Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 24 de Fevereiro de 2003, aworldtowinns.co.uk

Livros: “Bush em Guerra”

Um livro recentemente publicado, “Bush em Guerra”, alega ser a história interna dos debates e planeamento do círculo próximo de George Bush de fabricação da guerra – Dick Cheney, Don Rumsfeld, Condoleeza Rice e Colin Powell. O livro, da autoria de Bob Woodward, jornalista norte-americano famoso pelo seu papel na exposição do escândalo de Watergate nos anos 60 – que levou à resignação do muito odiado presidente dos EUA, Richard Nixon. Muitas pessoas estão a ler esse livro na esperança de encontrar uma perspectiva verdadeira do funcionamento interno do governo dos EUA.

Infelizmente, Woodward parece já não ter muito de repórter de investigação. É difícil imaginar um jornalista, que se chame a si próprio um profissional, a escrever a história de um crime e a usar uma entrevista ao criminoso como sua única fonte. O livro é pouco mais que a versão do próprio Bush sobre a sua agressão ao Afeganistão após o 11 de Setembro de 2001, cuidadosamente polida e embelezada. Omite o assassinato de centenas de homens pela CIA num acampamento de prisioneiros de guerra, os cativos que foram presos em contentores herméticos e deliberadamente sufocados até à morte, as festas de casamento bombardeadas, os milhares de outros civis mortos por bombas norte-americanas, e toda a gama de crimes de guerra pelos quais Bush é responsável.

Ainda assim, o leitor pode aprender algumas coisas do que Bush e os seus principais homens orgulhosamente contam ao autor.

O primeiro ponto que salta à vista é que para Bush e o seu círculo próximo, os ataques de 11 de Setembro em Nova Iorque e no Pentágono, foram, para citar uma palavra que aparece frequentemente, uma oportunidade.

“Esta é uma grande oportunidade... Nós temos que pensar nisto como uma oportunidade”, Bush disse pouco depois. “Este é um mundo novo. O General Shelton deveria voltar aos generais à procura de novos alvos [para atacar militarmente]. Esta é uma oportunidade.”

Dick Cheney: “Há uma semana, antes de 11 de Setembro, estávamos preocupados com todas as nossas posições no Médio Oriente – onde estávamos em relação aos sauditas, aos turcos e a outros na região. Agora todos eles desejam fazer parte dos nossos esforços, e isso é uma oportunidade. Nós precisamos de agarrar essa oportunidade.”

Ainda ardiam as cinzas do World Trade Center, e já Bush e o seu bando agarravam alegremente a oportunidade para iniciar um esforço global de expandir e consolidar o império norte-americano. Mesmo a descrição embelezada de Woodward desses monstros não pode impedir que passem algumas das suas horripilantes características.

Nesses primeiros dias da “guerra ao terrorismo”, já Rumsfeld argumentava que Bush deveria enfatizar publicamente o perigo de que “armas de destruição em massa” pudessem ser usadas contra os EUA. Não porque houvesse qualquer evidência de alguma ameaça iminente, mas porque, “seria mobilizador para o povo norte-americano”.

Nas próprias palavras de Bush, também podemos ver não só o seu ódio pelas massas populares de todo o mundo, mas também o seu desprezo pelos seus próprios aliados, ou melhor dito, estados vassalos. “Bem, nunca iremos conseguir pôr toda a gente de acordo sobre a força e o uso da força... Mas a acção – uma acção confiante que obtenha resultados positivos – fornece o tipo de fluxo atrás do qual as nações e líderes relutantes se podem encontrar...” Ao agir por si próprio, sem as restrições do direito internacional e da opinião mundial, ou mesmo dos sentimentos dos seus aliados, os EUA iriam criar uma “realidade de referência” que forçaria todas as outras classes dominantes do mundo a adaptar as suas próprias ambições ao ambiente que os EUA estariam a criar.

Bush em Guerra” pretende ser a história verdadeira das lutas nos círculos dominantes dos EUA entre Colin Powell, o diplomata principal dos EUA, e os “duros”, o vice-presidente Cheney e Secretário da Defesa Don Rumsfeld. Powell é citado como advertindo Bush da necessidade de ajuda, apoio e cobertura diplomática para a sua desejada guerra contra o Iraque, face ao perigo de uma explosão no Médio Oriente e no mundo. Quanto a Bush, nos dias a seguir ao 11 de Setembro predisse que “em dois anos pode ser que só os ingleses estejam connosco”, mas ele ainda assim sentia a necessidade de usar a diplomacia de Powell como mais uma “bomba inteligente” do arsenal imperialista de morte e destruição dos EUA.

O livro termina citando uma cerimónia de agentes da CIA e de operacionais das Forças Especiais celebrada no Afeganistão em honra das vítimas do 11 de Setembro. “Exportaremos morte e violência para os quatro cantos da Terra em defesa da nossa grande nação.” Como vimos, esse é um compromisso que podemos contar que Bush e o seu bando de criminosos manterão.

Bush at War [Bush em Guerra]
Bob Woodward
Simon & Schuster
Nova Iorque, 2002
Edição portuguesa: Gradiva, 2003
Edição brasileira: ARX, 2003