Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 6 de Setembro de 2004, aworldtowinns.co.uk

Massacre numa escola no sul da Rússia: Quem são os responsáveis?

O assassinato de centenas de crianças em Beslan na Ossétia do Norte (Rússia meridional) foi monstruoso. Até ao momento em que escrevemos, o governo russo fez declarações contraditórias sobre a identidade dos sequestradores e os seus objectivos políticos. Mas sabe-se o suficiente para indicar claramente a enorme culpa do governo russo e dos vários governos ocidentais que apoiaram Presidente Vladimir Putin neste crime, seja por cumplicidade, seja por rivalidade com os governantes da Rússia.

O primeiro facto que ninguém pode negar é que a gigantesca matança começou quando as tropas russas atacaram violentamente a escola. De acordo com o jornal francês Le Monde, “Muita gente em Beslan culpa as forças da ordem e acusa-as de provocar o massacre”. As autoridades tinham anunciado que as vidas das crianças eram o mais importante e que não tinham nenhum plano para organizar um ataque que as pudesse pôr em perigo, e contudo foi exactamente isso o que fizeram.

Mesmo o governo holandês, que detém actualmente a presidência da União Europeia, enviou o seu embaixador para exigir que Moscovo explicasse “como é que esta tragédia pôde ter ocorrido”. Iradamente, o ministro do exterior russo chamou a isso “blasfémia”.

O núcleo central das tropas russas enviadas para Beslan era a brigada Alfa das Forças Especiais da Rússia. Essa força de ataque de elite baseia-se nas Forças Delta dos EUA, nas SAS britânicas e nas unidades da Mossad israelita. Quando, há quase dois anos, os rebeldes chechenos tomaram de assalto o teatro Dubrovka em Moscovo, foi enviada a brigada Alfa. A maioria dos 129 reféns mortos morreu quando as forças de segurança inundaram o teatro com um gás venenoso. De acordo com o jornal britânico The Guardian, a brigada Alfa entrou então no edifício através dos esgotos e deu um tiro na cabeça das 18 sequestradoras inconscientes. Matar tanto reféns como sequestradores é o procedimento padrão da brigada Alfa. De uma maneira ou de outra, parecem tê-lo feito novamente em Beslan.

Para Putin, a única coisa que importou em Beslan foi afirmar a sua autoridade e o seu poder de esmagar qualquer ameaça ao seu regime. Independentemente de quem tenham sido os sequestradores, a acção estava ligada à invasão e ocupação russa da Chechénia, e Putin tratou-os do mesmo modo que as suas tropas e polícias tratam todos os chechenos, sejam guerrilheiros ou gente comum: matando-os indiscriminadamente.

Este vínculo com a guerra da Chechénia é o segundo facto que ninguém pode negar e contudo parece que todas as autoridades políticas do mundo o fizeram. Nenhum governo mais importante mencionou a Chechénia antes, durante ou depois desta crise. Pelo contrário, todos partilharam a atitude expressa por Israel que prometeu aumentar a cooperação com a Rússia “na luta contra o terrorismo levado a cabo pela jihad islâmica mundial”. Trata-se de uma expressão racista para justificar a guerra contra os povos do Médio Oriente e de uma grande parte do terceiro mundo.

A guerra na Chechénia não tem a ver com religião. Mais, independentemente do horror de Beslan, tem que se dizer que agir como se a Rússia fosse a vítima é virar a realidade completamente de cabeça para baixo.

A tomada do ginásio de Beslan, bem como os recentes atentados contra dois aviões que saíram de Moscovo e um atentado-suicida no metro de Moscovo, acontecem em simultâneo com as eleições presidenciais de Agosto na Chechénia, um exercício russo em cinismo e desumanidade. O último presidente fantoche dos russos na Chechénia, Akhmad Kadyrov, uma besta que aterrorizava o país juntamente com o seu filho e chefe de segurança, foi assassinado em Maio passado. As eleições deram 74 por cento dos votos ao candidato do Kremlin, Alu Alkhanov. O jornal New York Times descreveu o candidato que ficou em segundo lugar nas eleições como “o candidato de reserva de Moscovo para o caso de Alkhanov ser morto antes do dia das eleições”. Jornalistas da BBC que tinham visitado secções de voto onde foram contados milhares de votos para Alkhanov disseram que não tinham visto lá ninguém durante todo o dia. O Times relatou o modo como um jornalista russo demonstrou a fraude das eleições ao votar ele próprio quatro vezes. “Eu poderia ter votado ainda mais vezes, mas tinha que escrever o meu artigo”, explicou ele.

Historicamente, os chechenos são uma das muitas nacionalidades oprimidas pela Rússia nas montanhas do Cáucaso. Depois do colapso da União Soviética, a pequena República da Chechénia tentou afastar-se da Federação Russa. A Rússia invadiu-a em 1994, mas dois anos depois foi obrigada a retirar-se, numa derrota temporária. A Chechénia obteve uma autonomia significativa e Aslan Maskhadov, que tinha sido chefe de gabinete no tempo dos russos, tornou-se presidente. Em 1999, enfrentando um crescente movimento independentista, Putin iniciou outra invasão e derrubou Maskhadov.

Bombardeamentos aéreos, invasões de aldeias, esquadrões da morte, assassinatos e tortura generalizada – em suma, os ocupantes russos combateram de um modo muito semelhante aos EUA no Iraque. A Chechénia tem menos de um milhão de habitantes. Algumas fontes calculam que quase um quarto da população morreu durante as ocupações russas, e outro terço tornaram-se refugiados.

Escrevendo para o jornal The Guardian, um colunista britânico comparou a guerra da Rússia na Chechénia com a dos EUA no Vietname. A sua política, explicou ele, é melhor descrita por uma citação do General dos EUA William Westmoreland. Quando um repórter chamado Neil Sheehan lhe perguntou “se ele não ficava perturbado com o número de civis vietnamitas mortos pelos bombardeamentos indiscriminados, o general respondeu, ‘Sim, Neil, isso é um problema, mas priva o inimigo da população, não é?’ ”

As razões por que a Rússia não foi chamada a responder pelos seus crimes perante a opinião pública mundial são complexas. Poderiam ser descritas como uma conspiração de grandes potências na qual os intervenientes têm interesses contraditórios. Os presidentes da França e da Alemanha reuniram-se com Putin na sua residência de verão no complexo de Sochi, no Mar Negro, logo após as eleições da Chechénia e imediatamente antes da crise de Beslan e não deixaram nenhuma pergunta embaraçosa nem críticas. Para esses países, a força militar considerável dessa antiga superpotência que ainda mantém um enorme arsenal nuclear faz dela um potencial elemento-chave no desenvolvimento de uma coligação política rival que poderia desafiar os esforços imperialistas norte-americanos de conquistar o mundo inteiro só para si. Após o massacre, “a solidariedade com o povo russo” (de facto com Putin) do Presidente francês Chirac contrastou nitidamente com as suas críticas aos EUA por agirem de modo semelhante no Iraque. A Grã-Bretanha e a Itália emitiram garantias semelhantes de continuação do respeito pelo criminoso Putin. George Bush disse que o incidente era “outra lembrança horrenda da extensão em que os terroristas irão ameaçar o mundo civilizado”, no fundo apoiando a afirmação de Putin (e de Israel) de que todo este incidente se deveria ao Islão.

A Ossétia do Norte, a República da Federação Russa onde fica Beslan, é onde se situa uma das maiores instalações militares russas na região e representou um papel chave nos esforços russos para manter o Cáucaso sob seu controlo. O seu povo é considerado particularmente pró-russo entre os pequenos estados que vão do Mar Cáspio ao Mar Negro.

Os jornalistas às vezes descrevem os povos do Cáucaso como ameaçadores, mas as grandes potências imperialistas há muito tempo que transformaram esta região num campo de batalha dos seus interesses contraditórios. É essa a mais importante causa da ferocidade que tem caracterizado os recentes conflitos locais. No seu plano para montar um anel de regimes amigos dos EUA e de bases militares em torno dos flancos meridionais da Rússia, os EUA transformaram a Geórgia num importante peão actualmente em seu poder. A Rússia, por sua vez, apoiou as tentativas de nacionalidades minoritárias para se separarem da Geórgia, incluindo a Ossétia do Sul. A Rússia há muito que acusa os EUA de apoiarem as forças independentistas chechenas. Um indício que parece prová-lo é o facto de a Grã-Bretanha e os EUA terem dado asilo a ministros do governo de Maskhadov derrubado por Putin, os quais continuam politicamente muito activos.

A complexa situação das forças chechenas de resistência reflecte tudo isso. No passado, a Rússia considerou Maskhadov útil como uma potencial figura neocolonial e aparentemente os EUA têm hoje algumas esperanças nele e nas forças que ele representa para servir os seus interesses. Alguns observadores dizem que o fracasso de Maskhadov em enfrentar a intransigente brutalidade russa é uma das causas da criação do vazio político em que surgiram as forças fundamentalistas muçulmanas. Parece que uma das características que tem favorecido esse desenvolvimento é que essas forças são vistas como não tendo assumido compromissos com as grandes potências. Costuma-se salientar que muitos dos actuais bombistas-suicidas da Chechénia são as viúvas, órfãos e outros familiares dos homens torturados e mortos pelos russos.

Tornando isto ainda mais complicado é o facto de muitos membros do movimento independentista checheno terem desempenhado funções no tempo dos russos, quando a Rússia gastava dinheiro à vontade para comprar a lealdade dos senhores feudais e de outros notáveis da Chechénia. Muitos desses homens têm lealdades inconstantes. Diz-se que as forças de segurança russas estão completamente infiltradas por simpatizantes da Chechénia e vice-versa. Uma vez mais, isso não difere das relações dos EUA com algumas forças islâmicas. Kadyrov, o fantoche russo assassinado em Maio, morreu quando uma bomba explodiu sob a sua cadeira quando falava numa reunião num estádio. Pode ter sido lá colocada por membros dos seus próprios serviços de segurança. Em suma, a situação é muito nublosa e, independentemente de que grupo tenha sequestrado as crianças em Beslan, provavelmente nem eles próprios tinham alguma ideia de para quem realmente estavam a trabalhar.

Quaisquer que possam ter sido os objectivos conscientes dessas pessoas, deve ficar claro que o conflito da Chechénia nada tem a ver com religião ou com o tipo de guerra “irracional” contra o Ocidente com que Putin, Sharon e Bush o etiquetaram. Tal como noutros países da região e em muitas partes do mundo, estão em marcha tanto as justas lutas dos povos como as maquinações das potências imperialistas.