Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 6 de Setembro de 2004, aworldtowinns.co.uk

Gigantescas manifestações confrontam Bush em Nova Iorque

Era suposto que a convenção nacional do Partido Republicana de George Bush celebrasse o homem globalmente mais odiado da história recente. De facto, era para ser uma demonstração de desprezo pelos povos do mundo, bem como por muitos milhões de norte-americanos, uma demonstração triunfante de apoio interno ao programa que fez a sua presidência tão odiada, uma reunião das legiões que abraçam essa causa infame e, igualmente importante, uma tentativa de mostrar que poucos ousariam fazer-lhe uma verdadeira oposição. Contudo, foi o cenário de uma gigantesca resistência, com a maior manifestação que a cidade viu em várias décadas (meio milhão de pessoas, de acordo com uma estimativa policial não oficial, mais de acordo com outras fontes) e de uma semana de acções de rua de todos os tipos.

Nova Iorque foi escolhida para esta convenção por ser o local dos ataques de 11 de Setembro de 2001 que os governantes dos EUA utilizaram para criar uma atmosfera de unidade nacional em torno das suas guerras de invasão do Afeganistão e do Iraque. Para forçar os seus desejos, forjaram um enorme “factor de medo”, uma combinação de histeria irracional (insinuando que os protestos de rua poderiam ser considerados uma forma menor de “terrorismo”) e de ameaças muito reais de desencadearem eles próprios a violência nas ruas. Contudo, é um sinal da fermentação política nos EUA que os principais órgãos de comunicação social tenham noticiado que a maioria dos residentes da cidade apoiava esses protestos e que dez por cento anunciaram a sua intenção de participar em pelo menos um deles.

A semana de acção começou a 26 de Agosto com um protesto anti-Bush com 5000 pessoas em bicicleta a cantar enquanto passavam pelos desfiladeiros formados pelos arranha-céus da baixa de Manhattan. No que parecia significar o marcar de tom para a semana que se seguiria, a polícia introduziu um rebanho de motorizadas entre as fileiras compactas de ciclistas para os separar e acabou por prender 260 deles quando se aproximavam do seu local de dispersão. No dia seguinte, 25 000 mulheres desfilaram pela Ponte de Brooklyn para defender o direito ao aborto, que se encontra sob ataque do regime de Bush.

Além da principal manifestação de 29 de Agosto, os dias seguintes viram acções caóticas, frequentemente perturbadoras da ordem e imaginativas, de todo tipo, desde o teatro de rua (“Os Bilionários pró-Bush” com cartolas e vestidos compridos) e muita leitura de poesia até às manifestações que envolveram muitos milhares de pessoas. Foram presas cerca de 1800 pessoas, a maioria por desobediência civil mas também alguns espectadores que foram simplesmente apanhados pela polícia. Centenas de pessoas foram mantidas durante vários dias num armazém contaminado quimicamente, mesmo após um juiz ter determinado a sua libertação.

Hoje em dia, nos EUA, mesmo as sondagens dos principais órgãos de comunicação social mostram que são muito mais as pessoas que se opõem à guerra no Iraque que as que a apoiam, e mesmo assim o principal rival de Bush nas eleições presidenciais de Novembro, o candidato do Partido Democrático John Kerry, disse que continuaria a guerra. “O Partido Democrático mostrou muito claramente que não queria ter nada a ver com essas manifestações, apesar de a esmagadora maioria da sua base de apoio estar contra a guerra no Iraque”, escreveu Akil Bomani.

A citação acima e o artigo de Osage Bell que se segue são textos não oficiais colocados por uma equipa de escritores revolucionários na página internet do jornal Revolutionary Worker/Obrero Revolucionario (revcom.us/a/1252/delivering_the_NO.htm em inglês e revcom.us/a/1252/no_a_bush.htm em castelhano), voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA, cujo presidente é Bob Avakian.

Ouvi o ribombar antes de chegar a ver a multidão. Dando a volta por uma rua lateral para chegar à avenida onde a manifestação estava a começar, ouvi o que soava a enormes ondas marítimas a bater contra as rochas e que sentia como se fosse uma gigantesca carruagem do metro a ressoar por baixo da rua. E foi então que eu as vi… centenas de milhares de pessoas que criavam um rio humano que serpenteava e se movia com o alarido indignado e os gritos animados dos participantes que queriam urgentemente algo mais. Mais do que viver numa sociedade construída sobre o medo. Mais do que viver num império – uma nova Roma – que se coloca a si próprio acima do resto do mundo. Mais do que serem forçados a confiar num presidente mentiroso e assassino. Eles vieram apesar da enorme repressão – as ameaças vindas dos governantes da cidade, a gigantesca presença policial, a espionagem sobre os manifestantes e o facto de os apelidarem de terroristas. Eles vieram para sentir, uma vez mais, toda a força do seu poder colectivo – gritando, a uma só voz: “NÃO!”.

Disseram-lhes que não se poderiam concentrar no Central Park, e então eles rebentaram as costuras de cimento da cidade e encheram mais de 40 quarteirões, dizendo com os seus próprios corpos que NÃO queriam ser encurralados ou silenciados em guetos de protesto barricados e isolados. Foi-lhes dito vezes sem conta que a dissidência é um crime, que o pensamento crítico num sistema que promove o medo do pensamento é fora da lei e perigoso. E que ser tão “radical” como os que discordam abertamente com o regime de Bush é ser extremista ou pior. Claro que as pessoas não lhes ligaram.

Pelo contrário, encheram as ruas de Manhattan às centenas de milhar, com os seus carros de bebés, os seus avós, as suas irmãs e mesmo os seus animais domésticos – para lutar pelo destino do país. Ergueram bem alto acima das suas cabeças cartazes declarando a sua não-cumplicidade com a via da guerra e da repressão. Recusaram ser “os bons alemães”. Vestiram t-shirts a dizer “BUllSHit” e trouxeram efígies de plástico a zombar de Bush, Cheney, Ashcroft e Rumsfeld.

O presidente mais insultado, odiado, repudiado e ridicularizado e que gera mais desconfiança da história deste país inspirou aquilo a que o New York Times chamou o “mais enfático” protesto em ano de eleições “desde que Democratas e manifestantes se viraram em fúria uns contra os outros por causa do Vietname em 1968 em Chicago”.

Com grande premência e intensidade, as pessoas saíram à rua para mostrar que não alinhariam sossegada ou obedientemente no futuro pretendido por Bush. Vieram para a rua declarar que um outro futuro, um outro mundo, é possível, desejado e muito necessário...

Alegando que a Convenção Nacional Republicana (RNC) era um alvo dos terroristas, a administração da cidade criou uma atmosfera de medo em torno dos protestos. O nível de repressão e o foco das agências federais foi sem precedentes. O próprio dirigente do Departamento de Segurança da Pátria, Tom Ridge, apareceu para exibir o nível das forças de segurança da cidade – as suas novas armas, a utilização de todos os 40 000 polícias da cidade de Nova Iorque, as mais de 30 agências policias a trabalhar em conjunto – e fez saber que a cidade-ilha estava coberta por “terra, mar e ar”. Trouxeram a Guarda Nacional, criaram uma “zona bloqueada” nos quarteirões à volta do Madison Square Garden onde teria lugar a RNC; e iriam concentrar 10 000 polícias, só nessa zona de 19 quarteirões. A 29 de Agosto, havia polícias de bicicleta, a pé, a cavalo, de helicóptero e em veículos blindados.

Nas semanas anteriores à RNC, o FBI apareceu a anunciar que ia manter sob vigilância crítica 56 grupos e indivíduos. E começou a espiar e a interrogar os manifestantes (alguns deles noutras partes do país), a entrevistar até as suas próprias famílias. Tentou intimidar essas pessoas, bem como assustar as forças mais amplas que queriam participar.

Dois futuros estavam a convergir em simultâneo nesta cidade – e, como pólos opostos, não podiam coexistir de uma força pacífica, tolerante e equivalente. Não – esses dois futuros são diametralmente opostos um ao outro. Por isso, empurraram-se um contra o outro lutando por ganhar, e um dos lados venceu no dia 29. Os protestos dominaram os noticiários da noite e do dia – tanto na comunicação social em inglês como em espanhol.

Havia tanta gente que foram precisas seis horas para a manifestação acabar – a parte da frente tinha chegado ao fim do percurso ainda antes de a parte de trás ter começado a andar. Por todo o lado a que se ia, o metro, dentro e fora dos diversos parques – havia manifestantes anti-Bush. E a maioria não eram pessoas que sejam regularmente activas ou se envolvam em política e em lutas políticas. A maioria era gente comum, em grande parte democratas que simplesmente não podiam ficar paradas enquanto o seu país acelerava no caminho para apanhar o mundo na sua rede imperialista.

Com grande determinação e paixão, vieram dizer não à tortura nas prisões em terras estrangeiras e à perseguição dos imigrantes aqui. Punhos ergueram-se contra a polícia da cama e a ilegalização do amor entre pessoas do mesmo sexo. Vestiam t-shirts a dizer “Eu digo NÃO!”, erguiam bandeiras com a imagem da Terra e traziam cartazes da organização Não Em Nosso Nome a afirmar “NÃO!”. Saltavam para cima e para baixo ao som de tambores, trombetas e instrumentos musicais improvisados, afirmavam que o protesto é libertador e que a guerra é um crime. Vieram do Havai, Ohio, Montana, Wisconsin, Maine, Carolina do Norte, Califórnia, Texas, Arizona, Chile, Canadá, Alemanha e outros locais...

Muitos manifestantes estavam indignados por terem de vir para a rua – porque o seu próprio Partido Democrático se tinha recusado a mobilizar contra a guerra. E havia muitos outros – jovens rebeldes com máscaras e revolucionários da Brigada da Juventude Comunista Revolucionária mostrando às pessoas que não tinham que aceitar “Tudo menos o Bush” – que podiam lutar por um futuro radicalmente diferente e totalmente libertador. Em todo o lado, havia bandeiras vermelhas ou pessoas com o jornal Revolutionary Worker/Obrero Revolucionario, e podia ouvir-se cantar: “A terra estremece / Sigamos Bob Avakian / O império agita-se / Sigamos Bob Avakian!”