Irão: Uma crescente vaga de indignação pelas mais recentes execuções

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 10 de Maio de 2010, aworldtowinns.co.uk

“Cinco presos políticos foram enforcados ao início desta manhã [9 de Maio] na Prisão de Evin” – era esta a notícia da Ilna, uma agência noticiosa iraniana.

Farzad Kamangar, Ali Heidarian, Farhad Vakili, Shirin Alam-Houly e Mehdi Eslamian foram executados na prisão de Evin sem que as suas famílias e advogados tivessem sido informados. As execuções não anunciadas foram inesperadas porque os seus julgamentos ainda não estavam terminados.

Os iranianos conhecem muito bem a extrema brutalidade da República Islâmica, mas mesmo assim ficaram chocados e indignados quando ouviram esta cruel notícia. Ao longo dos últimos dois anos, as pessoas sentiam que já conheciam esses presos.

Muitos leram as comoventes e inspiradoras cartas de Farzad Kamangar na prisão. Ele tinha ensinado nas aldeias vizinhas da sua cidade natal, Kamyaran, no Curdistão. Tal como os outros quatro, ele foi falsamente acusado de terrorismo e de ser membro do PJAK (Partido da Vida Livre do Curdistão), uma versão iraniana do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) da Turquia. A República Islâmica nunca conseguiu provar essas acusações. E, numa entrevista telefónica ao serviço em persa da BBC TV, o advogado dele insistiu que Farzad nem sequer era apoiante do PJAK, quanto mais membro. Farzad tinha anunciado uma vez que se fosse membro do PJAK ou de qualquer outro grupo, não teria medo de o admitir. Era esse o seu espírito, como o sabia quem leu as suas cartas.

Shirin Alam-Houly, uma jovem curda, também foi falsamente acusada de ser membro do PJAK.

À medida que as notícias se propagavam nesse domingo de manhã, os iranianos no estrangeiro exprimiam a sua fúria emitindo comunicados e organizando manifestações.

Manifestantes corajosos tentaram atacar a embaixada em Paris. Cerca de 200 a 250 foram presos. Em Londres, um grupo de manifestantes atacou o fortemente defendido consulado iraniano e partiu as janelas. Alguns iranianos residentes na Alemanha concentraram-se Colónia e Berlim para protestarem contra a execução de Farzad e dos outros quatro. Foram planeadas acções para os próximos dias noutras cidades europeias.

Há relatos de as medidas de segurança nas cidades curdas do Irão terem sido dramaticamente aumentadas.

O Partido Comunista do Irão (MLM) emitiu imediatamente um comunicado, onde dizia: “Ao executar Farzad Kamangar, a República Islâmica visa toda a juventude militante do país. Este crime confirma uma vez mais a necessidade urgente da construção de um movimento político revolucionário para derrubar a República Islâmica.” O comunicado continua: “Farzad Kamangar, esse corajoso professor, consciente e revolucionário, nas suas cartas à juventude iraniana e a outros professores, apelava maravilhosa e comoventemente ao povo que tomasse esse caminho luminoso e afastasse qualquer medo da morte. Façamos com que a corajosa mensagem deste camarada revolucionário e inabalável seja transformada numa bandeira nas tempestades da luta contra o regime reaccionário e opressor. Estes crimes só fortalecerão a vontade do povo na sua luta contra este regime infecto e putrefacto.”

O jornal estudantil iraniano Bazr, que noticiou repetidamente ao vivo a insurreição popular e o movimento estudantil universitário, também emitiu imediatamente um comunicado: “Sabemos que vocês flagelarão, sabemos que vocês flagelarão selvaticamente, sabemos que vocês matarão, mas o que farão vocês quando as flores florescerem em todo o lado e não o conseguirem impedir?”

Continua o Bazr: “Shirin foi executada após um longo período de tortura islâmica [leia-se: violação]. Eles não a executaram pela sua culpa, mas para infligirem um golpe e aterrorizarem os que estão nesta luta que já dura há quase um ano e que se recusam a esconder as suas ideias. Eles executaram Shirin para assustarem as corajosas jovens que levam pedras nas mãos e tapam as caras. (...) Eles torturaram Ali, Farhad e Mehdi para os forçarem a colaborar com o regime ou a aceitarem as suas falsas acusações. Mas isso não resultou. E quanto a Farzad? Ele chegou finalmente ao mar e criou uma tempestade no mar calmo. As vagas dessa tempestade não serão sentidas apenas no Curdistão mas em todo o país, desde o Khuzestão (no sul), ao Baluchistão (no leste) e ao Khorasan (no nordeste).”

Explicando porque é que o regime escolheu Farzad, o Bazr escreveu: “Todos os grupos e forças políticas e grupos de direitos humanos (...) têm falado nas falsas razões para a sua prisão, tortura e encarceramento (...), mas o que não tem sido muito mencionado é que (...) Farzad estava armado de uma consciência. Uma arma que iria visar o coração da reacção e do capital. O regime executou-o num esforço para impedir a expansão dessa consciência, mas isso é apenas uma ilusão uma vez que Farzad mobilizou mais pessoas do que eles podem imaginar. Iremos provar isso nos próximos dias, no Curdistão e no Baluchistão e em todo o país, nas escolas e entre os estudantes e professores das universidades, nas montanhas e entre todos os que Farzad inspirou para o objectivo da libertação.”

Conclui o Bazr: “O objectivo destas execuções foi aterrorizar o povo e a juventude”. O Bazr apelou a todas as forças militantes e revolucionárias, estudantes, docentes universitários, professores, operários e todos os trabalhadores a “transformarem esta execução numa vaga da justa luta do povo. A luta que Farzad quis: a luta pela libertação.”

A execução de Farzad e dos outros quatro presos políticos pode vir a custar muito à República Islâmica. A fúria pela execução daqueles que as pessoas amavam e de quem se sentiam tão perto não vai ficar sem resposta.

À altura do fecho desta edição, há notícias de que as famílias dos presos políticos executados saíram do Curdistão a caminho da Universidade de Teerão para realizarem um protesto frente à universidade e também frente à prisão de Evin. É claro que não estão sós. Já há caravanas de familiares e amigos e daqueles cujos corações estão despedaçados e dos que estão indignados com este acto brutal, que se lhes juntaram.

Há relatos de concentrações e protestos em cidades curdas iranianas, entre as quais Kamyaran, Sanadaj e Mahabad, apesar das muito apertadas medidas de segurança e da lei marcial não declarada, e na cidade de Soleymani, no Curdistão iraquiano.

Em Teerão, as forças de segurança inundaram a zona ao redor da Universidade de Teerão e toda a avenida entre a Praça da Revolução e a Praça Azadi.

Também há relatos de protestos contra as cinco execuções dentro do próprio sistema prisional, incluindo em Rajai-Shahr, onde Farzad esteve detido durante muito tempo, e em Gohar Dasht. Diz-se que alguns presos em Evin entraram em greve de fome limitada. Os estudantes da Universidade de Teerão e de algumas outras universidades da capital anunciaram planos para protestos a 12 e 13 de Maio.

Até agora, as autoridades têm-se recusado a entregar o corpo de Farzad à família, com medo de que o seu funeral se possa transformar numa manifestação. Há relatos de que a condição que eles estão a exigir para entregarem o corpo é que as cidades curdas voltem à paz.