Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 5 de Janeiro de 2009, aworldtowinns.co.uk

O ataque israelita a essa parte da humanidade que vive em Gaza – e a questão da libertação de toda a humanidade

O ataque de Israel ao povo de Gaza é uma questão elementar de certo e errado. Muita gente no mundo actual não compreende isto e é preciso abrir-lhes os olhos. Mas mesmo muitos dos que estão do lado correcto e se opõem ao que Israel está a fazer não têm uma total compreensão de por que isto está a acontecer e o que se pode e deve fazer em relação a isto.

Uma questão elementar de certo e errado

O novo Presidente norte-americano Barack Obama, ainda durante a campanha eleitoral, deu a opinião mais clara possível em relação à posição dos EUA e de Israel e, segundo disseram recentemente os seus assessores, não mudou de ideias.

“Se alguém estivesse a atirar foguetes sobre a minha casa, onde dormem à noite as minhas duas filhas, eu iria fazer tudo o que pudesse para acabar com isso. E esperaria que os israelitas fizessem a mesma coisa.”

Mas, e se alguns arruaceiros entrassem em vossa casa, matassem o vosso pai e violassem a vossa mãe e depois forçassem os sobreviventes a viver num terreno vazio enquanto os ladrões construíam um condomínio no local onde estava a vossa casa? E se, duas décadas mais tarde, tendo aumentado em número e precisando de mais espaço, esses ladrões decidissem ocupar também grande parte desse terreno antes vazio?

Não falta documentação sobre a forma como os colonos judeus ocuparam a Palestina e levaram a cabo uma limpeza étnica contra os seus habitantes. Com início ainda antes da fundação de Israel, quase um milhão de pessoas – metade da população da Palestina nessa altura – foram expulsas para fora das fronteiras do futuro estado judaico. Na década seguinte, foram expulsos outros 300 mil palestinianos. Os colonos judeus da Europa e de outros lugares, que constituíam menos de 10% da população dessa terra nessa altura, ocuparam mais de metade da Palestina. Mais tarde, em 1967, de novo com o apoio dos imperialistas liderados pelos EUA, Israel ocupou todos os restantes territórios palestinianos na Cisjordânia e em Gaza, uma estreita faixa de terra entre o deserto e o mar. Novos colonatos judeus, com o apoio do exército, foram instalados nas zonas mais desejáveis da Cisjordânia. Os palestinianos foram empurrados, até agora, para cerca de 22% da sua terra original, e mesmo aí, os israelitas ficaram com grande parte da água, além do controlo armado de quase todos os aspectos da vida pública. Israel retirou as suas tropas de Gaza em 2005, mas manteve o controlo das suas fronteiras, da sua costa marítima e do seu espaço aéreo. Um em cada cinco palestinianos estão aí encarcerados, num lugar que corresponde a 2% do que já foi a Palestina.

As pessoas que sofrem o impacto da agressão israelita a Gaza já passaram antes por isto. Tal como muitos dos seus vizinhos, a família das cinco crianças irmãs mortas num bombardeamento israelita antes da agressão terrestre é originária do que é actualmente a cidade de Ashkelon, no sul de Israel, hoje cheia de colonos trazidos do estrangeiro e que as autoridades israelitas alegam estar a defender ao atacarem Gaza.

A forma como a ministra israelita dos negócios estrangeiros Tzipi Livni apresentou as razões de Israel para esta guerra invertem o que está certo e errado. Ela disse que o objectivo era “dar paz e sossego aos cidadãos do sul de Israel”. Porque é que as pessoas que moram nos mesmos lugares de onde os residentes de Gaza foram expulsos devem dormir bem à noite? E se elas estão de alguma forma em perigo, quem é que criou essa situação? Em casa de quem é que elas estão a viver?

(Para mais informações sobre o assunto, ver “Israel aos 60 anos: de mal a pior” no SNUMAG de 12 de Maio de 2008 e “A “Nakba”: A limpeza étnica e o nascimento de Israel” no SNUMAG de 10 de Dezembro de 2007, bem como o livro de Ilan Pappé em que ele se baseia e o livro do historiador israelita “Calling a Spade a Spade: The 1948 Ethnic Cleansing of Palestine”, www.badil.org/al-majdal/spring2006.)

O alvo mais global de Israel em Gaza são as pessoas

Na minúscula Gaza (10 x 45 quilómetros) vivem 1,5 milhões de pessoas, a mais elevada densidade populacional do mundo. Metade são crianças. Os porta-vozes israelitas vangloriam-se de quão humanitários são porque fazem telefonemas e despejam panfletos a avisar os residentes para que evacuem as suas casas. Para onde é que eles podem ir? Atingidos por navios israelitas ao longo de toda a costa e por tanques, artilharia e aviões no norte e no leste, e enfrentando a sul o exército do regime egípcio, dependente dos EUA, eles estão encurralados. Enquanto todos os residentes de Ashkelon e outras cidades israelitas podem procurar refúgio em abrigos robustos e bem abastecidos, as pessoas em Gaza não têm nada. Muitas delas nem sequer têm verdadeiras casas. Como salientam os palestinianos, os “avisos” israelitas não são um gesto humanitário – são uma típica mistura israelita de hipocrisia e tortura.

A ministra israelita dos negócios estrangeiros, Livni, e outras autoridades alegam repetidamente que não há nenhuma crise humanitária em Gaza. Só quem seja totalmente desumano pode dizer isto. Nos primeiros dias da agressão, eles vangloriaram-se de estarem a deixar entrar cerca de 40 a 50 camiões de alimentos e outros bens por dia em Gaza – menos de dez por cento do que as pessoas necessitam para comer, e isto depois de um bloqueio de 18 meses. Há pouca comida e combustível para cozinhar. Não há água potável porque Israel não permite a entrada de substâncias químicas em quantidade suficiente. Os esgotos correm a céu aberto nas ruas porque não há electricidade para as bombas e para o seu tratamento. A escuridão à noite na Cidade de Gaza atesta a quase completa falta de electricidade. (Ver “If Gaza falls” [“E Se Gaza cair”], de Sara Roy, na London Review of Books, 1 de Janeiro de 2009.)

São estas as cada vez mais severas condições que as pessoas vêm enfrentando em Gaza há ano e meio – durante o que supostamente foi uma trégua entre Israel e o Hamas. Israel diz que o seu alvo é o Hamas, e é verdade que os sionistas têm feito o melhor que podem para vergarem ou quebrarem essa organização fundamentalista islâmica desde que o Hamas ganhou as primeiras eleições em Gaza. Esta política começou pouco depois de o exército israelita ter retirado, antes de o Hamas ter tomado o poder à chamada Autoridade Palestiniana [AP], quando o anteriormente eleito Presidente da AP Mahmoud Abbas se recusou a reconhecer a vitória do Hamas. Por isso, é mentira que o que as autoridades israelitas agora alegam ser a fonte do problema tenha sido o “golpe de estado” do Hamas.

Nos primeiros dias da invasão terrestre, os hospitais de Gaza relataram que a vasta maioria das vítimas eram civis. Com poucos medicamentos, equipamento, sangue ou electricidade, com todas as camas há muito ocupadas e até com os corredores cheios de feridos, a situação nos hospitais de Gaza é um inferno. Um médico de emergência norueguês que esteve noutras guerras disse que era a pior situação que alguma vez tinha visto (International Herald Tribune, 5 de Janeiro). Ao mesmo tempo, Israel não está a autorizar que mais que um pequeno punhado simbólico de pessoas seja evacuado para hospitais situados noutros lugares. Está mesmo a visar deliberadamente ambulâncias e equipas médicas com a desculpa de que podem estar a transportar foguetes.

Trata-se claramente de políticas que visam extorquir um elevado preço à população civil de Gaza. Os nazis também se baseavam no castigo colectivo, reunindo e executando civis como vingança por actos de resistência de outros, não necessariamente em raiva, mas com um cálculo a sangue-frio de que isso faria parar o apoio à resistência. Isso é um crime de guerra – mas não vale a pena retermos a nossa respiração à espera que a liderança israelita seja arrastada perante o tribunal internacional de Haia.

Será que o Hamas deve ser responsabilizado por isto? Uma mulher de um campo de refugiados no norte de Gaza explicou-o assim ao canal de televisão Al-Jazeera: “Eles (Israel) sempre nos têm atacado, muito antes de o Hamas sequer existir”.

Este tipo de coisas tornou-se inevitável desde que Israel nasceu

Israel nasceu de uma confluência de três coisas más: uma posição de “o meu povo primeiro” (problemático em qualquer povo), uma ideologia de construir magicamente uma nação de imigrantes espalhados pelo globo juntado a terra à religião e o apoio das potências imperialistas ocidentais, primeiro a Grã-Bretanha e, durante as últimas quatro décadas, os EUA, enquanto Israel se tornava num posto avançado estratégico dos Estados Unidos no Médio Oriente. Sem isso e sem os três mil milhões de dólares por ano que vêm com isso, o sionismo poderia nunca ter passado de uma ideia de loucos.

Israel sempre viu e sempre continuará a ver ameaças à sua existência enquanto estado judeu, porque a sua existência está ameaçada em resultado das próprias coisas que foram feitas para o fundar e para o manter. Podemos aprender com Benny Morris, o conhecido historiador israelita que, tal como o também académico Ilan Pappé, expôs os massacres que estão no coração da fundação de Israel mas que, ao contrário de Pappé, mais tarde decidiu que a existência de Israel valia esses crimes. A sua evolução demonstra a impossibilidade de reconciliar o sionismo com qualquer tentativa de abarcar toda a humanidade. Um recente e importante ensaio de Morris listava as quatro “ameaças imediatas” a Israel: o Irão (um regime reaccionário cuja mais forte alegação de credibilidade é a sua oposição a Israel), o Hezbollah do Líbano (o alvo da última invasão israelita em larga escala, em 2006, que ficou ainda mais poderoso após essa guerra), o Hamas e os restantes 1,3 milhões de palestinianos com cidadania israelita (de segunda classe) e que ele etiqueta de “quinta coluna” “radicalizada”. O problema, diz Morris, é que com o seu mais elevado coeficiente de natalidade, eles vão ultrapassar em breve os cidadãos judeus de Israel e, por isso, devem ser “transferidos” – violentamente postos fora. Pior, “os palestinianos (os árabes israelitas bem como os que vivem na Cisjordânia e na Faixa de Gaza) constituirão a maioria da população da Palestina (a terra situada entre o Rio Jordão e o Mediterrâneo)” (International Herald Tribune, 31 de Dezembro de 2008).

Não chegou terem desapropriado antes os palestinianos. Enquanto viverem, eles são uma ameaça para Israel. Em Fevereiro passado, o Vice-Ministro israelita da Defesa, Matan Vilnai, avisou que Gaza estava a enfrentar um “shoah”, a palavra hebraica para Holocausto, um termo religiosamente tingido para referir o genocídio nazi dos judeus da Europa (Guardian, 29 de Fevereiro de 2008). Ele não escolheu essa palavra como crítica ao seu país, mas para ameaçar todo o povo de Gaza.

Morris e outros alegam que a sua preocupação é que “demasiados” palestinianos tornariam impossível um “estado judeu democrático”. Mas, embora os governos de Israel sejam eleitos, o seu sistema político nem sequer finge basear-se na igualdade formal de todos os cidadãos, ao contrário de outros países ocidentais. O sionismo, por definição, significa o domínio judeu armado sobre todos os palestinianos e uma negação dos seus mais elementares direitos.

Uma década e meio de negociações entre Israel e os palestinianos não resultou em nada senão no que hoje se está a passar. Haverá alguma razão para acreditar que qualquer possível “solução de dois estados” iria resultar numa existência palestiniana muito diferente da que temos visto em Gaza – e, também, para o caso, na Cisjordânia? O problema não pode ser resolvido enquanto existir o estado judaico.

Os sionistas e os fundamentalistas islâmicos são irmãos inimigos assimétricos

Quando Israel expulsou a maioria dos palestinianos em 1948 e depois ocupou Gaza e a Cisjordânia em 1967, o Hamas não existia e o fundamentalismo islâmico tinha uma influência limitada. Embora se tenham conjugado factores muito diferentes para causar a ascensão do fundamentalismo religioso a Oriente e a Ocidente, e especificamente no Médio Oriente, e sem defendermos o ponto de vista tolo de que a história é guiada por conspirações, há uma ampla evidência de que inicialmente Israel acolheu bem e encorajou a ascensão do Hamas.

“Israel ajudou directamente o Hamas – os israelitas queriam usá-lo como contrapeso à OLP (Organização de Libertação da Palestina)”, explica Anthony Cordesman, um importante perito militar reaccionário ocidental. Isso “foi uma tentativa directa de dividir e diluir o apoio a uma OLP forte e laica usando uma alternativa religiosa concorrente”, disse um antigo responsável da CIA (“Hamas history tied to Israel” [“A história do Hamas está ligada a Israel”], UPI, 18 de Junho de 2002). Israel assassinou dirigentes da OLP e forçou a sua liderança a mudar a sua base para Beirute, no Líbano, e acabou por expulsá-la para a Tunísia, deixando o terreno livre para o Hamas. A CIA ajudou nesse esforço, na linha da sua abordagem global de ajudar e armar grupos fundamentalistas islâmicos para combaterem a União Soviética no Afeganistão e noutros lugares e, neste caso, para minar a OLP. (Para uma descrição detalhada, ver Robert Dreyfuss, Devil's Game [O Jogo do Diabo], Henry Holt and Company, New York, 2005, sobretudo as págs. 207-213.)

Os EUA e Israel fizeram tudo o que puderam para debilitar e humilhar a OLP, mesmo quando a sua liderança começou a tomar o caminho de procurar uma coexistência com Israel. Agora que a OLP ficou completamente corrupta e um instrumento às mãos dos norte-americanos e israelitas, eles continuam a humilhá-la constantemente. Isto tem sido um outro factor de crescimento da influência do Hamas.

O Hamas tem tido uma relação complicada com Israel porque a sua identidade não se baseia no nacionalismo (embora sirva de receptáculo de sentimentos nacionais) mas na religião. O seu mais alto objectivo não é a libertação do povo palestiniano, mas a instauração de um estado islâmico. O seu líder em Gaza, o primeiro-ministro da Autoridade Palestiniana Ismail Haniyeh, repetiu recentemente o que desde há muito tem declarado: se Israel parar os seus ataques e abrir as fronteiras, “será possível falar em todos os assuntos sem excepção”. Khaled Meshal, o principal líder do Hamas, no exílio, disse que em troca de uma solução de dois estados baseada nas fronteiras de Israel de 1967, o Hamas aceitaria uma trégua que poderia durar “uma infinidade” (Haaretz, 2 de Janeiro de 2008). O Hamas descreve os seus lançamentos de foguetes não como uma tentativa de derrotar Israel – o que claramente não podem fazer – mas como um esforço para forçar Israel a aceitar esse compromisso. “Se a fórmula de ‘resistência e pragmatismo’ do Hamas falhar”, avisa um comentador num jornal de Telavive, “forças muito mais negras já estão a crescer à sombra das ruínas de Gaza, prontas para tomarem o seu lugar” (Haaretz, 2 de Janeiro de 2008).

Israel passou a odiar o Hamas por razões maiores que o próprio Hamas. Uma delas é o futuro que o sionismo reserva ao povo palestiniano e a necessidade de Israel demonstrar a sua desumanidade e o seu poder. Outra é a ascensão do fundamentalismo islâmico, sobretudo a República Islâmica do Irão, como obstáculo aos interesses dos EUA no Médio Oriente e um perigo para Israel. A realidade não deve ser posta de pernas para o ar: Israel tem oprimido e continuará a oprimir os palestinianos e a fazer pior, não devido ao fundamentalismo islâmico (ou a qualquer genuína resistência) mas devido às suas próprias necessidades e lógica. Contudo, embora Israel e o Hamas sejam inimigos, cada um é o melhor inimigo que o outro poderia desejar ter.

Alguns problemas que temos de enfrentar

O objectivo da criação de um estado islâmico não é uma outra expressão da libertação palestiniana, embora não haja nenhuma razão para duvidar que os fundamentalistas islâmicos desejem ver Israel destruído mais cedo ou mais tarde. Se o Hamas conseguisse atingir os seus objectivos declarados e substituir Israel por “judeus, muçulmanos e cristãos a viverem sob a soberania de um estado islâmico” (Entrevista ao líder do Hamas Mahmoud al-Zahar, Jerusalem Post, 2 de Abril de 2006), isso não seria nenhuma libertação. Iria simplesmente encarcerar os palestinianos na actual ordem mundial dominada pelos imperialistas e em relações de opressão com uma forma diferente mas não menos odiosa. De facto, soa a um Israel islâmico, um objectivo repugnante mesmo que impossível, dadas as necessidades dos EUA.

Além disso, a liderança, o programa e a ideologia do Hamas são um factor negativo que se atravessa no caminho do desenvolvimento de um programa político e de uma estratégia que visem a libertação total do povo palestiniano da rede global de relações económicas e sociais em que está aprisionado, o que requer a destruição do estado sionista. Como se pode ver agora de uma forma muito aguda, à luz das labaredas, das bombas e dos disparos dos tanques israelitas, a liderança e a ideologia do Hamas dificultam que a luta palestiniana coloque em jogo os factores positivos que realmente existem. As próprias condições que fazem com que Israel e os seus apoiantes norte-americanos estejam tão decididos a impor a “paz e o sossego” dos cemitérios são uma outra indicação das potenciais forças que os palestinianos estão hoje a não usar.

A libertação da Palestina é tão difícil de imaginar nas actuais circunstâncias mundiais devido à centralidade da contradição Palestina/Israel para os interesses imperialistas norte-americanos e neste momento para a investida global dos EUA que visa obter o controlo e transformar o grande Médio Oriente como plataforma central da hegemonia mundial. Mas essa mesma situação também é uma potencial fonte de uma enorme força para a causa palestiniana. Os povos da região olham para a Palestina não só porque não suportam a injustiça mas também porque sentem a relação entre a Palestina e a sua própria existência intolerável sob regimes que não ousam opor-se a Israel devido à sua própria dependência em relação aos EUA e devido aos sistemas sociais retrógrados que não estão à altura da actual ordem mundial imperialista. Sem fazer nenhuma concessão às tentativas da máquina de guerra israelita de pintar os seus crimes como autodefesa, na realidade os sionistas são um minúsculo punhado na região e são odiados por muitos dos povos do mundo.

Isto também se aplica a nível global – o sistema imperialista é muito poderoso, mas a Palestina é um potencial ponto fraco e situa-se no vórtice das contradições mundiais de hoje.

“As pessoas estão a morrer e ninguém nos vem ajudar”

Estas palavras ditas por uma menina de Gaza são lancinantes porque estão muito perto da verdade. Claro que não se trata de “ninguém” não fazer nada. Tem havido grandes manifestações em todos os continentes. Mas é verdade que nenhuma potência imperialista – os países com o poder para fazerem algo – se preocupa com a morte de palestinianos, que os regimes da região nunca erguerão um dedo para os ajudar e que os movimentos revolucionários dos povos do mundo pura e simplesmente não são assim tão fortes neste momento.

A libertação da Palestina foi, em décadas anteriores, uma importante bandeira das lutas contra o sistema imperialista em todo o mundo. Da mesma forma, as derrotas da luta na Palestina surgiram com o enfraquecimento global da vaga revolucionária. Essas lutas não podem pura e simplesmente ser reavivadas assim. O mundo actual é diferente. Há novos fenómenos a analisar e novos obstáculos a superar. A corrente nacionalista revolucionária das décadas anteriores esgotou-se e atingiu os limites do que poderia obter com a sua perspectiva, numa situação mundial em mudança, e tornou-se não-revolucionária, como a OLP que hoje controla a Autoridade Palestiniana. A ascensão do fundamentalismo islâmico surgiu em parte como reacção desesperada a essa traição e, contudo, também representa um beco sem saída.

Para usar o exemplo da invasão do Iraque, vimos como o predomínio das várias formas de fundamentalismo islâmico e outras tendências reaccionárias entre as forças contra a ocupação desse país ajudaram a alimentar a ideia errada e nefasta de que a única escolha era entre a ocupação imperialista e o domínio islâmico. Isso estrangulou a resistência do povo iraquiano e desencorajou o movimento de protesto verdadeiramente global que atingira uma grande dimensão na véspera da invasão.

Não devemos deixar que as mentiras norte-americano-israelitas predominem, as de que os que odeiam Israel e apoiam a Palestina têm que engolir o fundamentalismo islâmico. No Médio Oriente e noutros países historicamente muçulmanos, as expressões populares de apoio à Palestina foram apanhadas no nó estrangulador de forças religiosas com o seu próprio programa não libertador, frequentemente envolvidas numa relação ambígua com regimes dependentes dos EUA – como o Egipto, a Jordânia, a Turquia e a Indonésia – ou, por outro lado, visando amarrar uma justa indignação a fins estreitos e reaccionários, como na República Islâmica do Irão.

No grau em que a criminosa invasão israelita de Gaza for projectada como uma luta entre religiões guerreiras, também isso é um factor negativo na capacidade da Palestina desfrutar de tudo o que deveria em termos de apoio dos povos do mundo, incluindo o de muitos judeus, mesmo alguns em Israel. Este enquadramento tem-se tornado muito robusto, por falta de oposição a ele e porque aparenta apresentar as únicas alternativas “realistas” nesta altura, embora os acontecimentos de hoje devessem ter mostrado o beco sem saída que representam as duas alternativas de base religiosa. Isto deixa a justa fúria de muita gente sem uma expressão adequada.

Algumas pessoas estão abertas a uma compreensão científica da causa palestiniana e da relação entre a vitória dessa causa e o progresso da luta para acabar com o injusto e desnecessário sistema imperialista mundial que asfixia toda a humanidade. Se elas trabalharem para que elas próprias e outros saiam desse enquadramento de o-sionismo-contra-o-fundamentalismo-islâmico, em vez de alinharem nele, elas poderão representar um papel crucial tanto para abrirem novos olhos para os crimes de Israel e para as razões por trás disso como para desencadearem um muito mais vasto apoio à Palestina do que o que temos visto até agora – um apoio que ela objectivamente merece, precisa e poderia ter hoje. Na própria Palestina, só rompendo com esse enquadramento do Sionismo contra o Islão e adoptando uma compreensão científica poderá ser possível escapar ao cativeiro físico, político e ideológico que as pessoas sofrem de uma forma tão intolerável.

(Ver também “A limpeza étnica da Palestina: Uma necessária correcção e clarificação)