Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 28 de Fevereiro de 2005, aworldtowinns.co.uk

Os EUA, a Europa e o Irão: Crescentes perigos

As reuniões de Fevereiro do Presidente dos EUA, G. W. Bush, com os seus congéneres europeus e russos focaram questões internacionais, em particular a política dos EUA face à República Islâmica do Irão. A centralidade da questão durante essas conversações indica o forte vínculo entre a política dos EUA face ao Irão e a sua política face às potências suas rivais.

Bush tinha duas coisas para dizer na Europa. Ele proclamou: “Essa ideia de que os EUA estão a preparar-se para atacar o Irão é simplesmente ridícula.” E acrescentou: “Tendo dito isto, todas as opções estão sobre a mesa.” Mas, apesar da ameaça presente na segunda declaração, diz-se que os líderes europeus ficaram aliviados com a primeira. O Chanceler alemão Gerhard Schroeder comentou numa entrevista televisiva que estava satisfeito por Bush e a sua Secretária de Estado Condoleezza Rice não terem deixado nenhuma dúvida sobre “essa importante questão” – se os EUA estão ou não a preparar-se para atacar o Irão. Isto, entre as potências europeias, é o que nestes dias passa por optimismo.

Mas será que as grandes potências chegaram realmente a uma unidade sobre a questão do Irão, como alegaram algumas pessoas? Pondo numa perspectiva mais alargada, representou isso um ponto de viragem nas relações e mesmo na hostilidade entre elas quanto à questão do Irão? Apesar do ambiente amigável dessas conversações, e embora seja verdade que eles concordaram em alguma cooperação nalgumas questões específicas, as grandes potências ainda estão pelo menos tão longe de estarem unidas em relação ao Irão como em relação ao Iraque.

A rivalidade entre os EUA e a Europa não se deve a um mal-entendido ou a diferentes abordagens, como alguns podem dizer (a preferência da Europa por um “poder mais moderado” – a diplomacia – contra a propensão dos cowboys norte-americanos para a força). Ela radica-se num conflito de interesses entre potências imperialistas que não pode ser solucionado através de palavras amigáveis e gestos diplomáticos. As reais e crescentes tensões entre os EUA e a União Europeia levaram alguns comentadores europeus a pôr de lado as suas referências normalmente crípticas e a referirem-se abertamente às suas verdadeiras forças e motivos.

Por exemplo, o comentador da BBC Ahmad Zaid Abadi disse: “As diferenças entre a Europa e os EUA quanto ao dossiê nuclear do Irão são baseadas de facto numa secreta rivalidade entre eles pelo controlo estratégico do Médio Oriente. Muitos europeus acreditam que os EUA estão a usar a sua posição sem precedentes como única superpotência depois da Guerra Fria e o colapso de um mundo bipolar, para estabelecer uma espécie de nova ordem no Médio Oriente que torne permanente o seu domínio nessa região. Elas [as potências europeias] consideram o plano dos EUA para o que chamam de ‘Grande Médio Oriente’ e o primeiro passo desse plano, a invasão do Iraque, como evidência reveladora das verdadeiras intenções dos EUA no Médio Oriente. A União Europeia, como superpotência emergente, não tem nenhum interesse no estabelecimento de uma nova ordem no Médio Oriente controlada pelos EUA, pelo que está a tentar desenvolver as suas próprias iniciativas em todos os lugares dessa região que os EUA não controlam. O Irão é uma dessas regiões.” (21 de Fevereiro, Página internet da BBC em língua farsi.)

Na realidade, a recente atmosfera dita conciliatória reflecte o facto de ambas as partes, a Europa e os Estados Unidos, terem sofrido reveses, sobretudo os EUA. Por outras palavras, aquilo a que estamos a testemunhar hoje entre os EUA e a Europa é um cessar-fogo temporário de preparação para outro ciclo de disputas.

As dificuldades não resolvidas dos EUA no Iraque e o fardo económico e militar da sua ocupação são uma importante razão por que os EUA estão temporariamente à procura de relações com a Europa menos abertamente conflituosas e à espera de pelo menos alguma ajuda dela em troca. Do lado europeu, o facto de alguns líderes europeus estarem a usar as eleições no Iraque como uma desculpa para aumentar o apoio ao regime fantoche instalado pelos EUA no Iraque e a agir também em relação ao Irão de uma forma calculada para evitarem aborrecer, tanto quanto possível, os EUA, indica que pelo menos neste momento a Europa não é capaz ou pelo menos ainda não está preparada para desafiar aberta e directamente os EUA.

Porém as suas diferenças estão longe de estar resolvidas, mesmo ao nível mais superficial. Por exemplo, não conseguiram esconder as suas diferenças em relação à China. O Presidente francês, Jacques Chirac, insistiu que o embargo de armas à China não se justifica. Bush expressou a sua “profunda preocupação” em relação aos planos da UE para uma venda significativa de armamento à China. Também é importante notar que a ajuda que alguns países da UE concordaram em alargar ao regime patrocinado pelos EUA no Iraque tem sido minúscula e em alguns casos constituiu um insulto calculado. Por exemplo, a França concordou em ajudar a retreinar o novo exército iraquiano dos EUA, mas apenas nomeou um oficial para essa tarefa.

Quando falou do Irão, Chirac disse que pediria que fosse admitido na Organização Mundial do Comércio, o que seria um grande passo para acabar com o isolamento diplomático da República Islâmica e traria grandes vantagens comerciais. Chirac também disse que os europeus venderiam ao Irão peças suplentes para aviões e mesmo aviões novos – não Boeings norte-americanos mas Airbuses europeus, claro. Em resposta, Bush nada disse, com o que quis mostrar o seu desagrado perante essa possibilidade.

A UE e os EUA têm-se debatido sobre qual deles teria a iniciativa de negociar com o Irão, sobretudo durante os dois últimos anos. Em Novembro passado, o Irão e os representantes da França, da Alemanha e da Grã-Bretanha chegaram a um acordo que levou à suspensão temporária do programa de enriquecimento de urânio do Irão. (Ver o SNUMAG de 13 de Dezembro de 2004.) Esse acordo foi ratificado pela Agência Internacional da Energia Atómica da ONU e os EUA mostraram-se relutantes em o aprovar. Esse acordo fez com que parecesse que as potências europeias tinham ganho a iniciativa. Parecia que a questão do Irão ficaria afastada durante pelo menos alguns meses. Mas os EUA recusaram-se a ceder. Não passou muito tempo antes de Washington ter levantado novamente a questão.

Apenas um mês depois desse acordo, a revista New Yorker (de 24 e 31 de Janeiro) publicou um artigo escrito por Seymour Hersh que revelava que os EUA “têm feito missões secretas de reconhecimento dentro do Irão pelo menos desde o verão passado. Muito do seu foco está na acumulação de informações, sobretudo sobre as instalações nucleares, químicas e de mísseis do Irão, tanto as declaradas como as suspeitas. O objectivo seria identificar e isolar três dúzias, ou talvez mais, de alvos que possam ser destruídos em ataques de precisão ou em curtas missões de comandos.”

O artigo também dizia: “Os planos de contingência do Pentágono para uma mais ampla invasão do Irão também estão a ser actualizados. Aos estrategos da sede do Comando Central dos EUA, em Tampa, na Florida, foi pedido que revissem os planos de guerra dos militares, na hipótese de maximização de uma invasão terrestre e aérea do Irão.”

A administração Bush não negou esse artigo. De facto, ao dizer que continha alguns elementos inexactos, deixou deliberadamente toda a gente a saber que era substancialmente verdadeiro. Vários governos europeus reagiram com alarme. Pode-se pensar na hipótese de a informação para esse artigo ter sido deliberadamente encaminhada pela CIA para preparar o terreno – deixar que todos soubessem o que estava “na mesa” – para uma ofensiva dos EUA não só contra a República Islâmica mas também para golpear as potências europeias, cujos êxitos diplomáticos nas negociações com o Irão pareceram de repente muito pequenos em comparação com o que poderia acontecer a seguir se fosse utilizada uma parte, mesmo que pequena, do arsenal militar dos EUA.

As actividades militares ilegais e extremamente perigosas dos EUA em relação ao Irão foram confirmadas, pelo menos implicitamente, pelos mais altos responsáveis dos EUA, incluindo numa entrevista ao vice-presidente Dick Cheney, no discurso de Bush no Estado da União, nas declarações de Rice na Europa e no Médio Oriente e pelo próprio Bush durante a sua visita europeia de Fevereiro.

Contudo, quando questionada sobre um ataque preventivo contra o Irão, Rice disse: “Essa questão simplesmente não está neste momento na agenda.” Depois de conversações com Rice, o seu congénere britânico, Jack Straw, disse que o governo dela ainda estava a tentar a diplomacia. “Ainda temos muitas ferramentas diplomáticas à nossa disposição e pretendemos usá-las na sua totalidade”, disse ele.

Será que esta insistência em quererem neste momento continuar com a diplomacia em relação ao Irão – aumentando a pressão política e económica que têm aplicado ao regime iraniano desde há algum tempo – significa que os EUA cederam perante as potências europeias e se afastaram do seu objectivo de “mudança de regime”? Alteraram a sua estratégia? Não há nenhuma base para tal conclusão nos acontecimentos dos últimos meses. Pelo contrário, o que os EUA têm feito destina-se a preparar o caminho a uma mudança de regime, incluindo a possibilidade de uma futura prova final no Irão.

O objectivo global dos EUA é dominar o mundo e impedir o aparecimento de uma coligação de potências que possa desafiar esse domínio. Isso requer manter uma situação firme no estrategicamente importante Médio Oriente. Nessa região, hoje em dia, o Irão em particular e também a Síria são pontos fracos para eles. Eles precisam não apenas de estabelecer uma hegemonia regional, como precisam de o fazer depressa. Mas há muitos parâmetros e vários factores que não lhes permitem fazer tudo o que querem, sempre que querem.

A ocupação do Iraque demonstrou ser mais difícil do que o círculo de Bush imaginou, e não dá nenhum sinal de mudar tão cedo. Entre outras coisas, era suposto que a invasão demonstrasse perante todo o mundo a invencibilidade dos EUA, mas até certo ponto provou o contrário. O povo do Iraque mostrou o potencial para resistir à máquina de guerra dos EUA. Embora a falta de uma verdadeira direcção revolucionária da resistência iraquiana, uma liderança que pudesse unir e mobilizar todos a gente contra os invasores, esteja a impedir o desenvolvimento dessa resistência, a situação ainda está longe de estar estabelecida. O fardo económico e financeiro dos imperialistas norte-americanos nesta situação é enorme. Em termos militares, com 150.000 soldados dos EUA atolados no Iraque e ainda incapazes de controlar o país, os EUA têm muito poucas unidades de combate disponíveis para fazer qualquer outra coisa em grande escala. Nestas condições, a escala do esforço militar para um ataque total ao Irão implicaria demasiados riscos para os imperialistas norte-americanos, pelo que eles o afastaram, pelo menos por agora.

Os EUA têm uma longa história de cooperação bem como de colisão com o Irão governado pelos mulás, desde as relações secretas do regime islâmico com Israel e o apoio aos objectivos dos EUA na América Central nos anos 80 (o caso Irão-Contras) até à sua colaboração actual em torno de interesses comuns no Afeganistão e no Iraque. Por exemplo, em não pequeno grau, os EUA devem o facto de poderem realizar eleições no Iraque à influência do Irão entre os mulás xiitas iraquianos. Embora isso não seja suficiente para satisfazer actualmente os EUA, ainda assim o tipo de “mudança de regime” que os EUA procuram para o Irão é um que envolva a menor mudança possível na configuração dominante. Os EUA prefeririam remover alguns responsáveis de topo cuidadosamente seleccionados e substitui-los pelos chamados moderados, mais abertamente sensíveis às ordens dos EUA e menos abertos aos interesses europeus.

Em Dezembro de 2004 passado, o think-tank imperialista norte-americano denominado Comité Sobre o Perigo Actual publicou um artigo em que enuncia isso. Visa o líder do regime, Ali Khamenei, e os que estão mais próximos dele, e pede que se aprenda com “a lição da transição da ditadura para a democracia em países que vão do Chile à Indonésia”. Em ambos os países, os EUA conseguiram levar a cabo ajustes políticos favoráveis aos seus interesses, pacificamente e sem motins de massas generalizados. As transições de ditaduras militares descaradamente pró-EUA, com base em golpes de estado, para regimes mais “legítimos” de base parlamentar foram conseguidas mantendo intactos os exércitos. Por outras palavras, a mudança de regime não envolveu nenhuma alteração fundamental das relações de poder entre as classes sociais e deixou cuidadosamente intacta a verdadeira fonte do poder do estado, tanto sob um regime abertamente ditatorial como com um aparentemente mais “democrático”: as forças armadas. Mais recentemente, os analistas políticos dos EUA concluíram que tinha sido cometido um grande erro ao se dissolver o exército de Saddam e na realidade muito do próprio regime, em vez de os designar como os senhores de tudo aquilo.

Este tipo de mudança não requer necessariamente que os EUA inflijam uma derrota militar completa ao Irão. O que o governo dos EUA tem ameaçado ao Irão é um ataque aéreo a alvos políticos e militares seleccionados. O artigo de Hersh mostra que tais operações estão a ser preparadas. Quer na realidade elas ocorram ou não, elas estão “na mesa”, são uma possibilidade concreta, para usar o vocabulário dos imperialistas norte-americanos. O que conseguiriam obter com esses ataques? O regime do Irão tirou as suas próprias lições do ataque de Israel à central nuclear de Osirak no Iraque em 1981: divulgou as suas instalações nucleares em diversos locais secretos. Não seria fácil repetir esse ataque hoje. O propósito de tais ataques não é principalmente infligir um golpe militar, mas sim político, uma humilhação e a ameaça de pior – um golpe que iria desestabilizar as alianças entre os círculos que governam o Irão e permitir que alguma outra força da classe dominante se manifestasse. Isso poderia envolver os grupos monárquicos em torno do filho do antigo xá do Irão pró-EUA, Reza Pahlevi, ou outros, em vários tipos de coligações, com o exército a representar um papel chave no assegurar da estabilidade.

Na realidade, os EUA não têm muitas opções em relação ao Irão. Não há nenhum terceiro país em posição de ser usado para o invadir, do modo como em 1980 os EUA encorajaram Saddam a invadir o Irão em vez deles. O problema com o não enviar as forças armadas norte-americanas em grande quantidade é que sem esse tipo de força militar, é muito difícil controlar o que acontece depois dos ataques “cirúrgicos” de desestabilização do regime.

Os EUA poderiam lançar um tal ataque, directa ou indirectamente, mas o que aconteceria depois nessa região explosiva e complexa poderia sair fora do controlo dos EUA ou de quaisquer outras forças imperialistas ou reaccionárias. As contradições nessa região são complexas e ao mesmo tempo muito intensas. As contradições entre os imperialistas também estão a aumentar. A contradição entre os povos e o imperialismo norte-americano é profunda e intensa e as contradições entre as forças fundamentalistas islâmicas reaccionárias e outras criações dependentes dos imperialistas por um lado, e os próprios imperialistas por outro, também são intensas. A República Islâmica do Irão está numa situação muito tremida em relação às massas, e não apenas em relação aos EUA. Está mais isolada que nunca e a sua legitimidade é um grande ponto de interrogação. De facto, e de alguma maneira, a pressão dos EUA ajudou o sector mais conservador do regime iraniano. Os slogans hipócritas desta força contra o imperialismo norte-americano são uma parte do que lhes permitiu reprimir os estudantes e as justas lutas das massas. Um ataque norte-americano ou israelita contra o Irão poderia virar-se contra o feiticeiro e fortalecer o regime. E se o regime caísse, especialmente no meio do caos, o resultado não seria necessariamente favorável aos EUA.

A verdade incontestável é que é impossível prever o resultado da interacção entre essas contradições no caso de um tal ataque. Talvez os EUA estejam atentos a isso – talvez seja por isso que depois da sua ameaça deliberadamente provocadora de lançar Israel contra o Irão, mesmo que isso criasse uma “confusão diplomática”, Cheney tenha concluído: “Não queremos uma guerra no Médio Oriente, se a pudermos evitar.” Se não estivessem preocupados, não vacilariam um segundo.

Essa vacilação é motivada por uma falta de boas escolhas para os EUA. Mas os EUA não abandonarão os seus objectivos no Irão e no Médio Oriente, seja de que modo for, e não vacilarão durante muito tempo.