Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 1 de julho de 2018, aworldtowinns.co.uk

Imigrantes: Eles são os nossos filhos!

Respondendo aos protestos contra o roubo de crianças migrantes aos pais delas e contra os abusos aos detidos, que incluem amarrar crianças a cadeiras e colocar-lhes um saco na cabeça, uma proeminente figura televisiva norte-americana defendeu essa política dizendo: “Eles não são os nossos filhos. (...) Eles vêm de outro país.”

Isto não é apenas uma afirmação de extrema intolerância nacionalista. Também representa um ataque frontal à doutrina da igualdade universal e aos direitos humanos que há muito têm sido a ideologia oficialmente proclamada na Europa e na América do Norte. Isto substitui o que muitas pessoas comuns consideravam certo e justo, com todas as suas vagas inconsistências e uma hipocrisia essencialmente inconsciente, por rigorosos padrões morais “raciais” – a “política da identidade branca” que não só chegou ao poder na Hungria, na Áustria, na Polónia, na Eslovénia, etc., e agora em Itália e acima de tudo nos EUA, como está a definir os termos do debate sobre os valores nas “nações civilizadas” no seu conjunto.

No livro dela A Consciência Nazi, a historiadora Claudia Koonz examina a relação entre política e moral. Para implementar o seu programa político, que acabou por incluir o extermínio dos judeus, dos Roma (“ciganos”) e outros povos e grupos na Europa, entre os quais as pessoas em não-conformidade de género e os deficientes, os nazis tiveram de fazer muito mais que reprimir as pessoas. Tiveram de acabar com as anteriores ideias morais da maioria das pessoas e com os ideais supostamente consagrados pela lei, juntamente com as próprias leis. Mesmo a capacidade deles de reprimirem massivamente e, por fim, exterminarem exigia que milhões de pessoas considerassem que isso era correto ou pelo menos tolerado.

Koontz poderia muito bem estar a falar sobre os EUA, a Polónia e a Itália de hoje quando descreve a maneira como os ideólogos nazis contrariaram a doutrina da fraternidade humana ao proclamarem: “Nem todos os seres com um rosto humano são humanos”. Tal como os fascistas de hoje, os nazis empenharam-se em treinar as pessoas no que ela chama “fundamentalismo étnico”, onde o bem do nosso próprio “povo” determina todas as escolhas éticas. Uma ideia central do livro dela é que nos seis anos entre o momento em que os nazis tomaram o poder e o início da II Guerra Mundial, quando, numa situação de guerra, o extermínio em massa se tornou realidade, milhões de alemães que antes eram apenas algo preconceituosos contra os judeus foram condicionados a considerar “a solução final da questão judaica” como sendo uma questão de sobrevivência para o “seu povo”.

Hoje, o mesmo está a acontecer tanto em países com imigração em massa como em países onde não há praticamente nenhuma imigração. O colunista norte-americano Paul Krugman tem comparado a histeria anti-imigrantes de Trump sobre “assassinos” e “estupradores” que “infestam” o país ao “libelo de sangue”, a mentira antissemita de que os judeus sacrificam ritualmente bebés cristãos, usado como argumento para o extermínio de todo o povo judeu em “autodefesa racial”. Outras pessoas têm salientado que há apenas uma curta distância, politicamente, moralmente e talvez na prática, entre os centros de detenção massiva para imigrantes, como os que estão a ser planeados pelos EUA e agora pela União Europeia, e os campos de concentração.

O fascismo é qualitativamente diferente da democracia capitalista. Ele resolve a gritante contradição entre a realidade e as promessas de direitos humanos universais ao declarar guerra ao próprio conceito da igualdade humana. No entanto, desde que as revoluções norte-americana e, sobretudo, francesa proclamaram os direitos humanos universais, o que floresceu não foi a “fraternidade” mas sim as relações de exploração e opressão entre os seres humanos.

Veja-se o caso de Thomas Jefferson, o autor da Declaração de Independência dos EUA que declarou que “Todos os homens são criados iguais”. Jefferson era proprietário de Sally Hemings, que viveu e morreu como escrava dele. Biologicamente, eles eram “família”. Ela era cunhada dele (o esclavagista pai dela também era pai da falecida esposa “branca” de Jefferson, Martha, a quem ela pertencia), e tornou-se mãe de seis dos filhos de Jefferson. Mas a única coisa que importava, legal e socialmente nessa época, era que ela e os filhos dela eram propriedade de Jefferson. Ele tinha direito a fazer o que quisesse com ela e os filhos, a estuprá-los ou mesmo a matá-los, tal como tinha direito a abater o gado dele para o jantar e a cortar as árvores dele para fazer lenha. Qualquer que fosse a afeição que pudesse ter existido ou não, a isso sobrepunha-se um facto social e legal que não podia permitir nenhuma exceção sem que todo o sistema se desmoronasse: todas as crianças nascidas de uma mãe escrava tornavam-se escravos.

Como discute com alguma profundidade Bob Avakian no livro Comunismo e Democracia Jeffersoniana, a democracia que Jefferson concebeu e fundou foi uma democracia baseada na igualdade formal (direitos legais) entre proprietários dentro de um sistema social e económico baseado na opressão e na exploração. Isso era verdade no tempo dele em que o “direito à propriedade”, que Jefferson considerava ser um dos direitos humanos mais fundamentais, incluía o direito a se ser proprietário de outras pessoas, e não necessariamente apenas devido às suas falhas pessoais como seres humanos, como se isso fosse inconsistente com a perspetiva política dele. Ele era um produto e um representante de um sistema de relações de propriedade que cairia em “convulsões”, como ele escreveu, se a sua estrutura moral fosse minada.

Isto continua a ser verdade hoje, quando o capitalismo, baseado numa relação social entre as pessoas em que algumas são proprietárias dos meios para produzir riqueza e outras não têm nenhuma outra escolha a não ser venderem-lhes a sua capacidade de trabalho. Ainda que já não sejam escravas, para conseguirem viver, são obrigadas a “trabalhar para a felicidade [dos proprietários]”, como Jefferson escreveu sobre os escravos dele, como se isso fosse certo e justo. Esta “relação fundamental de desigualdade e dominação”, como lhe chama Avakian, desenvolveu-se para um sistema global em que “o capitalismo coloca nas mãos de alguns indivíduos, sob a forma de riqueza e capital individuais, o que foi produzido por toda a sociedade – e, hoje em dia, mais que nunca, isso ocorre a uma escala mundial.” (BAsics [O BÁsico], pp. 176-177) Uma característica fundamental deste sistema imperialista é a divisão do mundo em países oprimidos e opressores. Este é o sistema que emergiu, como Marx revelou de uma maneira incisiva, a partir da riqueza produzida pelo sequestro e comércio de africanos e do trabalho deles, do trabalho até à morte da população original da América do Sul nas minas de ouro e prata e do saque da Ásia.

Este sistema foi o que levou a que um número sem precedentes, e que se está a multiplicar rapidamente, de pessoas deslocadas à força em todo o mundo, que são agora 65 milhões, mais de metade das quais são crianças. Este número inclui os sírios, os afegãos e os iraquianos que fogem de guerras imperialistas, e que constituem a maior parte dos refugiados na Europa, e as pessoas da América Central que fogem da violência semeada pela intervenção e dominação norte-americanas. Também Inclui milhões de pessoas na Ásia, em África e na América Latina cuja situação se tornou letal em resultado do funcionamento do sistema económico global, bem como das políticas dos governos apoiados pelos imperialistas. Algumas pessoas, à procura de uma justificação moral, tentam fazer uma distinção entre “refugiados” e “migrantes económicos”. Mas a que moral pertence isto? Por que é considerado louvável que algumas pessoas nos países ricos aspirem a um certo modo de vida, mesmo que isso seja obtido através da exploração de outras pessoas em “casa” e no exterior, enquanto é considerado criminoso que pessoas de outros países fujam para onde esse modo de vida é possível, para onde está concentrada a riqueza produzida pela exploração mundial? Defender a atual guerra contra os imigrantes significa aceitar uma moral nacionalista imperialista em que “nós” merecemos o que “eles” não merecem porque “eles” não somos “nós”.

Quando os fascistas de hoje falam em “sobrevivência”, eles querem dizer a sobrevivência deste sistema e, especialmente, proteger e reforçar o seu lugar privilegiado nele. Há uma utilidade perversa neste “fundamentalismo étnico”: ele não só defende as atuais relações de propriedade, as relações de exploração e opressão, como também prepara um núcleo duro fanático e as pessoas em geral para aceitarem e participarem na reestruturação violenta das sociedades e do mundo que é exigida pelas atuais convulsões do sistema imperialista global.

É crucial que um crescente número de pessoas entenda o que está a acontecer hoje e faça tudo o que é possível para parar o atual ataque fascista e que os seus programas e ideologia, incluindo a sua moral, prossigam no seu caminho. Como escreveu Avakian: “Isso é crucial, mesmo para fazer uma revolução, bem como para as pessoas não ficarem esmagadas e desmoralizadas em termos imediatos.” (O Novo Comunismo, pp. 118-119) Isto inclui a necessidade de as pessoas não se deixarem esmagar e degradar no seu pensamento, no que elas consideram ser aceitável.

Uma crucial linha de batalha dessa luta é tomar uma posição decisiva agora que os oprimidos e explorados em todo o lado são os “nossos filhos”, as nossas irmãs e os nossos irmãos, a nossa família nesta luta.