Curdistão iraniano: “O nosso Farzad não está morto”

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 17 de Maio de 2010, aworldtowinns.co.uk

As pessoas não conseguem esquecer a extrema brutalidade do regime iraniano que executou cinco presos políticos, quatro deles curdos, na prisão de Evin em Teerão, às primeiras horas do dia 9 de Maio. Esses presos eram Farzad Kamangar, Shirin Alam-Houly, Ali Heidarian, Farhad Vakili e Mehdi Eslamia.

Os curdos do Irão e as pessoas no país em geral continuaram a exprimir a sua fúria contra um regime que está a matar cruel e deliberadamente os melhores e mais conscientes filhos e filhas do país para prolongar o seu regime retrógrado e sem vergonha.

O mais significativo dos protestos dos últimos dias foi a vitoriosa greve geral de 13 de Maio no Curdistão em resposta a um apelo de todas as organizações políticas curdas e com o apoio de partidos políticos e organizações revolucionárias de todo o país.

Logo ao início da manhã desse dia, relatos, fotos e vídeos colocados na internet indicavam que o povo curdo estava decidido a responder ao brutal acto do regime. O sítio internet curdo Rouzh-halat noticiou que em Kamyaran, onde nasceu, viveu e trabalhou o mais proeminente dos presos executados, Farzad Kamangar, toda a cidade ficou parada, à excepção dos serviços governamentais onde estavam presentes os Herasat (representantes das forças de segurança nas universidades e locais de trabalho) e, claro, as forças de segurança. Havia relatos de que as forças de segurança estavam a patrulhar a cidade mas, apesar disso, várias vezes nesse dia as pessoas conseguiram juntar-se frente à casa de Farzad.

Na cidade curda de Sanadaj, todas as lojas do centro da cidade e todos os bazares e mercados de vielas estiveram encerrados. Relatos de Marivan, Mahabad, Saghez, Divandareh, Bukan, Oshnouyeh, Piranshahr e Kermansha indicavam que as pessoas não tinham aberto as suas lojas nem ido ao trabalho, à escola ou à universidade. A maioria dos que estiveram a trabalhar eram membros das forças de segurança ou Herasat. Segundo esses relatos, em várias ocasiões as forças de segurança tentaram sem sucesso forçar os donos das lojas e arcadas a abri-las.

As forças de segurança estavam colocadas em locais-chave nas principais cidades. De facto, esteve em vigor uma lei marcial não declarada. Os guardas especiais e agentes de segurança inundaram as cidades curdas, vindos de outras partes do país, e intensificam enormemente a situação de segurança.

Esses relatos foram confirmados pelas agências noticiosas mais conhecidas, entre as quais o serviço em persa da BBC que disse que em Kamyaran “os estudantes não foram às aulas nas escolas e universidades” e que nas cidades e vilas do Curdistão “havia tantas lojas e bazares tradicionais fechados que parecia feriado”.

Houve notícias de as pessoas também se terem manifestado nas cidades curdas de Arbil e Soleymani, no Curdistão iraquiano.

A reacção à execução desses cinco presos políticos pode ser o indício de uma nova insurreição no Curdistão. O povo curdo foi uma das primeiras vítimas da brutalidade da República Islâmica. Tinham passado apenas seis meses após a revolução quando o Aiatola Khomeini emitiu uma fatwa (decreto religioso) declarando a Jihad (guerra santa) contra a região. Mas o povo curdo manteve-se firme e resistiu durante vários anos. Mesmo quando Khomeini desencadeou um golpe para eliminar o que restava das vitórias da revolução, o povo curdo continuou a resistir à República Islâmica de armas na mão.

As cidades curdas têm-se mantido relativamente sossegadas nos últimos 25 anos, mas o fogo ainda arde sob as cinzas. Estes protestos contra a execução de Farzad e os outros quatro presos políticos são uma expressão do ódio eterno a este regime brutal.

A 14 de Maio, o Partido Comunista do Irão (MLM) emitiu um comunicado ao povo curdo de apoio à greve geral no Curdistão. Nele estava escrito: “A vossa greve mostrou uma vez mais que o inimigo enfrenta um povo militante e consciente. Um povo que almeja a libertação nacional, religiosa, de classe e de género. (...) Esta luta é uma batalha de início da insurreição nacional do povo iraniano. O movimento revolucionário no Curdistão não é apenas um espinho nos olhos dos governantes da República Islâmica, também é uma importante vantagem e força para todo o povo do Irão. Este povo que durante 10 anos resistiu militarmente ao regime islâmico tem uma rica experiência de luta, uma elevada consciência política e testemunhou as vantagens de uma luta militante e organizada. Pode vir a ser, uma vez mais, a vanguarda da revolução iraniana. Durante a revolução de 1979, o movimento revolucionário do povo curdo distanciou-se das tradições religiosas e a sua justa luta desempenhou um importante papel na denúncia da natureza reaccionária de Khomeini. Foi só nesta região que a revolução conseguiu ir mais fundo e durar muito mais tempo antes de ser totalmente esmagada pelo regime.”

Ao mesmo tempo que o regime islâmico se via impossibilitado de travar a maré no Curdistão, inundou o centro de Teerão, sobretudo a zona à volta da Universidade de Teerão e das praças Azadi e Enghelab, com milhares de agentes de segurança.

As famílias dos presos políticos tinham planeado realizar uma concentração frente à Universidade de Teerão no dia seguinte às execuções, mas as forças de segurança já tinham cercado a zona e impediram que o fizessem.

Além da condenação generalizada das execuções e do apoio aos presos políticos da parte de diferentes sectores sociais, entre os quais estudantes, sindicatos de professores, sindicatos operários (incluindo os sindicatos dos motoristas de autocarros), intelectuais e professores universitários, também houve corajosas expressões de apoio vindas do interior das prisões.

Os presos políticos da prisão de Rajaii Shar em Karaj, perto de Teerão, onde Farzad Kamangar esteve encarcerado, e os presos de Evin anunciaram o seu apoio. Houve relatos de uma greve da fome a 10 de Maio em protesto contra as execuções de presos políticos e contra a transferência de alguns presos para locais desconhecidos.

Estes acontecimentos coincidiram com os protestos no Afeganistão contra o tratamento dos refugiados afegãos no Irão, que enfrentam uma ainda maior brutalidade declarada. A República Islâmica executou recentemente dezenas de refugiados afegãos e muitos mais estão no corredor da morte. Foi organizada em Cabul uma manifestação de apoio aos cinco presos políticos iranianos. Os manifestantes gritavam “Morte a Ahmadinejad” e levavam cartazes a condenar a execução dos cinco presos políticos. Um deles dizia: “O nosso Farzad não está morto – é o regime que está morto”.

Ao longo da semana seguinte às execuções, os iranianos no estrangeiro continuaram a organizar acção de protesto e manifestações. Em Oslo, Copenhaga e Estocolmo, curdos e iranianos corajosos com bandeiras vermelhas protestaram frente à embaixada do Irão. Em Oslo, os manifestantes tentaram atacar a embaixada e foram repelidos pela polícia. Em Estocolmo, milhares de iranianos concentraram-se no centro da cidade e marcharam rumo à embaixada do Irão. Em Londres, forças de esquerda organizaram uma manifestação a meio da semana frente à embaixada e depois, no fim-de-semana, uma marcha no centro de Londres. Noutras cidades europeias como Helsínquia, Haia, Frankfurt e Hamburgo, e em Sidney e Vancouver, os iranianos continuaram a protestar frente às embaixadas do Irão.

É esta a imagem do país cujos governantes querem aterrorizar as pessoas cortando as suas melhores flores. Agora que os assassinos cometeram este crime, têm aparecido na sua rádio e televisão para o justificar.

As acusações contra as vítimas nunca foram provadas; elas eram, de facto, falsas. O estado nem sequer concluiu os seus julgamentos farsa – o Supremo Tribunal nunca homologou as condenações.

As autoridades nem sequer ousaram informar as famílias e os advogados antes das execuções. Eles tinham chegado a comunicado informalmente aos presos e às suas famílias e advogados que as penas de morte nunca se iriam concretizar.

Ali Javanmardi, um jornalista que trabalha para o canal de televisão da Voz da América, colocou na sua conta no Facebook um relato que diz vir de uma fonte dentro dos Pasdaran (Guardas Revolucionários) sobre os últimos dias de Shirin Alam-Houly, uma jovem curda de 27 anos que foi uma das cinco pessoas executadas: “Shirin ia ser libertada. Durante os dois anos que passou sob custódia dos Pasdaran, foi violada repetidamente. Eles disseram à mãe dela que ela seria libertada na condição de não dizer nada sobre o que lhe tinha acontecido. Shirin prometeu não dizer nada, mas enviou algumas cartas (duas delas publicadas) a denunciar o que lhe tinham feito. Além disso, ela levantou a questão da violação numa reunião supostamente para investigar os problemas e dificuldades vividas pelos presos. Isto fez com que os seus carcereiros revissem a sua decisão.”

No fim, o regime que queria aterrorizar as massas, em vez disso ficou aterrorizado com a fúria e a luta popular. É por isso que eles continuam a recusar-se a entregar às famílias os corpos de Farzad, Shirin e dos outros presos políticos executados.

* As mais recentes notícias são de que um grupo de estudantes da Universidade de Teerão, da Universidade Amir Kabir em Teerão, da Universidade do Curdistão, da Universidade de Tabriz e da Universidade Razi (Kermanshah) convocou uma greve nacional para 18 de Maio em protesto contra a execução dos cinco presos políticos e a recusa do governo de devolver os corpos às famílias, e em solidariedade com o povo curdo.

** Um vídeo colocado no YouTube e ligado ao sítio internet da Organização de Mulheres 8 de Março (Irão-Afeganistão) mostra milhares de curdos na Turquia em marcha até à fronteira e a protestar furiosamente contra o assassinato dos cinco presos políticos, frente a um posto fronteiriço iraniano (http://www.8mars.com/browsfilm.php?tb=8MARS_SOTI_FILM&Id=60&catId=&pgn=). A Organização 8 de Março também emitiu um comunicado sobre as execuções (8mars.com).

 

Excertos de cartas dos presos políticos executados

O que se segue são excertos de uma carta enviada da prisão pelo jovem professor Farzad Karmanger aos seus alunos, uma das várias dezenas de cartas que circularam amplamente e fizeram com que muitas pessoas se sentissem tão perto dele, como se o tivessem conhecido pessoalmente:

Olá crianças,

Sinto a falta de todos vós. Aqui, durante o dia e pela noite dentro, canto a canção da vida, sonhando e saboreando as minhas doces recordações de vocês. Inicio cada dia aqui dizendo bom dia ao Sol em vez de o dizer a vocês. A cada dia, acordo entre estes longos muros com as minhas recordações de vós. Rio-me convosco e vou dormir com as recordações de vocês. Por vezes, o sentimento da vossa falta ocupa a minha alma.

Sinto a falta das vezes em que visitávamos vários lugares e a que chamávamos “viagens científicas”. Gostava que pudéssemos descansar novamente perto de uma fonte limpa e pura e esquecer toda a nossa exaustão. Gostava que o som da água acariciasse novamente os nossos ouvidos, que pudéssemos entregar as nossas almas à carícia das flores e plantas e colocar os nossos livros de matemática com todas as suas equações e variáveis sob uma pedra grande. De facto, que diferença faz termos quatro casas decimais em vez de três quando um pai não tem pão para levar para casa para o jantar? Gostava que pudéssemos pôr novamente de lado os manuais de ciência, com todas as suas reacções químicas e transformações físicas, à espera da mudança. (...) Gostava que o Kurosh [um aluno particularmente vivaz] não tivesse que deixar a escola para ir trabalhar e depois ir à procura de um pedaço de pão caído de um prédio alto e nos deixar para sempre. E esperar por uma mudança que trouxesse um novo par de sapatos, roupas novas e uma mesa cheia de doces para todos no Norooz [de artigos tradicionais na celebração pré-islâmica do Ano Novo no primeiro dia da Primavera]. Gostava que pudéssemos deslizar novamente para longe da vista do director de sobrancelhas franzidas e estudar o alfabeto curdo, cantar uns aos outros na nossa língua materna e depois dançar e dançar e dançar.

Gostava que pudesse ser de novo o guarda-redes dos rapazes do primeiro ano, para que vocês, enquanto sonhavam ser o próximo Ronaldo, marcassem um golo contra o “Sr. Professor” e se abraçassem uns aos outros. Quão triste é que vocês não saibam que, na nossa terra, os sonhos e desejos se transformam em quadros cobertos de pó e esquecimento. Gostava que pudesse estar novamente convosco, miúdas, para cantar “Amoo Zanjir baf”. As mesmas miúdas que iriam mais tarde escrever nos seus diários: “Gostava de ser um rapaz”.

Eu sei que vocês estão a crescer e que irão casar, mas para mim vocês continuam a ser os mesmos anjos simples e honrados marcados com o beijo de Ahura Mazda [Ormazd, o deus do zoroastrismo, uma religião iraniana pré-islâmica] entre os vossos dois olhos bonitos. De facto, se vocês não fossem anjos de sofrimento e pobreza, talvez não tivessem recolhido assinaturas para a campanha das mulheres [contra as leis do regime islâmico discriminatórias em relação às mulheres]. Ou talvez, se vocês não tivessem nascido “nesta terra abandonada por deus”, não fossem forçadas – com os vossos olhos cheios de lágrimas e anseios e com 13 anos de idade “sob uma rede branca” [o véu do casamento] – a dizer adeus à educação e a viver a “história amarga do segundo sexo” com toda a vossa alma. Vocês, as meninas da terra de Ahura Mazda, amanhã, quando quiserem colher hortelã para os vossos próprios filhos ou quiserem fazer-lhes uma coroa de flores, assegurem-se que se lembram de toda a vossa pureza e frescura da infância.

O vosso camarada, colega e professor de infância.

Prisão de Rajaii shahr – Karaj

28 de Fevereiro de 2009

Excertos de uma carta de Shirin escrita apenas uma semana antes da sua execução:

O meu encarceramento está a entrar no seu terceiro ano, o que quer dizer três anos de sofrimento. Durante o período anterior a eu ser acusada, passei dias amargos com os Pasdaran (sob interrogatório). Depois veio o encarceramento no sector 209 de Evin (o famoso bloco dos presos políticos). Que fiz eu para merecer ser encarcerada ou executada? É porque sou curda? Eu nasci curda e por causa disso tenho sofrido muito e fui privada de muitas coisas. (...) As torturas por que passei tornaram-se agora em meus pesadelos. Sei que não sou a única a que eles fizeram isto.

Eles disseram-me que eu teria que cooperar com eles se não quisesse ser executada. Não sei o que é que significa essa cooperação, dado que eu não tenho nada mais para dizer. De facto, eles queriam que eu repetisse o que eles me diziam para dizer. O interrogador dizia-me: “Quisemos libertar-te o ano passado, mas a tua família não cooperou e agora estamos nesta situação”. De facto, o interrogador confessou que eu não sou mais que um refém nas mãos deles. (...)

Serkeftin (vitória)

Shirin Alam-Houley, 3 de Maio de 2010