!

Os EUA e o regime iraniano estão certamente a competir por influência no Afeganistão, tanto dentro como contra o governo de Karzai. Mas, tal como com o actual governo de Nouri Maliki no Iraque, o Irão está a apoiar um regime que tolera uma ocupação liderada pelos EUA. Tanto para Washington como para Teerão, o Afeganistão representa simultaneamente uma confluência temporária de interesses e uma arena de intensa competição.

A forma como tudo isto funciona só mostra quão implacavelmente cínicos podem ser tanto o governo norte-americano como o iraniano na defesa dos seus interesses reaccionários. O chefe de gabinete de longa data de Karzai, acusado de ser o canal dos fundos e da influência política iraniana, Umar Daudzai, bem como outros membros do círculo íntimo de Karzai, é um antigo membro do Hezbi-Islami. Liderado por Gulbuddin Hekmatyar, um senhor da guerra cujo fanatismo religioso e brutalidade podem ser invejados pelos talibãs, o Hezbi-Islami foi um dos grupos fundamentalistas islâmicos para onde os EUA encaminharam dinheiro nos anos 80, durante a guerra contra a ocupação soviética. Nos anos 90, durante a guerra civil entre os mujahideen após a retirada dos invasores soviéticos, os homens de Hekmatyar bombardearam intensamente Cabul e mataram muitos milhares de civis. Agora ele é vagamente aliado dos talibãs – e continua a ter ligações ao regime iraniano. Os EUA estão a fomentar a ideia de atrair mais esse grupo – juntamente com uma parte dos próprios talibãs e do igualmente brutal grupo de Haqanni (que já foi a força mujahideen favorita de Washington e que agora também se aliou aos talibãs) – para a República Islâmica do Afeganistão a que Karzai actualmente preside.

Parece que os EUA também consideraram abandonar Karzai, talvez como parte de alguma nova configuração de esbirros, mas de qualquer maneira devido ao facto de ele ser um dos homens mais odiados do Afeganistão. Poder-se-ia dizer que a atitude norte-americana não é verdadeiramente justa para com Karzai, porque a razão por que os afegãos o odeiam é acima de tudo a forma como ele pôs os interesses da ocupação liderada pelos EUA à frente dos do povo e vendeu o país aos invasores.

Durante os nove anos que decorreram desde a invasão de 2001, os talibãs passaram de organização amplamente desacreditada e odiada, sobretudo pelas pessoas que não fazem parte da sua base étnica e ideológica mais próxima, a uma organização que se não é entusiasticamente bem acolhida pela maioria dos afegãos em todo o país, pelo menos beneficia da sua neutralidade. Esta alteração deveu-se ao desprezo assassino dos ocupantes pelas vidas afegãs e pelo clima moral e colapso social que a ocupação gerou. O facto de Karzai ter recebido dinheiro para facilitar a humilhação do país e do seu povo é apenas mais uma razão para o odiarem.

Nestas circunstâncias, não é surpresa nenhuma que Karzai tenha tentado uma pequena postura nacionalista para tentar renovar a sua imagem. Há reais conflitos de interesses entre ele e os ocupantes, dado que ele não tem ninguém em quem se apoiar a não ser neles, mesmo que eles possam estar a considerar alternativas. Mas também, como o próprio Karzai certamente compreende, quanto mais ele consegue pôr o que parece ser alguma distância política entre ele e os EUA, mais valioso ele pode ser para eles. Isto pode não resultar, mas que outra coisa pode ele fazer?

Os ocupantes querem que isto se pareça como se eles estivessem no Afeganistão enquanto membros de um governo soberano local e não apenas para tentarem impor à força a sua vontade ao país. Eles também ficam mais que felizes por culparem Karzai pelo infortúnio do Afeganistão. Mas o governo dele não é um governo soberano. Os EUA não deixaram de o mostrar uma vez mais nos últimos dias, ao trazerem forças russas para se juntarem às tropas norte-americanas numa gigantesca operação no Afeganistão oriental sem sequer terem informado Karzai. Isto fez com que ele parecesse não apenas um humilde subalterno dos EUA, mas também um herdeiro dos traidores nacionais que venderam o Afeganistão à União Soviética. Não é de admirar que ele se torça e tente representar o papel de patriota.

Mesmo agora, os EUA não levam os protestos dele muito a sério. Quando ele ameaçou impor um prazo para as empresas privadas de segurança deixarem o país, um “responsável ocidental em Cabul” troçou disso como manobra política táctica em interesse próprio. “O que este calendário significa é um recuo. A discussão que tem que ocorrer agora é: O que é que realmente se quer? Quais são as verdadeiras preocupações? Preparemos um plano diferente.” (Washington Post, 17 de Agosto de 2010). Esta afirmação era tão verdadeira como uma tentativa de o humilhar e minar ainda mais.

Este jogo imundo mostra o que é que está realmente a acontecer no Afeganistão. O que os EUA “realmente querem” não é um “parceiro” afegão independente mas um regime lacaio que possa facilitar e dar cobertura à ocupação. O que interessa a Washington são os objectivos geopolíticos estratégicos dos EUA e não os interesses de nenhuma pessoa. Quando os EUA apoiam Karzai é para servirem esses objectivos e quando criticam Karzai é pela mesma razão, tal como combatem os talibãs reaccionários para servirem esses objectivos e tentam negociar pela mesma razão.

A situação no Afeganistão é um pesadelo para o seu povo e está a ficar pior. Alguns ocidentais mal esclarecidos alegam que mesmo que a invasão inicial tenha sido errada, “‘Nós’ não temos outra alternativa a não ser ficar” até os EUA poderem resolver a confusão que criaram. Mas quando se vê a forma como os EUA ponderam as suas opções, tudo o que se pode dizer é que, até os EUA saírem do Afeganistão, só podem causar mais e mais danos.