Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 29 de Junho de 2009, aworldtowinns.co.uk

Irão: Os fogos ainda ardem resplandecentemente

Membros da Basij agridem um homem na Rua Zartusht, perto do Ministério do Interior em Teerão, a 13 de Junho
Membros da Basij agridem um homem na Rua Zartusht, perto do Ministério do Interior em Teerão, a 13 de Junho, um dos primeiros dias de protestos. (Foto: AP/STR)

Apesar da brutalidade do regime islâmico do Irão, continuam os protestos em Teerão e em muitas outras cidades, duas semanas após o início da insurreição. Ocorrem numa escala muito menor que nos primeiros dias, mas é extremamente significativo e inspirador que muitos jovens e outras pessoas estejam decididos a persistir mesmo face aos tiros, espancamentos, prisões e provavelmente tortura. Eles são a expressão de uma ira popular mais vasta que não será facilmente extinta.

Há relatos de pessoas que se concentraram a 25 de Junho no cemitério de Behsht-e Zahra, no local onde foi enterrada Neda Agha-Soltan, a jovem assassinada por um miliciano da Basij durante uma manifestação, e outras pessoas mortas pelas forças de segurança. Milhares de pessoas concentraram-se a 27 de Junho na Praça Enghelab, na zona centro nordeste de Teerão. As famílias dos presos e mortos nas recentes revoltas pretendiam concentrar-se no Parque Laleh, a norte da praça, mas as forças de segurança tinham tomado o controlo do parque e das ruas vizinhas. Quando os manifestantes da praça Enghelab foram atacados, dispersaram e depois reagruparam-se na Avenida Keshavarz-Tohid. Dirigiram-se ao Parque Laleh, mas foram novamente atacados. Lutaram até noite dentro para regressarem juntos. Alguns foram agredidos e presos. A 28 de Junho, depois de uma cerimónia comemorativa legalmente autorizada em homenagem a um dos pais fundadores do regime islâmico há muito morto e cuja família é agora aliada do líder da oposição Mir Hussein Mousavi, milhares de pessoas gritaram de novo “Morte ao Ditador” e, em retaliação, foram atingidas por gás lacrimogéneo.

As várias organizações de segurança da República Islâmica têm actuado com um nível de crueldade que não se via desde o massacre de presos políticos em 1988. A milícia voluntária Basij foi mobilizada para entrar nas casas à noite, em quarteirões inteiros e mesmo em bairros completos de cada vez, para intimidarem as pessoas, destruírem os seus apartamentos e por vezes sequestrarem jovens. Alguns desses ataques visam perseguir manifestantes ou os que vão para os telhados gritar palavras de ordem contra o regime todas as noites às 22h. Outros são só para intimidar as pessoas.

Membros da milícia Basij disparam tiros de aviso para dispersar os manifestantes no centro de Teerão, a 14 de Junho de 2009
Membros da milícia Basij, vestidos à civil, disparam tiros de aviso para dispersar os manifestantes no centro de Teerão, a 14 de Junho de 2009.
(Foto: Olivier Laban-Mattei/AFP/Getty Images)

Testemunhas têm capturado muita dessa brutalidade com os seus telemóveis. Mas a extensão da repressão é muito maior do que o mundo tem visto. Diz-se que foram presos mais de mil manifestantes, entre os quais centenas de estudantes. As suas famílias não têm nenhuma notícia deles e temem que possam estar a ser torturados na infame prisão de Evin e noutras prisões.

Segundo alguns relatos, foram presos muitos apoiantes de Mousavi e do seu parceiro candidato da oposição Mehdi Karoubi, bem como inúmeros jornalistas que trabalham para os jornais que lhes são favoráveis. Também foram presas pessoas que detiveram altos cargos governativos durante a presidência de Mohammad Khatami ou que foram seus conselheiros.

No final das orações de sexta-feira, 26 de Junho, o Aiatola Ahmad Khatami (que não tem nenhuma relação com o ex-presidente) disse que os responsáveis pelos “motins” estavam “a fazer guerra contra deus”, um crime capital na República Islâmica. Disse: “Quero que o ministério da justiça castigue os principais amotinadores, firmemente e sem mostrar nenhuma clemência, para dar uma lição a todos”. A República Islâmica já antes levou a cabo execuções em massa com base nessas acusações e há boas razões para que essas palavras causem medo nas mentes das pessoas.

A intensificação de duas importantes contradições

Manifestação na Rua Valiasr, Teerão, 13 de Junho
Manifestação na Rua Valiasr, Teerão, 13 de Junho. (Foto: Olivier Laban-Mattei/AFP/Getty Images)

Uma das características mais importantes da recente sublevação popular iraniana é a aguda intensificação de duas importantes contradições, uma entre o povo e a estrutura do poder dominante e a outra entre facções do sistema político.

É do conhecimento geral no Irão que o confronto dentro do sistema não se limita à disputa entre o Presidente Mamhoud Ahmadinejad e o seu principal rival eleitoral Mousavi sobre o resultado das eleições. Por trás disso está uma disputa entre Ali Akbar Rafsanjani e o “Líder Supremo” oficial do regime Ali Khamenei, os dois homens mais poderosos do regime islâmico. Ela decorre há vários anos e chegou agora ao ponto de ebulição. Há rumores de comandantes dos Guardas Revolucionários e outras importantes figuras terem sido mortos em lutas facciosas durante os últimos anos. Na véspera das eleições, durante os debates televisivos entre Ahmadinejad e Mousavi, apoiados respectivamente por Khamenei e Rafsanjani, cada um desses dois homens foi para além das ocas promessas e generalidades habituais e expuseram alguns dos crimes de cada um. Ahmadinejad foi mesmo mais longe e atacou Rafsanjani por ser corrupto, enquanto Mousavi se conteve em atacar Khamenei, mesmo que indirectamente, até uma semana após as eleições, quando Khamenei abandonou a sua falsa aparência de neutralidade. Embora as agrestes disputas facciosas entre os círculos dominantes do Irão não sejam nada de novo, este tipo de apelo às massas não tem precedentes.

Isto é uma grande parte daquilo que permitiu que o descontentamento e a raiva que há muito fervilhava entre muitos sectores do povo explodissem até à superfície. Por outro lado, a ira e a iniciativa das massas tiveram um efeito nas rivalidades dentro do regime, criando uma situação que ganhou vida por si só. Nenhum dos lados parece estar em posição de recuar ou de acabar com a crise.

Manifestantes ateiam fogos numa rua de Teerão, na madrugada de 15 de Junho de 2009
Manifestantes ateiam fogos numa rua de Teerão, na madrugada de 15 de Junho de 2009. (Foto: AP)

Esta rivalidade é particularmente complexa porque não há realmente dois lados bem definidos mas sim coligações variáveis de cliques, com interesses económicos, perspectivas políticas e características ideológicas em conflito, bem como coincidentes. Há dois pontos principais que é necessário percebermos em relação a isto. Uma é que Rafsanjani e Mousavi, não menos que Khamenei e Ahmadinejad, e todas as principais figuras políticas sem excepção, estão a lutar pela preservação do regime islâmico e pelo restabelecimento da sua legitimidade, pelo menos aos olhos de certos sectores do povo. A outra é que os EUA estavam e continuam decididos a derrubar ou a reconfigurar dramaticamente a República Islâmica e as lutas internas do regime têm sido motivadas por considerações de como lidar com isso e de quem ficará por cima nesse processo inevitavelmente sangrento.

Os dois lados parecem mais que dispostos a chegar a um acordo com os EUA, se conseguirem que o regime norte-americano o aceite ao mesmo tempo que salvam o seu próprio domínio político. Ironicamente, mesmo quando cada um dos lados tenta reivindicar para si próprio a legitimidade ideológica e política do regime e lutar pelo que pensa que melhor o pode preservar, a confluência entre as suas lutas internas e os sentimentos populares e os por vezes incontroláveis protestos deixaram essa legitimidade em farrapos.

A interligação da contradição entre o povo e o regime e as próprias contradições internas do regime trouxeram vantagens aos interesses revolucionários do povo, mas também desvantagens. O que não é o menor dos seus perigos é que espalhe novas ilusões entre o povo, mesmo que ponham em causa algumas das velhas.

Membros da milícia Basij apedrejam os manifestantes dentro da Universidade de Teerão, 14 de Junho de 2009
Membros da milícia Basij apedrejam os manifestantes dentro da Universidade de Teerão, 14 de Junho 2009. (Foto: AP)

Há muitos factores poderosos, tanto na propaganda da Voz da América e do canal televisivo BBC e na do regime, e nos próprios mecanismos da vida, que fortalecem a ideia de que o conflito é entre o fundamentalismo islâmico e uma democracia eleitoral ao estilo ocidental, e sobretudo as várias misturas e variantes dos dois. A democracia burguesa, em que as eleições disfarçam a ditadura da classe capitalista monopolista nos países imperialistas, é uma ilusão ainda maior em países como o Irão, dominados pelo imperialismo, por muitas razões. Uma delas é que as potências imperialistas sempre usaram a força e a ameaça da força para aí expandirem os seus interesses, em conjugação com o poder esmagador do seu capital. Mas essas ilusões são fortes, de qualquer forma, sobretudo porque correspondem à perspectiva de uma maior integração do Irão na economia capitalista mundial e aos agressivos planos do Presidente norte-americano Barack Obama de ter sucesso onde o seu predecessor George Bush falhou, a reconfiguração do Médio Oriente.

Por isso, a interligação de diferentes contradições é uma característica importante da actual crise e da actual insurreição popular. Mas o que começou como uma disputa entre reaccionários rivais não tem que acabar dessa forma. Um dos factores é que a inesperada insurreição popular tem perturbado os planos de todos esses reaccionários. O outro é que esta situação cria condições em que os comunistas podem intervir e levar as massas populares a compreenderem melhor os seus interesses revolucionários e a romperem com todas as vias reaccionárias que agora competem pela sua lealdade, seja com base na sua convicção neles ou em ideias aparentemente mais pragmáticas – mas não menos incorrectas e asfixiantes – sobre o que é possível. Um grande número de pessoas mostrou a sua disposição de ir muito mais longe do que a oposição islâmica quer que elas vão e que onde os imperialistas lhes estão a aconselhar a ir.