Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 7 de dezembro de 2018, aworldtowinns.co.uk

França: “A casa está a arder”

A revolta dos Coletes Amarelos que irrompeu subitamente entre as classes mais baixas, geralmente ignoradas e sem voz, nas zonas rurais e nas cidades de menor dimensão em França atingiu o centro da vida política e pode ter aberto uma fenda na barragem através da qual pode explodir um descontentamento social muito mais amplo e diversificado. “A casa está a arder” é a avaliação predominante entre a “classe política” do país — mas as chamas têm vindo a aumentar. Na sequência dos choques do referendo do Brexit na Grã-Bretanha, da eleição de Trump nos EUA, da desilusão com Merkel na Alemanha e da subida ao poder na última primavera de um governo dominado pelos fascistas na vizinha Itália, as pessoas tinham olhado para Macron e aceitado o manto de líder do mundo livre do mundo inteiro, um campeão da ordem social-democrata que tem caracterizado o país e o mundo ocidental desde a II Guerra Mundial. Entre os admiradores dele contavam-se piadas de que o jovem presidente francês conseguia andar sobre a água. Agora, este campeão do mundo livre, chefe do que há apenas alguns meses era considerado o país mais estável da Europa, tem carros blindados nos boulevards de Paris e a Cidade das Luzes está iluminada pelas chamas dos carros incendiados.

A profunda crise do sistema capitalista-imperialista mundial e os desafios que isto está a colocar às grandes potências globais deu origem a uma forte disputa entre poderosas forças opostas nas classes dominantes da maioria das potências, uma disputa sobre se devem manter as estruturas da democracia burguesa, com o parlamentarismo, o estado de direito e as normas e instituições a isso associadas, ou impor um regime abertamente terrorista — uma ordem fascista. À medida que a atual ordem se fragmenta e é atingida por esta luta interna, à medida que o tecido social é esticado e rasgado, as massas populares de país após país têm vindo a ser empurradas para o turbilhão dos acontecimentos.

Enquanto Macron se debate para conter a revolta dos Coletes Amarelos, a dirigente fascista Marine Le Pen, que agora mais do que nunca é a mais empenhada rival de Macron, está a trabalhar para usar a revolta para impor o seu caminho para o poder por todos os meios possíveis. Posicionando-se como a única pessoa capaz de salvar a França de um ainda maior caos e derramamento de sangue, ela avisou que se Macron não se demitir, a única maneira de ele poder parar os Coletes Amarelos é fazendo abater as pessoas. Dado que uma boa maioria dos franceses tem simpatia para com os Coletes Amarelos, isto poderia ter consequências ainda mais catastróficas para a estabilidade política do país do que a demissão do presidente, um passo antes inimaginável. Até agora, Macron fez duas coisas que poucas pessoas poderiam ter previsto: fez concessões aos tipos de reivindicações populares a que ele dizia nunca vir a ceder e ficou em silêncio perante os rumores de que o exército poderia vir a ser chamado.

A erupção do Coletes Amarelos e os estragos no Arco do Triunfo

A 1 de dezembro, o Arco do Triunfo, o símbolo do poder militar de França, foi iluminado, pelos disparos policiais de granadas de concussão e de gás lacrimogéneo e pelo fogo-de-artifício e pelos incêndios ateados pelos manifestantes que o ocuparam e danificaram. De manhã, após a maioria dos manifestantes ter dispersado ou terem sido detidos, quando o presidente Emmanuel Macron foi inspecionar os danos, foi recebido por uma multidão recém-chegada de pessoas que gritavam: “Macron, demite-te”.

O governo tinha mobilizado a maioria das suas forças de segurança num amplo perímetro ao redor do palácio presidencial perto dos Campos Elísios, uma das mais luxuosas avenidas do mundo. As autoridades conseguiram evitar o seu pior medo, um ataque ao palácio presidencial, mas foram incapazes de dominar as multidões em movimento rápido que se concentravam repentinamente, atacavam e depois dispersavam e voltavam a reunir noutros sítios. Apesar do frio, milhares de pessoas desafiaram os canhões de água e os camiões blindados antimotim que investiam sob as luzes de Natal e muitas lojas de luxo reluzentes foram destruídas e saqueadas de uma ponta da avenida à outra. Foram erguidas barricadas nas ruas adjacentes para impor o controlo da multidão nesses territórios conhecidos pela sua ostentação de riqueza. Centenas de carros e meia dúzia de edifícios foram incendiados. Como vingança pela sua humilhação, a polícia e as forças paramilitares de segurança CRS atacaram e espancaram sem piedade muitos manifestantes isolados.

Mais de 400 pessoas foram detidas no sábado, 1 de dezembro, a maioria das quais detidas sem acusação durante vários dias e outras sentenciadas de imediato. Segundo as autoridades, eram predominantemente homens empregados de vinte e tal anos e, sobretudo, de trinta e tal anos vindos das “províncias”, as pequenas cidades e vilas, física e sobretudo socialmente distantes da capital. Alguns deles foram revistados e detidos quando voltavam para os seus carros estacionados com matrículas das províncias ou quando estavam prestes a entrar nos comboios para regressarem a casa.

O que tem impulsionado este movimento desafiador em Paris é algo que poderia ser chamado os “Anti-Paris”, as pessoas das províncias que acreditam estar a ser sufocadas por tudo o que Paris representa. Durante três semanas, sobretudo durante sábados consecutivos, centenas de milhares de pessoas atuando em pequenos grupos dispersos bloquearam estradas e cruzamentos em todo o país, tanto em pequenas vilas como em grandes cidades, bem como estações de serviço que vendem combustíveis, armazéns e outras instalações estratégicas. Tendendo a ser surpreendentemente mais velhos para um movimento de protesto tão físico, ele tem incluído proprietários de pequenas empresas, trabalhadores independentes (como artesãos, técnicos e motoristas de camiões), funcionários de níveis inferiores (auxiliares de enfermagem, empregados de lojas) e trabalhadores em fábricas e noutros locais de trabalho rurais. A composição social parece variar amplamente em diferentes regiões e mesmo em diferentes cidades vizinhas. Muitos são pobres, outros não tão pobres, mas quase todos têm problemas para chegar ao fim do mês. Uma mulher mais velha do norte de França disse a um jornalista: “Somos o povo pequeno, não os mais pequenos, mas o meio dos pequenos”. O que desencadeou inicialmente os protestos foi um problema comum das pessoas rurais das cidades pequenas e suburbanas em geral, o cada vez mais doloroso preço do combustível para os seus carros e camiões.

As “reformas” de Macron foram feitas para tornar a França mais “amiga dos negócios”, mas foram largamente sentidas como sendo flagrantemente desiguais. Por exemplo, ele aboliu totalmente um imposto de riqueza sobre os ricos, ao impor um imposto fixo de 8,6% sobre todas as pensões, independentemente dos rendimentos. Os Coletes Amarelos escolheram concentrar a sua raiva na subida do preço do gasóleo decretada pelo governo e prevista para entrar em vigor a 1 de janeiro. O uniforme adotado foi o colete amarelo de emergência que assinala os motoristas em perigo.

Tipicamente, os Coletes Amarelos consideram-se pessoas que vivem dependendo dos seus próprios esforços, e veem o governo a tornar ainda mais difícil que eles o consigam fazer. Com as antes extensas redes de comboios locais esventradas, mais e mais pessoas fora de Paris conduzem longas distâncias de carro, não só para irem para o trabalho, mas também porque os serviços públicos estão a diminuir rapidamente das zonas rurais. Elas sentem-se desprezadas pela “elite” parisiense ou pela “casta superior”. Alguns deles referem-se a si mesmos como os “sans dents”, as “pessoas sem dentes”, as pessoas a que a aristocracia costumava chamar camponeses, uma piada, mas uma piada amarga em lugares onde há muito poucos dentistas e os dentes falsos são um luxo.

Macron justificou o imposto sobre o gasóleo como sendo chave para a transição ecológica de França. Mas não só o imposto atingiu as pessoas mais pobres, como Macron manteve a dependência de França da energia nuclear. Os críticos também apontaram a hipocrisia do governo, que durante anos incentivou as pessoas a comprar veículos a gasóleo para sustentar a indústria automóvel do país, um pilar da indústria francesa e de toda a sua economia, contra a cada vez mais feroz concorrência global. Tudo isto corresponde a uma vergonhosa hipocrisia num país cuja empresa estrela é a Total, líder na pilhagem dos recursos naturais do mundo e na imposição da dependência dos combustíveis.

A corrente principal dos protestos dos Coletes Amarelos, ainda que alimentada pela fúria contra as reformas de Macron e pela destruição da rede de segurança do país e pelas ultrajantes desigualdades que se têm agravado desde a crise de 2008, tende a olhar para trás para os “Trente Glorieuses”, os Gloriosos Trinta Anos durante os quais houve um grande desenvolvimento da economia francesa após a II Guerra Mundial, e sobretudo para a maneira como as coisas costumavam ser, ou pelo menos para a maneira como “supostamente” foram nessa época, quando parecia haver um contrato social entre os de cima e os de baixo em que todos beneficiavam, pelo menos um pouco. Não é por acaso que, no início, e ainda hoje, quando confrontados pela polícia, os Coletes Amarelos gritam “A polícia está connosco”, querendo dizer que mesmo que a polícia não esteja “connosco” agora, deveria estar. Um sindicato da polícia declarou mesmo o apoio aos Coletes Amarelos. Nos bloqueios das estradas próximo das fronteiras no norte de França, alguns Coletes Amarelos exigiram saber a nacionalidade dos motoristas e inspecionaram os camiões à procura de imigrantes, entregando pessoas à polícia fronteiriça e muitas vezes gabando-se de estarem a fazer o trabalho da polícia melhor do que a própria polícia.

Tem havido muito debate sobre o grau em que o movimento é liderado ou está a ser usado pela “extrema-direita”, ou seja, não por Macron (que é considerado centrista apenas porque quase todas as forças à “esquerda” dele parecem ter-se desmoronado), mas pelo partido de Le Pen, Rassemblement National (União Nacional, antes conhecido como Frente Nacional), e os restos da direita tradicional de França, agora ainda mais abertamente fascista do que Le Pen, que recentemente tem tentado parecer mais inclusiva. Há forças claramente fascistas diretamente envolvidas, incluindo os “Catho-fascho” (fascistas encorajados por padres e bispos), os grupos combatentes de jovens da classe média superior, os “identitários”, os grupos terroristas fascistas atualmente ilegais, os monárquicos e outros. Em certa medida, as regiões onde os Coletes Amarelos têm sido mais fortes podem ser identificadas com aquelas onde Le Pen teve melhores resultados nas últimas eleições presidenciais. Muitos Coletes Amarelos dizem ser apolíticos e não votar em ninguém mas, com algumas exceções, poucos se manifestam contra o papel desempenhado no movimento pelos apoiantes de Le Pen e o frequente surgimento de cartazes fascistas nos protestos ainda normalizou mais a presença deles no país.

O mais importante não é se Le Pen está “por trás” deste movimento a nível organizativo. Veja-se o exemplo do movimento Cinco Estrelas em Itália. Durante anos, declarou-se apolítico e opôs-se a todos os partidos em nome de uma “democracia horizontal” feita através das redes social e de referendos na internet, mas acabou por entrar num governo fascista de coligação ao lado de rufiões abertamente terroristas que o dominam, apesar de o Cinco Estrelas ter obtido muito mais votos. Repetidamente, os movimentos de massas que se centram em lutar para fazer com que o relógio volte atrás e para trazer de volta as promessas do estado social do passado têm sido comidos vivos por forças com projetos políticos reacionários muito claramente definidos — neste caso, a instalação de um regime fascista como parte da defesa e reforço da posição de França entre os ladrões sanguinários rivais do mundo imperialista.

Macron e o partido que ele criou da noite para o dia chegaram ao poder como “alternativa” a todos os antigos grandes partidos da direita e da esquerda tradicional, cujo colapso significou o colapso da legitimidade do sistema político em geral. O projeto dele é desmantelar o antigo estado social-democrata de segurança social que alegava ser uma “solidariedade social” entre todas as classes, e ao mesmo tempo restaurar a legitimidade do atual sistema político parlamentar democrático burguês. Por exemplo, Macron rejeitou o pequeno e quase simbólico aumento do salário mínimo que os presidentes tradicionalmente concedem, argumentando que o objetivo dele não era melhorar a situação das pessoas na pobreza, mas acabar com a pobreza ao tornar os capitalistas franceses mais competitivos no mundo. Isso não resultou. Ao entusiasmo entre muitas pessoas de todas as classes que levou à eleição dele tem-se seguido uma situação em que a maioria das pessoas nas classes médias e baixas sente que ele está a ir aos bolsos delas para benefício dos ricos. Isto tem levado a uma ainda maior deslegitimação da atual estrutura política.

Uma vez mais, o movimento dos Coletes Amarelos não pode ser avaliado como um fenómeno isolado. O partido fascista de Le Pen tem sido uma importante força no cenário político de França há mais de uma geração; ela não só conseguiu chegar à segunda volta das eleições presidenciais de há 18 meses, como o partido dela lidera as sondagens das próximas eleições para o Parlamento Europeu. Le Pen tem desempenhado um importante papel na deslocação para a direita de todo o sistema político. À medida que a corrente principal da política francesa tradicional colapsa, como tem acontecido num crescente número de outros países ocidentais, há uma crescente base para que importantes setores da classe dominante apoiem a tentativa dela de chegar ao poder. Macron tem esperança em que a anulação da subida dos preços dos combustíveis venha a dividir os Coletes Amarelos e a separar os mais determinados de entre eles daqueles das classes médias cuja maior preocupação é a ordem, e irá, sem dúvida, usar uma mão de ferro sobre os elementos do núcleo duro que persistirem. Mas, ao intensificar a repressão contra um protesto popular, arrisca-se a perder apoio entre aqueles que olham para ele como uma muralha contra os fascistas, mesmo que isso abra caminho a uma Le Pen mais claramente autoritária.

A “extrema-esquerda”, ou seja, sobretudo Jean-Luc Mélenchon, dirigente da La France Insoumise (França Insubmissa), ecoou o apelo de Le Pen para que Macron se demita e abra caminho a novas eleições. Em vez de desenvolver o entendimento das pessoas e a capacidade de pararem o fascismo através da sua própria ação de massas independente, Mélenchon está a propor-se trabalhar através dos mesmos canais que em primeiro lugar geraram esta situação, como única maneira de pôr fim a isso. Isto é uma jogada reacionária e potencialmente desastrosa que se baseia numa terrível subestimação do perigo do fascismo e num abandono dos interesses do povo. O programa de Mélenchon, aclamado por alguns como o “populismo de esquerda” necessário para combater o “populismo de direita” de Le Pen, combina a defesa do estado de segurança social com um descarado nacionalismo francês. O apoio dele à “república” equivale a apoiar a continuidade do estado francês e da sociedade francesa mais ou menos como são hoje, defendendo orgulhosamente o estado de segurança social “francês” contra estados rivais estrangeiros e mantendo os seus privilégios relativos como cidadãos de um dos países de um pequeno punhado cuja grande riqueza foi construída sobre as costas dos povos do mundo. Mas quando se avança com este tipo de projeto nacionalista, por que razão irão as pessoas contentar-se com a versão atenuada do recém-chegado Mélenchon, em vez da coisa real, o nacionalismo desavergonhado e agressivo da fascista original, Le Pen?!

A “outra França” que os Coletes Amarelos representam não são os únicos setores do povo que sofrem. Há também a “outra França” da classe trabalhadora pobre urbana e multinacional e das pessoas dos bairros da classe média baixa. Por exemplo, há um movimento em Marselha que protesta contra o recente colapso de dois edifícios que matou oito pessoas num bairro multinacional sobrelotado e vigoroso com algumas das habitações mais dilapidadas do país. Uma manifestação furiosa cruzou-se com um desfile dos Coletes Amarelos. Os Coletes Amarelos levavam bandeiras francesas. As pessoas na outra manifestação disseram-lhes para “enfiarem a bandeira na sanita”. Depois de as manifestações terem convergido, a polícia começou a disparar indiscriminadamente granadas de gás lacrimogéneo, não só para os manifestantes, mas também visando as janelas dos edifícios de apartamentos, matando uma mulher de 80 anos. Tudo isto coloca a questão de como unir os oprimidos.

Há outras, e extremamente importantes, agitações de descontentamento em França. No mesmo dia da primeira manifestação dos Coletes Amarelos, com cerca de 8000 pessoas em Paris, pelo menos 20 mil e talvez muitas mais, sobretudo mulheres jovens e alguns homens manifestaram-se contra a violência sexual contra as mulheres. Muitas dezenas de milhares mais tomaram as ruas de cidades secundárias, numa visão refrescante num país onde o movimento “Me too” tem encontrado resistência e onde os intelectuais gostam de se centrar na opressão das mulheres nos países muçulmanos. As jovens gritaram palavras de ordem que visavam explicitamente o sistema patriarcal e a supremacia masculina. A energia, a fúria, a diversidade e o número delas superaram totalmente as expectativas. Também isto foi um facto heterogéneo e contraditório, mas foi refrescante e com vista para o futuro, com muitos dos participantes a ansiar uma verdadeira e libertadora mudança social, resultado de uma fissura basilar na sociedade de classes, a opressão das mulheres que não pode ser eliminada sem se transformar o mundo.

Como ir além da intersecção inevitavelmente temporária de diferentes grupos de interesses e unir as pessoas contra o seu inimigo, a classe dominante capitalista-imperialista e o seu estado? Não como Mélenchon, que tenta unir diferentes setores das massas com base no nacionalismo e em sonhos fúteis de reviver o estado social-democrata de segurança social. Nem como os anarquistas que tentam provar que o caráter do movimento dos Coletes Amarelos pode ser mudado e que o movimento pode ser liderado através de provarem que são os melhores nos combates de rua com a polícia. As pessoas não podem ser unidas espontaneamente. Os revolucionários não podem ir atrás de qualquer um.

Macron e os defensores da ordem social democrática estabelecida em França não têm nenhuma resposta à opressão e ao sofrimento do povo. Nem Le Pen e as forças fascistas que estão à espera nos bastidores e a preparar-se para atacar. Estas duas forças em contenda, em última análise, representam formas diferentes da mesma ordem obsoleta de exploração, opressão, guerras pelo império e catástrofe ambiental, e a alternativa fascista de Le Pen apenas promete intensificar tudo isto e fazê-lo de uma maneira ainda mais violenta e eficiente.

À medida que os protestos dos Coletes Amarelos abalam o país, o que é necessário é, nas palavras de uma Carta Aberta sobre as eleições intercalares nos EUA (ver revcom.us/a/569/open-letter-on-hype-surrounding-midterm-elections-en.html em inglês ou revcom.us/a/569/carta-abierta-por-la-hiperbole-en-torno-a-las-elecciones-a-mitad-de-mandato-es.html em castelhano): “[...] uma alternativa radicalmente diferente, um terceiro futuro — uma rutura radical com todos os campos do imperialismo, uma sociedade diferente baseada na eliminação de todas as formas de exploração e opressão, eliminando as relações sociais, a moral e as maneiras de pensar que foram estampadas nas pessoas que tentam sobreviver nessas sociedades, uma sociedade que seja tão diferente da de hoje como o dia da noite. Um futuro para a emancipação da humanidade. Há hoje uma visão, uma estratégia e uma liderança altamente desenvolvidas fundadas num método científico para se entender a dinâmica da sociedade e como ela poderia ser radicalmente transformada através da revolução.” Esta alternativa — o novo comunismo de Bob Avakian — precisa de ser urgentemente colocada nas mãos de um núcleo de pessoas em França que possam avançar corajosamente nestes mares tempestuosos, de maneira a que cada vez mais pessoas comecem a entender a verdadeira situação e se transformem para lutar no meio disto tudo pela emancipação da humanidade.

Atualização sobre os Coletes Amarelos:
A França após o 4º sábado nacional de indignação

Na manhã a seguir ao quarto sábado consecutivo de manifestações em todo o país desde que explodiu o movimento dos Coletes Amarelos, os porta-vozes do governo alegam ter “ganhado”. Isto é como a história do homem que cai de uma torre alta no filme francês La haine [O Ódio]: a cada andar por que passa, ele murmura para si mesmo “Até agora, tudo vai bem”.

O governo congratulou-se por “apenas” 125 mil pessoas terem saído às ruas, segundo as estatísticas dele — um número muito elevado tendo em conta a ameaça de usar um gás lacrimogéneo mais forte, espancamentos, prisões preventivas em massa e talvez balas reais. De facto, foram detidas 2000 pessoas e pelo menos 1200 de entre elas ficaram presas. Cerca de 89 mil gendarmes e forças paramilitares CRS foram mobilizados em todo o país nesse dia, para além da polícia regular.

Em Paris, foram cancelados os principais jogos de futebol, concertos e todos os outros eventos em que se concentram grandes multidões. Os museus encerraram, bem como os locais turísticos-chave como a Torre Eiffel. Uma dúzia de veículos blindados em torno do Arco de Triunfo permitiu que desta vez as forças de segurança o conseguissem manter em segurança, mas as dezenas de milhares de pessoas que inundaram as ruas de toda a cidade duas semanas antes do Natal não andavam às compras. As grandes lojas foram fechadas, as janelas das lojas foram cobertas de placas de madeira, os cafés retiraram para dentro as suas mesas e cadeiras e foram vistos poucos veículos civis. A polícia manteve cercados os maiores grupos de manifestantes, mas pequenos grupos dispersos de pessoas que tinham sido afastadas dos Campos Elísios, bem como outras provenientes de todos os lados, jogaram ao gato e ao rato com as forças de segurança, confrontando-as repetidamente até à chegada do vento e da chuva nessa noite.

Os acampamentos de Coletes Amarelos continuam a marcar as rotundas de todas as regiões, mas a situação já não é tão diretamente definida pelas zonas rurais ou mesmo pelo próprio movimento. O grande número de pessoas que entrou nas cidades para protestar este sábado viu-se muitas vezes a lutar nas ruas ao lado de estudantes e jovens urbanos de todas as classes sociais e com pessoas que se identificam com outros movimentos sociais. Isto aconteceu em Toulouse e Nantes, onde houve alguns dos mais importantes confrontos, bem como em Paris. Nas ruas da capital, estavam muito mais manifestantes adolescentes e universitários do que nos três sábados anteriores. Aí e em várias outras grandes cidades, contingentes de ativistas ambientais convergiram com as concentrações dos Coletes Amarelos. Isto é especialmente significativo, uma vez que as autoridades e os seus intelectuais têm descrito os Coletes Amarelos como se opondo às preocupações ecológicas.

Contudo, muitas vezes essas convergências ocorreram nos termos definidos pelos Coletes Amarelos, como sendo um movimento do povo francês contra uma elite rica que está a destruir a unidade da nação. Em Paris, ativistas ambientais e outras pessoas de esquerda penduraram duas grandes telas numa estátua de Marianne, a mulher símbolo da revolução francesa de 1789. Uma delas retratava-a como de costume, agitando a bandeira francesa com uma mão e empunhando uma arma com a outra, enquanto liderava o povo na batalha para derrubar a monarquia, só que agora vestindo um colete amarelo sobre o seu tronco habitualmente nu. A outra gritava: “Devolvam-nos o nosso dinheiro”, uma referencia ao ódio contra os impostos que está agora a ser expresso por grande parte da sociedade francesa no seu conjunto, em toda a sua diversidade de classe, étnica, de género e outras. Um grande pano que dizia “Furioso, e não fascista” ia contra a tendência para evitar fazer distinções em nome da unidade.

A crise política de França está a tornar-se cada vez mais aguda porque nem a repressão nem as concessões parecem suscetíveis de a parar. As soluções no âmbito da política “normal” parecem difíceis e ténues. O que é conhecido como a “classe política” está paralisado e desanimado e vê-se com poucos argumentos ou mesmo pouca vontade de se opor à alegação feita por fascistas como Marine Le Pen de que apenas eles podem manter a França unida. O apelo a que se entregue o estado ao chefe do estado-maior das forças armadas demitido por Macron já não parece ser uma loucura total. O que torna a situação tão perigosa não é apenas tudo isto, mas o facto de a corrente principal do movimento dos Coletes Amarelos e muitas outras forças políticas que seguem atrás dele estarem prisioneiras de uma perspetiva inerentemente, ainda que nem sempre obviamente, nacionalista que pode mostrar ser uma presa fácil das forças fascistas organizadas.

Há profundas divisões na sociedade francesa sobre quem pode ser considerado verdadeiramente francês — em especial em relação aos imigrantes e aos filhos e netos deles nos guetos. “Poder popular” pode significar diferentes coisas. Muitas pessoas dos setores excluídos da sociedade tendem a apoiar as reivindicações dos Coletes Amarelos, apesar do seu nervosismo em relação ao racismo. Ao mesmo tempo, muitos apoiantes rurais e urbanos dos Coletes Amarelos partilham os receios de que esta desordem política possa facilitar rebeliões nos guetos contra a ordem social predominante do tipo da que abalou o país em 2005. Embora muitos dos apoiantes dos Coletes Amarelos defendam a violência contra a polícia, associada a este movimento como sendo necessária para fazerem ouvir as suas vozes, algumas dessas mesmas pessoas e outras que se sentem ameaçadas pela desordem culpam os jovens dos guetos. Isto era verdade mesmo antes, quando alguns jovens dos guetos vestindo fatos de treino e capuzes iam para os centros das cidades para confrontarem a polícia que eles, mais do que quaisquer outros, têm razões para odiar.

Cerca de metade dos habitantes de Mantes-la-Jolie, local de várias rebeliões dos guetos nas últimas décadas, vivem em torres de habitação pública superlotadas e cercadas por campos abertos. Eles estão separados do resto da cidade e da quase inacessível capital, não tanto pela distância como pelas deliberadas barreiras dos transportes. Quando os estudantes multirraciais do ensino secundário bloquearam as entradas das escolas e atearam fogos como parte da onda nacional de revolta, a polícia prendeu imediatamente cerca de 150 deles. Os vídeos visionados por milhões de pessoas mostram crianças das escolas, algumas delas com apenas 12 anos, alinhadas contra um muro ou forçadas a se ajoelharem em filas, com as mãos atrás da cabeça, muitas vezes amarradas, enquanto a polícia as insultava, de pé acima deles, como se eles estivessem prestes a ser executados. Nada como isto tem acontecido aos grupos de manifestantes totalmente “brancos”, nem mesmo aos causadores de tumultos.

No sábado seguinte, em Paris e em várias outras cidades, filas de manifestantes que enfrentavam as forças de segurança ajoelharam-se com as mãos atrás da cabeça em solidariedade com os estudantes de Mantes-la-Joie.

Um vídeo das imagens chocantes dos estudantes humilhados pela polícia em Mantes-la-Jolie, França