Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 20 de outubro de 2018, aworldtowinns.co.uk

O Ocidente e a Arábia Saudita: O baile dos cortadores de cabeças

O aparente assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi e os acontecimentos subsequentes demonstram uma viragem extremamente horrenda na política global, encarnada acima de tudo pelo presidente norte-americano Donald Trump e cada vez mais comum nos governos de todo o mundo: um discurso aberto da “lei do mais forte” e de que o que é bom para os interesses nacionais é que é bom.

Confrontado com a justa repulsa criada pelos rumores turcos de que uma brigada ligada aos mais elevados níveis da família real saudita tinha cortado os dedos e a cabeça de Khashoggi ainda vivo e, de seguida, desmembrado o resto do corpo dele, para Trump a única questão foi saber como ultrapassar o alvoroço e seguir em frente. Ele tem não só de salvar a aliança de longa data entre a Casa de Saud e a classe dominante norte-americana, mas também de usar essa aliança como parte do núcleo central dos esforços norte-americanos para reafirmar a sua dominação do Médio Oriente através de uma ofensiva agora virada em grande parte contra o Irão.

Em tempos, a Casa Branca afirmou que tinha de esmagar toda a região para defender os direitos humanos e acabar com os fundamentalistas islâmicos cortadores de cabeças. Agora, por que iriam deixar um pequeno corte de cabeça feito pelos sauditas atrapalhar o Fazer Com que o Grande Médio Oriente Seja Novamente Norte-Americano?

Há muita hipocrisia em todos os lados. O regime turco liderado pelo presidente Recep Tayyip Erdogan, depois de ter prendido milhares de jornalistas, intelectuais e outras pessoas, está a usar a sua imprensa cativa e funcionários anónimos para fazer vazar gota a gota alegadas informações sobre os crimes sauditas, de uma forma não verificável, talvez para que possam ser negadas, se for necessário.

A Turquia esperou cinco dias para dar o alarme sobre Khoshoggi, ainda que as suas autoridades agora digam que têm uma gravação áudio em tempo real do macabro assassinato no momento em que ele ocorreu. A sua intenção não parece ser necessariamente expor o governante saudita Príncipe Real Mohammed bin Salman, mas sim ameaçá-lo e pressioná-lo, bem como aos EUA, para obter um desfecho negociado. A atual “admissão” saudita, aprovada por Trump – que culpa subordinados do príncipe, supostamente agindo sem a autorização do príncipe, da morte de Khoshoggi durante um “combate a murros” – é o produto desse processo. As alegações e contra-alegações turcas e a maioria das sauditas continuam a ser emitidas de uma forma não oficial, para que as afirmações que não se consigam manter de pé ou que mostrem não ser úteis para um desfecho negociado possam mais tarde ser abandonadas.

Entretanto, Erdogan mantém-se oficialmente em silêncio e, portanto, livre para manobrar. Ele quer usar este caso para reforçar a sua própria versão do Islamismo e restaurar a antiga posição da Turquia como líder do mundo islâmico. Ao libertar um pastor norte-americano reverenciado pela base fundamentalista cristã de Trump, Erdogan pode estar a enviar aos EUA uma mensagem de que a sua ascensão, à custa do seu rival saudita, não seria necessariamente incompatível com os interesses norte-americanos.

Um outro jogador sujo neste caso complexo e homicida é Israel, um país por vezes amigo da Turquia, outras vezes não, agora total e inequivocamente a apoiar o príncipe saudita Mohammed. O que nos diz isto sobre os sionistas, que o consideram o melhor amigo deles na região? Uma coisa que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, tem em comum com Trump é que não tem o menor medo de ficar incomodado.

Quanto à Europa, a que é que o mundo chegou, quando a presidente do Fundo Monetário Internacional, cujo nome é sinónimo de medidas financeiras que têm estropiado países inteiros e condenado milhões e milhares de milhões de pessoas a vidas atrofiadas, pode alegar ser a consciência do Ocidente? No entanto, essa foi a ideia quando a presidente do FMI, Christine Lagarde, se tornou a primeira líder mundial a cancelar a presença dela numa próxima conferência que irá atualizar as relações entre a realeza saudita e a finança internacional. Londres viu-se forçada a reduzir (mas não a cancelar) a delegação britânica a fim de melhor servir os interesses que têm ligado a casa de Saud à Grã-Bretanha desde que os britânicos foram os criadores iniciais da Arábia Saudita. Claramente, está aqui a funcionar muito mais do que a moral da repugnância. Algumas pessoas no topo da Grã-Bretanha, de França e de outras potências europeias estão descontentes por a invasão do Iémen pela Arábia Saudita, com o apoio dos EUA e da Grã-Bretanha, parecer ter-se tornado impossível de concretizar, e talvez politicamente demasiado cara – e com o facto de os interesses norte-americanos nem sempre serem os interesses deles.

Similarmente, dentro da classe dominante norte-americana há ideias concorrentes sobre a melhor maneira de defenderem os seus interesses imperialistas na região e no mundo em geral, incluindo sobre se devem ou não ir para a guerra contra o Irão.

A invasão do Iémen tem vindo a acontecer desde 2015, e o número de vítimas tem subido astronomicamente. Independentemente do que se possa dizer sobre o caráter político e religioso do movimento houthi que está a desafiar a longa dominação saudita sobre o Iémen, o caráter reacionário e os objetivos da guerra contra os houthis podem ser vistos na maneira genocida como essa guerra está a ser feita. O poderio aéreo saudita e as tropas terrestres fornecidas pelos Emirados Árabes Unidos estão a visar deliberadamente civis (como as 40 crianças mortas quando o seu veiculo escolar foi bombardeado em agosto por uma bomba guiada de precisão fornecida pelos EUA). A ONU alertou para o facto de o ataque saudita ao principal porto e às instalações de armazenamento de cereais do Iémen poder gerar nos próximos meses a “pior fome do mundo em cem anos”. No entanto, Trump e o governo da primeira-ministra britânica Theresa May continuaram a armar e a defender os sauditas. Quaisquer que sejam as dúvidas que alguns políticos dos EUA e da Grã-Bretanha possam ter sobre este rumo dos acontecimentos em termos de seus respetivos interesses imperialistas, poucos têm exprimido uma indignação proporcional ao crime.

Algumas figuras do Partido Democrata nos EUA e uma grande parte dos meios de comunicação internacionais têm acusado Trump de ser brando em relação aos sauditas devido aos interesses financeiros pessoais dele. O próprio Trump fala dos interesses norte-americanos em termos de contratos de armas. Alegações similares têm sido feitas em relação aos profundos laços entre os fabricantes de armas britânicos e os sauditas. Isso ofusca o ponto mais fundamental: há verdadeiras contradições entre a defesa dos interesses imperialistas e as disputas reais no interior e entre as classes dominantes sobre como fazê-la mas, pelo menos até agora, e provavelmente durante algum tempo, quaisquer que sejam os ajustes que acabem por ser feitos, tem havido um consenso sobre o papel fundamental que a Arábia Saudita desempenha na manutenção da ordem mundial de exploração e opressão há muito dominada pelos EUA, com a Grã-Bretanha a desfrutar de um “relacionamento especial”.

Os seguintes trechos do artigo “Arábia Saudita: Os islamitas cortadores de cabeças favoritos do Ocidente” (SNUMAG de 4 de janeiro de 2016) examinam mais profundamente esta questão. Os números envolvidos e alguma forma de discurso e abordagem são diferentes hoje do que quando esse artigo foi escrito – e, principalmente, com a ascensão do regime fascista de Trump e Pence – mas as dinâmicas fundamentais são as mesmas.

O artigo foi escrito pouco depois de o rei Salman ter chegado ao poder no reino saudita e antes de o príncipe Mohammed bin Salman ter substituído o pai incapacitado como verdadeiro governante do país. O contexto imediato do artigo foi a execução – cortando cabeças com uma espada – de alguns jovens manifestantes e intelectuais que foram considerados uma ameaça à estabilidade da monarquia. Este método de declarar a autoridade pessoal inquestionável e o poder absoluto (simbolicamente, usando a espada dele) do monarca patriarcal sobre os corpos dos seus súbditos recorda o próprio passado feudal da Europa. É este o significado ideológico da exibição em que Trump tão entusiasticamente participou, acenando a sua própria espada durante a cerimónia de espadas realizada em honra da visita dele à Arábia Saudita, não por acaso a primeira viagem dele ao exterior como presidente dos EUA.

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SNUMAG de 4 de janeiro de 2016: Os governantes sauditas devem as suas espadas, no sentido mais vasto, às potências ocidentais. Em novembro, não muito antes das execuções e muito depois de o governo saudita ter anunciado os seus planos de as levar a cabo, o Departamento de Estado de Obama aprovou um pedido saudita de compras no valor de 1,29 mil milhões de dólares norte-americanos em bombas e mísseis. O sítio internet do Departamento de Estado fornece uma assustadora lista de compras, o tipo de munições que a Arábia Saudita e os seus aliados no Golfo têm despejado sobre o povo iemenita numa guerra que já matou pelo menos 5700 pessoas, metade das quais civis, desde que a invasão aérea e terrestre começou em março de 2015. Esta guerra de agressão contra um país que a Arábia Saudita tem tradicionalmente considerado ser um seu legítimo “quintal” não poderia ter sido levada a cabo sem o apoio logístico, o reabastecimento aéreo e as equipas de pontaria fornecidas pelos EUA – este último aspeto fazendo com que Washington seja diretamente responsável pelo bombardeamento de escolas e hospitais.

Embora os fatores sejam complexos, esta guerra, tal como as execuções, está a ser feita em nome da autoridade religiosa da família real saudita contra os xiitas e outros não crentes. (Os rebeldes houthis do Iémen, cuja bandeira religiosa zaydita faz com que a fé deles seja prima do Xiismo, são apoiados pelo Irão – o que está longe de ser o principal fator na revolta dos houthis e outros povos contra o regime apoiado pelos sauditas.) Este é um outro exemplo da forma como os sauditas estão a tentar fazer escalar a dimensão religiosa dos conflitos na região – com o apoio concreto dos EUA.

Obama foi reunir-se pessoalmente com o Rei Salman após a tomada de posse deste há um ano, e o reinado dele tem sido alvo de elogios como estando a inaugurar uma era de reformas, feitos por ocidentais como o importante comentador liberal norte-americano Thomas Friedman (The New York Times, 25 de novembro de 2015 – escrito numa altura em que estas execuções já estavam marcadas). A principal “reforma” feita até agora foi a realização de eleições para órgãos municipais insignificantes e permitir que as mulheres votassem nessas eleições, embora elas não pudessem conduzir até aos locais de voto nem até nenhum outro lugar, nem tomarem nenhuma decisão sem a autorização dos seus guardiões masculinos. Durante o último ano, o regime saudita incrementou as suas execuções, nalguns casos crucificando as vítimas decapitadas e deixando os corpos delas a apodrecer em exibição pública.

A monarquia absolutista saudita exige obediência enquanto “protetora terrestre da Ummah” (a chamada comunidade de crentes) e não na base de um regime religioso direto como o califado do Daesh, governada por um autoproclamado descendente de Maomé. Esta distinção é tanto um perigo à existência da dinastia Saud como, ao mesmo tempo, não é nenhuma grande diferença. A resposta saudita à assinatura específica do Daesh, a determinação deles em exterminarem os xiitas como apóstatas pior que infiéis, é promoverem-se como os maiores exterminadores de xiitas de todos.

As potências imperialistas ocidentais sabiam muito bem em que é que se estavam a meter na relação delas com a monarquia saudita. A Grã-Bretanha ajudou a estabelecer a monarquia em 1932, depois de ter encorajado a ascensão do Wahhabismo (a forma específica do Salafismo associada às autoridades tribais árabes) na sua campanha para absorver o império otomano no seu próprio império. Num tratado de 1945 assinado por Franklin D. Roosevelt, os EUA prometeram manter a monarquia saudita no poder, um pacto renovado por George W. Bush em 2005. Embora os EUA tenham retirado o país à Grã-Bretanha, como parte da substituição da dominação britânica no Médio Oriente, a Grã-Bretanha continua a manter intimas ligações financeiras e militares com a Arábia Saudita. A França, com o presidente socialista Hollande, está agora também a forjar novos vínculos políticos e militares com o regime.

Contudo, a associação da Arábia Saudita ao imperialismo tem transformado profundamente o país e a sua classe dominante. Tal como outros estados do Golfo, tornou-se num importante local de acumulação de capital por direito próprio dentro da economia capitalista globalizada dominada pelas potências imperialistas ocidentais. Isto tem acontecido tanto através, por um lado, da exploração no Golfo de trabalhadores provenientes do mundo muçulmano e de muito mais longe, como, por outro, do investimento de capital saudita e de outros países do Golfo em países muito maiores como o Egito, cuja economia, política e vida religiosa são condicionadas por essa relação.

Sob muitas formas, como a influência política, os subsídios a regimes como o do Paquistão, a doutrinação religiosa de milhões de árabes levada a cabo no Golfo e o patrocínio de grandes instituições religiosas e de “caridade” e de centenas de pregadores televisivos e de órgãos de comunicação social, a Arábia Saudita e outras monarquias do Golfo são os principais vetores que levam o Salafismo moderno ao mundo muçulmano sunita, mesmo quando todos esses países estão cada vez mais firmemente ligados ao mercado internacional e ao sistema capitalista global, com todas as suas inevitáveis rivalidades entre as classes dominantes que só podem acumular capital numa competição mortal umas com as outras.

É verdade, como disse Obama, que a “relação EUA-Arábia Saudita” tem sido inestimável para os EUA e o Ocidente como “força pela estabilidade e segurança no Médio Oriente e fora dele”. Mas, ao mesmo tempo, essa relação tem desempenhado um importante papel na criação das condições para a atual instabilidade na região, onde a continuada dominação dos EUA não está nada segura. Altos riscos requerem medidas desesperadas.