Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 22 de Junho de 2009, aworldtowinns.co.uk

Irão — Uma estrutura de poder fracturada mas longe de destruída

Manifestação na Rua Valiasr, Teerão, 13 de Junho
Manifestação na Rua Valiasr, Teerão, 13 de Junho. (Foto: Olivier Laban-Mattei/AFP/Getty Images)

A fúria continua a varrer o Irão. Os jovens estão preparados para dar as suas vidas no confronto com um regime brutal. Os pilares da estrutura do poder do Irão foram abalados e fracturados.

Nos serviços das orações de sexta-feira, 19 de Junho, o “Líder Supremo” Aiatola Ali Khamenei colocou-se firmemente ao lado do Presidente Mamhoud Ahmadinejad na sua disputa eleitoral com a oposição e anunciou que qualquer tentativa de repetir os protestos que duram há uma semana seria esmagada. Apesar disso, milhares de jovens e outras pessoas saíram às ruas no dia seguinte, sabendo muito bem que enfrentariam bastões, gás lacrimogéneo e balas.

As forças de segurança tentaram criar uma atmosfera de terror à volta da zona entre as praças Azadi (Liberdade) e Enghelab (Revolução), em Teerão. Os ajuntamentos foram proibidos. Pessoas de todas as idades foram espancadas indiscriminadamente. Depois, as forças de segurança fecharam os cruzamentos de ruas para impedirem que as pessoas que viviam numa zona se juntassem às pessoas de outras zonas. Algumas pessoas, sentindo-se impotentes e desencorajadas, optaram por ir para casa. Mas milhares de jovens tiveram coragem e engenho para rodearem os obstáculos. Juntaram-se e marcharam para a Praça Azadi. Houve mais pessoas que se lhes juntaram e a multidão — dezenas de milhares segundo alguns relatos, centenas de milhares segundo outros — começou a marchar em conjunto a partir desse ponto. Isso não foi o fim dos acontecimentos. Os manifestantes tiveram que enfrentar as forças da reacção que bloqueavam o caminho. Os confrontos continuaram todo o dia, até à meia-noite. Algumas pessoas que não conseguiram chegar ao grosso da multidão, juntaram-se a outra grande manifestação na Rua Forsate Shirazi ou a outras menores em vários bairros de Teerão.

Polícia espanca um manifestante com um bastão próximo da Universidade de Teerão a 14 de Junho
Polícia espanca um manifestante com um bastão próximo da Universidade de Teerão a 14 de Junho. (Foto: STR/AFP/Getty Images)

As pessoas também protestaram noutras cidades, sobretudo em Shiraz, Isfahan e Rasht, além de outras, onde houve relatos de confrontos com as forças de segurança. Enfrentaram os polícias especiais antimotim, que estavam protegidos por armaduras corporais e as brutais brigadas de pares de motociclistas portadores de bastões da Basij, um corpo militar voluntário de vigilantes liderado, treinado e armado pelos Guardas Revolucionários de elite do regime. O regime apresenta a Basij como representantes das massas populares, sobretudos dos pobres.

Os manifestantes gritaram: “Morte aos ditadores, Morte a Khamenei, Morte a este regime traiçoeiro!” Durante os momentos em que as forças reaccionárias se estavam a preparar para atacar e os momentos em que os manifestantes decidiram penetrar as linhas das forças reaccionárias, eles elevaram o seu próprio ânimo e o ânimo dos seus camaradas cantando: “Nada temam, estamos todos juntos, nada temam…”

Quando as balas da reacção visaram os corações dos preciosos filhos das massas, isso fortaleceu a determinação dos seus camaradas, enquanto gritavam: “Morte a Khamenei, Morte a Ahmadinejad”. Uma rapariga chamada Neda Agha-Soltan saiu de um carro bloqueado, onde ia à boleia do seu professor de música, para respirar algum ar fresco e sentou-se numa berma. Foi atingida no tórax por um atirador furtivo da Basij e caiu no chão. As pessoas em todo o mundo viram um vídeo que mostrava os últimos momentos da sua vida. Ela foi assassinada na Avenida Amirabad Shomali, imediatamente a norte da Praça Enghelab. As pessoas na multidão nesse dia juraram que seria rebaptizada Rua Neda.

Neda Agha-Soltan, momentos antes de morrer
Imagem de um vídeo que mostra Neda Agha-Soltan, momentos antes de morrer abatida a tiro pela polícia islâmica a 20 de Junho de 2009. O vídeo foi colocado no YouTube por um utilizador que usou o nome “IranianRevoltion”.

Em alguns dos vídeos que têm aparecido, pode-se ver grupos de milicianos da Basij a disparar as suas armas directamente contra as multidões — e mesmo assim as pessoas carregaram sobre eles, correndo para eles debaixo de fogo até que os basiji se voltaram e correram — e terem sido ultrapassados. O regime diz que nesse dia foram mortas 10 pessoas; outros dizem que o número é muito mais elevado. Nessa noite, manifestantes enfurecidos incendiaram uma base da Basij e duas estações de gasolina.

Protestos esporádicos continuaram a 21 de Junho e os gritos de “Morte aos ditadores” ecoaram ainda mais alto. No dia seguinte, os Guardas Revolucionários emitiram a ameaça de que eles próprios esmagariam qualquer outra agitação. Até aí, o regime tinha muitas vezes tentado esconder-se atrás dos basiji falsamente “civis” e fingia que não sabia quem estava a disparar sobre os manifestantes.

Uma hora depois, milhares de jovens manifestantes concentraram-se na Praça Haft-e Tir, na zona mais meridional de Teerão, para exprimirem a sua determinação. Gritaram que preferiam morrer a aceitar serem tratados com desprezo.

O significado deste protesto ficou ainda mais relevante quando se analisa o discurso do Aiatola Khamenei na Universidade de Teerão após as orações de sexta-feira. Muita gente estava à espera desse discurso para ver como é que ele resolvia a disputa eleitoral entre o presidente e a oposição. O discurso de Khamenei não teve precedentes e chocou algumas pessoas. Não só tomou partido por Ahmadinejad mais entusiasticamente que nunca, como também condenou e ameaçou todos os que questionam os resultados das eleições. A fraude é impossível na República Islâmica, disse ele, e qualquer sugestão do contrário representa um inadmissível questionamento da própria República islâmica.

Isto visava o candidato da oposição Mir Hossein Mousavi, que tem tentado manter o movimento de protesto completamente dentro do quadro da República Islâmica fundada pelo Aiatola Khomeini. Khamenei disse que as eleições eram um referendo à República Islâmica e que os 85 % de eleitores que supostamente nelas participaram estavam a votar no sistema. Então, usando uma linguagem muito forte, ameaçou os manifestantes. Pediu que os candidatos prosseguissem as suas reclamações através do sistema legal. Mas também disse claramente que não reconhecia legitimidade a qualquer oposição à República Islâmica. Pôs de lado o papel de pai-da-nação imparcial que há muito cultivava e surgiu como padrinho de uma facção da República Islâmica, defendendo o direito dessa facção a intimidar toda a nação.

Manifestantes ateiam fogos numa rua de Teerão, na madrugada de 15 de Junho de 2009
Manifestantes ateiam fogos numa rua de Teerão, na madrugada de 15 de Junho de 2009. (Foto: AP)

Este serviço de orações de sexta-feira foi uma demonstração de força, uma vez que os líderes de todos os corpos militares, do parlamento e do sistema judicial estavam presentes para mostrar a sua solidariedade e intimidar o povo. Ele estava claramente a dar ordens às outras facções para se calarem e aceitarem a sua decisão, submeterem as respectivas facções e cancelarem todos os protestos — ou então...

Contudo, embora tenha sido a insurreição popular o que aterrorizou a facção dominante e fez do povo o verdadeiro alvo de Khamenei e da sua clique, não há nenhuma dúvida de que foram os conflitos internos que despoletaram toda a agitação. Este discurso foi o sinal de uma nova fase no aprofundamento da crise.

Este discurso poderia ser tomado como um paralelo ao discurso de Khomeini em 18 de Junho de 1981, que marcou o fim da aliança entre os seus fundamentalistas islâmicos (incluindo Khamenei e Akbar Rafsanjani, agora o homem mais rico do Irão, um pilar do regime islâmico e um poderoso apoiante de Mousavi) e os chamados liberais islâmicos, como Abul-Hassan Banisadr que era nessa altura o presidente. Khomeini retirou a Banisadr o seu título de chefe das forças militares e afastou-o do poder. O golpe de estado de Khomeini e o estabelecimento da República Islâmica provocaram protestos de massas. Mas o regime islâmico respondeu com uma extrema brutalidade. A detenção, encarceramento e massacre de comunistas e outros revolucionários começaram de imediato. O reinado de terror continuou durante toda a década de 80 até ao fim da guerra Irão-Iraque. Depois, para tentarem garantir que nada restaria do espírito da revolução, no Verão de 1988 massacraram milhares (ou segundo alguns relatos, dezenas de milhares) de comunistas e revolucionários que ainda estavam na prisão.

Estudantes manifestam-se junto à entrada principal da Universidade de Teerão a 14 de Junho de 2009
Estudantes manifestam-se junto à entrada principal da Universidade de Teerão a 14 de Junho de 2009. (Foto: AP)

Apesar das semelhanças, a situação actual não é a mesma. O mais importante é que uma grande e crescente parte das pessoas já não tem confiança nem fé no regime. As pessoas que ainda não tinham exprimido qualquer reacção à situação política gritaram claramente: “Morte a Khamenei”, um slogan que raramente, se alguma vez, foi ouvido antes em qualquer protesto no Irão. Outras gritaram: “Querem luta, vamos lutar — nós estamos a lutar, mulheres e homens!”

Mas Khamenei e a sua clique não são os únicos a tentar manter a legitimidade da República Islâmica e o sistema económico e social que esta estrutura de poder serve. Embora defenda os interesses da sua facção, Mousavi está a tentar arduamente restabelecer os “valores da República Islâmica do Imã Khomeini”. Isto não são apenas palavras — o sistema estatal chamado Velyat-e-Faqih, a doutrina fundacional do regime de “governo do Supremo Jurisprudente”, é a menina dos seus olhos. Num comunicado aos seus apoiantes, ele disse: “Nós não estamos a enfrentar a Basij, os Guardas Revolucionários ou o exército. Os basiji são nossos irmãos, os Guardas Revolucionários são os protectores da nossa revolução e do nosso sistema. O exército protege as nossas fronteiras. Nós não a estamos enfrentar o nosso sistema sagrado e as suas instituições legais. Nós estamos a enfrentar os maus procedimentos e as mentiras e queremos uma reforma que requer o regresso aos princípios puros da Revolução Islâmica.”

Tal como o ex-presidente “reformista” Khatami, Khamenei avisou: “Quando se fecham as vias legais de protesto, está-se de facto a abrir um outro caminho, e deus sabe onde isso pode levar”.

Membros da milícia Basij apedrejam os manifestantes que estão dentro da Universidade de Teerão a 14 de Junho de 2009
Membros da milícia Basij apedrejam os manifestantes dentro da Universidade de Teerão, 14 de Junho 2009. (Foto: AP)

Devido à determinação e persistência da luta popular, o que começou como uma disputa dentro do regime levou o Irão para uma crise de legitimidade e uma crise institucional. Durante a revolução de 1979, quando o Xá já não se conseguia manter no poder, os EUA convenceram-no a abdicar para preservar a coesão do exército e impedir a revolução de avançar mais. Foi assim que essa crise foi resolvida, a favor do sistema imperialista, e o povo pagou esse preço. Há muito que os EUA e as outras potências imperialistas fazem o seu melhor para determinarem os acontecimentos no Irão (invasões, golpes de estado, etc., já para não falar nos mecanismos do próprio mercado internacional) e farão tudo o que puderem para empurrar esta crise para uma resolução que seja a seu favor relativo e que certamente será contra os interesses revolucionários do povo. Vários observadores têm comentado que a indignação norte-americana com o roubo das eleições é uma criminosa hipocrisia vinda de uma potência e de um governo que há muito sustentam tiranos fantoches como Hosni Mubarak no Egipto, que há apenas algumas semanas atrás Obama abraçou no Cairo. No que diz respeito a eleições fraudulentas e a repressão imposta pela tortura, Mubarak é difícil de ultrapassar.

Como disse o Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista) num dos seus frequentes comunicados dirigidos ao povo iraniano durante este período: “Uma coisa é clara: ainda temos um longo caminho a percorrer no que começámos. As pessoas devem preparar-se para os dias e meses à nossa frente, para permanecerem nas ruas de diferentes formas. As palavras de ordem da insurreição devem tornar-se mais claras e mais profundas e o nível da luta deve ser elevado para que possa levar à vitória.”